Tudo ou o que Resta?

Quem sou eu, agora?
Todos os dias de manhã, quando me levanto, quando entro na casa-de-banho e me olho ao espelho para fazer a barba, faço essa pergunta Quem sou eu, agora?
E quem sou eu, agora?
Uma mistura de todas as vidas que fui vivendo ou o resto que ficou?
Vasculho-me e nada.
Abro os olhos meio-tombados, amarelos de hepatite, e olho-me ao espelho. Esfrego a mão na cara. Sinto, com prazer, os curtos pêlos da barba por fazer a arranharem-me a mão. Gosto do som que faz.
Molho o pincel na água da torneira. Esfrego-o no sabonete. Olho para o meu reflexo. Bocejo. Espalho a espuma do sabonete pela cara. Com a navalha, em contra ciclo ao nascimento dos pêlos, corto-os. Faço sangue. Vejo-o espalhar-se pela cara através da espuma. Mas continuo a escanhoar a cara.
Quem sou eu? Quem sou eu, agora?
Molho a cara. Retiro esta máscara de limpeza. Olho e sou já outro. Demoro uns nano-segundos para perceber que este que está aqui à minha frente é o mesmo que estava aqui, no mesmo sítio, no mesmo reflexo, uns minutos antes. A cara é outra, mas eu sou o mesmo, ou não?
A verdade é que me sinto diferente se estiver de barba ou de barba feita. O hábito faz o monge? Também.
Mas indo para além dessa hora madrugadora do dia?
Sou a confluência de toda a minha vida ou só o que resta dela?
Vejo uma borbulha de ponta amarela na cara. Escapou à navalha. Tem pus. Espremo-a e vejo sair um fio amarelo-gordura de dentro de mim. Lavo a cara. Penso que dentro de mim transporto lixo e virulência.
Visto-me sem vontade. Sento-me na cama desfeita entre peças de roupa. Boxers. Sento-me. Uma meia. Outra. As calças. Sento-me. Uma camisola. Sento-me. Um sapato. O outro. Outra camisola mais grossa. Sento-me. E agora? O que é que tenho de fazer?
Ouço dentro de mim Ganhar a vida, para me consciencializar. Ganhar a vida. Mas não me faz ganhar força, ganhar a vida. Para quê?
Não serei eu só um resto do que foi ficando?
Do que ficou nas casas que deixei?
Do todo eu que foi ficando para trás? Nas mãos das amantes, dos amigos, da família? O que deixei numa chávena de café? Na cinza de um cigarro?
Levanto-me da cama. Sinto os meus passos cruzarem o quarto, o corredor, a cozinha, O que é que vim aqui fazer?, o regresso ao corredor. A mão a abrir a porta da rua e sair.
Quem sou eu, agora?
Sou talvez um resto. Uma cara vagamente familiar e uma mente confusa. Talvez aquilo que mais ninguém quis e que me sobrou. O restolho.
Ou sou tudo isto e mais o resto. O que sou e já fui. O que já esqueci, o que deixei e o que trouxe. O que li. Mesmo o que não li, mas tenho para ler. O que vi. O que aprendi. O que amei. E tanto que amei.
Porra, sou uma grande confusão.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/30]

Ainda Estou Zangado?

Parámos em frente um do outro. Apanhados na coincidência. Ela a sair. Eu a entrar. Ela parou dentro do elevador com a mão a bloquear o sensor. Eu fiquei lá fora, à espera de poder entrar.
De início foi um reflexo condicionado. Intuitivo. Esperar que saíssem para eu entrar. Ela vinha, simplesmente, a sair do elevador. Mas entretanto, demos um com o outro. E bloqueámos. A porta do elevador, e não só.
Foram só alguns segundos. Talvez mesmo, uns nano-segundos. Mas que pareceram minutos. Uma hora. Talvez a eternidade.
Quando fora a última vez que estivéramos assim tão próximos? Fisicamente, digo. Quando? Talvez em São Pedro de Moel, quando ela disse o que disse. Ela na sua toalha. Eu na minha. Estávamos também assim, a esta distância um do outro. Mas um muro a separar-nos. Um fosso. Uma incomunicabilidade. Lembro-me que me levantei da toalha. Corri para o mar. Mergulhei. Mergulhei no mar de São Pedro de Moel. No mar Atlântico de São Pedro de Moel. Estava maré cheia. Mergulhei. Furei uma onda. Depois nadei um pouco em frente. Estava furioso. Mas ainda ouvi o apito da Natália. Prrrri! Prrrri! Sabia que o mar estava perigoso. Bandeira vermelha. Mas não conseguia voltar para trás. Encarar toda a gente. Levar um ralhete da Natália. Virei para a esquerda. Nadei ao longo da praia, mas para fora daquela zona. Para longe de toda aquela gente. Para longe dela.
Ela estava com a mão a bloquear o sensor para não deixar fechar a porta. Não sei se estava à espera que eu entrasse ou se queria sair mas não queria passar por mim. Não sabia bem o que estava ali a acontecer. Mas pensei na relatividade do tempo. Pensei que todas as análises que estava a fazer, como se fosse um algoritmo, estavam a acontecer à velocidade da luz e que, na realidade, este cruzamento não durou mais que um breve instante. Não mais que o momento em que os meus olhos olharam os olhos dela que olharam os meus. Um sopro.
O que é que estás aqui a fazer? pensei. O que é que estou aqui a fazer? pensei.
Nadei ao longo da costa. Passei a praia. As várias concessões. As várias Natálias. E saí já depois da zona das rochas. Nas praias mais afastadas. Estava cansado. Deixei-me cair na areia. Na areia molhada fustigada pelas ondas da maré cheia. Sentia a areia a fugir debaixo do meu corpo. Mas estava cansado. Precisava de descansar um pouco antes de me levantar. E quando me levantei, estava cheio de areia. No corpo. Dentro dos calções. No rabo. Na cabeça. Nas orelhas. Mas fui em frente. Subi a duna. Andei pela mata. Apanhei uma estrada. Uma estrada esburacada. Uma rua. Entrei num café. Pedi para fazer um telefonema. Telefonei. E disse Vem buscar-me, e sentei-me numa mesa, molhado, cansado, descalço e só de calções de banho. Pedi uma imperial. E elas foram chegando até chegar quem me vinha buscar. Não sei o que aconteceu depois. Perdi-me nas imperiais. Acho que fiz uns submarinos. Está tudo muito nebuloso. Mas nunca mais a vi. Nunca mais nos vimos. Até hoje. Até agora.
Ela tirou a mão do sensor e saiu do elevador. E quando saiu disse Olá!, quase sobrepondo-se ao meu Olá!, que disparei mal a vi mexer-se e sair do elevador, mas um bocadinho mais atrasado que o dela. Não sei se ela ouviu o meu cumprimento. Eu ouvi o dela. E entrei no elevador. Quarto andar. Dentista. Será que ela ouviu o meu olá? Ou acha que sou mal-educado? Ou que ainda estou zangado com ela? E estou? Ainda estou zangado com ela?
E o que é que isso importa, agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/09]

A Mosca Mole

Estava nu em cima da cama.
Puxei o edredão para baixo, despi-me e deitei-me em cima da cama. Estava à espera dela. Deixei a porta da rua no trinco e vim esperá-la na cama. Era uma surpresa.
Mas a porra da mosca apareceu por ali e nunca mais foi embora. Uma mosca daquelas chatas, moles, que anda ali a voar baixinho, devagarinho, que passam junto aos ouvidos e fazem iiãooo, e irritam, incomodam, dão cabo dos nervos. Pousam em todo o lado. Estão moles mas quando as tentamos apanhar, são sempre rápidas. Mas não tão rápidas que não fiquemos com a sensação que é possível apanhá-las. Mas é raro acontecer. Só com alguma sorte. Ou insistência.
Ela estava atrasada.
E a mosca não ia embora.
Estava a azucrinar-me.
Levantei-me. Agarrei na camisola que tinha largado no chão e pus-me à cata dela.
Abri os estores. As luzes do tecto. Os candeeiros das mesas-de-cabeceira. Tudo para ver melhor. Onde é que andas, minha vaca? disse alto para a mosca.
Vi-a na parede. Levei o braço atrás e mandei-lhe rápido com a camisola em chicote, mas vi-a sair. Eu vi a mosca escapar nano-segundos antes de a camisola lá chegar. Merda.
Agucei o olhar. Procurei no tecto e nas paredes brancas. Nada. Olhei para os lençóis brancos. Para a cabeceira da cama. Para uma mesa-de-cabeceira. Para a outra. Nada também. Foi embora, pensei.
Larguei a camisola no chão. Desliguei as luzes. Baixei os estores. Voltei para cima da cama. E ainda não estava deitado quando a ouvi zunir ao meu ouvido, iiãooo! Parou no meu joelho e começou a subir pela perna acima. Mandei-lhe com a mão aberta. Nada. Foda-se, pá!
Voltei a levantar-me. Puxei de novo os estores. Acendi as luzes. Todas as luzes. Agarrei na camisola e recomecei à procura da mosca.
Olhei pormenorizadamente para cima do móvel. Dos livros em cima do móvel. Nada.
Virei-me para o armário. Vi e revi cada canto das portas do armário. Nada.
E então, vi o ponto negro, solitário, parado na parede branca por cima da cabeceira da cama. E comecei a aproximar-me dela. Devagar. Devagarinho. Com o braço puxado atrás. E a camisola tombada, agarrada pela mão.
Olá! Cheguei!… ouço dizer atrás de mim. Viro-me e vejo-a à entrada do quarto. E continua O que é que estás a fazer aí todo nu?
Eu viro-lhe as costas e resmungo entre os dentes Agora não!, e reparo que a mosca já não está onde estava. Foda-se! Sai daqui que tenho uma guerra para ganhar! disse-lhe, brusco. E ela saiu.
E eu fui à procura da mosca. Tinha de a encontrar.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/31]