A Miúda que Estava Naquela Curva a Caminho de Pataias

Era naquela curva a caminho de Pataias, depois de passar a cimenteira, mesmo a meio da curva, por fora, no pinhal mas por fora da curva, estava lá uma poltrona onde a miúda se sentava. Estava lá sempre sentada, fizesse chuva ou sol, estivesse calor ou frio e, se não estivesse, é porque estava ocupada com algum cliente lá mais para trás, no meio do mato, atrás de uma moita, em cima de um velho colchão, sujo e fétido, na companhia das pulgas, a foder com algum camonista.
Aquela era a curva dela. Sempre a mesma desde que a vi a primeira vez que lá passei já faz uns bons anos. Chamo-lhe miúda porque foi assim que me pareceu da primeira vez que a vi. E me fez olhar para ela enquanto fazia a curva de carro a caminho da Nazaré. Estava sentada na poltrona, de perna traçada, uma boa perna, pareceu-me, a fumar um cigarro, e a olhar-me directamente nos olhos. Eu senti os olhos dela cravados nos meus e foi ai que a vi miúda. Claro que já não é uma miúda. Hoje já não é uma miúda. Nem sei se alguma vez o terá sido. Foram os anos que passaram por ela, mas também a vida dura que desempenhava ali, naquela curva a caminho de Pataias para quem vem de baixo, da cimenteira ou da Estação de Pataias-Gare.
Às vezes estava lá um carro parado ao pé da poltrona. Sempre o mesmo carro. Suponho que fosse o companheiro dela. O protector. Às vezes era ele que estava sentado na poltrona. Ela estava em pé, junto à estrada, de saia curta, camisa decotada. Ou sentada no capot do carro. Ou num tijolo. Estava sempre a fumar. Estavam sempre a fumar, os dois.
Quando não era aquele carro, eram carrinhas, camiões. Sempre lá vi carrinhas e camiões. Alguns parecidos. Talvez os mesmos. Talvez tivesse clientes certos. Que paravam sempre ao passar por lá. Um dia vi lá uma Lambreta. Tentei recordar-me de quem conhecia que tivesse uma Lambreta, mas não me lembrei de ninguém.
Não sei se, ela e os clientes, conversavam alguma coisa antes de caírem em cima do colchão. Não sei se ela se lavava. Se ela se lavava antes. Se ela se lavava depois. Se eles se lavavam. Os homens. Mas cheguei a ver garrafões de água de cinco litros. Talvez fosse para se lavarem, não sei. Também não sei se fodiam sempre todos em cima do colchão, ou em pé contra uma árvore, ou simplesmente em pé, com ela dobrada, ou se era só manual, bocal, anal. Não sei. Nem sei se fumavam algum cigarro depois. Não sei se trocavam algum beijo. Acho que não há beijos nestes contratos casuais. Acho que é demasiada intimidade. Talvez os beijos estivessem reservados para o namorado, para o companheiro, para o protector. Também não sei qual era o valor do serviço. Não devia ser muito, para o género de clientes que lá via parados. Mas que sei eu do salário dos camionistas?
A última vez que lá passei estava um casal de velhotes a apanhar restos de lenha e pinhocas, precisamente naquela curva, por fora da curva, a caminho de Pataias para quem vem da cimenteira. Não vi lá a poltrona. Não sei se os velhotes levaram a poltrona se a miúda mudou de poiso. Talvez tivesse adoecido. Talvez tivesse morrido. Pensei nisso, que talvez tivesse morrido. Talvez às mãos de um cliente. Talvez às mãos do protector.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/05]

Tudo Me É, Cada Vez Mais, Impossível

Aproximo-me de mais um final de ano. Passou mais um ano. Mais um ano de merda que não deixa saudades.
Continuo a fumar um maço de cigarros por dia. Dois maços ao Sábado. Bebo uma garrafa de vinho tinto por dia. Não diminuí a quantidade mas diminuí a qualidade. Agora bebo mais barato. E não bebo antes de almoço. Como cada vez pior. Estou mais gordo. Excesso de pão. Muitos hidratos de carbono. Fritos. Cerveja. Caíram-me mais dois dentes. Andei um mês a Clonix e não resolvi nada. A minha boca é uma mina toda rebentada. Já não sei de que lado posso mastigar melhor e sem provocar dor. Estou a perder muito cabelo. Não o cortei para manter a ilusão de que continuo jovem e cabeludo. Rock’n’roll, motherfucker! Mas as entradas já são demasiado grandes para esconder, por mais que eu tente chegar-lhes cabelo para cima. Por outro lado, tenho cada vez mais pêlos a sair do nariz e das orelhas. A barba cresce de forma desordenada. Tenho algumas peladas. Os músculos dos braços estão caídos por força da gravidade. A barriga tomba por cima do cinto. O meu umbigo parece um buraco negro cada vez mais fundo e a acumular maior quantidade de cotão. A pila está cada vez mais pequena e com maior dificuldade em excitar-se. Já não a vejo cá de cima. O rabo também está com muitos pêlos e eu nem sabia que isso era possível. Tenho cada vez mais dificuldade em cortar as unhas dos pés. Maior dificuldade em me dobrar. Já não sei qual a melhor maneira para conseguir cortar as unhas. Os ataques de bronquite são cada vez mais frequentes e mais violentos. Tenho a sensação que o Ventilan já não faz efeito. Já estou à espera de ver os pulmões saltarem boca fora num ataque de tosse.
O dinheiro escorre-me pelos dedos. E só não escorre mais porque não há mais para escorrer. É só pagar. A água. A luz. O gás. O cabo. O telemóvel. A renda da casa. A prestação do carro. A prestação do computador. A prestação da máquina de lavar roupa. A prestação do frigorífico. E a sensação que quando acabar de pagar qualquer uma destas coisas estarei a precisar de as substituir. O esquentador anda a dar-me sinais. A torradeira já só funciona num dos lados. Os trabalhos que me pedem são cada vez mais espaçados. Ninguém quer pagar por coisas que não consideram. Ninguém lê. Toda a gente escreve. Ninguém quer saber de cinema. Toda a gente faz filmes. Toda a gente tira fotografias. Os grande fotógrafos já não são os que têm um olhar extraordinário, mas os melhores corpos nos sítios mais exóticos para selfies de inveja. Os fotógrafos de sucesso não estão nas revistas ou nos jornais, estão no Instagram e no Facebook.
O Continente continua a vender livros de merda. Algumas livrarias continuam a desconhecer o livro. Há quem trabalhe em livrarias como se trabalhasse num café e não precise de formação nem de conhecimento. Não sabem o que é a Douda Correria nem a Língua Morta. Desconhecem Alberto Pimenta e Vasco Gato (aqui descobrem uma edição da INCM – wow!) Mas ninguém se importa. Ninguém quer saber. A ignorância é o novo orgulho. Eu é que sou parvo. O livro é só mais uma mercadoria. E quem é que ganha?
Estou muito sedentário. Cada vez saio menos de casa. Cada vez mais a janela é o meu contacto mais directo com o mundo imediato da minha vizinhança. Mas desconheço os meus vizinhos e também não os quero conhecer.
Hoje, véspera das vésperas, dei a volta a mim próprio e saí de casa. Estou na Afficion. Estou na única esplanada do Sítio sobre a Nazaré. A melhor vista da zona. A dificuldade que é encontrar lugar numa esplanada que tem doze mesas e a melhor vista sobre a vila e o mar da Nazaré e eu estou aqui sentado. Está sol. Vejo as Berlengas lá ao fundo. Uma neblina paira sobre os Salgados. O mar, lá em baixo, está calmo. Há gente na praia mas não está ninguém a tomar banho. Não vejo o ascensor a funcionar. Já levantaram o estádio do Futebol de Praia que costuma manter-se no areal por meses a fio. Mas está montado um pequeno palco para a festa de final de ano. A Nazaré está tornada uma feira. Uma feira simpática, por enquanto. Quantas pessoas vão morrer no mar, nesta festa de final de ano?
Há muita gente a caminhar ao longo da calçada marginal. Chega-me, ao nariz, o cheiro de sardinhas assadas. Sardinhas assadas nesta altura do ano? Ontem também acordei com um manto de azedas no quintal lá de casa. Por vezes nem parece que estou em Dezembro tal a Primavera que o assaltou. Já nada me surpreende. Os meus amigos defendem Donald Trump, Jair Bolsonaro e André Ventura. Não, já nada me surpreende.
As gaivotas voam aqui à volta. Gralham muito. Não sei se ralham comigo se andam maldispostas com elas próprias. Aparece-me uma imperial aqui à frente. Bebo um gole. Dois. Sabe-se bem. Não gosto de sair de casa mas quando saio gosto de ter saído.
Vejo gente muito estranha à minha volta. Alguns até são portugueses. Ouço-as falar. Depois percebo que o estranho devo ser eu. Sou o único sozinho. O único de t-shirt. O único a fumar. Está toda a gente a comer, a petiscar, a beber vinho. Eu sou o único a beber uma imperial, a única coisa que o meu bolso consegue pagar.
Finalmente vejo os ascensores a funcionar. Vai um a descer e outro a subir. Cruzam-se a meio. Mas há também muita gente a pé. A subir a encosta pelo caminho serpenteante que vem lá de baixo até cá cima. Vejo um grupo de escuteiros a descer a encosta a pé. São um grupo grande. Com a mesma farda. Rapazes e raparigas. Vão contentes, a brincar uns com os outros. Vão a caminho de 2020. Eu também vou. Mas vou sem grande vontade.
Cai o sol. Tomba a noite. O horizonte está vermelho. Parecemos estar em Agosto. Isto anda tudo trocado. Mas que sei eu? Os inteligentes dizem que sempre foi assim e assim há-de continuar a ser. Acho que vejo as luzes de São Martinho do Porto e da Foz do Arelho. Tão longe e tão perto.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/28]

Cavalgar na Onda

Cheguei cedo de manhã ao Sítio. Dei umas voltas à procura de lugar para o carro. Todos os cantos estavam cheios de carros. Não havia um lugar vago. Era dia de semana e o Sítio da Nazaré estava cheio de gente de fora que tinha ido à caça das ondas gigantes.
Acabei por arranjar lugar já fora da localidade. A caminho do Pinhal do Rei, ao longo da Estrada Atlântica que faz toda a costa junto ao mar.
Voltei a pé até ao Sítio. Mochila às costas. Máquina fotográfica na mão. Desci em direcção ao forte. Mas acabei por não ir até lá abaixo. Estava muita gente. Muita confusão. Odeio confusão.
Optei por um cabeço acima do forte. Via as carecas dos mirones ao longo da estrada até ao forte e noutros cabeços mais abaixo. Mas ali estava bem. Sozinho e com uma boa vista para o mar. Estava toda a gente à espera. Ver as ondas gigantes e as pranchas a cavalgá-las requer tempo e paciência.
Sentei-me numa pedra. Estava sozinho ali naquele cabeço. Como companhia, o som das ondas que rebentavam nas rochas. Tirei uma sanduíche de paio com manteiga da mochila e pus-me a comer enquanto ia olhando as ondas, já grandes e imponentes, para mim, mas ainda não gigantes.
As pessoas continuavam a chegar. Muitas raparigas novas. Muitos rapazes em calções. Estava frio e vento. Mas havia muitos rapazes em calções. Eram estrangeiros. Toda a gente com máquinas fotográficas com objectivas muito melhores que a minha. Senti uma certa inveja. E pensei Sou igual a toda a gente. Inveja. Ciúme. Azedume. Sou um gajo como os outros.
Depois via os casais que circulavam por ali. Os grupos de amigos. E percebia o acentuar da minha solidão. Estava ali sozinho. Gosto de estar sozinho. Mas às vezes não.
No mar andavam as motos de água de um lado para o outro com os surfistas atrás. Estavam à procura da onda perfeita. Ou de aproximações. Mas nada. O mar estava bravo. Revolto. Com muita rebentação. As ondas não eram as ideais para montarem e deixarem-se levar.
Acabei a sanduíche de paio. Guardei a prata na mochila. Limpei a boca as mangas do casaco e acendi um cigarro.
Às vezes penso que fazer surf é como ir à pesca. É preciso tempo. Ter paciência. Esperar. Não sou muito de esperar. Não tenho muita paciência. Mas às vezes tenho que ter.
Passaram duas miúdas pelo meu cabeço. Eram estrangeiras. Há muitos estrangeiros por aqui, agora. Vinham de mãos dadas. Acenaram-me, simpáticas. Olharam o mar dali. Acharam longe. Continuaram em frente.
Caiu-me um pingo na cara. Olhei para cima. Para o céu. Vi cair pingos. Começou a chover. Puxei as golas do casaco para cima. Pus a câmara dentro do casaco. Ao fundo abriram-se alguns chapéus-de-chuva. Mas ninguém arredou pé. Toda a gente ficou onde estava. Iam para onde? Não havia sítio para onde fugirem. Não havia beirais. Árvores. Carros. Ou iam embora, de regresso ao Sítio e aos carros estacionados lá, algures, ou entravam em algum café, ou aguentavam a chuva que aí vinha. Foi o que eu fiz. Aguentei a chuva. Encolhido sobre mim. O cigarro molhou-se e apagou-se. Mandei-o fora. Mandei-o ao mar.
Estranhamente estava a gostar de estar ali. Estava frio. Fazia vento. Chovia. As ondas ainda não eram as melhores para ver uma corrida. Mas o estar ali, sentir o cheiro a maresia, ver o céu cinzento, muito escuro, um céu de fim-de-mundo, e um mar agitado e com muita rebentação que provocava um lençol de espuma junto à Praia do Norte, fazia sentir-me bem como há muito não sentia.
Estes últimos meses tinham sido complicados. Não conseguia trabalho. Estava a entrar na fase de gastar os últimos tostões que tinha escondidos em casa para uma emergência quando caiu este pedido para fotografar as ondas gigantes que se esperava que viessem a acontecer na Praia do Norte.
E ali estava eu. Na Praia do Norte. À espera. À espera debaixo de uma chuvada que, passado pouco tempo, parou como tinha começado.
As nuvens fugiram. O céu cinzento e escuro deu lugar a um céu azul, não muito limpo, mas o suficiente para tornar o dia mais alegre. E pensei que era uma premonição. Aquele dia era um retrato da minha vida. Depois da tempestade, a bonança. E assim ia passando o tempo. A ver se agarrava a esperança.
Entretanto, as ondas começaram a crescer e a vir mais redondas.
As motos de água voltaram a galgá-las.
Agarrei na câmara. Tirei uma fotos. Uma fotos soltas. Do forte cheio de gente. Da Praia do Norte. Da frente urbana da Nazaré brilhante com o sol que despontava.
E então, alguém agarrou uma onda. Comecei a disparar a máquina. Vi a moto a descer a onda para trás e alguém, solitário, a cavalgar a onda. Uma onda grande. Não gigante, mas grande. Grande o suficiente para causar medo. E dar umas grandes fotos. A rebentação perseguia a prancha e o rapaz que lá ia em cima e que se mantinha, sempre, à frente da onda destruidora. A fugir. E eu a disparar a máquina. Estava a tirar boas fotos. E o rapaz mantinha-se na prancha, sem cair, a deslizar pela onda abaixo e para o lado, a manter-se paralelo à terra, a ganhar terreno, a voar nas asas da prancha. A tentar ganhar tempo. E espaço. A fugir à crista da onda e da sua rebentação que começava agora, a ser mais forte. E eu a fotografar. E então, a rebentação apanhou o rapaz e a prancha, envolveu-o e chicoteou-o. Ele fora apanhado. Enrolado na confusão da rebentação que vinha onda abaixo. Eu deixei de fotografar. Olhei para o mar. Para a onda. Para a rebentação. Procurava um ponto negro. Procurava o rapaz. Procurava a prancha. Procurava qualquer coisa que me garantisse a segurança daquele surfista. Olhei. Procurei. Esperei.
Depois vi muita gente a correr para a Praia do Norte. A correr ao longo das arribas. A descer para a areia da praia. Eu agarrei na mochila. Desliguei a máquina. E virei costas ao mar. Não ia tirar mais fotografias naquele dia.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/16]

Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

No Mad

Estava no Mad. O Mad é o bar/restaurante do Slavo. O Slavo é um chef. Um bom chef. Na verdade, um excelente chef. Da esplanada do Mad vê-se o mar Atlântico, a norte da Praia do Norte. O Mad fica no Vale Furado, no destruído Pinhal do Rei, e é uma praia que fica no fundo de uma falésia. O Mad fica na falésia, mas não junto à arriba. Junto à arriba há um pequeno miradouro do qual se pode ver toda a costa para sul até à Praia do Norte e se pode adivinhar a Nazaré, se o tempo estiver limpo. Do norte, há muitos anos, chegava o cheiro da Leirosa, a celulose nas cercanias da Figueira da Foz. Ultimamente o cheiro não tem cá chegado. Ou ando constipado.
Estava no Mad. Bebia umas imperiais sentado na esplanada. Via ao longe o mar cheio de carneiros. Estava vento no mar e levantava espuma na crista das ondas. Também estava vento no Vale Furado. Do Mad não se consegue ver a praia. Só do miradouro. Há dois caminhos para a praia. Um pelo lado direito do miradouro, que é também um parque de estacionamento, e outro pelo lado esquerdo. Desço sempre pelo lado esquerdo que é a descida oficial, embora seja tudo muito oficioso e arcaico e arrancado à força dos braços e da vontade das pessoas que gostavam de ir para a praia do Vale Furado e escavaram degraus na terra e nas rochas e depois colocaram algum cimento e fabricaram uma descida íngreme, que também é uma subida abrupta. Sempre que está na hora de subir rezo aos santinhos que me ajudem a galgar todos aqueles degraus e que os meus pulmões aguentem o esforço. Nunca fui pelo lado direito.
Estava no Mad a beber umas imperiais na esplanada e a comer uns tremoços que o Slavo lá foi deixar, barrados em piri-piri e sal, quando senti uma vontade enorme de me levantar e ir até ao miradouro olhar para o mar.
Levantei-me. Deixei a imperial a meio, no copo, mas agarrei um punhado de tremoços que fui a comer enquanto cruzava o parque de estacionamento em terra batida e vazio, até chegar ao miradouro e deitar as cascas fora para o mar.
Olhei para sul e não conseguia ver a Praia do Norte. O tempo estava enublado. Mas via as enormes praias que faziam a costa até ao Vale Furado. Pouca areia. Muito mar. Via-o agitado a alongar-se pela areia. Só não consegui ver a praia do Vale Furado que o mar tinha comido e agitava-se lá em baixo, ao fundo, espumoso, agressivo, batido pelo vento, e então falou-me Vem cá abaixo, meu filho-da-puta! Vem cá abaixo ter comigo! e senti uma enorme vontade física de me envolver nos braços tempestuosos do Atlântico, mesmo se, na cabeça, não queria.
Levantei uma perna e depois a outra. Passei para o outro lado da varanda do miradouro. Senti-me impelido a aproximar-me da arriba. Sentia a forte maresia a subir pela arriba e inundar-me os pulmões, o cérebro, o coração. Senti-me encorajado a dar um passo mais em frente. Porquanto a minha cobardia ser mais forte que a coragem que me era transmitida não sei por quem, senti-me empurrado e acabei por dar o último passo. No vazio.
E caí.
Mas ainda vou a cair. Ainda não cheguei ao fundo do Vale Furado. Estou em queda e não sei quando é que lá chegarei.
Vou estragar as sapatilhas novas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/17]

Burocracia

Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Não tomei banho que estava frio e fiquei sem gás na botija. Em casa, o gás ainda está na botija e sou eu que a tenho de ir buscar ao posto e carregá-la às costas. No Inverno é um bocado chato.
Saio de casa ainda não são nove horas da manhã. Saio de carro.
Auto-estrada. Auto-estrada vazia. Os camiões que fazem esta zona andam pela nacional. É por isso que vou pela auto-estrada. Os camiões voam pela nacional como se voassem na auto-estrada. A auto-estrada é mais segura e mais rápida para mim.
Balcão da EDP. Espero. Jogo um Bubbles no telemóvel. O meu número. Quero electricidade. E gás. Uma coisa de cada vez. Instalação? Uma coisa de cada vez. Não dá para fazer tudo no mesmo dia? Não. Espero. Resolvido. Hei-de ser contactado. Quando? Não se sabe.
Vou a pé. Mas penso melhor. É do outro lado da cidade. Vou de carro.
Pára-arranca.
Pára-arranca.
SMAS. Muita gente à espera. Tiro senha. Espero. Jogo Bubbles no telemóvel. Vou à rua fumar um cigarro. Jogo Tetris. Ainda tenho Tetris no telemóvel? Vou ao café ao lado e bebo uma bica. Olho o Goucha na televisão em altos-berros. Fumo mais um cigarro. Volto a entrar no SMAS. Espero.
Finalmente o meu número. Peço uma instalação. Já foi desligada? O contador está lá? Não sei. Tenho de saber.
Saio do SMAS. Vou a pé à Junta de Freguesia. Espero. Há internet. Navego enquanto espero. Sou atendido. Bem atendido. Bem tratado. Ajudam-me. Explicam-me coisas. São simpáticas as senhoras.
Vou buscar o carro. Subo à Segurança Social. Tiro uma senha. Vejo o número onde vai. Tenho um ataque de riso que se transforma em ataque de tosse. Não consigo fazer as contas. São muitos números. Vou fumar um cigarro.
Penso melhor e dou um pulo às Finanças. É mesmo ali ao lado. Tiro número. Espero. Mas não espero muito. Sou atendido. Sou despachado. Pago e vou-me embora.
Regresso à Segurança Social.
Olho para o écran. Andou dois números. Dois números. Fui às Finanças e despachei-me nas Finanças e regresso aqui e passaram dois números. Sento-me. Espero. Não há internet. Jogo Bubbles. Tetris. Solitaire. Repasso na cabeça a equipa do Benfica. Repasso na cabeça a Selecção Nacional. Vou à rua fumar um cigarro. Olho as raparigas que passam a caminho do Tribunal. São advogadas. Estagiárias, com certeza. São giras.
Regresso à sala. O número ainda é o mesmo. Olho o relógio. Vejo as horas.
Desisto.
Penso que é Sexta-feira. Penso que Segunda-feira ainda é dia.
Vou-me embora. Fumo um cigarro antes de entrar no carro.
E pergunto-me São Pedro de Moel ou Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/10/11]

O Móvel

Levei o móvel velho para junto dos caixotes de lixo. Esperava que os tipos da recolha o conseguissem levar. Talvez lhes desse jeito. Talvez servisse a alguém, agora que já não me serve a mim.
O móvel era dela. Ela foi embora. O móvel também.
Vejo o móvel cá de cima, da janela da sala. Gostava do móvel. Mas não o quero cá em casa.
Começou a chover. Uma chuva miudinha. O tempo escureceu de repente. Acho que a chuva virá aí com mais força. É pena o móvel estar lá em baixo, à chuva. Vai estragar-se. Mas não o vou buscar. Já o tirei de casa. Já não volta para cá.
Um homem aproxima-se do lixo. Olha para dentro dos caixotes. Tira um saco de plástico do bolso das calças e começa a enchê-lo com coisas que encontra dentro dos caixotes do lixo. Restos de comida, provavelmente.
Reparou no móvel. Abre as gavetas. Experimenta o peso. Acende um cigarro. Anda ali à volta do móvel. Está a apreciar. A avaliar. Tenta levantar o móvel. Tenta levantar o móvel com o cigarro a fumegar ao canto da boca. Não é pesado, deve ter pensado. Vai levá-lo.
Ficava contente se ele levasse o móvel. Gostava de saber que o móvel servia a alguém.
Vejo-o tirar mais sacos de plástico dos bolsos das calças. Com os sacos de plástico, prende as gavetas, umas às outras, através do puxadores. Depois dá mais umas voltas em torno do móvel.
O homem tira uma maçã do saco de plástico. Limpa-a à manga da camisa. Trinca-a. Senta-se no lancil do passeio a comer a maçã e a olhar para o móvel.
Eu acabo o cigarro. Vou à cozinha. Apago a beata na água da torneira do lava-loiças e mando-a para o lixo. Coço a cabeça. Sinto-me cansado. Começa a doer-me um dente. Apetecia-me ir ao cinema. Mas está a chover. Não vou sair de casa. Que importa o cinema? Vejo a novela na SIC. Passa-se na Nazaré. Talvez se veja o McNamara a surfar na Praia do Norte.
Tomo um Clonix. Tento parar a dor de dentes que se começa a fazer sentir demasiado.
Vou à despensa. Procuro vinho. O que há? Um Prado. O que é isto? Dão. Como é que veio aqui parar um Dão? Não gosto de me afastar do Alentejo, mas não sou esquisito. Venha o Prado.
Abro a garrafa. Sirvo um copo. Volto para a janela. O homem ainda anda lá em baixo. Está de volta das caixas de cartão. Encontra uma caixa grande. Desfaz a caixa. Abre o cartão, na sua totalidade, no chão. Puxa o móvel para cima do cartão. Faz um buraco no cartão. Enfia lá a mão e começa a puxar o cartão, com o móvel lá em cima, pela estrada fora. Vai devagar para que o móvel não saia do cartão. Sorrio.
Ainda bem que o móvel serve a alguém. Fico contente por ter contribuído.
Agora começa a chover com mais força. Coitado do homem.
Mas quando chegar a casa e mostrar o móvel à mulher, vai ter direito a festa. Sinto-me quase como uma alcoviteira.
Ainda não é noite mas o céu está bastante escuro. Acho que a chuva ainda vai piorar mais. Acho que vem aí um temporal. Espero que o homem chegue depressa e bem a casa.
Também me apetecia festa. Mas não consigo ser alcoviteira de mim mesmo. É pena. Uma festa ia bem. Ainda me dói o dente. Vou beber mais um copo de vinho Prado. Não é alentejano mas, não se pode ter tudo.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/21]