Dia de Limpezas

Já limpei o quarto. Virei o colchão ao contrário e mudei o edredão que esta noite tive frio. Pensei que me sabia bem ter lençóis de flanela mas pensei logo de seguida Já não tenho dez anos. Limpei o pó das mesas-de-cabeceira. Arrumei os livros. Os que já tinha lido e os que aguardavam vez. Apanhei as meias e as cuecas que jaziam perdidas atrás da poltrona e debaixo da cama. Já tinha dado por falta desta roupa. Aspirei o quarto e continuei por ali fora e já aspirei o corredor.
Apetecia-me sentar e beber um copo de vinho tinto.
Mas vou continuar nas limpezas. Agora ataco a sala. Apanho as revistas. Muitas delas vão para o lixo. Penso no papel que estou a deitar fora. Há conjuntos do Expresso que vão para o lixo sem terem sido abertos. Os folhetos do Pingo Doce, Continente, Lidl, InterMarché e DeBorla que inundam a caixa do correio, viajam até aqui, à sala, e vão como chegaram, sem nunca terem sido vistos. Tanto lixo.
Limpo o cinzeiro. Já não me lembrava que o cinzeiro tinha este desenho no fundo. Há quanto tempo não via o fundo do cinzeiro?
Apetecia-me ir até à janela e fumar um cigarro.
Mas vou continuar nas limpezas. No sofá não há nada a fazer. Estas nódoas não vão sair. Como é que elas vieram aqui parar? Fui eu? E estes buracos? É dos charros. Das catotas que caem dos charros. Algum dia vou ter de mandar estofar este sofá.
Apanho copos sujos esquecidos um pouco por todo lado. Um deles está partido. Apanho os pedaços de vidro com cuidado.
Encho vários sacos de lixo. Tenho de ir levá-los à rua. Mas ainda tenho a casa-de-banho para limpar. Não gosto de limpar a casa-de-banho. Nem a cozinha. Acho que ficam para amanhã. Talvez venha cá alguém a casa e se compadeça. Quanto custará arranjar alguém para vir cá limpar a casa-de-banho e a cozinha?
Olho para a casa-de-banho e decido que tenho de fazer um esforço. Está nojenta. Há uns anos estive numa república em Coimbra numa casa antiga e a precisar de obras. A casa-de-banho estava como esta. O tecto está negro de bolor. Há mosquitos na parede.
Vou buscar uma vassoura. Molho um pano em água com lixívia e ato o pano à vassoura. Limpo o tecto. O tecto fica branco. A casa-de-banho ganha mais luz. Apanho os tubos de cartão vazios de papel-higiénico. Deito fora todos os restos de sabonete que já não têm cheiro nem limpam. Abro dois sabonetes novos. Deixo um no lavatório e outro na banheira. Deito fora toda uma colecção de frascos de plástico que nem sei o que são. Nem de quem são.
Coloco rolos novos de papel-higiénico. Mudo as toalhas. As que vão para lavar nem se dobram, tal a sujidade.
Como é que consegui viver assim durante tanto tempo?
Estou cansado. Precisava de descansar. Mas aproveito o embalo, ganho coragem, e vou para a cozinha. Limpo o fogão. Tem muita gordura. Uso Mistolin para desengordurar. Esfrego o surro dos azulejos. Nem reconheço a minha cozinha. Não estivesse tão cansado, até me apetecia cozinhar.
Mas telefono para a Telepizza. Mando vir uma pizza. Aproveito para tomar um banho antes da pizza chegar.
Ligo o duche. Dispo-me. Entro na banheira e deixo-me ficar debaixo da água quente que cai violenta sobre o meu corpo. Sinto-me cansado. Muito cansado. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer. Tenho de tomar banho. Tenho uma pizza a chegar. Estou cansado. Sinto-me desfalecer. Está-se bem debaixo desta água quente que me conforta. Apetece-me dormir. Acho que me vou deixar adormecer. Sinto-me na cama feita de lavado. Gosto do cheiro dos lençóis lavados. Frios. Sinto-me estender ao longo da cama grande. O meu corpo cresce para acompanhar a cama. O barulho do duche embala-me. Estou cansado. Tão cansado!… Acho que vou dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/25]

Sinto-me Vazio

Estamos sentados em frente um do outro. Ela no sofá. Eu numa cadeira da mesa virada para ela. Eu estou a falar mas não me ouço. Na verdade já nem sei o que estou a dizer. Estou surdo. Ela parece não compreender nada do que eu digo.
O que é que estás a dizer? pareço ver perguntado na testa enrugada dela.
E depois ela responde. Está zangada. Percebo que está zangada mas não consigo ouvir o que diz. Estou surdo. Mas sinto-me atacado. Se calhar imagino, mas não tenho tempo nem paciência para pensar nisso e estico o braço sobre a mesa e mando a fruteira ao chão e vejo as pêras e as maçãs a saírem disparadas para o chão e rebolarem para debaixo dos móveis. A banana, já escura, fica pesada e solitária em cima da mesa. Há mosquitos à volta da banana.
Agarro a t-shirt com as mãos e sinto-a destruir-se pela fúria. Rasgo-me. E grito Merda, pá!
Levanto-me da cadeira e ouço-a cair com força no chão. Ela pára de falar. Está a chorar mas eu não quero saber. Sinto-me farto. Farto e cansado. Viro-lhe as costas e saio de casa. Bato a porta da rua com força. E é quando já vou a descer as escadas do prédio que penso que não queria ter saído assim de casa, não queria ter batido com a porta da rua, não queria ter rasgado a t-shirt nem mandado a fruta ao chão, não queria ter gritado com ela…
À medida que vou descendo as escadas do prédio vou sentindo-me mais vazio. Cada vez mais vazio. E com falta de ar.
A meio da descida as luzes apagam-se e fico às escuras. Mas continuo a descer, agarrado ao corrimão, sem me lembrar que posso acender a luz das escadas num qualquer interruptor com led de aviso vermelho que vou vendo a tremeluzir enquanto desço as escadas até chegar à rua.
Ar. Respiro.
Encosto-me à parede do prédio. Recupero a respiração. Acendo um cigarro. Vejo a t-shirt rasgada. Penso que não posso andar assim na rua.
Corro até ao carro. Abro a porta. Entro. Acabo o cigarro dentro do carro. Esqueço de abrir o vidro e encho o carro de fumo. Pareço estar numa boîte pré-lei anti-fumo em locais fechados.
Abro o vidro. Começa a doer-me um dente. Ultimamente tem-me doído este dente aqui atrás, em baixo, que está partido. Está partido há anos e nunca me doeu. Começou agora a chatear-me. Foda-se! Tudo para me chatear.
Bato no volante. Com força. Magoo-me. Mas esqueço o dente.
Apetecia-me voltar atrás. Pedir desculpa. Dizer que não queria nada daquilo. Não queria ter mandado a fruteira ao chão nem rasgado a t-shirt nem ter gritado. Mas já tudo aconteceu e não pode não ter acontecido. Olho para fora. Vejo tudo embaciado. Devo estar a chorar. Nem me apercebi.
Saio do carro. Entro no snack-bar em frente. Sento-me ao balcão. Peço um bagaço. Despejo-o. Peço outro. E despejo-o. Um terceiro. E volto a despejá-lo de um golo. Sinto-me maldisposto. Vomito em cima do balcão. Alguém pega em mim e manda-me para fora do snack-bar. Tento ir até ao carro mas não consigo. Não sei onde está. Sinto-me cambalear e caio. Bato com os queixos no chão. Acho que parti qualquer coisa. Senti qualquer coisa a partir. Está tudo escuro. Sinto-me triste. Dói-me tudo. Mas respiro. Acho que ainda respiro. Sim, ainda respiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/24]

Depois de Daniel Blake

Tínhamos acabado de ver Eu, Daniel Blake de Ken Loach na televisão. Ela estava a chorar baba-e-ranho. Eu estava furioso e com vontade de bater em alguém. Ainda olhei para ela, porque estava ali à mão-de-semear, mas Não! pensei. Ela estava em sofrimento.
Não dissemos nada.
Eu levantei-me e fui até à janela. Acendi um cigarro e olhei lá para fora. Vi o cão a andar de um lado para o outro à luz da Lua. Olhou para mim quando ouviu o som do isqueiro, e viu a luz da chama, mas continuou o seu caminho. Perdi-o de vista.
As pessoas são mesmo o pior da humanidade. As pessoas. O que conseguem fazer umas ás outras. A frieza com que tratam os mais indefesos. À tarde tinha visto um vídeo real de dois seguranças de um supermercado brasileiro a chicotear um miúdo de dezassete anos por ter roubado a merda de um chocolate. A merda de um chocolate! Sentem-se imunes. Os filhos-da-puta da roda dentada sentem-se imunes. São sempre mais papistas que o Papa. Para se sentirem superiores. Para sentirem que têm um grãozinho de poder debaixo do braço. Por vezes penso que as pessoas parecem cães a defender o seu pequeno território, o linear, o gabinete, a mesa de trabalho numa ilha espiado pelos colegas que se controlam uns-aos-outros. Mas depois percebo que não são cães, que os cães até são uns animais de respeito, são mais hienas à espera dos restos que os leões lhes deixam. Vejo que tenho a mão fechada para um murro quando tento tirar o cigarro da boca. Desfaço o punho. Agarro no cigarro com dois dedos, puxo-o e arranco um pedaço de pele dos lábios. Foda-se! digo. Magoei-me!
Ela continuava a chorar.
Gosto das redes mosquiteiras. Não posso pôr a cabeça fora da janela, mas livrei-me de moscas, melgas e mosquitos. Em noites de calor posso ter as janelas abertas para deixar correr o ar.
Ela levantou-se. Saiu da sala. Ouvi-a na casa-de-banho. Saiu, passou pela sala e disse-me Vou-me deitar, e tinha os olhos vermelhos. Há pessoas que são mais sensíveis que outras. Mas há filmes que nos viram do avesso.
A verdade é que há muito da nossa vida naquele filme. Há muita coisa em Eu, Daniel Blake pelo qual eu passei. Pelo qual ela passou. Pelo qual muita gente passou. E o filme não é lamechas. Tão só absurdamente real e triste. Humanamente triste. Triste como nós.
O problemas das redes mosquiteiras nas janelas é que não posso lançar as beatas para a rua. Acabei de fumar o cigarro. Fui à cozinha. Molhei-o na torneira do lava-louça e deitei-o no caixote do lixo.
Pensei na cena do Banco Alimentar. Revi Katie a abrir a lata de feijão e a comer os feijões crus, directamente da lata, à mão, enfiando-os pela boca, esganada. A fome é uma merda! É como um punho fechado que nos entra pelo cu e nos puxa as entranhas até não restar mais de nós que um desejo puro de rasgar algo com os dentes e saciar o estômago. Animalesco.
Acabei por ir atrás dela para a cama. E ali estávamos nós os dois, virados para o tecto, de olhos abertos, quietos e sem conseguirmos dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/03]

Redes Mosquiteiras

Andei a pôr redes mosquiteiras nas janelas de casa.
A ideia era mandar fazer uns caixilhos em alumínio com uma rede fina de arame. Tudo pintado com as cores das molduras das janelas para passar despercebido.
Mandei fazer um orçamento. Fizeram-no. Mandaram-mo. Recebi-o. E resolvi esperar que me saísse o Euromilhões.
Estava farto das moscas, melgas e mosquitos. A cidade é de todos, bem sei, mas há alguns que acham que são mais que os outros, entram pelas casas dentro e desatam a chatear toda a gente. A morder. A picar. A transmitir doenças. A zumbir. Um horror. E então com a chegada do Verão, a bicheza anda toda doida. O calor em casa é diabólico. Não se pode pagar ar condicionado que é caro e, além do mais, fica sempre bem dizer que é em defesa do ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque defendo o ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque não o posso pagar.
Bom, estava farto das moscas, melgas e mosquitos. E cansado de morrer de calor dentro de uma casa de janelas fechadas para manter a bicheza na rua. Nem dos cheiros que se acumulam entre-portas me conseguia livrar. Os cheiros a comida, a transpiração, a sexo, a vinho azedo quando vomito, a tabaco frio quando as beatas se acumulam em vários cinzeiros perdidos pela casa. Então, estava com um copo de vinho na mão e um cigarro entre os dedos quando decidi Vou pôr mãos à obra. E assim fiz. Tirei medidas às janelas. Todas iguais. Boa.
Saí de casa com o cartão multibanco e a esperança que o dinheiro acumulado na conta chegasse para as necessidades. Comprei umas ripas de madeira. Uns metros de rede em plástico, de cor verde. Tinta para pintar a madeira da cor das janelas. Agrafador. Agrafos. Um martelo. Uma serra. Uns cantos em metal e parafusos pequenos. Um chave de fendas. Um pincel.  O total. Enfiei o cartão de plástico do Multibanco. Apareceu a conta. Nem olhei para não desanimar. Rezei três Avé-Marias em dois segundos. Carreguei em Verde. Código. Verde. E a transacção foi aceite.
Corri para casa. Fui para a cozinha. Um belo sítio para fazer este tipo de coisas. Cortei as ripas de madeira com as medidas das janelas. Juntei-as com os cantos em metal por dentro. Fiz umas belas molduras. Pintei-as. Enquanto secavam, abri uma garrafa de Real Lavrador, da Adega do Redondo. Era o que havia cá por casa. Acendi um cigarro. Esperei.
Cortei a rede plástica ao tamanho das molduras e agrafei-a à madeira. Depois coloquei-as do lado de fora das janelas e puxei-as para dentro, para ficarem o mais coladas possível à janela.
As redes não ficaram muito bem esticadas. Estão enfoladas. E eu agora já não posso enfiar a cabeça pelas janelas para espreitar para a rua. Agora quando quero dar fé do que se passa tenho mesmo de ir à varanda. Mas a varanda só dá para um lado. Paciência.
Agora estou só à espera que o calor regresse para poder ter as janelas abertas e livre de bichos. Mas o frio, o cabrão do frio, parece que retornou. Raios o partam.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/15]

Subir o Tejo

Decidi subir o Tejo. À procura de… À procura de quê? Na verdade à procura de nada. Subir o Tejo e deixar-me levar contra-corrente. Ele desce. Eu subo. Mas há momentos em que nos encontramos. E nos amamos.
Passo a ponte. Deixo Lisboa e rumo à margem sul. Direcção Almada. Mas vou até Cacilhas. Vejo o que restou da Lisnave. Respiro a História. Muito do PREC passou-se ali. Agora morreu. A Lisnave está vazia. Cheia de fantasmas. Mas vazia. O rio continua lá. Vejo-lhe as ondinhas a bater nos ferrys que se resguardam nas docas abandonadas. Um dia há-de lá nascer algum empreendimento imobiliário. Qualquer coisa de luxo. À beira-rio. Talvez com um Espelho-de-Água. Lisboa em frente. Quem inveja quem? Definitivamente os operários já não moram ali. A margem sul já não é a mesma. A cintura industrial estrebucha. Ainda restam bolsas. Mas tendem todas a morrer.
Volto para trás. Deixo Cacilhas nas costas. Passo pela Cova da Piedade. Amora. É difícil voltar ao Tejo. Por onde vão as estradas? Quero subir o Tejo pela margem esquerda mas não é fácil.
Chego ao Seixal. Não sei onde é a Academia do Benfica. Não passo por lá. Vou ao rio. Vou directo ao rio. Vejo o estuário do Tejo. Garças. Muito trânsito. O Seixal parece a rotunda do Marquês de Pombal em noite de campeonato do Benfica. Tanto carro. Em fila. Gente. Muita gente. Motores a trabalhar. Tubos de escape a deitarem bufadas de gasóleo. Cheira muito a gasolina. Gasóleo. Combustível. Mas ninguém refila. Ninguém buzina. Há uma calma que estranho. Eu fico nervoso e, logo que posso, fujo dali e rumo a Alcochete.
Chego a Alcochete e vejo o rio ferroso. Não sei se aquela água tem ferro mas, a cor, sugere-me isso. Lembra-me o café-com-leite de Manaus, quando o Rio Negro se mistura com o Rio Amazonas. Alcochete parece uma terra-montra. Limpa. Arranjada. Pintada. Caiada. Restaurantes chiques com esplanadas cheias de gente com criancinhas. Há calma. Silêncio. Ouvem-se vozes. Límpidas. Claras como a localidade.
Sigo mais para cima. Perco o nome das terras. Umas misturam-se com outras. Eu misturo nomes. Esqueço outros. Invento ainda outros. Há uma grande confusão de terras, locais, gentes. Laranjeiro. Corroios. Paio Pires. Fogueteiro. Baixa da Banheira. Matosinhos. Não, Matosinhos acho que não é por aqui. Sinto-me baralhado. Ao Tejo é mais difícil de se chegar. Vejo-o. Sei que está lá. Ali. Corre-me paralelo. Mas tenho dificuldade em chegar até ele. Caído do nada, uma placa indica-me uma Praia Fluvial. Outra, um Miradouro. Uma outra ainda um Passeio Fluvial. De repente o Tejo está rico e puxa-me até ele. Afinal, não foge de mim.
Vejo. Observo. Respiro. Registo. E sigo.
Chego a Almourol. Estou na margem esquerda e chego a Almourol. Estou em frente ao castelo. Por cima dele. Num Miradouro abandonado. Uma estátua que me parece do Cutileiro, está altaneira, de guarda ao castelo. É a única coisa que se mantém de pé. Um bar fechado. Vidros partidos. Um vandalismo serôdio em paisagem de cortar a respiração.
Dou a volta. Vila Nova da Barquinha. E vejo Almourol por trás. É diferente. É outra coisa. Igualmente bonito. Tiro fotografias. Talvez as venda a turistas em Lisboa.
Apetecia-me mergulhar nas águas do Tejo. Aqui há muitos bancos de areia. Provavelmente conseguia cruzar o rio a pé. Pondero dar um mergulho. Mas vejo a água suja. Muitos mosquitos. Nuvens de mosquitos. Desisto. Vou comer um gelado num café de apoio ao visitante.
Volto à estrada.
Aproxima-se a noite.
Passo em Constância. Vejo o Zêzere beijar o Tejo. Sigo até Abrantes. Procuro onde ficar. Procuro onde comer. Estou cego. Não encontro nada. Se calhar a falha é minha. Provavelmente é. Por vezes tenho dificuldade em ver coisas que não estejam absurdamente plantadas à minha frente.
Zango-me.
Decido avançar mais uns quilómetros até ao Sardoal.
Vejo luzes. Luzes a convidarem-me. Encontro um sítio onde comer.
Páro o carro. Sento-me a uma mesa. Como uma bifana. Bebo um copo de vinho tinto. Antes de chegar o café, adormeço. Adormeço à mesa. Os braços tombados ao lado do corpo. Durmo ali mesmo. Sentado. À mesa. O café a arrefecer.
Irei acordar no dia seguinte e continuar a subir o Tejo. Prevejo subir até Vila Velha de Ródão. Prevejo avistar Espanha. Talvez vá até Almaraz. Olhar pela última vez para a Central Nuclear. E acreditar que vai fechar em 2020.
Gosto do Tejo. Da vida no Tejo. Mas há morte a rondar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/11]

O Monstro do Outro Lado da Janela

O dia acordou enublado. Eu acordei com o despertador, que a luz no quarto, muito difusa, não era suficiente para me fazer abrir os olhos e despertar para a vida.
Olhei para o tecto. Estava lá. Inteiro. Tentei ver rachas, pontos negros. Moscas. Mosquitos. Aranhas. Não havia por lá nada a pontilhar o branco do tecto. Mas podia haver. E eu não ver. A luz não era muita. Eu estava a acordar. Os óculos que usava era só para ler. Mas não sei se não devia começar a usar óculos para ver mais que as letras que fugiam das páginas dos livros que continuava a roubar nas mesmas livrarias de sempre. Coloquei os óculos. Olhei para o tecto. Um borrão. Era só o que via. Um borrão sem forma. Tirei os óculos e larguei-os na mesa-de-cabeceira.
Empurrei o edredão para trás. Senti o frio da manhã pelo corpo. Estremeci. Levantei-me. Agarrei nas calças de fato-de-treino e vesti-as. Enfiei uma t-shirt. Saí do quarto. Entrei na cozinha. Liguei a máquina do café. Fui à casa-de-banho. Regressei à cozinha. Enchi uma caneca de café. Fui beber para a janela. Mas não via nada das árvores. Não via os pinheiros. Não vi as laranjeiras cheias de laranjas. Não via o muro do quintal nem a estrada lá ao fundo. Não via as montanhas naquele que era o meu horizonte habitual. Não via nada. Só um borrão difuso. Um nevoeiro tão cerrado e próximo que não via nada.
E, de repente, um monstro. Um monstro saltou à minha frente. Um monstro saído do nevoeiro saltou à minha frente. Dei um salto para trás. Assustei-me. Dei um salto para trás. A caneca de café na mão. A caneca de café saltou comigo. O café também saltou, por sua vez. E tombou sobre mim. Foda-se! disse alto. Foda-se! repeti. O café caiu-me em cima. Em cima de mim. Pela t-shirt. Pelas calças de fato-de-treino. Pelos pés descalços. Pelo chão limpo. Foda-se! disse outra vez ao sentir-me queimado pelo café. O monstro continuava aos saltos frente à janela. O monstro era o cão. O cão veio do nevoeiro. Escondido pelo nevoeiro. E saltou à minha frente. Do outro lado do vidro. Apanhou-me desprevenido. Assustei-me. Cabrão! disse, a pensar no cão. E via-o lá do outro lado do vidro aos saltos.
Larguei a caneca no lava-louça. Fui à dispensa buscar um balde e a esfregona. Despejei lá dentro uma medida de tampa de Sonasol Verde. Abri a torneira de água quente no lava-louça e enchi o balde. Depois fui lavar o chão da cozinha. Lavei o chão todo. Não ia deixar manchas. Não ia só lavar aquele pedaço sujo de café. Foi tudo. A cozinha toda. Lá fora o cão continuava a ladrar e a saltar em frente à janela. Queria comer, claro. O cabrão queria comer. Agora esperas!, disse-lhe através da janela fechada à espera que ele ouvisse e compreendesse.
Depois fui tomar banho.
Um duche quente.
Vesti-me. Quando regressei à cozinha, já não havia nevoeiro na rua. O cão já não estava a ladrar lá fora.
Saí à rua. Acendi um cigarro. Já via os pinheiros. Já via as laranjeiras cheias de laranjas. Pensei que mais tarde iria fazer um sumo de laranjas. Gosto de sumos de laranja. De laranjas a sério. Olhei mais lá para o fundo e já tinha de regresso o meu horizonte habitual. As montanhas. As montanhas verdes.
Ouvi vozes. Olhei a estrada, ao fundo do quintal. Ao portão. Duas mulheres. Duas mulheres com livros nas mãos. Duas mulheres, de calça e casaco. Mala a tira-colo e uns livros, ou revistas, presos pelos braços junto ao peito.
Testemunhas de Jeová, pensei.
Fiquei em silêncio. Deitei o cigarro fora. Voltei para casa. Ouvi a campainha a tocar. Mas não havia ninguém em casa. Só o cão. O cão que foi ladrar para o portão. Foi ladrar às Testemunhas de Jeová.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/15]

Uma Viagem pelo Douro

Levava com o vento na cara e sabia-me bem. Era um vento frio. Mas sabia-me bem receber esse vento na cara. Entrou algum pó, se calhar mosquitos, pelos olhos dentro. Chorei. Do pó, dos mosquitos ou do vento. Senti as lágrimas geladas escorrerem pela cara abaixo. Mas estava feliz.
Punha a mão de fora da janela e fazia-a navegar no vento. Para cima. Para baixo. Numa espécie de bailado.
Vinha de comboio a descer o Douro. Vinha do Pinhão. Ia para a Régua.
Mas isso é para onde vou quando quero esquecer onde estou.
E estou na sala. Sentado no sofá. A olhar para a televisão. Olho para a televisão para não ter de olhar para ela. A televisão está à minha frente. Desligada. Ela está no sofá ao lado. Acho que está à espera. À espera de qualquer coisa. E então ouço Então?
Então? Então nada! O rio a correr veloz, lá em baixo. Mas não tão veloz quanto eu e o comboio. Também não era assim muito veloz, o comboio. Não era o TGV. Nem o Intercidades. Mas o vento dava-me essa sensação de velocidade. Que voava sobre as vinhas. Sobre o rio. Sobre o casario que se avistava sempre lá ao fundo, a passar, a ficar para trás, mas sempre outra vez mais à frente. E de novo lá para trás. A passar como as folhas de um livro que eu folheava. E sorria.
Tinha acabado de comer uma costeleta grelhada. Antes, tinha aberto as hostilidades com uns peixinhos da horta. E terminado com um bolo de noz com doce de ovos. Vinha feliz. Claro que sim. E aquela paisagem. Aquele verde. Aquele buraco fundo provocador de vertigens. E magia. Por vezes estava por cima das nuvens. Depois via-as lá em cima. Branquinhas contra um céu azul.
E então?
Então era outro tempo. Éramos outras pessoas. Ainda acreditávamos. Ainda tínhamos esperança no futuro. Tudo nos era devido. O mundo era nosso e nós estávamos aqui para o agarrar.
E depois… E depois os anos passaram. As coisas não foram como eram. O mundo, afinal, não era nosso.
Mas bem que pareceu, durante aqueles breves momentos. O pôr-do-sol de copo de branco na mão. A ver o sol morrer. Imaginámos que era no Porto que morria. O sol. Na Foz do Porto. Lá no longínquo horizonte. Nós bebemos a ele. Ao sol. À Foz. Ao Porto. A tudo. Tchin-tchin.
E então?
E então levanto-me. A televisão continua desligada. Ela continua a olhar para mim e a perguntar E então? E eu não sei o que lhe responder. Desde o momento em que coloquei o pé no apeadeiro que perdi o sorriso. O brilho do futuro.
Acho que deixei a felicidade no Douro. Perdida num daqueles socalcos. Entre os copos de vinho que fui bebendo sempre que podia. Um copo de vinho nunca se nega.
Ainda a ouço perguntar outra vez E então?
E então saio de casa.
Deixo-a sentada no sofá da sala.
Saio de casa.
E o que eu dava para voltar ao Pinhão e voltar a descer à Régua de comboio sem saber como o futuro iria matar todos os sonhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/13]