No Aniversário da Minha Mãe

Volto a entrar em casa dela. Um ano depois. Faz um ano que aqui estive. Regresso hoje. Um ano mais tarde.
É o aniversário dela. É a única altura em que a vejo. Em que lhe dou um beijo. Em que falo com ela. Falo!… Digo-lhe Olá!… Parabéns!… Ela oferece-me uma fatia de bolo. Um copo de Vinho do Porto. Diz Já começa a fazer frio, não é? e depois começam a chegar outras pessoas, os amigos, as amigas, o resto da família, e eu vou-me embora. Não gosto de me envolver.
Normalmente levo-lhe um perfume. Um perfume qualquer. Uma embalagem bonita. Ela colecciona frascos de perfume cheios. Usa o mesmo há mais de cinquenta anos. Foi o meu pai que lho ofereceu. E nunca mais mudou de perfume. Às vezes cruzo-me com esse cheiro na cidade e olho à procura dela. Não a vejo, é claro. Não é ela que anda por ali. É só o seu perfume. E não é muito frequente sentir aquele perfume. Já é um perfume antigo e, no meio de tantas e novas fragrâncias, é uma grande pontaria cruzar-me com o perfume que a minha mãe usa já mesmo antes de eu nascer e ser filho dela. Mas colecciona frascos de perfume. Tem um móvel de vidro cheio de perfumes que nunca irá abrir. Gosta de olhar para os frascos. Todas as semanas retira-os, limpa-lhes o pó e dá-lhes novas ordens para que possa olhar para formas e cores diferentes. Quando era mais nova, tinha mais paciência e a mão mais firme, ainda desenhava os frascos de que gostava mais. Às vezes pintava-os. Aguarelas. Ainda tenho algumas aguarelas dela. E algum carvão. Desenhos e pinturas que pedi para trazer quando saí lá de casa. Para me lembrar dela. Para me recordar como tinha sido a minha vida naquela casa.
Eu chego cedo. Antes de toda a gente. A minha mãe enceta o bolo de aniversário para me fazer comer uma fatia. Bebe, ela própria, um copo de Vinho do Porto comigo, dizemos duas ou três coisas, coisas que se repetem de ano para ano, e despeço-me dela antes que comecem a chegar os convidados. Em especial a minha irmã.
Depois dou uma volta a pé pela cidade. De ano para ano torna-se, cada vez mais, estranha para mim. Já não reconheço nada. Nem ninguém. As lojas fecham e abrem outras. Outra gente torna-se senhora da cidade. Esta já não é a minha. Sinto-me desconfortável enquanto caminho ao longo da avenida principal. Não a reconheço e, ao mesmo tempo, parece-me igual a todas as outras que tenho caminhado ao longo dos anos por outros sítios que, agora, me parecem todos iguais. Está uma avenida incaracterística. Numa cidade incaracterística. Cheia de gente incaracterística.
Volto cá por causa da minha mãe. É a minha única âncora a esta cidade. Quando morrer, cortam-se todas as amarras que ainda existem. E se por um lado não quero que a minha mãe morra, antes vá eu que ela que é muito mais precisa às pessoas a quem faz bem que a inação em que me tornei, por outro tenho vontade de nunca mais cá voltar. Faz-me mal cá voltar. Regresso sempre cheio de angústia e tristeza. Penso sempre em tudo o que se perdeu aqui, na minha não-relação com esta cidade. O que eu perdi. O que a cidade perdeu. O que as pessoas da cidade e eu deixámos de ter. Por isso não volto cá mais vezes. Venho no aniversário da minha mãe. A única razão para cá por os pés. Depois…
Páro num café que já foi o meu café. Não reconheço ninguém no lado de dentro do balcão. Não reconheço ninguém na sala nem na esplanada. Bebo uma bica queimada. Como um pastel de nata demasiado doce. Talvez seja má vontade de minha parte. Talvez seja eu que já não tenho maneira de bem-receber as coisas que a cidade tem para mim.
Pago o café e o pastel de nata ao balcão. Depois pago o parque de estacionamento. E saio com o carro. Espero não ter de cá voltar se não daqui a um ano. Saio do parque de estacionamento subterrâneo e descubro que está a chover. Vejo as pessoas a correr para se abrigarem. O céu está cinzento. A cidade também. Continua sem árvores. Vá lá, há coisas que continuam iguais. E, de repente, já não há ninguém na rua.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/29]

A Cápsula do Tempo

Abri a cápsula do tempo e mergulhei lá dentro. Nunca tive um sótão em casa dos avós. Nunca tive casa dos avós. Nem me lembro de ter avós. Sim, tive avós. Toda a gente teve avós. Ninguém é de natureza espontânea. Mas nunca os conheci. Já tinham morrido quando nasci. Os meus pais quase que podiam ter sido meus avós. Eram já velhos quando nasci. Mas a casa deles, que era a minha, não era uma casa de avós. Nunca tive um sótão, uma cave, um buraco cheio de memórias físicas de vidas que não fossem minhas mas das quais me poderia apropriar. Então criei as minhas memórias. O meu sótão. A minha cave.
Fiz a minha cápsula do tempo.
Não era grande. Não guardava muita coisa. Sempre fui de deitar tudo fora. Ou quase. As irritações levavam-me à destruição. Quando acabava uma relação, destruía todas as fotografias da relação, e outras fotografias minhas que me lembrassem a relação, e deitava no lixo todas as coisas que me tivessem oferecido, e as coisas que eu próprio tivesse comprado mas que me lembrassem o contexto que queria esquecer. Nem os livros escapavam. Acabei por ter muito pouca coisa para guardar na minha cápsula do tempo quando a resolvi criar.
Ao nadar dentro da cápsula do tempo, acabei por descobrir um texto escrito há muito tempo sobre o filme Solaris do Andrei Tarkovsky. Não era bem uma crítica nem uma análise sobre o filme. Era mais um estado de espírito motivado pelo visionamento do filme, em especial, o sonho, a mentira e o desejo que a estória constrói para mim.
Começava eu, um outro eu, num outro espaço e num outro tempo do multiverso Pensava que a morte era o fim de tudo. O fim das ideias. Das emoções. Do amor. Pensava, lá no seu íntimo, que o que ficava era somente uma sensação de vazio.
E já não estou a falar da personagem. A cápsula do tempo traz-me a minha visão da personagem Kelvin confrontado com a sua própria mortalidade, e descubro, ao fim de todos estes anos que, afinal, estava no passado a falar de mim no futuro que é já hoje presente.
Pergunto-me se é a profecia da minha própria morte que encontro nos escombros da minha memória em forma de cápsula do tempo? Não serei eu que caminho ao longo do corredor quando ouço a voz dela a chamar-me? Não serei eu a estancar o passo? A voltar atrás e descobrir um passado deitado nu sobre uma cama desfeita que já não está à minha espera porque já lá estive e já lá não posso regressar?
Dou aos braços no mergulho na cápsula do tempo. Nado através das memórias. Vejo algumas com um sorriso na cara. Outras deixam-me ansioso. Descubro uma cassete. Uma mixtape de músicas de outro tempo. Relembro os meus anos ‘80. Tanta coisa que já tinha esquecido! Mas também muitas outras que me acompanharam ao longo dos anos. Envelheceram comigo. Fico irritado porque não tenho onde ouvir a cassete. Algumas músicas ecoam-me na cabeça. Outras, pura e simplesmente esqueci. Gostava de voltar a ouvi-las. Tenho de ir a uma Feira da Ladra. Encontrar um leitor de cassetes que já ninguém usa. Que poucos sabem para o que servem.
Descubro, enrolado numa prata, aquilo que deve ser uma pedra de haxixe. Porque terei guardado aqui uma pedra? Porque é que não a fumei? E depois lembrei-me que deixei de fumar porque me dava paranóia.
Olhei para a pedra. Sorri. Pus a pedra no bolso das calças. Fechei a cápsula do tempo. Saí de casa.
Ando há duas horas à procura de tabaco. Já não se vende cigarros em lado nenhum. Ninguém tem um cigarro para dar. Tenho de pensar em alternativas. Queimar a pedra directamente e aspirar o fumo. Desfazê-la para dentro de uma tosta-mista. Pedir à minha vizinha de cima para fazer uns queques com a pedra. Devia ter guardado um maço de cigarros na cápsula do tempo. Para lembrar da época em que fumava e a vida me parecia muito mais simples e sofrível.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/28]

Decadência

Dói-me muito as costas. Aqui, aqui mesmo. Aqui mesmo ao fundo. Ao fundo das costas. Não percebo se me dói a zona muscular ou os ossos. Talvez seja ciática. Mas não sei. Não sei nada disto. Nem sei mesmo o é que me dói. Só sei que me dói aqui. E que me dói bastante. E incapacita-me.
Não consigo estar bem sentado. Tenho dificuldades em me baixar. Não consigo fazer algumas tarefas bem simples.
Tenho de me sentar para vestir os boxers. Para vestir as calças. Calçar as meias ou as sapatilhas é um drama. Tenho de levantar as pernas. Descansar uma em cima da outra. Não consigo baixar-me para tocar nos pés, enfiar as meias, atar os atacadores.
Quando me sento, tento sentar-me numa cadeira alta e rija. Evito o sofá. Enterra-me. Entorta-me as costas. Na cadeira sento-me direito. Com ângulos de noventa graus. Para ficar direito. Para não sentir as dores.
Hoje deram-me banho. Nunca pensei chegar a este ponto. Já não conseguia tomar banho de imersão. Não conseguia estar deitado na banheira. Tomo de duche, mas não consigo levantar os braços para lavar a cabeça. Não consigo dobrar-me para lavar os pés. Hoje ela deu-me banho. Foi a primeira vez. E tive o vislumbre do meu futuro. Do que me espera. A dependência. A decadência.
Ela não entrou para o duche comigo. Ficou de fora. Molhou-me todo, primeiro. E eu em pé. A tentar estar direito. A tentar esquecer que estavam a dar-me banho porque me tornei incapaz. Depois o champô no cabelo. O sabonete pelo corpo. Não usou luvas. Eram as mãos dela no meu corpo. Debaixo dos braços. No rabo. O sexo. E eu corei. De vergonha. Voltou a molhar-me. A água estava quente e, no fim, acabou por me agradar. Secou-me. Vesti-me sozinho, com muita dificuldade.
Fui sentar-me numa cadeira na mesa da cozinha.
Fumei um cigarro. Li o Correio da Manhã. Folheei-o. Parei nas folhas de Classificados. Olhei para os convites para as massagens de Relax. Para o Convívio. Havia algumas fotografias. De mulheres nuas. De pernas abertas. A convidar-me. E senti um peso no peito. Uma tristeza que se apoderou de mim. Apaguei o cigarro no cinzeiro. Levantei-me e disse, sem a olhar, que ia dar uma volta, assim Vou dar uma volta!
Saí da cozinha para a rua e senti o olhar dela nas minhas costas. Pressenti um olhar preocupado.
Desci o caminho. Fui até à estrada. Fui devagar.
Na estrada virei à direita e fui.
Não me lembro quando tempo caminhei. Quando dei por ela já estava quase a escurecer. Não sei onde estou. Algures, na estrada, no meio de campos cultivados. Girassóis. São girassóis. Não os reconheci porque já estavam virados ao contrário, à espera que o sol volte a nascer amanhã.
Uma luz ilumina a estrada, os girassóis, o mato. É um carro. É ela. Foi à minha procura. Encontrou-me. Abre a porta. Eu entro muito devagar no carro. Sento-me muito direito no banco. Ela põe-me o cinto de segurança. E faz todo o caminho com uma condução suave por causa das minhas costas. E diz-me Está lá em casa uma massagista para te massajar as costas. Mas sem final feliz. Eu sorrio. Ela também.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/26]