A Rapariga no Cemitério

Conheci-a no funeral do pai. Na verdade, depois do funeral. Também não a conheci de verdade. Mas estive com ela.
Eu estava no cemitério a limpar a campa da minha mãe. Assisti àquele gigantesco evento ali mesmo ao lado. Um sai-e-entra de gente vestida de preto. Bons cortes. De fatos e cabelo. Óculos escuros. Muito choro. Alguns cigarros acesos. Senhoras de idade, com véus pretos sobre a cara, amparadas por rapazes e raparigas novos, talvez netos, mas vestidos como gente grande. Gente com dinheiro. Devia ser alguém importante. O morto. Alguém querido de muita gente.
Sentei-me na campa da minha mãe e fiquei por ali um bocado. À espera que se fossem embora. À espera de um pouco de calma. Gostava de conversar com a minha mãe. Cada um de nós no seu lado do mundo. Ela tinha paciência para me ouvir. E eu contava-lhe, a ela, o que não contava a mais ninguém. Confiava que a conversa não sairia dali. Também estava à espera de poder mudar as flores e garantir que elas ficavam por lá. Pelo menos naquele dia. E não eram espezinhadas pela multidão. Por aquela enorme multidão. Sentei-me. Acendi um cigarro.
Acendi outro.
Deu-me a moleza.
Fechei os olhos.
Devo ter adormecido. Adormecido sentado na campa da minha mãe. A multidão do lado já se tinha ido embora. Ficaram as inúmeras coroas de flores e o seus cartões sociais. E estava lá uma rapariga. Só. Ela. De preto. Vestido preto. Casaco preto. Sapatos pretos de meio salto. Bem escovados mas com lama a sair debaixo da sola. A lama do cemitério agarrada aos pés.
Ela caiu.
Eu levantei-me e corri. Corri para ela. Saltei entre as coroas de flores. Baixei-me. Pus os meus dedos no pescoço dela. Tinha pulsação. Olhei em volta. Ninguém. Agarrei no telefone e liguei para o Cento e Doze.
Atenderam. Expliquei. Desliguei.
Acendi um cigarro. Olhei para ela ali caída aos meus pés. Pensei Devia pô-la confortável. Pensei É melhor não lhe mexer. Pensei É gira a miúda. Pensei Já não é bem miúda. Já é uma mulher, talvez já mesmo uma senhora. Pensei Que porra de pensamentos.
Ela abriu os olhos. Olhou para mim. Mas não se mexeu.
Eu mandei o cigarro fora. Baixei-me. Disse Desmaiou. Ela não disse nada. Eu tirei a camisola, dobrei-a, fiz uma almofada e coloquei-lhe por baixo da cabeça. Disse Chamei o Cento e Doze. Ela não disse nada. Cheirava bem. Um cheiro de banho tomado. E um perfume suave. Não muito doce.
Levantei-me. Olhei para a porta de entrada. Ninguém. Voltei a baixar-me. Perguntei Quer avisar alguém? Ela não disse nada. Senti um toque. A mão dela agarrou-me no pulso. Mexeu os lábios. Não ouvi. Baixei-me. Encostei o meu ouvido aos seus lábios. Senti um ligeiro sopro. E uma voz muito sumida, vinda lá do fundo e sem sair de lá, disse Obrigada. Afastei-me e vi os lábios dela forçarem um suave e breve sorriso.
Ouvi a sirene dos bombeiros. Chegaram dois paramédicos. Afastei-me. Um deles perguntou-me Como se chama? Eu?, perguntei. Ela!, respondeu. E eu disse Não sei. O outro baixou-se. Auscultou-a. Mediu-lhe a tensão. Olhou-a no olhos. Bem dentro dos olhos. Fundo nos olhos. Acho que lhe procurava a alma.
Colocaram-na numa maca. Prenderam uns cintos à volta dela. Levaram-na para a ambulância. O paramédico perguntou-me Vem? Eu abanei a cabeça.
E a ambulância foi. Fiquei a ouvir a sirene a tocar durante algum tempo. Até se extinguir por completo.
Agarrei na minha camisola e voltei a vesti-la. Fui limpar a campa da minha mãe. Conversar com ela. Contei-lhe o que tinha acontecido.
O tempo passou.
Fumei um cigarro.
Fui embora.
Na estrada cruzei-me com um acidente. A ambulância que tinha ido buscar a rapariga estava, feita acordeão, espetada de frente num camião TIR que transportava Porsches. Alguns dos Porsches tinham caído do camião abaixo. Estavam semi-destruídos no meio da estrada.
No dia seguinte li, no Correio da Manhã, sobre um acidente onde tinha falecido a filha do homem que tinha sido enterrado na véspera. Ela era a filha! Morreu no mesmo dia em que o pai fora a enterrar. Há gente que não tem muita sorte com a vida. Há coincidências que se tornam diabólicas. Há coisas que nos passam pelas mãos e escorrem entre os dedos.
Ainda me lembro do cheiro dela. Cheiro de banho tomado. Um perfume suave e não muito doce. E era gira, a miúda. Miúda não, já era uma mulher.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/18]

Em São Pedro de Moel o Sol Desperta ao Meio-Dia

Estava uma manhã típica de São Pedro de Moel. Enublado. Fresco. Mas não desagradável de todo.
Eu estava sentado à beira-mar a ver as ondas morrer na areia. As criancinhas aproveitavam a maré baixa e distante. Chapinhavam. Os mais velhos tinham de se aventurar um pouco mais para diante à procura de uma falta de pé. As senhoras mais velhas vinham refrescar-se. Baixavam-se. Mas toda a gente percebia que vinham urinar.
Atrás de mim passou o vendedor de Bolas de Berlim.
Apetecia-me uma, mas deixei passar.
E então o grito.
Alguém gritou.
Alguém gritou forte.
Estiquei a cabeça e vi gente a fugir do mar para terra.
Ao mesmo tempo, gente que se aventurava mais para dentro do mar.
Eu continuei ali sentado, na areia.
Dois nadadores-salvadores passaram por mim a correr e entraram dentro de água. Tudo confluía para um ponto. Um ponto concreto dentro do mar. Mas que avançava, lentamente, para terra. Começava a aglomerar-se gente no ponto. Gente que começava a aproximar-se da areia. De mim.
Continuei sentado. Levantei a cabeça. E vi.
Um corpo.
Era um corpo que os nadadores-salvadores traziam para a praia. Uma excursão de gente seguia-os.
Na areia, precisaram de demarcar espaço. Os veraneantes, sem nada para fazer, aglomeravam-se à volta do corpo. Era preciso afastá-los até chegar a polícia. Deixar o corpo intacto. Afastar os curiosos. Que era quase toda a gente.
Eu deixei de ver fosse o que fosse. Entre mim e o corpo morto, deitado na areia, um monte de gente curiosa e mórbida. A ver se o conheciam. Se sabiam quem era. Se alguém dizia alguma coisa. Se as televisões apareciam. Se seria manchete na CMTV.
Eu continuei sentado na areia. O mar começava a aproximar-se aos poucos. As criancinhas já não brincavam no mar. As senhoras já não faziam mais chichi. Os adolescentes já não mergulhavam. Agora todos queriam ver o cadáver estendido na areia da praia. Até o vendedor das Bolas de Berlim lá estava. A esticar o pescoço por cima da multidão a tentar ver alguma coisa.
A polícia chegou. Afastou as pessoas. A equipa forense investigou o que pode, quis e conseguiu. Depois levaram o corpo embora.
Não sei quem era.
O mar já me batia nos pés. Finalmente levantei-me. Olhei para o horizonte. O sol começava a despontar. E vinha cheio de força. Começava o calor. O calor infernal de São Pedro de Moel em Agosto. Já era meio-dia, claro. Hora de ir para casa. Tinha umas brasas para ir atear. Era dia de sardinhada.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/16]

Parado à Beira-Mar sem Me Conseguir Mexer

Desci à praia.
Desci aquele caminho íngreme até à praia. De calções de banho, toalha ao ombro, chapéu na cabeça e o telemóvel na mão.
Cheguei à praia e caminhei ao longo da beira do mar para fora da confusão. As pessoas têm tendência para se aglomerarem à entrada ou saída. Querem estar prontos para o que der e vier. Eu, ao chegar à praia, tive que fugir à multidão acumulada logo ali, depois da descida da enorme ladeira.
Afastado, estendi a toalha, sentei-me, olhei o telemóvel e vi que não tinha rede.
Deitei-me. Estava quente. O barulho das ondas do mar a morrer na areia embalava. Deixei-me adormecer.
Acordei transpirado. Estava com a boca seca. E sem água para beber.
Fui ao mar.
Entrei devagar. Molhei-me. Mergulhei. Nadei um bocado em frente. Voltei para trás. E saí.
Fiquei em pé ali, a olhar o mar. Chegou uma rapariga. Começou a entrar devagar também. De repente, falhou-lhe o pé. Tropeçou e caiu. Ficou debaixo de água. Nunca mais subia. Comecei a ficar nervoso. Apareceu uma mancha vermelha, vinda lá debaixo. Sangue, provavelmente. E eu não conseguia mexer-me. A mancha era cada vez maior.
Um rapaz passou a correr por mim, mergulhou rápido e nadou até à mancha vermelha. Depois emergiu com a rapariga desmaiada nos braços.
Olhei e vi o pé da rapariga tombado, virado ao contrário, com um pedaço de osso de fora e sangue a cair abundante para o chão.
O rapaz passou por mim e foi a correr, com a rapariga nos braços, praia fora. Começou a juntar-se gente a acompanhá-lo.
Eu fiquei ali parado, à beira do mar, sem me conseguir mexer.
Até que lá acabei por sair, arrastando-me até à toalha, preocupado com a minha inércia. Sentei-me. E olhei o mar. E o mar estava a desaparecer.
Estava a cair um nevoeiro tão rápido tão rápido que começou a apagar toda a praia, o mar, a areia, as arribas, as pessoas, a miúdas, os rapazes, o cão, tudo…
Levantei-me depressa, peguei na toalha, no chapéu, no telemóvel e tentei correr, nos limites do que me é possível correr, para sair da praia. Passei por cima de outras pessoas, de toalhas, de chapéus que acabei por deitar ao chão.
Estava cansado. A subida era terrível. Tive de parar várias vezes. O nevoeiro perseguia-me mesmo. Estava a comer o que eu deixava para trás. Estava a morder-me os pés. Até que, finalmente, atingi o cimo da arriba. Estava acima do nevoeiro. A praia tinha sido toda comida. A praia e os veraneantes que tinham ficado lá em baixo.
Consegui sobreviver.
Ainda vi a rapariga a ser colocada dentro de uma ambulância do INEM que partiu de sirenes a gritar a dor alheia.
O nevoeiro olhava para mim e ameaçava-me. Que porra se passa comigo?

[escrito directamente no facebook em 2018/06/23]

E Então, Acontece…

Entrámos os dois no consultório. Sentámos-nos lado a lado. Ela ficou mesmo em frente ao médico. Agarrou a minha mão e colocou-a entre as suas.
E o médico começou a falar. Calmamente. Numa linguagem acessível, clara. Bastante clara. E honesta. E ela foi ouvindo a clareza do que o médico ia falando e, de repente, ferrou as unhas na minha mão. Com força. Fez mesmo sangue. Mas eu não retirei a mão, nem me queixei. Aguentei toda a dor que me provocava. Porque tinha de a aguentar. Ela tinha todo o direito de magoar. Quem quer que fosse. E era eu que estava ali.
Saímos do consultório em silêncio. Parecia que caminhávamos em cima de uma nuvem, que era tudo irreal, um sonho, um pesadelo do qual o toque do despertador nos iria acordar.
Caminhámos durante algum tempo sem falar. Passámos o carro estacionado. Andámos sem destino nem objectivo.
Eu queria falar, dizer qualquer coisa. Mas não conseguia.
Então ela parou no meio da rua e disse Desculpa, preciso ficar sozinha, e arrancou no sentido contrário, nem esperar pela minha resposta. E eu fiquei ali parado, a vê-la perder-se no meio da multidão, até desaparecer por completo da minha vista.
Voltei para o carro e fui para casa. Fiz um curativo rudimentar na mão.
As horas foram passando. Eu olhava o telemóvel de cinco em cinco minutos. Mas não havia nenhum sinal.
Anoiteceu. Acendi as luzes de casa. Liguei a televisão e deixei-me estar sentado no sofá, a olhar para a televisão, mas com atenção ao telemóvel.
E então ela entrou em casa. Foi ter comigo à sala, sentou-se ao meu lado, pegou na minha mão com o curativo e fez um pequeno sorriso como quem pede desculpas, e disse, Vou precisar da tua ajuda!, e eu disse que sim, que estaria ali para ela, para o que desse e viesse.
Ela abraçou-me e sussurrou-me ao ouvido, Desculpa a mão, eu sorri e fui o único ali a chorar.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/06]