O que É que Estás a Pensar?

O que é que eu queria, afinal? Saúde? Uma mulher muito bonita? Boa? O Euromilhões? Na verdade o menu é tão extenso que não sei dar prioridade.
Estava sentado. Estava em calções e chinelos. Lembro-me dos chinelos porque me lembro do triângulo de sombra que cortava o pé direito ao meio. Os dedos para um lado. O calcanhar para outro. Às vezes a sombra desaparecia ou ocupava o pé todo conforme o pé ia ou vinha, de uma perna cruzada sobre a outra, num nervosismo que me é constante e que se agrava quando não sei o que quero.
Tentava dar prioridade à saúde. A verdade é que, nos últimos tempos, tenho andado com um saquinho de comprimidos atrás de mim para tentar minimizar as mazelas. Sim, saúde é prioritário. Lembro-me disso cada vez que sinto as dores provocadas pelo nervo ciático. Pelo músculo do pescoço que me bloqueia os movimentos de cabeça e do braço esquerdo e me faz parecer um robot dos anos ’80 a dançar o Fade to Grey dos Visage. Mas já tenho idade suficiente para saber que vou esquecer as mazelas assim que me livrar de todas elas. A saúde só é um problema quando não a temos. Quando estamos bem, estamos bem! Com excepção dos hipocondríacos. E eu não sou um.
E entre uma saúde que pode ser importante e uma mulher, qual deveria ser a prioridade? É que é difícil decidir. Porque uma boa mulher pode fazer esquecer a falta de ar num ataque de bronquite. Eu sei porque já me fizeram esquecer de tomar o Ventilan num ataque de bronquite. E, depois, não há nada melhor para fazer inveja aos invejosos dos amigos que uma mulher bonita. E se for bonita e boa, é ouro sobre azul. Imagino, então, se para além de bonita e boa, é culta e inteligente? Para todas as outras mulheres, será, com certeza um estafermo. Para os outros homens será, de certeza, motivo de guerra. Mas não quero entrar em disputas com ninguém. Está demasiado calor.
O Euromilhões era sem dúvida a melhor aposta na lista das necessidades. Com o Euromilhões viria o resto. A saúde e a mulher boa e bonita e culta e inteligente. A minha mãe sempre me disse que dinheiro chama dinheiro. Por isso é que as pessoas ricas continuam ricas. Com excepção das que fazem cambalachos e acabam por perder tudo. Mais cedo ou mais tarde. Por vezes até nos sentamos a assistir à queda desses ídolos que, afinal, têm pés de barro. Se fosse religioso diria que Deus escreve direito por linhas tortas, mas como não sou, a melhor definição é mesmo cá se fazem, cá se pagam.
Foi nessa altura que entrou na minha linha de visão uma imperial dentro de um copo de fino, gelado, a borbulhar, com um dedo de espuma branca no topo. O copo foi colocado na mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços, não daqueles bojudos que as senhoras vendem em pequenas bancas nas praças das pequenas localidades, mas aqueles pequeninos e rijos, com umas pedras de sal grosso polvilhadas por cima e ainda molhados por terem acabado de sair do balde onde estão mergulhados à espera de poderem servir os desejos de um bebedor de cerveja.
Descruzo as pernas. Perco o triângulo de luz e sombra sobre o pé e levanto o olhar. Vejo à minha frente o mar a bater na areia. Miúdos e miúdas mergulham e brincam dentro de água. Vejo, perto, o nadador-salvador. Ao fundo, o pau da bandeira. Está verde, a bandeira. Há gaivotas no mar. Gente em colchões-de-ar. Um casal passeia-se num caiaque. Passa uma velha com uma mala térmica a vender bolas de Berlim com creme. Estamos a meio da tarde. Está sol e calor. O povo desfruta deste feriado religioso a banhos. Ela dá-me um toque com o braço dela no meu e diz Acorda! Está aí a imperial!, enquanto vai chupando um Cornetto de morango.
Eu queria tudo aquilo. Eu já tenho tudo aquilo. Tenho a saúde que os meus cinquenta anos aguentam. A mulher dos meus sonhos quando acordo e abro os olhos. E dinheiro suficiente para pagar esta imperial. Que mais poderia querer?
Pego no copo de imperial e bebo um longo gole que me congela a garganta. No fim digo Ah! em jeito de satisfação. Pego em meia-dúzia de tremoços e vou comendo-os, um de cada vez, com casca e tudo, enquanto vejo o mar a refrescar os corpos do povo, ávido de libertação. Ela olha para mim e pergunta O que é que estavas a pensar? E eu olho para ela e já nem sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/15]

A Minha Vizinha da Rua

Conhecia-a desde miúdo. Éramos vizinhos de rua. Quando comecei a sair de casa sozinho para ir à escola, já ela por lá andava. Era mais velha que eu. Bem mais velha. Cruzava-me muitas vezes com ela na rua. Para cima e para baixo. Quando um ia para cima, o outro ia para baixo. Eu a fazer entregas para o meu pai. A fazer recados à minha mãe. Ela a passear, sapatinho de salto alto, saia travada, uma blusa com os botões estrategicamente abertos à frente a chamar a atenção para os peitos altivos, e uma malinha de mão a dar-a-dar. Eu corria aos apartamentos das velhas a levar as mercearias que o meu pai me mandava entregar. Mas não deixava de olhar para ela. Dava nas vistas. Nas minhas. E eu parava na rua para olhar. Chamava-me a atenção. Mesmo quando não a via. Sabia-a escondida. Escondida em vãos-de-escada, esquinas esconsas e estaleiros a aliviar o nervosismo dos serventes que andavam a prolongar a rua. Todos os meses nasciam casas novas na rua. Todos os meses a rua crescia. Todos os meses vinha mais gente viver para a rua. Todos os meses crescia o meu número de amigos. Todos os meses tínhamos de refazer as equipas para jogar à bola. E via-a sempre. A ela. A ela via-a todos os dias. A andar para cima e para baixo na rua. E quando não a via, sabia onde estava. A ajudar ao crescimento da rua. Todos temos o nosso papel.
Nunca falámos um com o outro. Ela chegou a meter-se comigo quando eu já era mais crescido. Mas foi um fogacho. Fogo-fátuo. Uma espécie de beijo lançado, provocador, à distância. Um olhar convidativo. Uma língua a surgir, malandra, entre os lábios red velvet. Um rodopio ao cruzar-se comigo para me apreciar, para se mostrar. Mas não passou disso. Nunca falámos. Nunca lhe disse Olá! Bom-dia! És bonita! E era. Era bonita. Era bem bonita.
Quando saí da rua deixei de a ver. Mesmo quando regressava, de passagem, a casa dos meus pais, procurava-a com o olhar. Ia até ao fim da rua, que já tinha marcado os seus limites, já não crescia mais do que aquilo, já não havia estaleiros nem serventes, embora continuassem a abundar as esquinas esconsas e os vãos-de-escada de uma arquitectura urbana que não tem em conta a vivência das pessoas que habitam aquelas casas, aqueles bairros, aquelas esquinas, mas não a via.
Ia até ao fundo da rua e voltava. Procurava-a. Não a via. Nunca mais a vi. Cheguei a pensar que tivesse ido embora para outro lado. Para outra cidade. Que tivesse largado aquela vida. Que tivesse arranjado marido e saído dali. Imaginei-a rodeada de filhos, numa vivenda com cerca branca e um labrador. Também cheguei a pensar que tivesse morrido.
Foi assim, grande, a minha surpresa, quando a vi no Correio da Manhã. Era a fotografia de uma mulher muito velha, disforme, com uma cara escavada pela vida. Mas reconheci-a logo. Era ela. A minha vizinha da rua. A notícia falava da sua morte, à paulada, para lhe roubarem uns poucos euros. Era de madrugada e ela andava para cima e para baixo numa outra rua, num bairro não muito longe do nosso, com a malinha a dar-a-dar, até que foi abordada por um miúdo. Um miúdo que a assaltou. Um miúdo que a matou. Um miúdo que está, agora, a ser procurado pela polícia.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/14]

Um Homem à Janela

Queres mais?, perguntou-me. Não, obrigado, respondi.
Ultimamente não andava com muito apetite. Não sei se era do calor. Se era por me sentir gordo. Ou se era do nervosismo de não ter trabalho, nem salário. Mas ela não sabia. Não sabia nada disto. E dava-lhe prazer ver-me comer.
Levantei-me da mesa e fui até à janela da cozinha. Acendi um cigarro.
No prédio em frente, na janela do prédio em frente, também estava um homem a fumar um cigarro à janela. Depois uma mulher aproximou-se dele. Os braços dela envolveram-no. Ele não se virou. Continuou a fumar.
Também a senti aproximar-se de mim. Senti os braços dela sobre o meu corpo. Senti os pêlos dos meus braços a ficarem eriçados.
Continuei a fumar e a olhar para o homem na janela em frente.
Os braços da mulher percorreram o corpo do homem para baixo. Pararam junto à braguilha das calças. As mãos abriram a braguilha. Uma das mãos entrou dentro das calças e saiu com o sexo dele.
Eu estava fascinado a olhar para o homem na janela em frente. Sabia que ele sabia que eu estava a ver e, no entanto, continuou a fumar o cigarro enquanto a mulher o masturbava.
As mãos dela enfiaram-se pelos meus cabelos. Mesmo nervoso, mesmo sem apetite, mesmo sem trabalho, continuava a excitar-me. Continuava a excitar-me com ela. Não precisava de muito para me excitar com ela.
Em frente, na janela em frente, ele acabou por se vir sobre o vidro da janela. Vi o momento em que ejaculou. O momento em o seu sexo cuspiu para a janela da cozinha. Vi a mão a espremer o resto que tivesse ficado por sair. Depois a mão, as mãos, largaram o homem. O cigarro tinha desaparecido das mãos dele. Não vi o que é que ele lhe fez.
Ela encostou a cabeça nos minhas costas. Senti o cabelo dela a roçar sobre o meu pescoço. Fazia-me cócegas, mas eu não disse nada.
O homem saiu da janela e entrou para dentro de casa. Deixei de o ver.
As mão dela deixaram os meus cabelos e tocaram-me no peito.
Acho que estava à espera que me fizesse o mesmo. Acho que, a dado momento, pensei estar a ver-me num espelho. Pensei que a mão descesse até baixo, me tirasse o sexo de dentro das calças e me masturbasse. E comecei a ficar excitado só com a expectativa.
Enquanto imaginava tudo isto ouvi-a falar. Baixinho. Percebi que falara, mas não percebi o quê. E perguntei O quê?
E ela voltou a dizer, desta vez um pouco mais alto Quando é que me vais dizer que foste despedido?
Eu gelei. De repente perdi a tesão. De repente perdi a vontade que ela me tocasse. Mandei o resto do cigarro pela janela para a rua. Continuei a olhar para a janela do prédio em frente. A janela onde o homem já não estava. A janela onde ainda estava um pedaço dele. E disse Não sei!

[escrito directamente no facebook em 2019/05/04]

Baratas

Lembro-me.
Cheguei lá já era de noite. Lembro-me de pisar a areia com os pés nus. Lembro-me de enfiar os dedos pela areia à procura de um pouco de fresco e ouvir alguém dizer Não andem descalços nesta areia da povoação. Há uns bichinhos que entram dentro do vosso corpo e trazem-vos problemas! A sério?, pensei. Tantas horas de viagem com o rabo a bater numa ripa de madeira para isto?
Peguei na mochila e arranquei à procura da Pousada. A Pousada onde tinha reservado um quarto.
A povoação não era grande. Dei três voltas por três ruas pequenas e descobri. Tinha razão. A povoação não era grande. Toquei à campainha. Silêncio. Voltei a tocar. Ninguém. Insisti. Acendeu-se uma luz no primeiro andar. Esperei. Uma cabeça à janela. Digo Tenho quarto reservado! Resposta Oi?
A cabeça recolheu. Depois acenderam-se outras luzes como a fazer um caminho. Abriu-se a porta da rua. Entrei. Registei. Assinei. Segui a cabeça, que agora já tinha corpo, pelo interior da casa. Abriram-me uma porta. Entrei. Fiquei sozinho. Senti o silêncio. O silêncio do quarto. Da casa. Da povoação. E depois, uns barulhinhos. Algo a esgatanhar no chão. Olhei à volta. Olhei o quarto. A cama no meio. Uns quadros coloridos pendurados nas várias paredes. Um quadro azul com o mar. Um quadro verde com a Mata Atlântica. Um quadro beije com as dunas. Um quadro amarelo com o sol. E foi por baixo do quadro amarelo com o sol que vi a primeira barata. A andar desalmada junto ao roda-pé do quarto. Era grande. Mal sabia eu que aquela era, somente, a filha.
Estava cansado. Larguei a mochila numa cadeira. Deitei-me em cima da cama. Deixei pousar o silêncio. Só ouvia a minha respiração. E, depois, algo mais. Vi algo pelo canto do olho. Algo a mexer-se. Atrás de mim. Virei-me. Uma barata. Outra. A mãe da outra. Enorme e barriguda na cama comigo. Mandei-lhe um piparote com o dedo. Voou para o outro lado do quarto. Sentei-me na cama. Olhei em volta. Esperei a vingança.
Mas precisava de dormir. Estava cansado.
Despi-me. Fiquei com os boxers. Coloquei o candeeiro no chão. Deixei-o ligado a noite inteira. Enrolei-me no lençol. Como se fosse a minha mortalha. Cobri-me todo. A cabeça. Os pés. E deixei-me ir.

Acordei de manhã. Manhã tarde, que o sol já estava alto. Acordei com cócegas nos pés. Com as voltas que dei durante o sono, acabei por libertar os pés da mortalha. As baratas descobriram os meus pés descobertos. Chamaram-lhe um figo. Já se passeavam por cima deles. Uma das baratas já se aventurava por uma das minhas pernas acima. Fui acordado pelas cócegas que me faziam nos pés.
Dei três coices. Vi-as a voarem. Levantei-me. Tomei um duche, mas sempre a olhar para o ralo do polibã. Sempre a olhar para a retrete. Sempre a olhar para as torneiras. Sempre a olhar para qualquer buraco.
Vesti-me. Saí do quarto. Entrei na cozinha. Havia café quente. Acabado de fazer. Não vi ninguém. Enchi uma caneca. Abri a tampa do açucareiro. Uma quantidade de pequenos bichinhos a fugir para fora da caixa. Ri-me. Ri-me de nervosismo. E disse para mim próprio O que não mata, engorda!…
Pus duas colheres de açúcar na caneca e pensei que, no fundo, era tudo proteínas.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/23]

Os Filmes Pornográficos do Meu Pai

Eu tinha onze anos quando descobri os filmes do meu pai. Os filmes super-8. Estavam numa caixa de latão. Uma caixa de latão igual às que a minha mãe usava como caixas de costura. Iguais às que a minha avó usava para colocar os biscoitos.
Andava a remexer nas coisas dos meus pais. Eles não estavam em casa. Estava só com a minha avó. Com a minha avó e a minha irmã mais nova, que era tão nova que não conta para aqui. Andava numa caça ao tesouro. Naquela altura não havia Youtube Kids, Cartoon Network ou Canal Panda. Não havia consolas de jogos. O primeiro que entrou lá em casa foi o TV Brinca e era uma espécie de jogo de matraquilhos onde só havia dois traços a defender uma baliza de um rectângulo que andava de um lado para o outro. Mas isso foi mais tarde. Já não recordo bem quando. Mais tarde. Mas foi antes do Spectrum. O Spectrum fazia muito barulho a arrancar. Era uma espécie de ritual para entrar num mundo mágico. Era como as provas de aptidão para entrar no grupo dos Pequenos Vagabundos.
Para me entreter, e como só havia televisão à hora do almoço e à noite, aventurava-me nos fundos dos armários do corredor e do quarto dos meus pais. À procura de tesouros. Foi assim que descobri que já tinha sido louro. Quando era bebé. A minha mãe tinha guardado um envelope com dois anéis de cabelo, loirinhos, e o meu nome em diminutivo, escrito à mão, no envelope.
Naquele dia descobri, nos confins do armário, debaixo de outras caixas que estavam debaixo de cobertores debaixo de vária toalhas, aquela caixa. Era de um latão dourado. E chamou-me logo a atenção. Abri-a com cuidado. Algum nervosismo.
Havia uma série de rolinhos de plástico. Com fitas. Fitas que se desenrolavam. Puxei algumas. Tinham imagens. Pareciam fotografias. Mas eu não conseguia perceber o que era. Eram muitas. Algumas dentro de caixinhas de cartão. Outras soltas.
Mais tarde falei desta minha descoberta lá na escola. Havia quem soubesse o que era. Filmes. O meu pai também tem filmes desses lá em casa, disse-me. Que filmes?, perguntei. De miúdas nuas, respondeu.
Miúdas nuas?, pensei.
Podemos vê-los lá em casa. Na máquina de projecção do meu pai, sugeriu. E eu disse Está bem! E ele ainda disse Traz amanhã. Vamos para minha casa. E eu voltei a dizer Está bem.
Foi um problema para ir buscar a caixa de latão dourada ao fundo do armário do quarto dos meus pais. Tive de esperar pela hora de me ir deitar. Não adormecer. Esperar que eles fossem para a sala. Ver televisão. Talvez A Visita da Cornélia. Talvez algum filme. Porta encostada. O som relativamente baixo. Uma pequena luz indirecta. Num candeeiro ao fundo da sala. Eu não adormeci. E em silêncio fui ao quarto deles. Às escuras. Só na companhia da luz da lua que entrava pela janela do quarto e me assustava um bocadinho. Tirei as toalhas. Os cobertores. As outras caixas. A caixa. A caixa de latão dourada. Voltei a meter tudo de novo no fundo do armário. As caixas. Os cobertores. As toalhas. O monte mais pequeno. Rezei para que a minha mãe não notasse que o monte estava um pouco mais pequeno.
Acordei cedo. Com vontade de ir para a escola. Ia fazer os trabalhos de casa com os amigos. Tudo ali na rua. Tudo vizinhança. A escola. Os colegas. Os amigos. As casas de uns e outros. E não havia medo da rua, naqueles tempos.
E no fim das aulas lá fomos. Em romaria para casa de um deles. De um de nós. A caixa. Os rolos de plástico. Que eram filmes. A máquina de projecção. A janela quase fechada para tirar luz à sala. E começou.
Éramos para aí uns cinco ou seis. Espalhados pela sala. Nos sofás. No chão. E começou o barulho da máquina. Rrrrrrrrr. E umas imagens. A cor. Umas senhoras. Talvez meninas. Num piquenique. Num parque. A comer. A beber. Depois tiraram as roupas. Começaram a brincar entre elas. Chegaram uns homens. Talvez rapazes. As raparigas foram ter com eles. Despiram-nos.
Na sala reinava o silêncio. Não se ouvia, sequer, o respirar de cinco ou seis adolescentes a verem o seu primeiro filme pornográfico. Bom, não ele. O miúdo da máquina de projecção. Esse já tinha visto os filmes do pai dele. Até sabia mexer na máquina. Mas também não respirava.
Ficámos em silêncio a ver o resto do filme daquele pequeno rolo. Um tempo curto, mas que pareceu longo. E havia muitos mais rolos para ver. Mas não vimos.
Quando aquele rolo chegou ao fim, a máquina continuou no seu barulho imparável Rrrrrrrrr. Ninguém se mexeu. Ninguém disse nada. Continuámos em silêncio, sentados exactamente como estávamos. Como estivemos sempre, a ver o filme. Como se ainda estivéssemos a ver o filme. Durante algum tempo. Até que alguém disse Vamos jogar à bola? E lá fomos.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/26]

Explodi

Fiquei cego de dor.
As mãos fecharam-se e as unhas cravaram-se na carne. A cabeça estava prestes a explodir, e antes que ela explodisse, explodi eu. Peguei no prato com um resto de bife grelhado, arroz branco frito e um ovo estrelado que estava na mesa à minha frente e mandei-o na direcção dela. Ela desviou a cabeça um pouco para o lado e o prato raspou-lhe na cara e foi estatelar-se na parede em frente, espalhando comida por toda a cozinha.
Ela calou-se. Finalmente calou-se e olhou-me admirada. Não esperava esta reacção. Não esperava nenhuma reacção. Ela berrava. Eu ouvia e calava. Ela refilava comigo, diminuía-me, insultava-me, e eu baixava o olhar para não alongar a discussão. Mas hoje ceguei. Ceguei de dor. E ripostei.
Levantei-me da mesa da cozinha e saí de casa batendo a porta da rua com força. Todo o prédio deve ter ouvido, mas não me importei. Os vizinhos que se fodessem. Estava cansado. Farto. E explodi.
Cheguei à rua e senti frio. Finalmente a porra do Outono resolveu chegar. E eu na rua, já de noite, de manga curta e cheio de frio.
Acendi um cigarro e fui a fumar até um café. Entrei e pedi uma aguardente. Batia o dente. Mas acabei por aquecer um bocado. A aguardente ajudou.
O telemóvel começou a vibrar no bolso das calças. Mas nem fui ver quem era. Não queria falar com ninguém. Não queria ver ninguém. Naquele momento só me apetecia andar à pancada com alguém. Mas não sou um tipo violento. Nem sei como bater em quem quer que seja. O mais certo era levar uma carga de porrada e ficar por aí caído, algures.
Não era a primeira discussão. Aliás, nos últimos tempos, elas tinham-se multiplicado. Havia uma saturação de parte a parte. Falta de paciência. Nervosismo. Parvoíce. E cada um de nós, com a certeza da sua razão.
Sabia que quando voltasse para casa, acabaríamos por fazer as pazes. Era sempre assim. Mas já não tinha vontade. Tinha chegado ao fim de mim mesmo. Acabara.
Saí do café e rumei, a pé, até ao Ibis. Pedi um quarto. Enfiei-me no duche e deixei-me ali ficar muito tempo, debaixo da água quente que me aquecia. Sabia muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/07]

Quando Ela Era Feliz

Eu peguei-lhe na mão. E ela deixou a mão na minha. E então, puxei-a para a estrada.
Passámos, na passadeira, para o outro lado. Eu andei rápido, e ela veio aos pulinhos, quase a correr, puxada por mim, mas em segurança, que eu estava a agarrá-la, mesmo que ela estivesse em desequilíbrio em cima de umas sandálias abertas, de meio salto, o que lhe torneava bem as pernas e eu gostava de apreciar, mas às quais não estava habituada, e muito menos em passo de corrida. Mas chegados ao passeio do outro lado, desatou a rir, nervosa, de cara muito vermelha de vergonha por ter corrido e, pior ainda, ter corado por eu ter percebido o nervosismo.
Entrámos pelo pequeno jardim, já com pouca ramagem, e saímos do outro lado, a caminho de casa dela. As nossas mãos transpiravam, mas nenhum de nós a tirava, para não dar a entender que a transpiração poderia ser um incómodo.
Perto de casa parámos numa esplanada, sentámos e pedimos duas imperiais e uns tremoços. O tempo estava bom, sol e calor, e assim aguçávamos o apetite, não que fosse necessário ser aguçado, mas não demonstrávamos o nervosismo nem a excitação em que eu e ela nos encontrávamos, e assim estávamos um pouco mais libertos.
Eu fumei um cigarro. Ela falou-me de umas notícias que tinha lido no jornal. Mas tudo assim muito depressa. As cervejas foram bebidas rapidamente e rápido arrancámos, finalmente, para casa dela.
No elevador trocámos beijos. Ela tocou-me, eu toquei-a e antecipámos o que nos esperava. E quando chegámos a casa, fomos directos ao quarto dela, sem direito a sedução que estávamos mais que seduzidos, e com os preliminares despachados à velocidade da luz que o desejo explodia.
Estávamos nós enrolados nos lençóis, corpos nus a dançarem, um dentro do outro, os lábios a lamber o sabor agri-doce do outro, quando a ouço chorar. E parei, assustado. Agarrei-lhe a cabeça e encostei-a ao meu peito. Sosseguei-a. Afaguei-lhe o cabelo e perguntei Fiz alguma coisa mal?, e ela abanou a cabeça, enquanto fungava. Então? insisti. E ela disse, Estou feliz.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/03]