Desespero

Isto já se deu há muito tempo. Há mais de trinta anos. O pai de uma amigo, um amigo próximo, matou-se. Enfiou os canos de uma caçadeira na boca e disparou. Dizem, quem viu ou, pelo menos, quem ouviu dizer, que rebentou com a cabeça.
Na altura lembro-me de pensar Como é que um tipo se suicida com uma caçadeira? É que não deve ser fácil. Fisicamente, não é? Agarrar na arma. Naquela arma específica. Numa arma grande. Grande e comprida. E disparar o gatilho. Como é que se chega ao gatilho?
Lembro-me de ter recebido a notícia com alguma frieza. Talvez, desdém. Lembro-me de ficar condoído pelo meu amigo. Lembro-me de estar lá para ele. Não muito, na verdade. Acho que foi mais as palavras da praxe. Estou aqui, Se precisares de alguma coisa, Ânimo, esse tipo de frases feitas compradas numa coleccionável da D. Quixote para oferecer em alturas de Natal e Páscoa a pensar nos infortúnios anuais.
Os anos foram passando e passaram por entre mim e esse meu amigo e levou-nos para vidas diferentes e, provavelmente, longínquas. Nunca mais o vi. Nunca mais soube dele. Pode até já ter morrido, não sei. Sei que nada sei dele.
No entanto, de tempos a tempos recordo a morte do pai dele. Recordo a morte do pai, não pela morte do pai em si, mas pela minha indiferença à morte dele. Não sei se pelo suicídio, se pelo facto de ir embora e deixar cá o filho (mais uma filha e a mulher), se por outra razão qualquer que ainda não me tenha ocorrido. Mas ao longo dos anos tenho, quando me lembro desta história, ficado cada vez mais zangado comigo.
Desta vez chorei. Finamente chorei pelo meu amigo e, mais importante, pela morte do pai do meu amigo. Acho que este choro me libertou de alguma angústia aprisionada cá dentro por mais de trinta anos. Pelo menos foi o que me pareceu.
Finalmente percebi o desespero e a coragem que ele deve ter tido para fazer o que fez. Não é algo que se faça de ânimo leve. Não é algo que se decida fazer porque sim. Não é, como alguns querem fazer crer, uma saída fácil. E é preciso haver um enquadramento. Uma razão. Um motivo. E é preciso muita coragem. Uma coragem extrema.
Não vou falar sobre os motivos. Não os conheço. Nunca virei a conhecê-los, provavelmente. Quem se lembra da morte de alguém ao fim de tantos anos? Neste caso, talvez os órfãos e a viúva, se ainda forem vivos, e eu.
Hoje percebo que os motivos devem ter sido muito fortes. Só o peso de um drama sem saída empurra alguém para aquele desfecho. Alguém decidir deixar cá, sós, os filhos, a família, é porque o caminho das respostas está vedado – e está-o tantas vezes! bem mais do que nós sabemos, ou julgamos saber. Sim porque nós julgamos saber sempre da vida alheia e até temos a mania que sabemos as respostas e temos as soluções, como se elas viessem em saquetas de brinde nas caixas do Juá.
Mas posso falar sobre a coragem. Aquela coragem que muitos acham que é corbardia, medo, que é fuga. A coragem de decidir pôr um fim a tudo. E conseguir dar todos os passos. É que cada passo pesa toneladas. Cada passo tem o peso de uma vida. De várias vidas. Cada passo é uma ida sem regresso. Cada passo é mais um acelerador das batidas do coração. Cada passo é uma batalha entre todas as dúvidas e certezas que uma pessoa tem. E então imagino aquele homem, homem ainda novo, mais novo do que eu sou hoje, com filhos pequenos, a pegar numa arma, a carregar essa arma, a apontar essa arma a si próprio, lutar contra todas as conversas que lhe hão-de estar a consumir a cabeça, a dizer para o fazer, a dizer para não o fazer, manter a força da mão, do braço, do braço que suporta essa arma, pensar em tudo o que vai perder, pensar que tudo vai acabar, pensar que já não vai mais haver aniversários, nem Natal, nem cabrito assado, nem jogos do Benfica, nem netos, nem beijos, nem amor, nada, nada, nada, não vai haver mesmo mais nada e ainda assim ter força suficiente para mexer o dedo que está sobre o gatilho e disparar e, naquela fracção de fracção, naqueles nano-segundos entre o disparar o gatilho e o cartucho, a bala, sair disparado, disparada, pelo cano até atingir o alvo, pensar num possível arrependimento e saber que já é tarde, tarde demais, e depois já não é mais nada, nem o vazio, é apenas só uma ausência, o mundo acaba, desfaz-se, desaparece, e só continua para quem fica por cá, às vezes em que condições.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/04]

Livros

Hoje chegaram uns caixotes cá a casa. Depois de terem andado a passear por meio mundo, os caixotes com os meus livros, ou pelo menos com uma parte deles, uma parte mais recente dos meus livros, chegou finalmente cá a casa.
Parecia Natal antecipado.
Com o canivete-suíço na mão, cortei a fita-adesiva que fechava as abas dos caixotes. Cortei as fitas dos caixotes, um a um. Fita-a-fita. Caixote-a-caixote. Depois comecei a retirar os livros. Aquela massa de livros, alguns deles que já nem sabia que os tinha – a minha memória tende a esquecer-se de algumas coisas. Não lhe descortino a lógica. E tenho horror a que esqueça as coisas boas. Os livros são parte das coisas boas. Mas também não deixou de ser um momento feliz, esse, ao descobrir que, afinal, também tinha este livro, e aquele e aqueloutro.
Comecei a fazer montinhos no chão. Montinhos com ordem alfabética. Dou prioridade ao primeiro nome. Sim, sei que não devia ser assim, mas aqui em casa é assim que sou: A – Alberto Pimenta; B – Bret Easton Ellis; C – Charles Bukowski, e por ai fora.
Foi com especial delícia que voltei a folhear os livros do Julio Cortázar, do Philip Roth, do Cormac McCarthy. Alguns, alguns muito poucos, já tinha comprado outra vez. Alguns com os quais não conseguia mesmo passar sem eles. Agora tenho-os repetidos. Alguns tenho-os repetidos várias vezes se pensar nos outros caixotes que andam por aí, perdidos de casa-em-casa, há mais de vinte anos, e ainda não encontraram o caminho certo.
Gostaria de falar no cheiro. Mas desta vez não havia cheiro. Nem bom, nem mau. Já não tinham aquele cheiro da novidade quando se adquire novo numa livraria, mas também ainda não tinham aquele cheiro a tabaco frio, às vezes ao doce enjoativo do tabaco de cachimbo, do manuseado, dos livros usados, em segunda-mão, dos alfarrabistas. Não, desta vez, e estranhamente, os livros vinham sem cheiro. Alguns caixotes traziam bichinhos da prata, aqueles bichinhos pequeninos que gostam de se alimentar do papel dos livros, esmaguei três desses bichinhos com o polegar, vi-os desfazerem-se em papa sob o meu polegar, verifiquei os livros, todos, um-a-um, e não vi nenhum trincado pelos bichos. Talvez tenham dado mordidinhas microscópicas e eu não as tenha visto.
Alguns destes livros não os tinha lido. Alguns nunca os irei ler. Mas gosto de os ter ali, à mão, ao olhar, para pegar e roubar uma frase ou outra ao acaso, em períodos de necessidade, quando o calor é demais, o frio aperta, a fome esgana ou o apocalipse se aproxima. Para petiscar quando me apetece.
Sinto-me em boa companhia na companhia dos livros. Mesmo dos maus. Também tenho livros maus. Alguns mesmo muito maus. Alguns que me ofereceram, deram, outros que fui eu que comprei. Já nem sei porquê. Talvez o meu percurso de vida os justifique. Não sei. Mas continuam a ser livros, meus livros e vão para as estantes como os outros.
Quando já tinha os livros todos empilhados por ordem alfabética, fui abrir uma garrafa de vinho. Enchi um copo. Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá a olhar para os montinhos de livros pela ordem alfabética e disse Um dia destes vou arrumar-vos nas prateleiras que ainda hei-de arranjar. Por agora ficam por aí. A fazerem-me companhia.
Liguei a televisão e estavam, de novo, a contabilizar o número de infectados pelo novo coronavírus.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/10]

Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

Regressar a Casa, parte 03

[continuação]

Volto a olhar a janela da cozinha e a minha mãe já lá não está. Há já muito tempo que deixou de lá ir gritar por mim em diminutivo para voltar para casa, Malandro, que o teu pai já está a jantar.
Chego-me à frente, enfio a chave no fechadura e forço a porta a abrir, para trás, para dentro, e sou invadido por um terrível cheiro a mofo vindo das entranhas de uma casa que não era aberta há tanto tempo quanto o tempo da despedida. Adeus, mãe! Adeus, pai! Encontramos-nos lá, onde quer que seja.
Entro em casa e deixo a porta aberta nas minhas costas. Não há luz. Toco no interruptor mas não acontece nada. Avanço pelo corredor e viro à esquerda, entro no que era a sala e ainda será provavelmente a sala. Procuro as janelas e abro-as. As cortinas, as persianas e os vidros. Deixo entrar a luz. Deixo entrar o ar fresco. Preciso de combater esta humidade que me está a deixar maldisposto.
Viro-me para trás. Há pó por todo o lado. Vejo a televisão. A televisão fininha, lcd, em cima de um móvel comprado em tempos para suportar uma televisão grande com cinescópio. Agora parece-me estranho. A televisão parece perdida na dimensão do móvel. Há um naperon em cima do móvel. A televisão está em cima do naperon. A minha mãe era de uma época em que os napeons eram reis. Eu nunca gostei de naperons nem de bibelots nem de acumuladores de pó que não têm utilidade nem sequer estética e são só acumuladores de pó que é preciso andar a limpar e era o que fazia a minha mãe, sempre na lida da casa, a limpar o pó, a aspirar, a sacudir os tapetes, pôr os edredons e os cobertores a arejar, mudar a disposição dos móveis, de seis em seis meses entrava em casa e pensava se não estaria a entrar em casa dos vizinhos tal as alterações ocorridas e o sofá agora estava de costas para a porta e a poltrona ao canto, perto da janela e com vista para a rua, o sítio onde eu mais gostava de ter a poltrona mas que só podia usufruir quando o meu pai não estava porque aquela poltrona era a cadeira dele, era dali que via a televisão, era ali que lia A Bola quando ainda tinha paciência para ler jornais, ainda A Bola era trissemanal e do tamanho do Expresso.
Vejo ao lado o móvel da aparelhagem, a minha aparelhagem, a aparelhagem de alta-fidelidade que o meu pai comprou para mim e onde eu devorei os meus discos de vinil até à exaustão e que ainda estão, posso vê-los, na prateleira por baixo do amplificador. Aqueles vinis são os que ouvia mais, mas hão-de haver outros, outros mais, que a minha colecção era grande e devem estar numas prateleiras no meu quarto que era onde a aparelhagem estava até eu deixar de vir cá a casa e do meu pai trazer a aparelhagem para aqui, para a sala, para ele poder ouvir o António Variações (foi ele, o meu pai, que comprou os dois discos do António Variações) e a minha mãe poder ouvir os discos da Amália de quem era realmente fã, e reparo também que as colunas, uma em cada canto da sala, colunas grandes como caixotes, também têm um naperon por cima e uns objectos artísticos que tenho dificuldade em identificar, mas acabo por perceber que um deles é uma escultura moçambicana que eu trouxe quando estive lá, em Moçambique, há muitos anos, tantos anos que já não reconhecia uma coisa que tinha sido escolhida por mim para presentear os meus pais.
A cristaleira está toda suja, mas ainda consigo perceber lá dentro os copos de vidro, sim, que lá dentro da cristaleira não sei se há cristais, talvez só mesmo vidro, os copos cá de casa eram de vidro, muitos deles comprados na Marinha Grande, uma colecção, talvez completa de vidros da Ivima, com os seus piquinhos a lembrar a Casa dos Bicos, em tantas cores quanto o arco-íris, copos que durante a vida dos meus pais só viam a luz do dia em épocas excepcionais, no Natal, na Passagem de Ano, na Páscoa, num ou noutro aniversário que calhasse fazer cá em casa. E o mesmo se passava com os pratos das colecções de louça da minha mãe, coisas às quais nunca liguei nenhuma mas que ela entendia serem de valor, como um conjunto de louça inglesa estreada nas vésperas do meu casamento e, tal como o meu casamento, foi usado uma vez e guardado. Mas talvez tivesses razão, mãe, talvez eu não perceba o valor destas coisas que tu valorizavas como tu não entendias o valor das minhas coisas. Talvez tivesses razão, talvez eu gostasse, afinal, de comer as minhas refeições nesses pratos artísticos e com história em vez daqueles pratos brancos e simples e anónimos que estou sempre a partir quando me ponho a lavar a louça à mão, coisa que faço muitas vezes quando estou aborrecido, coisa que me acontece com uma certa regularidade nestes últimos anos, mãe.
Volto ao corredor e cruzo-o para a cozinha. Volto a abrir as persianas e os vidros da janela. Experimento abrir a torneira de água mas nem um fiozinho. Nem o barulho engasgado de um tubo fechado mas ainda com água na sua garganta.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/21]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]

Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Gosto

gosto da primavera, de namorar raparigas jovens e menos jovens, já vividas e cheias de estórias para me contarem e gosto do cheiro das flores campestres, de mergulhar no rio, no açude, no lago, nu, e de me deitar sobre as margaridas e deixar-me aquecer pelo sol do meio-dia, e de ler livros deitado na relva, no sofá, sobre a cama, gosto de ler philip roth e mário de sá-carneiro, cormac mccarthy e baudelaire, rimbaud e cocteau e não esquecer camus, borges e cortázar, gosto de sumo de laranja fresco, peixe assado nas brasas, frango de churrasco, e pão acabado de fazer em panificadoras, gosto de rosas e malmequeres, de fumar cigarros e um charro de vez em quando, gosto de ir à escola agora que já não vou, gosto de desenhar mesmo não sabendo, e de matemática, literatura e poesia, gosto da poesia do al berto, da szymborska e do joan margarit, gosto de chupar as azedas que encontro à beira da estrada, de festas de aniversário em garagens onde eu sou o dj, gosto de beber cerveja, loira, stout ou blanche, gosto de tremoços e pevides, castanhas de caju e amendoim torrado, gosto de passear de mão-na-mão, de mãos transpiradas de desejo e de antecipação, gosto de cortar o cabelo muito curto para refrescar a cabeça, usar desodorizante, calçar sapatilhas e vestir t-shirts, gosto de passear pelo país, conhecer as praças das cidades, vilas e aldeias, e gosto do verão, do calor do sol a queimar-me o corpo e a dificultar-me a respiração, gosto de vestir calções e calçar chinelos, gosto da praia e de mergulhar nas ondas do mar, de beber um gin numa esplanada à sombra de uma árvore, de um vodka antes de jantar, de uma pizza em forno a lenha, de uma salada de rúcula e tomate cherry, queijo feta e iogurtes naturais com granola caseira, gosto de ver os jogos olímpicos e o mundial de futebol, que também pode ser o europeu, gosto de banda-desenhada, do hergé e do hugo pratt, do comés e do frank miller, do lostal e do bilal, gosto de água das pedras e coca-cola e não, não pode ser pepsi, mas pode ser zero, sem cafeína ou light e com uma rodela de limão, gosto de amêijoas, berbigão, mexilhão e conquilhas, navalheiras, camarão de moçambique e da figueira da foz, gosto muito de limonadas sem açúcar, do bafo quente do interior alentejano, da costa vicentina e do sotavento algarvio, gosto das festas das aldeias perdidas no interior e das grutas de alvados, gosto das serras d’aire e dos candeeiros e de caminhar por elas, gosto das imperiais no lebrinha, de ver os girassóis a girar, de melancia, melão e meloa, de beber um tinto esporão, um verde alvarinho, gosto de adormecer na praia, ver as suecas em topless, jantar na rua, na varanda ou no quintal, olhar as estrelas, e sonhar ser o starman, também gosto do outono, do casaquinho de algodão, dos óculos escuros que uso o ano inteiro, de música, muita música, dos beatles e dos stones, dos velvet underground e do nick cave, dos joy division, dos jesus and mary chain e dos chameleons, mas também gosto do nick drake, do leonard cohen e do david bowie, dos mão morta, dos pop dell’arte e dos gnr com vítor rua e alexandre soares, de bolas de berlim com creme, da chuva que molha tolos e do cheiro da terra molhada, gosto do fim das férias, do início das aulas, dos cadernos novos, de livros novos, do regresso à vida de todos os dias, do benfica e da união de leiria, gosto de viajar para longe e saber que regresso, gosto de conhecer o que não conheço, de visitar o rainha sofia sempre que possível, de arroz de cabidela, de raparigas despenteadas pelo vento, de lábios carnudos pintados de red velvet, de peitos pequenos médios e grandes, de pernas em meias de vidro pretas, de música ao vivo em salas escuras e sombrias e em jardins luminosos, gosto de ler jornais em papel, sujar os dedos com tinta, desligar a televisão, jogar ao monopólio e ao risco, gosto dos dias a encurtar e as noites a crescer, gosto de dormir acompanhado, de fazer sexo, mas gosto mesmo é de foder, de gritar alto na rua às duas da manhã, de ouvir as persianas a serem levantadas e gente a ralhar comigo, gosto de passear à chuva à beira do rio, e também gosto muito do inverno, da lareira acesa e a lenha a crepitar, de uma morcela de arroz e um chouriço assado, de uma bifana grelhada nas rulotes ao pé do mercado da cidade, gosto de arroz doce e rabanadas, filhoses e sonhos, gosto do frio que me recorda a vida, gosto de filmes e de teatro, do wenders e do godard, da anna karina e da monica vitti, gosto de estar sentado numa sala e ver os actores ao pé de mim, gosto de tempestades, de relâmpagos e do som cavo de um trovão, gosto de tocar campainhas e de sobreviver ao natal e à passagem de ano, gosto de sentir que o mundo está a acabar para me agarrar com unhas e dentes ao tempo que me resta, gosto do meu pai e da minha mãe, dos meus filhos, mesmo os que não sei que tenho e os que não são meus, gosto de todas as mulheres que foram mulheres da minha vida, e gosto muito das saudades que tudo isto me dá, gosto de escrever, ler e aprender, gosto de cozinhar e de comer, gosto de dançar, pular e rir, gosto de estar com pessoas e brincar com os amigos, mesmo que não sejam muitos, gosto das minhas memórias, mesmo as falsas, gosto muito de viver mas, não tenho medo de morrer

[escrito directamente no facebook em 2020/01/07]

Naquela Época…

Naquela época não havia grande diferença entre o Natal e a noite de Passagem de Ano. A minha mãe passava os últimos dias na cozinha a popularizar odores que enchiam a casa. Havia talvez menos gente na Passagem de Ano. A comida também era diferente. Menos doces. Menos comida de adulto. Mais petiscos. E o que eu adorava petiscos. Também se bebia mais. Não eu, que tinha direito ao mesmo copo de sumo de laranja da Superfresco no Natal e na Passagem de Ano, mas os meus pais diversificavam o que bebiam e que eu ia percebendo pelas diferentes garrafas que se iam abrindo. No Natal era mais o vinho tinto, de garrafas iguais que se iam despejando, umas atrás das outras, enquanto que na Passagem de Ano mudavam frequentemente de garrafa de tipo de bebida e as garrafas não eram bebidas até ao fim. Com excepção do espumante que vertia metade para o chão da sala, sobre a alcatifa que, anos mais tarde, seria toda levantada e o chão de madeira afagado até porque a alcatifa fazia mal à minha bronquite, e o resto era despejado pelas goelas dos meus pais, aos poucos, e a mim era dado a provar um pouco daquelas borbulhas que me faziam impressão no nariz e que jurei nunca vir a gostar. E a verdade é que não gosto muito de espumante. Mas chega a noite da Passagem de Ano e, se ainda estiver em pé, é que há anos em que não chego acordado à meia-noite, já para não falar das Passagens de Ano que faço agarrado ao lava-louças, a lavar a louça do jantar e a evitar falar com quem quer que seja com quem me incompatibilizei por qualquer motivo tão estúpido quanto sem sentido e do qual já nem sei a razão, despejo uma garrafa pelo gargalo e no final arroto sonora e satisfatoriamente para gáudio da criançada que por qualquer azar do destino por cá se encontre.
Naquela época ainda acreditava no Pai Natal, em unicórnios e na bondade do homem. Naquela altura tudo isto me parecia mágico.
Agora a magia termina quando a carteira fica vazia. E tão facilmente ela fica vazia.
Agora sento-me na varanda, uma mantinha por cima dos ombros, e aguardo o fogo-de-artifício que a câmara municipal faz questão de mandar do alto do castelo. Tenho um volume de cigarros e um pacote de dez litros de Capataz. Deve chegar até à meia-noite e mais alguns minutos a acompanhar o fogo-de-artifício pelo ano novo dentro. Depois vou deitar-me. Talvez já bêbado. A desejar que o ano que se abre seja melhor que o que se foi. E doze meses depois perceber que é sempre igual. É sempre tudo igual. A história repete-se. E a minha vida também.
Estou um velho chato e demente. No meu tempo é que era bom. No meu tempo, no tempo em que os meus pais é que tratavam de tudo e eu não precisava de ser nada mais que um miúdo traquina que os pais amavam mais que a vida, é que as Passagens de Ano eram boas.
Agora só quero que tudo passe o mais rápido possível para que a vida recupere o seu regular caminho igual, monótono e chato com que consigo lidar todos os dias.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/31]

Era Natal e Bateram na Porta dos Fundos

E foi na noite do amor, na noite do amor ao próximo, na noite da família, na noite em que (quase) toda gente se reúne à volta de uma mesa a comer, a beber e a partilhar boas experiências e se enterram machados de guerra, dores e invejas e se anunciam cessar fogos, na noite mais cristã de todas as noites, na noite que se celebra o nascimento do Cristo que morreu para nos salvar, o Cristo que pregava o amor, a dádiva, e a redenção, que cristãos saíram do conforto dos seus lares, do conforto das suas famílias do conforto das suas amizades para executarem uma reles vingança contra um pequeno grupo de comediantes que têm como função fazer rir as pessoas, ilustrando o mundo com o ridículo das nossas vidas, da nossa fé, do nosso amor, das nossas convicções políticas, das nossas crenças, um pequeno grupo de comediantes que não apela ao crime, nem à morte, ou à desgraça alheia, nem à vingança, e não fazem pistolas com os dedos da mão, não garantem estar, temerosos, debaixo das leis de Deus, não matam nem achincalham ninguém, só expõem ao ridículo todos os nossos ridículos e foram atacados pelos filhos da fé, do amor, da paz e da sabedoria.
Mas o pior nem estava na garrafa do cocktail molotov que rebentou na fachada do prédio da Porta dos Fundos, mas nos comentários abjectos que se espalharam pelas redes sociais em defesa do indefensável:

“Toda a merda respeita a merda toda… Que morram, esses porcos…”
João Paulo in Expresso;

“Mas qual violência? Então agora só a esquerdalha é que se pode manifestar pelas artes? Trata-se de liberdade de expressão religiosa e estavam apenas a expressar gratidão pela homenagem.”
Flávio Costa in Expresso;

“És um ignorante de primeira, as cruzadas foram uma resposta dos cristãos a quase 300 anos de agressão muçulmana à Europa, os cruzados foram importantes na formação de Portugal, D. Afonso Henriques sem a ajuda dos cruzados nunca teria conquistado o território nacional. Falas de alianças com os fascistas porque o mundo ocidental estava ameaçado pelos comunistas, ninguém matou mais gente que a religião comunista, em meio século mataram mais que todas as religiões juntas. Falas também na inquisição, há quem fale que foram mortos 300 mil mas documentado não chega aos 30 mil, e a inquisição tem de ser posta no seu contexto histórico, as acusações eram feitas por pessoas normais.
Falas também em pedofilia, caso não saibas há mais professores pedófilos que padres, vês alguém a querer deitar as instituições de ensino abaixo?
Vergonha devias ter tu.
A igreja católica tem defeitos mas não deixa de ser a instituição que mais pessoas ajuda no mundo.”
Vasco Gomes in Observador;

“A paneleiragem que arranje assunto para fazer humor com eles próprios, quando é ao contrário vêm logo a correr feitos histéricos a reclamar com tudo e não venham com comparações, se fosse outra religião se calhar já tinham as cabeças penduradas á porta.”
Rui Santos in Observador;

“Eles se dizem ateus e atacam a religião do próximo por motivos políticos, são militantes comunistas que desejam acabar com símbolos da sociedade ocidental como família e religião…”
Márcio Dinis in Jornal de Notícias;

“Os que atacaram a Porta dos Fundos serão os mesmos que perdoam os padres que procuram introduzir o pénis no intestino grosso de criancinhas?”
Pedro Nuno in Público;

“A liberdade de expressão não é mais sagrada que Deus.
Amor não é deixar que escarneçam de quem amamos.
Se preparem agora, pois os muçulmanos não serão mais os únicos que lhes colocará no lugar.”
Helena de Carvalho in Público;

“Auto atacam-se para gerar pena e alertar as autoridades! Um Charlie Hebdo no Porta dos Fundos, por favor!!!”
Samuel Charrano in Correio da Manhã;

“O que é que vocês pretendem com provocações? Falam em liberdade de expressão, mas pelos vistos é só para vocês que conta. Será que em vez de liberdade vocês queriam dizer Libertinagem? Ora se não simpatizam com a religião católica, só têm é que respeitar para também serem respeitados. Ah, mas pelos vistos olhando bem para vocês, só querem é confusão. Não sabem que a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro? Ai não sabem o que é Democracia, Liberdade com Responsabilidade? Olhem, vão para a escola aprender na disciplina de Cidadania os direitos, deveres, tolerância e bom senso comum que cada cidadão deve ter? Vocês querem é carnaval todo ano, porque trabalhar e estudar dá trabalho.”
Maria Marques in Correio da Manhã.

Alguns destes perfis são falsos, criados para defender posições políticas, religiosas e de grupos de influência. Mas outros são bem reais e mostram como nos tornámos tão boçais, intolerantes, estúpidos e mesquinhos.
Mostram também que somos todos muito corajosos escondidos atrás do ecrã do computador e de nomes falsos e fotografias forjadas.
Mostra como estes tempos de prosperidade e crescimento, económico e social, pós-Segunda Grande Guerra, deixou-nos intelectualmente anémicos e desejosos de um caos que, no fundo, não podemos realmente querer.
Enquanto a ciência corre para o futuro, o pensamento tende a fechar-se no passado. Num passado ignorante e obscurecido. De livros censurados. De ideias proibidas. De raças menores. De porcos mais porcos que todos os outros porcos.
E, afinal, devíamos era estar a celebrar o Natal. Lembram-se do Natal, antes de toda esta fúria consumista nos ter atacado?
E fala-se de amor…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/25]