Uma Vida Arrumada em Caixotes

Tenho a vida toda arrumada em caixotes. Em caixotes grandes e em caixotes pequenos. Cada memória tem o seu caixote. Tenho os caixotes numerados. Identificados. E depois arrumo-os todos na despensa, no roupeiro do corredor, por cima do guarda-fatos do quarto. Quando tenho necessidades, vou à procura dos caixotes. Há sempre um caixote para mim. Para aquele momento. Para aquele momento específico. Normalmente esta necessidade acontece-me quando estou bêbado, deprimido ou demasiado só. Mas às vezes é só mesmo saudades do passado.
Hoje abri um caixote. Um caixote à sorte. Um caixote que não me lembrava que tinha. E quando o abri, libertei uma série de fantasmas que contribuíram para ter chegado aqui, coxo, onde cheguei. Mas o mais importante foi mesmo a memória desses fantasmas. Não sabia que eles existiam. Que ainda os tinha. Descobri um caixote com bilhetes dos concertos da minha juventude. Bilhetes de uma época em que a bilhética era também uma forma de arte. Os bilhetes eram personalizados. Remetiam para épocas e para as tournées que as bandas estavam a produzir ou para os álbuns que andavam a promover. Descobri, com alguma surpresa, como a parte de trás dos bilhetes era um mundo cheio de informação numa altura em que ainda não havia Google, a internet ainda era um bicho de sete cabeças e eram ainda poucas as pessoas que tinham computador e sabiam o que era o Windows.
Coloquei o primeiro disco das 69 Love Songs dos Magnetic Fields, em época de vinte anos de aniversário, na alta-fidelidade. Abri a janela. Sentei-me no chão da sala. O caixote aberto. Acendi um cigarro. Meti a mão. E trouxe um monte de bilhetes.
Os meus olhos brilharam. Vários bilhetes dos Mão Morta. Naked City. Miles Davis. Vários do Nick Cave. Pogues. Lords of the New Church. R.E.M. Sundays. Durutti Column. Varios dos Metallica. Até Manowar e outras coisas assim, mais bizarras.
À medida que ia passando os bilhetes, ia-me lembrando de pequenas histórias que os acompanhavam. Coisas que me aconteceram. Pequenas estórias que vivi. Desatinos com amigos. Nascimento de amizades. Morte de outras. E o sexo! A quantidade de sexo que os concertos traziam. O que é feito desta minha vida?
Lanço a beata para a rua através da janela aberta.
Fecho os olhos.
Volto atrás no tempo. Regresso aos meus vinte anos. Que se foda o futuro. Este futuro. O meu futuro. Quem quer saber deste futuro de merda com um passado tão cheio? Volto à escola. Não, não à escola. À universidade. Ao Bairro Alto dos anos ‘80. Ao Cais do Sodré das putas e dos marinheiros. A uma Lisboa que me fascinava. Uma Lisboa provinciana, feia, malcheirosa, de prédios abandonados e a cair, mas cheia de vida e de gente com vida. Uma Lisboa de padarias abertas às cinco da manhã. Uma Lisboa de arrufadas e sardinhas assadas. De gente que falava alto e mijava nos cantos da cidade. Dos charros fumados às escondidas e dos selos passados de língua em língua. De namorados a correr de mãos dadas pelas ruas esconsas e de asfalto esburacado.
Volto atrás no tempo e não quero regressar mais. Fecho-me no caixote com os meus bilhetes e as minhas estórias. Que se foda o futuro que não é meu. Que se foda esta Lisboa impessoal, fria e gananciosa. Eu quero o meu mundo de paixões.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]

Anúncios

Uma Cama de Corpo-e-Meio

Todas as Quartas-feiras eu ia ter a casa dela. Ia logo de manhã, depois dos pais terem saído para o trabalho e a irmã ter ido para a escola. Em dias de chuva ou de sol, lá estava eu a tocar à campainha na forma de um código de toques, para ela saber que era eu e, se os pais e a irmã já tivessem saído de casa, ela dizia Sobe, babe! pelo intercomunicador e só depois abria a porta da rua. Nunca foi diferente. Os pais, ou a irmã, nunca, por uma vez que fosse, estiveram em casa numa Quarta-feira durante aquele ano.
Eu subia o elevador numa excitação tal que, nas primeiras Quartas-feiras, só com a expectativa do que se adivinhava, vinha-me antes de lá chegar. Era com enorme vergonha que a via a olhar para a mancha nas calças com que eu entrava em casa dela. Mas o desejo era maior que a vergonha.
Ela estava quase sempre de pijama. Às vezes de camisa de dormir. Mas normalmente era de pijama, naqueles pijamas de turco, amarelo, com um desenho infantil qualquer à frente, mas que já não recordo.
Pegava em mim, pela minha mão, e levava-me para o quarto que era dela. Dela e da irmã. E ficávamos lá os dois sozinhos, toda a manhã, até quase à hora do almoço, altura em que saíamos de casa dela e íamos até ao liceu almoçar e às aulas da tarde.
Às Quartas-feiras não tínhamos aulas de manhã. Era a única altura em que não tínhamos aulas, numa semana bastante preenchida de manhã até ao final da tarde. E tudo começou com um trabalho de grupo. Uma trabalho de grupo que acabou por ser a dois. Em casa dela. No quarto dela. Com ela. E tudo aconteceu. De uma forma natural. Tão natural como estas coisas podem acontecer. Uma anedota ou outra. Um sorriso. Depois um riso. Uma conversa sobre gostos, paixões, desejos. Encontros nos livros mas, principalmente, nas bandas de música. A vontade de tocar. De beijar. E, depois, depois passou a acontecer todas as Quartas-feiras.
Eu saía de casa para as aulas, só que não tinha aulas. Fazia o caminho a pé, a gerir as expectativas. Pensava naquelas três horas em que ia estar junto dela, em casa. Sozinhos. Nus. Na cama pequena dela. Na cama pequena em que tínhamos de estar muito juntos, agarrados, para nenhum de nós cair. Ou ela em cima de mim. Para cabermos os dois. E como ela gostava de estar em cima de mim! E eu gostava que ela estivesse em cima de mim. Gostava de a ver cá de baixo. O corpo dela a crescer sobre mim. Os olhos semi-cerrados. A cabeça a bailar. Os braços esticados ao céu. Às vezes, as gotas de transpiração que eu via na sua trajectória pelo corpo dela, até caírem sobre mim, sobre o meu corpo, a minha cara, a minha boca, e eu saborear todo aquele sal que o corpo dela exalava.
Isto começou a meio do primeiro período e durou até ao final do ano. Acabou quando as aulas acabaram. Cada um foi para as suas férias e, no ano seguinte, fomos parar a turmas diferentes e nunca mais tivemos uma Quarta-feira. Sim, porque a nossa relação resumia-se às Quartas-feiras. Em casa dela. No quarto dela. Na cama dela. Fora dali tínhamos uma relação quase inexistente. Não éramos namorados. Nem sequer amigos próximos. A nossa proximidade estava toda ali, naquele quarto, às Quartas-feiras.
Houve um dia em que as coisas tiveram uma narrativa diferente. Naquele dia ela levou-me para a cama dos pais. A cama estava por fazer. Era ela que a deveria fazer. Mas antes de puxar os lençóis e os cobertores, deitou-se lá em cima e puxou-me para cima dela. E invadimos a cama dos pais, ela e eu, e desfizemos ainda mais a cama. No fim fomos para a varanda fumar um cigarro, sentados no chão da varanda, a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas como algodão doce. Deixámos a porta da varanda aberta para arejar a cama. Depois eu ajudei-a a fazê-la. E fomos para o liceu.
Nesse dia, ao final-do-dia, quando cheguei a casa, soube que o meu pai tinha morrido num acidente automóvel. O resto do ano foi muito doloroso. As notas acabaram por se ressentir. Consegui passar de ano à tangente. Mas nunca falhei uma Quarta-feira. Não, as Quartas-feiras eram sagradas. Ainda hoje não consigo dormir em camas-de-casal. Ainda hoje durmo sozinho, numa cama de corpo-e-meio.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/31]

No Rio Lena

Desço a Serra dos Candeeiros. Tirei boas fotografias. A Serra é bonita na sua austeridade. Vegetação rasteira. Pedras. Pedregulhos. Uma certa aridez. Depois, uns tufos de árvores muito verdes. Assim muito juntas. Como um ramo. Uma casa ou outra à distância. E a omnipresença da torres eólicas. Gosto da sua dimensão majestosa. Mas é difícil fugir-lhes.
Lá pelo meio, umas cabras. Umas ovelhas. Encontrei uns namorados. Estavam nus. Encostados ao carro. Fotografei-os. Não deram por mim.
Estou a descer a Serra. Cruzo-me com uns vendedores de fruta. Estão num cruzamento. Páro o carro. Compro umas cerejas. Mas estão um pouco esbranquiçadas. Compro também uma melancia. Cheira bem. É pesada. Mas as pontas estão macias. Pago. Volto a arrancar.
Na rádio, percebo que está a começar o jogo da final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Porto. Estou perto de Porto de Mós. Estou nas margens do rio Lena. Volto a parar o carro. Estou no pinhal. Saio. Ouço a água do rio a correr suavemente. Este rio é pouco caudaloso. Às vezes seca. Mas agora ainda leva água. Refresca o ambiente. Tiro uma manta do porta-bagagens. Olho para as cerejas, mas vejo-as tão pouco convidativas que as ignoro. Agarro na melancia. E no canivete-suíço que anda sempre no porta-luvas do carro. Deixo a porta aberta para ouvir o relato no rádio do carro. Sento-me na manta. Começo a cortar a melancia. A tarefa não é fácil porque a lâmina é curta e não chega ao fim da melancia. Corto pedaços pequenos. Vou comendo-a aos poucos. Devagar. E ouço o relato.
Sabe-me bem a melancia. Não está muito fresca. Mas está saborosa.
Acendo um cigarro. Deixo-me cair na manta. Olho para o céu. Não há nuvens. Não posso imaginar caras, bonecos, animais nas nuvens brancas do céu porque não estão lá. Olho o céu azul limpo. Um azul chroma. Vejo o fumo do cigarro a subir. Ouço o Lena a correr ali ao lado. O Sporting a medir forças com o Porto. Gosto desta calma. Gosto desta solidão.
Levanto-me da manta e vou até ao rio que mais parece um pequeno ribeiro. As margens estão verdes. Há uma mulher a molhar os pés nas águas frescas do rio que mais parece um ribeiro. Levanta ligeiramente o vestido, com as mãos, para não o molhar. Ela vira-se para trás. Olha para mim. É belíssima. A mulher mais bonita que vi na vida. Ela sorri. Eu vou até ela. Entro com as sapatilhas e as calças dentro de água. Aproximo-me dela. Vou para falar mas não sai nada. Estou mudo perante a sua beleza. Ela levanta uma mão à minha cara. Afaga-a. Puxa-me. Abraça-me. Envolve-me. Beija-me. E eu deixo-me ir. Beijo-a. Abraço-a. Sinto uma força electrificada a percorrer-me o corpo. Sinto que caímos abraçados. Caímos no rio. Caímos mas flutuamos. Abraçados um ao outro. Num beijo longo e molhado. As mãos percorrem os corpos. As minhas e as dela. No meu e no dela. E parece que temos quatro. Oito. Doze mãos. Mãos que libertam os corpo e os levam para fora da realidade. Para lá do rio. Para lá do céu azul.
E depois ouço Grandes penalidades. E não entendo. Grandes penalidades. Um bruá geral. Gritos. Palmas. E está tudo azul. Um azul menos forte. Mas ainda azul. É o céu que está azul. Um céu sem nuvens. Tenho uma beata apagada entre os dedos. Há cinza na manta. Uma melancia quase inteira. Ouço a água a correr no Lena, ali ao lado.
E alguém muito histérico grita Sporting, Sporting, Sporting!
E percebo que estava a sonhar. Não existe a mulher mais bonita que já tinha visto. Ouço o final da Taça de Portugal. Percebo que o Sporting venceu o Porto nas grandes penalidades. Depois de noventa minutos empatados. Depois de mais um prolongamento empatado. Venceu nas grandes penalidades.
Levanto-me. Arrumo a melancia. A manta. Desço ao rio para lavar as mãos. E vejo uma mulher no rio. A mulher mais bonita que vi na vida. Está a molhar os pés nas águas frescas do rio. Com as mãos, levanta ligeiramente o vestido para não o molhar. Olha para mim. Olha para mim e sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/25]

O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]

Cada Vez Mais Longe, Cada Vez Mais Fundo

E o patrão disse-me Não fazes mais que a tua obrigação!, e eu fiquei fodido. Obrigação? O amor não se tem por obrigação.
Hoje o dia acordou cheio de sol. Nem pensei muito. Sou dado a decisões irreflectidas. Não fui trabalhar.
Arranquei para a praia. Não me cruzei com nenhum carro na estrada. Quando lá cheguei, não vi ninguém. O café aberto, mas vazio. Desci até à praia. Entrei na areia. Caminhei. Caminhei muito. Caminhei bastante até me afastar.
Não havia ninguém na praia. Nem pescadores. Nem casais de namorados. E, no entanto, estava um dia maravilhoso para passear na praia, para namorar à beira do mar, para dar asas à loucura e fazer sei lá o quê.
Gritei. Gritei para o alto. Para o céu. Mas ninguém me ouviu. O meu grito foi comido pelo rebentar das ondas no mar. Estava um belo dia de Primavera neste Inverno, estava um belo e quentinho sol, mas o mar estava bravo. Parecia irritado. Vomitava espuma amarela que vinha subir a areia. Batia com força no fundo e nas rochas e espalhava gotas de mar por cima da praia suja e de mim.
Sentei-me na areia a contemplá-lo. Gostava de o ver. Era um bonito e assustador bailado debaixo de um som gutural que ampliava o medo.
Num salto irreflectido levantei-me e comecei a despir-me. Dobrei a roupa muito bem dobrada e coloquei-a na areia, peça em cima de peça, e as sapatilhas em cima de tudo, para fazer peso e a roupa não voar. Depois fui lentamente, mas decidido, até ao mar. E fui entrando lá dentro. Devagarinho. A água estava gelada. Fui-me adaptando, aos poucos, mas fui entrando, cada vez mais longe, cada vez mais fundo.
Fui molhando o corpo com as mãos. A água começou a subir por mim acima. A minha masculinidade ficou reduzida ao mínimo. Não a sentia. E então mergulhei. E nadei um bocado debaixo de água para fora da rebentação.
Vim ao cimo do mar um pouco longe da praia. E fiquei a vê-la como se estivesse a despedir-me.
Fiquei ali um bom bocado, a boiar em pé, a subir e a descer nas ondas, a ser levado, lentamente, pela corrente, lá mais para dentro, a ver a praia a ficar cada vez mais distante, até que comecei a pensar Eu não sou lá grande nadador. A minha filha é! A minha filha é uma grande nadadora. Eu não. Mas continuava ali, a sentir-me levado lá para dentro.
E foi então que vi um cão. O cão estava à beira do mar a ladrar. Corria de um lado para o outro a ladrar. E, num segundo, pareci reconhecer aquele cão. Aquela forma de correr de um lado para o outro. Aquela forma de ladrar, consecutiva com pausas rítmicas. E depois vi passar à minha frente, no mar, uma garrafa de plástico de litro e meio, vazia, mas fechada, e percebi que o cão estava atrás da garrafa, exactamente como…
E nadei para a garrafa, agarrei-a e comecei a nadar em direcção à praia. Mas era difícil. A corrente estava cada vez mais forte. Insisti. Dei aos braços. Forcei. Forcei-me. Nadei. Nadei com muita força. Com muita vontade. Determinação. Enfiei a cara dentro de água, prendi a respiração, e forcei os braços ao longo das ondas até ao limite das minhas forças e da minha capacidade torácica e descobri-me, finalmente, na areia, com as ondas a rebentarem-me em cima. A espumarem-se em mim.
Cambaleante de cansaço procurei o cão com a garrafa de plástico na mão. Mas não o vi. Não o ouvi. Fechei um pouco os olhos para fazer foco e perscrutei os horizontes da praia. Nada do cão. Nem ninguém. Nada.
Sentei-me na areia. Molhado. Ao lado da minha roupa. E fiquei ali um bocado. Ao sol. A secar.
Por fim vesti a roupa e saí da praia. O sol estava lá no alto. Bonito e quente. Não havia nuvens no céu. Nem gente na praia. Nem um cão.
Levei a garrafa de plástico comigo e fui-me embora.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/21]

Quando o que Resta São as Memórias

Começou a chover quando cruzava a cidade à ida para casa.
Não tinha chapéu-de-chuva, nem anoraque. Dei uma corrida pequena até ao toldo de uma loja. A asma não me deixava correr mais. E a chuva… Já não tinha idade para enfrentar a chuva.
Encostei-me à montra da loja e acendi um cigarro.
Lá de dentro da loja saiu um senhor que, com a mão, fez sinal para me desencostar do vidro. E eu desencostei-me e sorri-lhe, um pequeno sorriso de desculpas.
Ao contrário de mim, a cidade estava preparada para a chuva. Na rua passavam homens e mulheres de chapéu na mão. Apressados. Havia alguns coloridos, de motivos alegres e bem dispostos mas, a maioria era preto e cinzento.
Os carros fizeram logo uma fila lenta, de faróis vermelhos e amarelos que reflectiam na gotas da chuva e tornavam o cenário da cidade irreal.
Um casal de namorados passava, de mãos dadas, debaixo da chuva, sem chapéu nem impermeável. Estavam molhados, mas eram adolescentes, irreverentes, e não ligavam a pormenores sem importância como a chuva. Tinham o sangue quente e a pele de gortex.
Enquanto fumava o cigarro e os via passar, lembrei-me de quando eu também não tinha medo da chuva. De quando era novo e jogava à bola na rua, debaixo de fortes chuvadas, e a minha mãe vinha à janela da cozinha gritar por mim, gritar o meu nome em diminutivo, zangada, a prometer-me uma valente tareia porque a chuva me fazia mal e eu ainda ia ficar doente, Raios partam o rapaz, dizia.
Lembrei-me, também, de um beijo trocado debaixo de um forte temporal, e que terminou em ida para casa dela, tomar banho e enfiarmo-nos debaixo dos cobertores o fim-de-semana inteiro, só pondo a cabeça de fora para fumar um ou outro cigarro e comer o que havia lá por casa. Fruta, principalmente. E não precisávamos de mais.
Acabei o cigarro, deixei-o cair no chão e fiquei a vê-lo ir na correnteza de um pequeno riacho que o levou até um bueiro à beira da estrada.
E pensei que era o que me restava, agora. Memórias. Eram as memórias que eram a minha vida, porque a minha vida, hoje, já não tinha nada que merecesse ser lembrado amanhã. Só mesmo as memórias. E nessa altura senti-me o velho que na realidade era.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/08]

À Espera que o Tempo Passe

É Sábado. Vésperas de Natal. Há uma espécie de histeria no ar. A cidade é inundada de pessoas. As lojas, de portas abertas, estão cheias de gente que mexe em tudo como se tivessem olhos nas pontas dos dedos. Ir ao Centro Comercial é suicídio e decidir estar uma hora numa fila de trânsito que não anda.
Os restaurantes estão cheios. Alguns já quase só funcionam por marcação como nas grandes metrópoles.
Eu também decidi sair de casa. Estou sem luz. Não paguei a conta a tempo e cortaram-na na Quinta-feira passada, à noite. Agora só posso ir pagar na Segunda-feira. Até lá estou às escuras. Sem televisão. Sem aquecedores. Sem água quente para o banho. Nem a comida posso fazer. Não sei se foi boa política ter tudo eléctrico em casa. Por isso, que é que faço aqui? Saí.
Fui até às rulotes. Vou muito às rulotes. Por vezes até fica mais caro que em alguns restaurantes da cidade, mas fica a impressão de que se poupa. Estar a comer em pé, ao frio, um bocado de pão com uma bifana, e acompanhar com uma mini, parece mesmo uma refeição triste e barata.
Não era o único. Nunca sou. Aliás, as três rulotes que estavam a funcionar estavam à pinha. Havia ali muita gente como eu. Uma bifana, frita ou grelhada, um hamburger, ou um cachorro-quente que mais não é que uma salsicha cozida com batata palha e uma série de molhos. Mas as pessoas gostam. É pena não haver batatas fritas ruffles da Matutano.
Saio da rulote de estômago composto e, antes de me ir enfiar na cama, passeio um pouco pela cidade. E vejo que ela fervilha de gente. Grupos de miúdos, de raparigas. Grupos de capa e batina. Namorados. Casais. Parezinhos. Gente que parece divertida e que se diverte. Gente que sorri. Que ri. Gente que se beija. Passeia de mãos dadas. Gente que conversa. Que discute. Gente que vive e que ama.
Passo por isso tudo e sinto-me emocionado. Tenho pena de não sentir o mesmo. Tenho pena que tudo isto me passe ao lado. Mas não poderia ser de outro modo.
Já em casa, vou até à varanda fumar um cigarro. Parece que amanhã chega a Ana. Um furacão feminino. Não tenho nada em casa para lhe oferecer. Acho que vou ficar deitado na cama o dia inteiro. Acho que não vou ter pachorra para a receber. Vou adormecer e esperar que surja a Segunda-feira para poder tomar um banho de água quente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/09]