Corto-me

Corto-me, não para libertar a dor, mas para me castigar.
Já cheguei ao final do mês. Do mês que agora começa. Recomeço. Outra vez. Olho a carteira. O fundo da carteira. O fundo vazio da carteira.
Não entendo as regras. A minha iliteracia é selectiva. Mas concreta. Real. Não entendo as regras. Os códigos. A linguagem.
Corto-me. Corto-me com o canivete-suíço. A lâmina cega. Preciso de forçar. Magoa mais. Castiga mais.
Tenho uma casa que não é minha. Um trabalho que não é pago. Um almoço que não é comido. Mas tudo o resto custa-me um olho. Custa-me uma mão. Custa-me a vida. Um café com açúcar. Um pão com manteiga. Um frango assado. Um disco. Um livro. A escola obrigatória. O hospital. Um concerto. Uma bicicleta. Um carro. Uma casa. Uma mulher. Um filho. Um nome.
Corto-me. Uma vez. E outra. Castigo-me.
Escondo-me. No fundo do armário. No fundo da cave. No prédio abandonado. Lá onde já mais ninguém vai. Só as agulhas. As putas. Os paneleiros. Onde ninguém vai. Vou eu. E os que não são ninguém. Não estão nas estatísticas. Mas estão lá. E nas estatísticas. Escondo-me no fundo do fundo, escuro e sujo. Tenho por companhia os ratos e as baratas. Que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me nos braços. Desfaço as unhas no chão de cimento à procura de uma fuga. Mas não saio daqui. Não sei para onde ir. Não tenho para onde ir.
A minha companhia são os ratos e as baratas que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me. Corto-me e espero nas sombras que me esqueçam. Que não me peçam o IMI, a Segurança Social, o IRS e o IVA. Que me enterrem numa vala comum e me deixem ser comido pelos bichos até deixar de ser memória.
Corto-me e deixo-me ficar assim. Quieto. Em silêncio. Ali. Onde ninguém vai.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/06]

O Candidato Messias

Eu vi. Eu vi as mulheres. Eu vi os milhares de mulheres a manifestarem-se nas ruas e nas praças das cidades brasileiras. Eu vi os milhares de mulheres brasileiras na rua por todo o mundo onde há comunidades brasileiras a gritar #EleNão.
Manifestavam-se contra o candidato presidencial Jair Messias Bolsonaro.
Bolsonaro candidato que, quando votou pela destituição da, então, presidente Dilma Rousseff, dedicou o seu voto ao coronel Brilhante Ustra, que era o líder da polícia política da ditadura militar, que torturou a mesma Dilma Rousseff.
O candidato Messias defende a ditadura militar porque, ali entre 1964 e 1985, os anos de chumbo brasileiros, foi, segundo o Messias, uma época gloriosa, vinte anos de glória e progresso que só pecou por torturar demais e matar de menos.
O candidato Messias declara-se racista porque os pretos não fazem nada, nem servem já para procriar.
O candidato Messias é contra a homossexualidade e afirma que preferia que um filho seu morresse num acidente do que aparecesse com um bigodudo por aí.
O candidato Messias é contra Dilma Rousseff porque não gosta dela, é feia e nem mereceria ser violada por ele.
O candidato Messias é contra a democracia porque é uma porcaria e, se fosse presidente do país, fecharia o Congresso.
O candidato Messias também disse que, se não ganhasse estas eleições, não iria aceitar o resultado.
O candidato Messias promete salários mais baixos para as mulheres porque engravidam.
O candidato Messias tem quatro filhos e uma filha que, disse, foi uma fraquejada que teve.
E eu vi. Eu também vi. No dia seguinte às manifestações contra Jair Messias Bolsonaro, as projecções das sondagens davam-lhe uma grande subida nas intenções de voto, sendo o candidato mais votado na primeira volta e em empate técnico com o candidato Fernando Haddad na segunda.
O que eu não vi foi o candidato Messias afastado da corrida presidencial pelas bárbaras e criminosas afirmações proferidas.
Eu vejo que o Brasil está doente.
A Europa está doente.
O mundo está doente.
Mas eu já vi o que o Homem pode fazer por outro Homem.
Eu já vi o que as mulheres podem fazer.
Eu vi as mulheres na rua.
Eu vi a força das mulheres quando saíram à rua
Eu sei que elas vão tomar o seu destino nas mãos e empurrar o demónio para o seu buraco.
Eu fumo um cigarro. Estou nervoso. Estou a assistir à História ao vivo. Às transformações da História.
Só espero que as transformações sejam para o melhor. Para o melhor da humanidade.
Espero ter cigarros suficientes.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/02]

A Morte da Lampreia

Tenho o copo vazio. Tenho sempre o copo vazio à minha frente. A primeira coisa que faço quando me enchem o copo, é esvaziá-lo. E depois fica por ali assim, vazio. Até ser novamente cheio e eu o despejar logo de seguida. A aguardente não fica a fazer nada no copo.
Não sei quantos estão por aqui. Só ao balcão, como eu, somos três. É este agora o nosso posto de trabalho. Sentados ao balcão a beber umas aguardentes e esquecer a merda de vida que temos.
Ontem à noite comecei a queimar as primeiras tábuas do barco. Para quê o barco? Há dois anos que não vou ao rio. Ninguém daqui quer a lampreia do Tejo. Dizem que está contaminada. E têm razão. Esta espuma que agora se vê nos telejornais não é de hoje. Nem de ontem. Já começou há uns anos. Mas ninguém quer saber. Quando o rio chega à capital, já ninguém quer saber da espuma que não vê.
Já chegámos a ser mais de sessenta. Mais de sessenta na apanha da lampreia. Vinha gente de todo o país para a comer. Dava gosto ver chegar toda essa gente elegante de fora, nos seus carros grandes e lavadinhos. Agora, a única coisa que vem de fora é a lampreia. Trazem-na de França, parece. Mas são muito poucos os que vêm agora cá para a comer. Não é tão boa como a nossa. Não é, não.
O que é que fazemos agora, sem o trabalho? O subsídio já acabou. Alguns de nós vamos fazendo uns biscates. Mas também não há grande coisa para fazer por aqui. A morte da lampreia foi também a morte de muita actividade aqui da zona. Isto agora tende tudo a morrer.
Hoje, quando chegar a casa, vou voltar a queimar madeira do barco para aquecer a casa. Para aquecer a mulher e os miúdos, coitados. Que passam um frio de rachar. Não há dinheiro. Não há trabalho. Mas há sempre uns espertos que nos olham de lado. Que nos olham de lado e nos dizem Vai trabalhar, pá. Se calhar é algum dos directores das celuloses que nos matou a lampreia. Têm descaramento para isso, lá isso têm.
Às vezes fico contente que aqui não seja como na América. Porque se eu tivesse uma arma, limpava o sebo a uma série de gajos. Principalmente aqueles que trazem o rei na barriga e que julgam que tudo é deles, fazem as merdas que fazem e nada lhes acontece. Ai, acontecia, acontecia.
Mas somos mansos. Somos todos mansos, nós. Não queremos chatices. Mais facilmente morremos de fome, nós e os nossos, do que queremos arranjar chatices com essa gente cheia de advogados e leis e razões.
Entretanto, Ouve lá, fia-me aqui mais um copo, vá lá. Amanhã venho cá arranjar-te a caldeira, pá.
E pronto, mais um copo esvaziado.
E hoje joga quem? E dará nesta televisão aqui do café? Não me apetece ir para casa. Não quero encarar a mulher. Nem os miúdos. Um homem que não leva o sustento para casa não consegue encarar a mulher. Que porra de vida. Tanto caminho palmilhado para isto?

[escrito directamente no facebook em 2018/02727]