O Homem que Vivia Duas Vidas

Naquele tempo eu vivia num pequeno quarto acanhado na Estrada de Benfica, ali para os lados do Arabesco.
Era um quarto assim mais para o comprido e muito estreito. Na verdade, o quarto era metade de uma antiga sala que o senhorio dividiu para poder alugar quartos a estudantes. A gajos assim como eu sem dinheiro para grandes mordomias.
A cama, que na verdade era um divã, ficava num canto sobre o comprido do quarto, com a cabeceira encostada à parede da rua. Isto era num rés-do-chão. Às vezes parecia que as pessoas que passavam na rua estavam dentro do meu quarto, dentro da minha cama, dentro de mim.
Aos pés da cama tinha uma pequena secretária com um banco que enfiava todos os dias debaixo da secretária. Ao lado da secretária, a caminho da porta do quarto, um pequeno baú onde guardava as cuecas e as meias. O resto da roupa estava empilhada em cima da secretária e encostada à parede do outro lado do quarto. As pilhas de roupa faziam companhia às pilhas de livros. Debaixo da cama tinha um cinzeiro. Estava sempre a limpar o cinzeiro. Não gostava do cheiro do tabaco frio. Fumava na cama. E não gostava de fumar na cama. Mas o meu quarto também era a minha sala. A alternativa era ir fumar para a cozinha. Mas aí tinha de partilhar espaço e conversa com os outros inquilinos da casa e o senhorio que, durante a semana, vivia lá. Ao fim-de-semana ia não-sei-para-onde. Mas nunca estava lá. Ia embora à Sexta-feira. Voltava no Domingo à noite. Às vezes à Segunda-feira de manhã.
Foi na minha última semana lá em casa que a conheci.
Tinha saído na Sexta-feira à noite. Andei pelo Bairro Alto. Fui ao Estádio. Ninguém conhecido. Agarrei-me aos flippers. Fui gastando as moedas que tinha no bolso. Na última moeda fiz tilt. Fiquei furioso. Dei uma pancada com força na máquina. Esticaram-me um charro e disseram Acalma-te aí, man! Uma voz de rapariga. Era ela. Passei o resto da noite a entrar e sair de portas no Bairro Alto. A bebedeira ainda nos levou ao Cais do Sodré. Mas durámos pouco por lá. Perguntei-lhe Queres vir lá a casa? E ela disse Yeah!.
Subimos a Rua do Alecrim à procura de táxi. Chegámos a casa. Entrámos no quarto. Entrámos na cama que era um divã. Ela ficou com os pés fora da cama. Foi então que me apercebi que ela era grande. Maior que eu.
Adormecemos os dois agarrados um-ao-outro para não tombarmos no chão. Passámos assim o Sábado. Passámos assim o Domingo. Não comemos. Fumámos cigarros e virámos uma garrafa de Brandy Croft que tinha lá debaixo da secretária. Só saíamos do quarto para ir à casa-de-banho.
Eu acabei por arranjar uma vela que acendi para camuflar o cheiro do tabaco. Não era uma vela de cheiro. Acho que nem havia velas de cheiro naquela altura. Ou eu não as conhecia. Era uma vela daquelas para iluminar a casa quando faltava energia. Estava em cima da secretária.
Foi no princípio da noite de Domingo que aconteceu. Estávamos na cama. No divã. Eu estava em cima dela. Dentro dela. Ela estava com os pés fora da cama. Era grande. Maior que eu. E num momento de maior emoção, deu um esticão com as pernas e bateu na secretária. A secretária abanou. Deitou a vela abaixo. Mas a vela não se apagou. Só demos por ela quando nos cheirou a queimado. Eu ergui a cabeça e vi umas pequenas chamas. A secretária estava a arder. Eu levantei-me. Ela levantou-se. Ela saiu pela porta do quarto. Nua. Foi a correr à cozinha. Eu, nu, pus-me a mijar para cima da secretária. Para apagar as chamas. Quando ela voltou para o quarto, nua, com uma tigela com água para despejar na secretária, cruzou-se com o senhorio, que já tinha regressado a casa.
Ela parou à frente dele.
Ele olhou-a admirado.
Eu tinha acabado de mijar sobre as chamas da secretária e olhei para eles os dois.
Ela disse Olá, pai.
Ele disse Olá.
Eu sacudi-me. Ela entrou no quarto e começou a vestir-se. O senhorio virou-se para mim e disse Vais-te embora. Hoje, e voltou para o quarto dele.
Eu senti-me um bocado perdido. Acabei por me vestir, também. Acabei por sair com ela. Entrámos no Viriato, um pequeno restaurante que havia lá ao pé de casa. Sentia-me com muita fome. Ela também. Pedi um bitoque. Ela também. Mas o dela sem ovo. Bebemos cerveja. E, então, ela contou-me.
Aquele homem, o meu senhorio, era o pai dela. Era o pai dela durante os fins-de-semana. Os fins-de-semana que passava lá em casa. Com a mãe. Com o irmão. Durante a semana era suposto andar a viajar. Caixeiro viajante. O pai era representante de uma marca de tintas e passava a vida na estrada a mostrar o produto que vendia. Atender clientes. Dar apoio. Logística. Afinal, era mentira. Afinal durante a semana era senhorio de uma casa onde alugava quartos a jovens estudantes.
Eu saí de casa ainda durante aquela noite. Subi três andares e fui para casa de um vizinho que conhecia. Duas semanas depois fui dividir um apartamento com mais três amigos da Faculdade.
Ainda andei alguns meses com ela. Depois fui passar uma Queima-das-Fitas a Coimbra e nunca mais regressei a Lisboa. Desisti do curso. Tornei-me DJ em Coimbra, e por lá fiquei.
Lembrei-me hoje desta minha aventura ao ler na revista Visão a história de um homem que tinha duas famílias. Duas famílias simétricas. Duas mulheres. Uma loura. Outra morena. Um casal de filhos de cada mulher. De idades similares.
O pai dela não tinha duas famílias. Mas vivia duas vidas. Não sei como é que elas terminaram. Nem se terminaram. Nunca mais a vi. Nem a ela nem o pai dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/21]

A Culpa Não Morre Solteira

Estávamos os dois ali assim, parados, um frente ao outro. Eu olhava-o, mas não o via. Estava a tentar perceber. Estava ainda a tentar perceber o que tinha acontecido. Ele olhava-me de baixo para cima. O focinho virado para baixo, para chão, e os olhos revirados para cima, a tentar ver-me, com medo mas a tentar ver-me, a tentar perceber o que é que eu iria fazer. Ele sabia que tinha feito asneira.
Eu agarrava a mão com a outra mão. Tinha sangue na camisola, nas calças, nas botas. Havia sangue espalhado à minha volta. A mão estava aberta. Ainda não me tinha começado a doer muito. A doer a sério. Estava ainda um bocado sem perceber muito bem o que tinha acontecido. Só sabia que a culpa era minha. Não era dele. Era minha. O tempo tinha parado. Parado naquele momento de loucura momentânea. Para ele e para mim. Aquele momento pareceu uma eternidade. A olharmo-nos. Um ao outro. A zanga. A fúria. O medo.
E então, começou a doer-me. A doer-me bastante. Acordei. Vi-o. Ele estava à minha frente. A olhar para mim. Eu estava do outro lado do olhar dele. Uma mão agarrava a outra. Rasgada. Quase cortada à dentada. O sangue a jorrar. A dor. Então, sim. Finalmente. A dor. A dor a sério.
Ele estava com fome. Há três dias que estava preso pela corrente à casota. Há três dias que não tinha comida. Há três dias que ia juntando merda ali à volta da casota, até onde a corrente o deixava ir. Há não-sei-quanto-tempo sem água. Há três dias que uma miúda – miúda! uma gaja!… – me levou não-sei-para-onde, e me deu não-sei-o-quê, e estivemos por lá, onde quer que tenha sido esse lá, sem sair de onde estávamos, a fazer tudo o que duas pessoas podem e conseguem fazer quando estão sozinhas não-sei-onde, até que me lembrei do cão. O cão! Tenho de ir dar comida ao cão! E foi então que regressei.
E então, percebi.
Acho que ele estava zangado comigo. E com razão. Acho que estava com fome. E sede. E quando me viu chegar, quando me percebeu ali, de regresso, ali ao pé dele, ali, na zona de exclusão da sua corrente, saltou para cima de mim e ferrou-me os dentes. Ferrou-me os dentes onde me apanhou primeiro. Na mão. Na mão porque foi o que encontrou. Foi a primeira coisa a que conseguiu deitar os dentes. Ferrou os dentes na minha mão e puxou. E eu puxei numa tentativa vã de a fazer soltar. E este conflito de puxar para um lado e para outro quase que me fazia ficar sem mão. E então ele percebeu. Percebeu quem eu era. Percebeu o que estava a fazer. Percebeu que não devia ter feito o que fez. E abriu a boca. Retirou os dentes. Permitiu que eu retirasse a mão. Mesmo com ela rasgada e a deitar sangue para cima de mim, para cima dele, para o chão. E agarrei-a com a outra mão.
A culpa não era dele. A culpa era minha. Eu é que tinha faltado. Eu é que tinha cometido o erro.
Virei costas e voltei a casa. A deixar um rasto de sangue pelo caminho.
O cão ficou lá junto à casota. Encolhido ao lado da casota. O rabo entre as pernas. As orelhas para baixo.
Entrei em casa e procurei um pano. Procurei na gaveta dos panos de cozinha. Agarrei num e atei-o à volta da mão, numa tentativa de estancar o sangue. Precisava de pontos.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Meti a mão boa no fundo do armário e agarrei na caçadeira. Abri a gaveta e apanhei dois cartuchos. Coloquei-os na arma. Fechei o cano. Saí do quarto. Saí de casa. Voltei à casota.
A culpa era minha. Não era dele.
Pensei que teria de apanhar os cagalhões do cão e de lavar tudo à mangueirada. Estava tudo cheio de mijo. Cheirava mal. Tudo cheirava mal. Ele cheirava mal. Até eu parecia cheirar mal.
Aproximei-me do cão. Apontei a caçadeira.
A culpa era minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/25]

Demora a Fazer Efeito

Um breu.
Uma escuridão total. Não vejo um boi. Nada.
Tiro os óculos escuros, mas não ganho grande visão. São dezassete e trinta e já é de noite. Quase. Mas no meio do pinhal, onde eu estou, na estrada que passa pelo pinhal, já é noite quase cerrada. Não há iluminação pública. Não há luar. As luzes do carro são pouco mais que uma vela de cera a queimar no altar em Fátima. Brilha, mas não ilumina.
Este anoitecer tão cedo deixa-me deprimido. Não gosto desta escuridão. Não gosto do frio. Não gosto do Inverno. Não gosto de chá, nem de chocolate quente, nem de um conhaque à lareira. Não gosto da chuva fria e incómoda, da neve e do vento destruidor. Tudo se agrava por se aproximar o Natal. Vejo as pessoas com camisolas grossas de lã e gola-alta. De botas. Casacos de pelo. De penas. De lã. Meias grossas. Gorros. Cachecóis. Ponche quente. Bagaço para a constipação.
Sinto-me deprimir.
Tomo um Cipralex.
Penso que me vai reduzir a libido. Tirar a tesão. E deprimo ainda mais. Esta merda demora a fazer efeito.
Continuo pela estrada ao longo do pinhal e acelero. Tenho pressa em sair daqui. Sinto-me preso. Oprimido pela escuridão nocturna do Inverno. Nem uma estrela para amostra.
Saio do pinhal. Agora cruzo-me com feixes de luz de outros carros. Mas tudo me soa triste. Estas luzes brancas deixam-me nervoso. Irritado. Dirigem-se não-sei-para-onde mas até esse não saber me irrita. Fodam-se, pá!
Chego. Largo o carro e corro para casa. Entro. Acendo uma luz de candeeiro. Duas luzes de candeeiro. Sento-me no sofá e respiro fundo. Gostava de beber uma cerveja no alpendre. Beber uma cerveja e comer uns camarões da Figueira da Foz. Ou umas navalheiras do Tonico, ali da praia das Paredes de Vitória. E ver o sol ir caindo, devagar, lá ao fundo, atrás do mar. No Verão.
O sol já caiu. A lua, não sei por onde anda. Vadia.
Respiro fundo.
Levanto-me e acendo a lareira. Despejo um bocado de brandy num copo de balão e volto a sentar-me no sofá.
Acho que o Cipralex já começou a fazer efeito. Tenho de deitar fora a caixa. Antes deprimido que sem tesão.
Chego-me à lareira. Sento-me no chão. Beberico o brandy. Estou com frio. Mas a começar a aquecer.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/08]