O que É que Vamos Almoçar?

Início do mês. É de tempo de ir às compras. Levanto-me cedo. Não tomo banho. Passo a cara por água. Sacudo o cabelo para tirar os jeitos da almofada. Bebo café e como uma torrada. Lavo os dentes. Tiro o carro debaixo do telheiro. Espero por ela com o carro a trabalhar. Vamos os dois ao hipermercado. Eu fico no carro. Ela vai às compras. Não precisamos de ir os dois em excursão ao hipermercado em tempo de distanciamento social. Ela leva uma lista com o que precisa de comprar. O multibanco no bolso das calças. Uma luva na mão direita. Uma máscara na cara. A máscara é social, como lhe chamou a ministra da saúde. Foi feita por ela na máquina de costura que a mãe lhe deu quando casou pela primeira vez e que nunca tinha utilizado. Utilizou agora e safou-se bem que as máscaras que fez, e também fez duas para mim, as minhas são pretas, com duas camadas de algodão e elásticos para prender atrás das orelhas, estão bem catitas e fixam-se bem à forma da cara. Mas vai só ela às compras que eu pertenço ao grupo de risco. Estou a ficar velho e tenho problemas respiratórios. Ela não. Mas faço questão em acompanhá-la até ao hipermercado. Vou eu a conduzir e depois fico no parque de estacionamento à espera dela. Fico a ouvir os noticiários da rádio no carro até ele se desligar automaticamente. Depois fico ali em silêncio, dentro do carro, a olhar as pessoas que chegam e vão também fazer as compras do mês, da semana, do fim-de-semana.
As pessoas passam à minha frente, pelo pára-brisas como se fosse uma tela de cinema. Passam da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Poucas as que vêm em profundidade. Quase só mulheres. Mulheres sozinhas. Há alguns casais. Casais novos. Talvez namorados. Talvez casados de fresco. As mulheres empurram carrinhos cheios de compras. Os poucos homens que passam, passam com caixas de cerveja e garrafas de vinho. Os homens parecem ser mais práticos. Quase ninguém de máscara. Quase ninguém com luvas. As pessoas caminham próximas umas das outras. Cruzam-se. Tocam-se. Acho que não têm muito cuidado. Acho que as pessoas, no seu geral, se estão a cagar para o contágio. Acho que acreditam que só acontece aos outros. Ninguém conhece ninguém que esteja infectado. Acho que não acreditam nas notícias. Acho que pensam que é tudo folclore. Tenho lido sobre umas teorias da conspiração nas redes sociais. E desde que a NASA veio admitir o avistamento de alguns OVNIS por pilotos da Força Aérea, essas teorias têm ganho maior visibilidade e outros contornos.
Vai ali uma mãe com uma filha adolescente. São as duas pequeninas. Ao fundo, uma família, pai, mãe e dois filhos pequenos. Rapazes. Todos em fato-de-treino. O pai com fato de treino roxo fluorescente dos anos noventa. Nenhum deles leva máscara.
As pessoas estão feias.
Será que passei de concelho? Agora que pensei nisso, não sei, não faço ideia. Será que estou no mesmo concelho? Ou estou no concelho vizinho?
Estou saturado de estar aqui a olhar para estas pessoas. Eu nem gosto de pessoas. Quero ir-me embora. Apetece-me um café expresso. Uma Bola de Berlim com creme. Um Perna-de-Pau.
O que é que vou almoçar?
Vejo-a a vir lá ao fundo, a empurrar um carrinho cheio, como o das outras pessoas. Mas ela empurra o carrinho com uma mão com luva de látex. Traz a máscara na cara. Eu saio do carro e abro o porta-bagagens. Ajudo-a a pôr as compras no carro. Ela espalha álcool pelas mãos dela e pelas minhas. Esfregamos as mãos. Entramos no carro. Dou à chave. Ouço o motor a funcionar. A rádio desperta. E eu pergunto-lhe O que é que vamos almoçar?

[escrito directamente no facebook em 2020/05/02]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Andamento)

Hoje acordei cedo. Eram oito da manhã quando me levantei. Na rua, nem chuva nem sol. Um dia assim-assim. Olhei-me ao espelho. Cabelo muito grande. Olheiras. Cara macilenta. Barba mal aparada. Vesti um fato-de-treino, calcei as sapatilhas e saí de casa. Fui dar uma corrida ali à volta. De início, e por falta de hábito, respirei pela boca. Dez minutos depois estava cheio de azia. Fechei a boca e comecei a respirar pelo nariz. Um quarto de hora mais tarde parei para dar uma bombada de Ventilan e fui a passo no quarto de hora seguinte. Recomecei a correr no regresso a casa. Transpirei. Cansei-me.
Na casa-de-banho peguei numa tesoura e, olhando-me ao espelho, dei uns cortes no cabelo. Não importava ficar bem cortado. Tinha de desbastar. E foi o que fiz. Desbastei. Não ficou assim muito mal. Acho que fiquei mais novo. Também aparei a barba
Tomei banho.
Vesti-me.
Bebi café. Não comi nada.
Eram dez da manhã. Peguei no carro e fui ao supermercado. Uma luva numa mão. um pequeno frasco com álcool. Levei saco de casa. Peixe. Pedi para amanhar e cortar em pedaços pequenos. Algum frango. Umas iscas de vaca. Algumas conservas. Vinho. Sumos. Legumes. Fruta. Duas broas. Pão. Paguei com multibanco. Marquei as teclas com a borracha de um lápis.
No carro separei as compras por dois sacos. Tirei a luva e coloquei-a no lixo. Passei álcool nas mãos, no cartão multibanco e na borracha do lápis. Passei em casa da minha mãe. Um dos sacos era para ela. Não almoças?, perguntou-me. Pode ser, disse. Comemos uma sopa de feijão que ela tinha feito. Depois partilhámos um resto de massada de peixe da véspera. Eu não gosto de massada de peixe, mas comi e não disse nada. Já não se lembra que nunca gostei de massada de peixe. Acompanhámos com um copo de vinho tinto. Eu descasquei uma maçã e foi metade para cada um. Polvilhei com um pouco de canela e ela gostou. No fim de almoço ela tomou os comprimidos e eu lavei a louça. Reabasteci-lhe a caixinha dos comprimidos. Disse-lhe que o Xanax estava esgotado. Ela disse que ainda tinha uma caixa. Menos mal. Ela foi até à sala ver as notícias. Eu aspirei-lhe a casa num instante. Depois perguntei-lhe se queria ir dar uma volta à rua. Ela começou a rir e disse Está a chover! Pois está! pensei eu. Não tinha reparado. Fica para a próxima! disse-me com um sorriso. Ela foi deitar-se um pouco. Eu vi-me embora.
Eram duas da tarde. Regressei a casa. Despi a roupa e pu-la a lavar. Tomei banho. Voltei a vestir um fato-de-treino.
Fiz um chá verde. Sentei-me à mesa da cozinha a fumar um cigarro, a beber o chá e a ler as notícias online. No Facebook descobri mais gente que me dá nervos. Havia uma petição contra a Organização Mundial de Saúde por erros grosseiros e defesa da China. E perguntei-me o que é que aquela gente sabia? E se aquela seria a melhor altura para fazer o que se propunham fazer?
Quatro da tarde. Abri uma página do Word. Escrevo. Escrevo durante muito tempo. Escrevo tanto que esqueci as horas e a passagem do tempo.
Quando dou por mim, são oito da noite. Já é quase noite lá fora. Páro de escrever. Abro uma garrafa de vinho. Olho para o fogão mas não me apetece cozinhar. Rasgo um pedaço de pão para ensopar o vinho. Vou até à janela. Acendo um cigarro. Não há ninguém na rua.
Logo mais à noite irei ver um filme. Não sei ainda o que é que me apetece ver. Há-de ser qualquer coisa. Qualquer coisa há-de servir. Qualquer coisa de ficção há-de ser melhor que esta realidade. Depois do filme irei para a cama. Irei ler um livro como leio todas as noite. Talvez uma novela gráfica. Reler uma das novelas gráficas. Tenho poucos livros aqui comigo, mas não consigo dormir sem ler. Releio.
Quando estiver para me deitar hei-de lembrar-me do dente que se quebrou ontem e do qual estive esquecido durante todo o dia. Na altura de apagar a luz e deitar a cabeça na almofada, a língua há-de passar pelo dente quebrado e eu hei-de lembrar-me que está quebrado, embora não me doa, e que nos próximos tempos não vou poder ir ao dentista e então irei pensar se os meus outros dentes irão resistir a estes dias ou quebrar-se como este se quebrou e irei deprimir um bocado até adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/16]

Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

Para um Diário da Quarentena (Terceiro Andamento)

Hoje foi um dia bizarro. Tudo o que não fiz ontem, fiz hoje.
Levantei-me cedo, seduzido pelo sol matinal. Lancei logo o edredão para os pés da cama. Saí de um salto, vesti uma t-shirt e fui à cozinha pôr o café a fazer. Liguei o iPod à coluna e deixei em modo aleatório. Arrancou com PJ Harvey. Uh Huh Her. Acendi um cigarro e fui fumá-lo para o alpendre. Os gatos vieram roçar-se nos meus pés descalços, dengosos, a ronronar.
Lancei o cigarro para o meio do quintal e entrei em casa para ir tomar um duche.
Sentia-me bem-disposto.
Pensei se eu seria mesmo eu.
Tomei o duche. Vesti-me. Bebi café. Comi uma banana. Lavei os dentes e peguei na chave do carro. Desliguei o iPod antes de sair de casa.
Hoje tinha de sair. Por motivos de trabalho, tinha de sair do meu refúgio. Largar as minhas rotinas. Tinha de ir longe. Não ia estar com muita gente. Nem ia demorar muito tempo. Mas era longe. Tinha de ir encher o depósito do carro. Ia aproveitar para registar o Euromilhões. Comprar pão fresco. Umas garrafas de vinho, que andam a esvaziar-se muito depressa.
Tinha umas máscaras e umas luvas no carro caso precisasse. Algumas moedas. O multibanco. Um lápis com borracha para marcar o código do cartão e fazer os pagamentos. E um frasco aspersor com álcool.
Fui.
Fiz o que tinha a fazer.
E regressei.
Entrei em casa. Despi-me ainda na cozinha. Pus a roupa na máquina e lavei-a a quarenta graus. Depois lavei-me a mim e vesti um fato-de-treino.
Abri uma garrafa de Adega de Pias, das mais baratas. Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador e comecei a escrever. E escrevi bastante e durante bastante tempo. Tanto tempo que tive tempo de despejar a garrafa de vinho. Só então parei e acendi um cigarro. E reparei que já era de noite.
Este foi um bom dia, pá! pensei.
Lembrei-me que havia o Festival Eu Fico em Casa e liguei o Instagram. E deixei a tocar. Nem sei quem era que estava a tocar. Acho que nem conhecia. Deixei na coluna.
Abri outra garrafa de Adega de Pias. Cortei uns legumes. Desfiei um resto de frango assado que tinha no frigorífico. Salteei tudo no wok. Depois misturei uns bocados de sementes de sésamo e uma azeitonas.
Desliguei o festival e liguei a televisão. Hora do noticiário. Jantei os legumes salteados com o resto de frango desfiado na companhia do vinho tinto a tomar atenção às novidades do Covid-19, aos infectados e aos mortos. Afinal estávamos em emergência, ou não?
As coisas estavam cada vez pior.
Mas eu continuava bem disposto.
Quem seria eu, afinal?
Desliguei a televisão da cozinha. Baixei a tampa do computador. Arrumei a louça suja na máquina. Agarrei num copo e despejei-lhe dois dedos de Bushmills. Sem gelo. Fui para a sala. Liguei a televisão. Ao fim de algum tempo de permanência nos canais de notícias, comecei com o zapping.
Comecei a sentir a melancolia a instalar-se.
Relaxei.
Afina, eu era eu. Sou eu. E aqui estou, de rabo enfiado no fundo do sofá, a ganhar coragem para ir à cozinha buscar mais um bocado de whiskey e trazer para aqui o cinzeiro. Mas não me consigo levantar. Apetece-me, mas não me apetece. Tenho qualquer coisa a tremer dentro de mim.
Sorrio, mas não sei de quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/17]

O Candidato

Teimam em fechar as esplanadas da cidade. A cidade deixa então de ter esplanadas para ter marquises. Estou em Leiria, no século XXI, e sinto-me no Cacém nos anos ‘80 do século passado.
Está um tempo muito citadino. Não tão bom que canalize gente para as praias, nem tão mau que as faça ficar em casa. Mas antes fosse. Ainda aprendiam alguma coisa a apreciar a celulite uns-dos-outros ou aprendiam a confeccionar bolos com o Marco do Big Brother num qualquer programa vespertino de televisão que eu descobri no outro dia. Assim, as pessoas aglutinam-se em esplanadas fechadas, a transpirar que nem uns porcos da Boavista em transporte suíno para o matadouro, a cheirar as transpirações uns-dos-outros, porque desconhecem os desodorizantes, enquanto ouço, na mesa do lado, que o presidente da Câmara da cidade vai candidatar-se à Assembleia da República. Claro que cada um faz o que pode pela vida. Eu também tentei assaltar o Banco Santander, ali no início da Avenida Heróis de Angola, ex-ex-libris da cidade, tornada moribunda à espera de uma reanimação boca-a-boca mas já não há quem lhe chegue que o mau aspecto já se instalou e parece mais morta que viva, sem que lhe dêem a extrema-unção ou um choque de adrenalina, quando descobri que afinal já não havia outra vez mais nenhum banco ali, na principal artéria da cidade, e o único multibanco de rua está nos CTT que já não o são e são outra coisa qualquer que ainda está por se descobrir. Sim, eu sei, eu não tenho engenho.
Levantei-me da mesa onde estava. Deixei a bica queimada a arrefecer na chávena e fui à rua fumar um cigarro. Não sei o que seria da minha vida sem um cigarro fumegante, preso nos dedos amarelos das mãos trémulas, enquanto tento pensar no próximo passo.
Aproxima-se o fim-de-semana. O fim-de-semana de Feira Medieval. Aquela febre que ataca todos os municípios de norte a sul do país e todos os munícipes ficam assim com o pito aos saltos a pensar que é tão bom poder brincar de facínora sem ser repreendido pela comunidade nem julgado pela lei.
Isto é só uma brincadeira, dizem-me enquanto passam por mim na rua da rua, ou seja, fora da esplanada tapada para poder fumar um cigarro e não intoxicar estes servos da gleba que não se importam de serem escravos porque é tudo a brincar.
Decido sair da cidade. Decido deixar o café queimado por beber e por pagar na esplanada coberta, que a cidade é polar, e fugir para uma qualquer terriola dos arredores por que é preferível voltar a ouvir o Zé Café & Guida, todos os fins-de-semana seguidos até ao início do Inverno, que ser cúmplice de uma leitura enviesada da história que me é enfiada pela goela abaixo sem uso de anestesia nem vaselina.
Arranco de carro para fora da cidade e volto a descobrir um cartaz do CDS junto ao Mosteiro da Batalha. Sinto um déjà vu. Agora já não tem a efígie da Assunção e do Nuno. Agora só transmite uma frase A Preparar o Futuro, e então percebo a ausência, nos últimos tempos, da sempre-presente-e-nunca-calada Assunção. Está a preparar o futuro. O seu futuro. E sei que nada é por acaso. O presidente da Câmara também começou ali, na Batalha, a preparar o seu futuro. E enquanto vejo o cartaz a ficar lá para trás, esqueço o futuro da Assunção, penso que devia estar contente por um candidato à Assembleia da República pela minha cidade ser de facto de cá. Quer dizer, não é bem de cá, ele nasceu em Abrantes mas, pronto, foi presidente da Câmara durante três mandatos, é quase como se fosse de cá. Mas já vi este filme. E não terminou bem.
Acendo outro cigarro enquanto abro o vidro do carro e coloco o braço de fora, à malandro, e penso Gostava de conseguir ser um malandro. Mas um malandro dos bons.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/17]

Perdi a Mochila que Levava às Costas

Atravessava a cidade quando ouvi o primeiro trovão. Fui apanhado desprevenido. Eu e todas as outras pessoas que se deslocavam na baixa da cidade em final de dia cheio de um calor tórrido e sufocante. Estava de calções e chinelos. Uma pequena mochila às costas, com o iPad, a Moleskine, a Kaweco, o Ventilan, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel, um canivete-suíço e o livro que andava a ler. Já não sei qual era o livro porque, quando tudo se precipitou, perdi a mochila com tudo o que lá estava dentro.
Quando rebentou o primeiro trovão, toda a gente se assustou. Foi um grande estrondo. E apanhou toda a gente de surpresa. As pessoas pararam a olhar para o céu, a tentar perceber o que estava a acontecer. E foi por pararem a olhar para o céu, que toda a gente viu, e eu também, os relâmpagos que se precipitaram sobre a terra, vindos de um céu que escurecera tão rápido que nem tivemos tempo de processar o que estava acontecer. Eu vi os relâmpagos a riscar o céu. E achei lindo. Fantásticas obras de arte. Uns riscos tortos, descendentes, luminosos, decididos e assustadores. Parecia que cortavam o céu, de cima abaixo. Como se criassem portais para outra dimensão, outro universo. E caíram assim vários relâmpagos antes ainda de se ouvir o primeiro som. E quando começou a ribombar, parecia um concerto celestial diabólico que se abatia sobre a terra, sobre a cidade, sobre mim. Uma percussão em ritmo cadente. Com os baixos a acompanhar.
Começou a chover. Uma chuva copiosa, de gotas grossas que magoavam quando me caíam na cabeça.
Olhei em volta. Desatei a correr até uma esplanada coberta do outro lado do rio. Cruzei a ponte. Olhei, pelo canto do olho, enquanto corria, a água do rio agitada, sovada por milhares de pingos agressivos que faziam subir estilhaços de água até à plataforma da ponte. Entrei dentro da esplanada coberta. O barulho era ensurdecedor. Os pingos da chuva caíam na cobertura da esplanada, que não sei de que era feita, e eram amplificados a ponto de não me conseguir ouvir a pensar.
Sentei-me, molhado, a uma mesa. Sacudi-me. Esperei que me perguntassem o que queria. Nem sabia o que queria. Mas ninguém veio ter comigo. Os empregados do café estavam todos a olhar a chuva a cair e ignoraram os clientes acabados de entrar, clientes assim como eu, fruto do acaso, clientes que se refugiaram ali da chuva e dos relâmpagos, mas que não deixavam de ser clientes. Eu queria qualquer coisa. Um chá, um café, uma cerveja, um bagaço. O que quer que fosse que saísse primeiro da boca no momento de fazer o pedido.
E foi então que um raio caiu no prédio em frente à esplanada. O prédio rebentou como se tivesse sido bombardeado e a deslocação de ar fez rebentar as janelas da esplanada e soprou toda a gente para o fundo do café.
O prédio em frente começou a arder. O café também. Houve máquinas a rebentar. O ar condicionado explodiu. Eu levantei-me. Corri para a rua. Estava a chover torrencialmente. Mas corri feito louco. Descobri que tinha perdido os chinelos e corria descalço. Cruzei de novo a ponte. Nem olhei para a água. Procurei a entrada de um prédio aberta. Não via nenhuma. As lojas estavam fechadas. Outras rebentadas. Os vidros partidos. Havia gente a roubar embalagens, camisas, calças de ganga, t-shirts, cintos dos prontos-a-vestir de montras escancaradas. E vi uma entrada de Multibanco com gente lá dentro. Corri para lá. Abriram-me a porta. Entrei.
Percebi que estava cansado. Com bronquite. Encharcado. Descalço. Com os braços cheios de sangue. Os pés pretos, sujos. Tinha perdido a minha pequena mochila.
Encostei-me a um bocado de parede livre e deixei-me escorregar para o chão. Sentei-me. Lá fora continuava a chover torrencialmente. Continuavam a cair relâmpagos que estavam a deixar a cidade a ferro e fogo. Os trovões não se calavam. E eu não sabia se ali estaríamos em segurança. Mas estava cansado. E senti-me a adormecer.
Sinto-me a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/12]

Redes Mosquiteiras

Andei a pôr redes mosquiteiras nas janelas de casa.
A ideia era mandar fazer uns caixilhos em alumínio com uma rede fina de arame. Tudo pintado com as cores das molduras das janelas para passar despercebido.
Mandei fazer um orçamento. Fizeram-no. Mandaram-mo. Recebi-o. E resolvi esperar que me saísse o Euromilhões.
Estava farto das moscas, melgas e mosquitos. A cidade é de todos, bem sei, mas há alguns que acham que são mais que os outros, entram pelas casas dentro e desatam a chatear toda a gente. A morder. A picar. A transmitir doenças. A zumbir. Um horror. E então com a chegada do Verão, a bicheza anda toda doida. O calor em casa é diabólico. Não se pode pagar ar condicionado que é caro e, além do mais, fica sempre bem dizer que é em defesa do ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque defendo o ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque não o posso pagar.
Bom, estava farto das moscas, melgas e mosquitos. E cansado de morrer de calor dentro de uma casa de janelas fechadas para manter a bicheza na rua. Nem dos cheiros que se acumulam entre-portas me conseguia livrar. Os cheiros a comida, a transpiração, a sexo, a vinho azedo quando vomito, a tabaco frio quando as beatas se acumulam em vários cinzeiros perdidos pela casa. Então, estava com um copo de vinho na mão e um cigarro entre os dedos quando decidi Vou pôr mãos à obra. E assim fiz. Tirei medidas às janelas. Todas iguais. Boa.
Saí de casa com o cartão multibanco e a esperança que o dinheiro acumulado na conta chegasse para as necessidades. Comprei umas ripas de madeira. Uns metros de rede em plástico, de cor verde. Tinta para pintar a madeira da cor das janelas. Agrafador. Agrafos. Um martelo. Uma serra. Uns cantos em metal e parafusos pequenos. Um chave de fendas. Um pincel.  O total. Enfiei o cartão de plástico do Multibanco. Apareceu a conta. Nem olhei para não desanimar. Rezei três Avé-Marias em dois segundos. Carreguei em Verde. Código. Verde. E a transacção foi aceite.
Corri para casa. Fui para a cozinha. Um belo sítio para fazer este tipo de coisas. Cortei as ripas de madeira com as medidas das janelas. Juntei-as com os cantos em metal por dentro. Fiz umas belas molduras. Pintei-as. Enquanto secavam, abri uma garrafa de Real Lavrador, da Adega do Redondo. Era o que havia cá por casa. Acendi um cigarro. Esperei.
Cortei a rede plástica ao tamanho das molduras e agrafei-a à madeira. Depois coloquei-as do lado de fora das janelas e empurrei-as para dentro, para ficarem o mais coladas possível à janela.
As redes não ficaram muito bem esticadas. Estão enfoladas. E eu agora já não posso enfiar a cabeça pelas janelas para espreitar para a rua. Agora quando quero dar fé do que se passa tenho mesmo de ir à varanda. Mas a varanda só dá para um lado. Paciência.
Agora estou só à espera que o calor regresse para poder ter as janelas abertas e livre de bichos. Mas o frio, o cabrão do frio, parece que retornou. Raios o partam.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/15]

O Contribuinte

Houve um tempo em que os bancos ocuparam os centros das cidades.
A Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, tomou o lugar das igrejas e passou a ser o edifício com mais impacto na malha arquitectónica da zona histórica das cidades. Construiu edifícios enormes, por vezes demasiado grandes para os centros mirrados das cidades da média dimensão. Uma arquitectura a lembrar a Roma imperial. Edifícios de linhas direitas. Utilização de pedra clara. Nalguns casos, vidro. Eram um símbolo de poder. Edifícios criados para causar impressão. Um certo esmagamento. Respeito. Medo.
Os outros bancos, numa lógica de crescimento constante, começaram a invadir os centros históricos, a invadir a baixa das cidades, como se a cidade fosse só deles. Abriram agências em todo o lado. Umas em cima das outras. Fecharam cafés. Pastelarias. Lojas antigas. Memórias. Memórias das próprias cidades. Memórias da história das cidades. Os bancos ajudaram a encarecer o metro quadrado nestas zonas. Alguns deles transformaram tanto os edifícios para onde se deslocaram que os edifícios tornaram-se outros. Houve grandes transformações urbanas motivadas pela proliferação das agências bancárias. Mataram edifícios intemporais por troca por uma modernidade parola que está envelhecida antes mesmo de começar a funcionar.
Os anos passaram. As novas tecnologias mudaram a relação dos bancos com os seus clientes. Os clientes deixaram de ser clientes para passarem a ser fonte de rendimento. Tudo é pago. Tudo é pago para uma classe que vive da utilização do dinheiro alheio. Tudo é pago e tudo é feito para ser o próprio cliente a ter todo o trabalho. E, como se não bastasse, agora começaram a abandonar os centros das cidades. Depois de ajudarem e esvaziar os centros das cidades, agora deixam-nas ao Deus-dará. Mudam-se para centros-comerciais. Mudam-se para centros-financeiros. Para zonas de escritórios. Locais de maior agrupamento de clientes, esquecendo-se do funcionamento real das cidades.
Penso nisto ao olhar para o banco fechado à minha frente. Não é só a porta que está fechada. É mesmo o banco. Encerrou. Leio o papel colado no vidro da porta. Mudámos para outro sítio, dizem. Desde ontem. Nem o Multibanco funciona. E esse sítio para onde mudaram é outro sítio mesmo. É noutra localidade. E agora? Não pensam em mim? Afinal têm lá o meu dinheiro.
Estou parado frente à porta fechada do banco. Sinto-me deprimido. Os ombros tombam. Ouço um barulho atrás de mim. Um barulho que me assusta. Um barulho grave e muito alto. Viro-me para trás e vejo um carro com o chassis quebrado. Um carro que quebrou o chassis na lomba da passadeira camuflada. Atrás de mim há uma passadeira em lomba. Mas o tempo comeu a pintura da passadeira. E não há manutenção. É um dos grandes problemas destas tempos. A manutenção. O motorista não viu a lomba. Nem vinha muito depressa. Mas o suficiente para ser bloqueado pela lomba. Não é a primeira vez que vejo coisas assim acontecer. Mas nunca como hoje. Um chassis quebrado. Numa lomba em passadeira cega, surda e muda.
Sinto que deixei de ser uma pessoa. Sinto que passei a ser um número numa qualquer folha Excel. Sou o número que paga. E é só isso que sou. Um contribuinte.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/02]

As Notícias do Dia Incomodam-me

Vim para o alpendre. Parou de chover. Descobriu o sol. O tempo está quente. Peguei na Catedral de Raymond Carver, que ando a reler, e sentei-me aqui fora. No alpendre.
Ao fundo as montanhas limitam-me o horizonte. Por cima, no céu azul, umas nuvens brancas como algodão doce.
Acendi um cigarro. Estou a fumar. Ainda não abri o livro. Ainda não recomecei a ler. Estou a pensar nas notícias que me acordaram hoje de manhã e que têm andado por aqui a calcar a cabeça. Não sei bem o que é que tudo isto quer dizer, mas não é nada bom, tenho a certeza.
Aquela história no Brasil assusta. A obscuridade. Os estudantes têm de limitar a sua rebeldia. Os estudantes, numa idade de revolta, de busca por identidade, de procura do conhecimento, de experiências e experimentação, têm de se comportar com juizinho. As raparigas e os rapazes não podem usar piercings e, os rapazes, nem brinco, que isso é coisa de maricas e maricas não, senhor! As calças não podem andar arregaçadas. Nenhum deles pode usar boné, boina, chapéu. Agora há militares armados nas instalações escolares a garantir a execução das novas normas de conduta. A filosofia vai desaparecer. A sociologia também. Todas as ciências sociais vão deixar de existir no currículo académico. Todas as disciplinas que possam ajudar a desenvolver a capacidade de raciocínio e ajudar a pensar, vão deixar de ser leccionadas. O Brasil quer ser um enorme curso técnico-profissional. Os alunos vão aprender ofícios que possam ajudar a erguer o novo país alicerçado no Boi, na Igreja Evangélica, na pistola na ponta da mão e na destruição da Amazónia. Amén.
Estou com azia.
Acabo o cigarro. Olho para a capa da Catedral que ainda não abri e pouso o livro na mesa de apoio. Olho para as montanhas lá em frente.
O Presidente americano, que se gaba de ser um excelentíssimo negociador e um notável homem de negócios, acabou por não conseguir levar a bom termo nenhuma das negociações a que se propôs, nomeadamente com a Coreia do Norte de Kim Jong-un. O Irão é o que se sabe. Israel, ainda está para se ver. O New York Times descobriu, por sua vez, que durante anos, Donald Trump não pagou impostos por ter perdido, em poucos anos, mais de mil milhões de euros. Um homem ancorado em mentiras sobre mentiras. Um arrogante construtor de mentiras que lhe abriram o caminho à presidência, a criar um novo género da fazer política. O que nos faz pensar na educação que (não) se dá ao povo. Um certo tipo de povo. Arredado do conhecimento. Da cultura do pensamento. Do raciocínio. Um voto na mão a eleger quem desdenha desse mesmo voto.
Sinto a garganta seca. Um nó no estômago. Uma certa angústia. As notícias deixam-me deprimido. É para isto que aqui chegámos?
Acendo outro cigarro.
Penso nos banqueiros. Penso nos banqueiros que não acham justo que não se paguem os movimentos no Multibanco. Penso nas caixas Multibanco que andam a ser substituídas por caixas ATM. Estas a pagar. E penso que não é justo que o dinheiro que não é deles tenha de lhe passar pelas mãos. Não é justo que os meus poucos euros dêem várias vezes a volta ao mundo a multiplicar os lucros dos banqueiros e eu não veja sequer a cor dele. Não há retorno. Nunca há retorno. Penso que não é justo os banqueiros utilizarem o meu dinheiro e não me pagarem nada por ele e obrigarem-me a pagar por toda e qualquer acção que eu faça com o meu dinheiro. Penso como não é mesmo nada justo que os seus lucros sejam distribuídos pelos accionistas e os seus deficits sejam cobrados aos contribuintes que não têm nada a ver com aquilo. Não, não é mesmo nada justo. Quero deixar de utilizar os bancos. Ou seja…
Ou seja, não! Odeio esta expressão. Repetir as mesmas coisas por outras palavras. Admitir que não me exprimi bem da primeira vez. Não! Que porra!
Sinto-me enterrar na cadeira. Fumo o cigarro. Sinto-me pequeno. Cada vez mais pequeno e enterrado na cadeira. As montanhas continuam lá à frente. Verdes. Um verde-azeitona. O céu azul. Umas nuvens largadas um pouco à sorte sobre o céu, como açúcar largado por cima de uma arrufada.
Os gatos e o cão pressentem a minha tristeza. O caminho aberto à depressão. Os gatos roçam-se nas minhas pernas. Miam. Não sei o que é que querem. Talvez darem-me mimo. O cão lambe-me a mão. Passa a língua pelo cigarro. Queima a língua. Gane. Deita-me o cigarro ao chão. O cigarro apaga-se inundado de saliva. Eu digo, baixinho, És mesmo bruto, pá!
Ela aparece com dois copos de vinho tinto. Dá-me um.
Ficamos ali os dois, mais os gatos e o cão, a olhar as montanhas lá à frente e a pensar no tempo que nos resta. E que tipo de tempo é que nos resta.
Acendo outro cigarro. E penso há quanto tempo é que não vejo o Óscar. O sardão cá de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/08]

Fui Eu Quem Assaltou Tancos

Fui eu quem assaltou Tancos.
Estava ali mesmo ao lado. Tinha ido à Brandoa. Na volta passei por Tancos. O portão aberto. A guarita deserta. O paiol a chamar-me. E eu a precisar. Sim. Aceitei o convite. Como diz o povo A ocasião faz o ladrão.
Tenho andado com medo.
Fiz uma lista e fiquei com medo.
Atentem. Atentem na lista:
Donald Trump; Nicolás Maduro; Daniel Ortega; Giuseppe Conte; Matteo Salvini; Viktor Órban; Mateusz Morawiecki; Recep Erdogan; Benjamin Netanyahu; Bashar al-Assad; Teodoro Obiang; Mohammad bin Salman; Vladimir Putin; Kim Jong-Un; Rodrigo Duterte.
E agora Jair Bolsonaro.
E, agorinha mesmo, que vi a capa do jornal i pendurado no quiosque, o Tomás Taveira.
Estes são os que me lembro assim, de repente, numa lista feita de cabeça entre o semáforo Vermelho e o Verde. Há quem enfie o dedo no nariz e apanhe macacos. Eu faço listas. No Natal e Fim-de-Ano é uma paranóia sem fim.
Tinha que dar cabo deste medo antes que este medo desse cabo de mim.
Fui ao paiol. Carreguei-me. Carreguei o carro. Apetrechei a casa.
Depois fui ao supermercado. Ainda passei no Pingo Doce, que é perto de casa, mas estava uma tristeza. Pouca coisa. Coisa ruim. Fruta verde. Pouca variedade. Muita gente.
Acabei a fazer compras no Continente Online e vieram trazer a casa. O futuro é risonho.
Agora estou preparado.
Entro no Facebook e já não me assusto com tanta facilidade. Estou preparado para esta gente. Para os Haters. Para os que Acham. Para os que Sabem Sempre Tudo. Para os que Têm Certezas e Nunca se Enganam. Para os Admiradores de Cavaco Silva. Para o Hernâni Carvalho.
Agora estou preparado e não preciso mais de sair de casa.
Quer dizer, preciso de sair para comprar pão fresco, que não consigo comer pão duro e a torradeira está avariada, e pagar as contas no Multibanco, que não gosto que me saquem dinheiro directamente da conta sem confirmar se está tudo correcto. Esta gente não é de confiança.
Depois fico aqui. Deitado no corredor. Frente à porta da rua. Em cima de uns sacos de areia que fui encher à Praia do Pedrogão.
À noite, quando me deito, deixo a porta armadilhada com C4. Antes de me foderem, fodem-se a eles.
Mas agora, lembrei-me, E se precisar de uma gaja?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/04]