Uma Fuga a Meio da Noite

Fechei-me no quarto. Fechei a porta à chave e deitei-me sobre a cama. No fundo da casa ouvia-a a barafustar. Coisas a partir. Gritos.
Já sabia o que é que se seguiria.
Ela vinha para o quarto. Deitava-se ao meu lado. Fazia-me festas. Passava a mão pelos meus cabelos. Tocava-me na barba. Olhava nos meus olhos e dizia Desculpa! E eu desculpava. E ela beijava-me. Acabávamos a fazer amor. Sexo! Acabávamos a fazer sexo! Eu vinha-me. Ela também, algumas vezes. Acho eu. Depois dizia Amo-te! e eu respondia Eu também. E ficávamos ali assim, abraçados na cama. Em silêncio. Eu a tentar esquecer o que se tinha passado. Ela não sei. Se calhar a mesma coisa.
Mas não desta vez.
Fechei-me no quarto. Fechei a porta à chave e deitei-me sobre a cama. O tecto precisava de uma pintura. Estava manchado. Manchas de humidade. Algum bolor. Um bola escura. Talvez algum cogumelo em miniatura. Talvez uma aranha. Mas não se mexia.
Ela bateu à porta. Desculpa, disse.
Eu continuei calado, sobre a cama, a olhar para a humidade no tecto. Havia manchas que me lembravam caras. Não descobria quem. Mas lembravam-me alguém.
Ele pôs-se a arranhar a porta. Como se fosse uma gata. Miau.
Aquele arranhar começou a enervar-me. Comecei a sentir-me nervoso. Cocei a cabeça. Os braços. Levantei-me, de um pulo, da cama. Ia directo à parede para dar dois murros. Libertar os nervos. Mas parei. Parei antes de socar a parede. Olhei para a janela. Para as árvores escuras para além da janela. Porque raio haveria de me magoar?
Peguei numa pequena mochila. Coloquei algumas roupas. Um livro. Vesti um casaco. Agarrei no telemóvel. Na carteira. Abri a janela da rua e saí. Em silêncio. Estava no rés-do-chão. Saí pela janela.
Fechei as portadas da janela ao sair e ainda ouvi, do outro lado da porta Desculpa! Desculpa, vá! Abre a porta…
Era tarde.
Coloquei a mochila às costas. Saí da casa. Do quintal. Saltei o portão da rua. Comecei a subir a estrada.
À minha volta, a companhia dos cães das outras casas vizinhas a ladrar. A ladrar-me. Acompanhavam-me ao longo dos muros. Ladravam-me numa sinfonia infernal. E eu só ouvia Desculpa!
Fui andando estrada fora durante toda a noite. Durante todo o dia. Não passei por ninguém. Nenhum carro passou por mim.
Chegou de novo a noite.
Estava frio. Devia ter trazido outro casaco. Mais quente. Havia gelo na estrada. Na berma da estrada. Escorreguei. Caí. Caí na berma da estrada e fui a rebolar numa zona rochosa. Depois parei. Fiquei pendurado. O meu pé preso entre duas rochas.
Não sei bem onde estou. Estou com frio. Não sinto o pé. Não sinto a perna. É de noite. Penso nela. Desculpa! Desculpa! Agora sou eu que peço desculpa. Mas é tarde. Agora sim, é tarde.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/29]

Tempos Estranhos, estes!

Tempos estranhos, estes.
São tempos de moeda. Finança. Quem não tem jeito para vender está posto de lado. Deixado para trás. Crê-se num crescimento desmedido e infinito. Como se o futuro não chegasse nunca. Mas ele é já hoje! Agora! Não crescer é morrer. Estamos já todos mortos à espera de vez.
O deus do homem é o cartão de crédito.
Festeja-se o nascimento de um refugiado e fecham-se as portas e erguem-se muros contra esses mesmos refugiados. Porque não se pode albergar toda a gente. Sim, é verdade. Então é preciso criar condições de vida para além dos nossos muros. Deixar de roubar o que não é nosso. Em nome do progresso. Em nome do consumo. Não se festeja o refugiado. Festeja-se o bacalhau. O polvo. As filhoses e as rabanadas. O vinho e o espumante. E os presentes. As milhares de caixinhas de Ferrero-Rocher que andam de casa em casa. Passa-ao-outro-e-não-ao-mesmo.
Finanças. Progresso. Moral.
É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. Era assim que eu ouvia contar quando era criança. Onde isto já vai!
In God We Trust!, they say.
São tempos estranhos, estes. Têm-se mais medo de uma mulher nua que de um homem morto. Há um politicamente correcto que cortou tudo a direito e massacra-nos a cabeça com a moral. Os bons-costumes. A pureza. Temos de ser assépticos. Esconder os mamilos.
Houve tempos em que mulheres nuas vendiam perfumes, carros, jóias. Hoje não se pode mostrar um mamilo. Um rabo. Uma vagina. A não ser que seja A Origem do Mundo.
No meu mundo, no meu mundo de portas fechadas à razão, não visto a moral. No meu mundo os homens têm pilas. As mulheres têm mamas e vaginas. Todos, mas todos, homens e mulheres e outros géneros têm sexo. Porque querem. Se não quiserem não têm. O que eles não têm, mesmo, é a porra de uma pistola na mão. O que eles não têm é um dedo no gatilho. O que eles não têm é um estômago de ferro para os impedir de vomitar ao ver a fome que grassa para além dos muros. E mesmo aquém.
São tempos estranhos, estes. É Inverno. Estamos em Dezembro. Às portas do Natal. Eu estou de t-shirt sentado no alpendre. Olho a montanha verde lá ao fundo. O céu está azul. Ouço os pássaros a chilrear. Fumo um cigarro.
Ela chega do interior de casa. Está nua. Descalça. Aproxima-se do varandim. Traz uma caneca de café a fumegar nas mãos. Beberica. Mas o que me chama a atenção são as mamas dela. Estão um pouco descaídas. Mas são redondinhas. Belas. Como duas lágrimas enormes prontas a tombar mas que, afinal, ficam por lá, a olhar para mim. Os mamilos eriçados, talvez por causa de algum vento frio que não descortino. Ela vira-se. Sem pudor algum. Encosta-se ao varandim. Dá as costas à montanha. Descobre-se para mim. Uma pequena penugem sobre o sexo a garantir que já não é uma criança. Eu largo o cigarro no chão e levanto-me. Aproximo-me dela. Tiro-lhe a caneca de café das mãos. Encosto-me.
In God We Trust!
Nem moeda, nem finança, nem venda, nem deus, nem nada…
Há lá coisa melhor que uma mulher?
São tempos estranhos, estes, em que há gente que o esquece.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/23]

Os Cães Ladravam

Os cães ladravam por detrás dos portões dos quintais. Eu caminhava pelo meio da estrada com medo que algum deles saltasse o muro e me quisesse morder.
Ao virar a esquina tropecei e caí de cara no chão. Rachei a testa. Alguns arranhões na cara. A mão ficou com sangue ao tentar perceber como estava.
Foda-se!, pensei. Os cães continuavam a ladrar. Mas tinha sido o asfalto que me mordera.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/03]