Led Zeppelin

Era Verão. Eram as férias de Verão.
Era uma guitarra acústica nas mãos de um gajo qualquer. Era o Stairway to Heaven nos ouvidos das miúdas. Eram as miúdas enroladas, na areia da praia, à noite, nas mãos dos gajos que tocavam, mal e porcamente, aquelas notas.
Era a praia à noite. Talvez em São Pedro de Moel. Mas também podia ser na Nazaré. Ou no Pedrogão. Era a praia à noite. O barulho das terríveis ondas atlânticas a fustigar a praia. Não via o mar. Mas via a fogueira a arder na areia da praia. As meninas de longos cabelos aloirados pelo sol. Os meninos loiros de Wax. As camisolas coloridas da Benetton penduradas pelas costas, atadas num frágil nó ao pescoço. E um cabeludo. Um cabeludo de caracóis e guitarra na mão fascinava as miúdas com uma música xaroposa. Daquelas para o coração. Daquelas de paixão. Daquelas capazes de abrir as portas do paraíso a qualquer imbecil.
Era Verão. Era a praia à noite. E eu não sabia tocar guitarra.
Ainda tinha cabelo. Cabelo comprido. Aos caracóis. Castanhos. Era magro. Bastante magro. A minha mãe dizia, num determinado período, que eu era pele-e-osso. Podia ser um músico. Um gajo dos Led Zeppelin. Podia ser uma estrela rock. Podia!
Não sabia tocar guitarra. Nem mais nada. Talvez a porra da campainha da casa dos vizinhos em quem me vinguei por não saber tocar mais nada. Não sabia cantar. Nem sei. Desafino. Desafino!? Não chego sequer a desafinar porque a voz foge-me antes de desafinar.
Estava na praia. Numa praia qualquer destas cá para cima. Para cima do Tejo. Para baixo do Mondego. Estava na praia, sentado na areia, a fogueira a arder, a ouvir um tipo a tocar o Stairway to Heaven e a assar umas chouriças e a fazer tempo para ir à padaria comprar pão fresco, quente-e-fofo, que iria barrar com Planta roubada no supermercado do Parque de Campismo. Alguém passou um cachimbo de prata. Um pequeno cachimbo feito com a prata dos maços de cigarros. Os maços de hoje não dão para isso. Na altura dava. E eu fumei. Enchi os pulmões de fumo. Prendi-o. Inspirei mais. Rebentei em tosse. Passei o cachimbo ao lado. A uma mão qualquer ao lado. Deitei-me na areia. Ouvi as notas do Stairway to Heaven e desatei a rir. E disse Mas isto é uma merda! Uma merda do caralho! e mal cheguei a casa, no fim das férias, fui a correr comprar o duplo álbum em vinil, The Song Remains de Same para ouvir, até à exaustão, a tal música de praia que punha as miúdas a rebolar na areia.
No Natal acabei a pedir uma guitarra ao Pai Natal. Ele não me ouviu. Nunca aprendi a tocar guitarra. Mas continuei a ouvir Led Zeppelin.
Anos mais tarde, refiz a colecção toda dos Led Zeppein em CD’s especiais com discos extra, gravações ao vivo e assim. Não voltei a comprar The Song Remains the Same.
É Inverno. É Inverno e chove lá fora.
Estou à lareira. A ver a lareira a arder. A ouvir o crepitar da madeira a queimar que se mistura com o Black Dog. Cresci. Envelheci. Ainda tenho cabelo. E cada vez gosto mais dos Led Zeppelin. Mas nunca mais ouvi o Starway to Heaven. Amores de Verão enterram-se na areia. E eu estou no meu Inverno. Rock and roll.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/19]

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Senti-a Deslizar por Mim Abaixo

Íamos abraçados. Eu e ela. Íamos abraçados a atravessar a praça. Ela estava a dar-me um beijo no pescoço, eu sorria, quando ouvi um silvo.
E depois o silêncio. Um silêncio ensurdecedor.
O corpo dela deu um esticão. Bateu no meu. Senti-a tremer. Mais que tremer, abanar, como se fosse uma folha de papel num turbilhão de vento.
O tempo abrandou. Quase que parou. Eu virei a cara para ela e vi-a cair para o chão. Ela deslizava suave, mas pesadamente, ao longo do meu corpo, para o chão.
Eu vi cada milímetro dessa queda. Eu vivi inúmeras vidas enquanto assisti a essa queda.
Eu vi-a escondida, atrás do sofá, a jogar às escondidas em minha casa. Eu vi-a a pular do prédio em obras para um monte de areia, só para fazer o mesmo que eu. Eu vi-a a gritar por mim enquanto eu marcava um golo num jogo de andebol. Eu vi-a, molhada, a sair do mar em São Pedro de Moel. Eu senti-a colada a mim, a dançar uma música xaroposa na Hot Rio, na Rio Mar, na Locopinha, na Stress Less, na Green Hill, na Princess, na Sunset, no Alibi…
E ela ainda não tinha chegado a meio da queda. A minha vida estava toda concentrada ali, naquele nano-segundo enquanto ela caía, deslizava ao longo do meu corpo, e o meu braço não a conseguia amparar. Ainda a vi no hospital, de criança nos braços, a conduzir um carrinho-de-bebé, a conduzir uma carrinha cheia de tralha infantil, na praia a brincar com um cão, de mãos dadas comigo, de braço dado comigo, a beijar-me, a acariciar-me, a sussurrar o meu nome e, finalmente, a bater com o corpo em peso na calçada da praça.
À sua volta começou a formar-se uma poça vermelha. No início não percebi bem o que tinha acontecido. Tropeçara, escorregara, desmaiara. Fugira de mim, do meu abraço. Entrara num buraco de minhoca e fugira para o passado, para uma daquelas discotecas onde dançámos músicas melosas, colados um ao outro, como se fossemos um só.
Mas não. Não fugira. Fora arrancada de mim. E caíra num buraco negro para além da minha compreensão.
Estava tombada no chão rodeada de uma poça de sangue.
À minha volta juntara-se gente. Apontavam os telemóveis e tiravam fotografias. Chamaram os paramédicos. A polícia. Trouxeram um copo de água. Dois. Uma aguardente. Uma manta.
E chegou o barulho. Uma manta de retalhos sonora. A cidade acordara ali. Eu ouvia-me gritar. Ajoelhei-me e agarrei-a. Puxei-a para mim. Puxei-a para o meu colo. Gritei-lhe o nome. Abanei-a. Abanei-a com força. Não faças isso, gritaram-me. Dei-lhe dois estalos na cara. Acorda! Acorda, caralho! Estou aqui. Não te vás embora. Eu não te deixo ir. Olha para mim! Olha para mim, foda-se!
Agarraram-me. Afastaram-me dali. Afastaram-me dela. Os paramédicos debruçaram-se sobre ela. A polícia agarrou-me e afastou-me dali. Outros polícias tentaram afastar as pessoas.
Os telemóveis continuavam no ar. Filmavam. Fotografavam. Gravavam o som das vozes caóticas.
Eu abria e fechava a boca e não conseguia fazer-me ouvir. Queria um cigarro. Eu queria um cigarro. Eu só queria um cigarro e fechar os olhos. E não estar ali.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/15]