Eu Vou para Onde For

As janelas do carro abertas. O vento a enrolar-nos o cabelo. A transpiração a escorrer pelas têmporas. Ela com os pés descalços sobre o tablier. A mão a fazer ondinhas fora da janela. A cabeça não-sei-onde. Eu ia com o braço esquerdo pousado na janela aberta e dois dedos a aparar o volante. A mão direita sobre a alavanca de velocidades.
Estávamos a chegar à Praia da Vieira. Os campos desertos. Nem uma árvore. Nem uma sombra. Estava sol. Sol e muito calor.
À entrada da Praia da Vieira, o parque de campismo. Árido. Agreste. Há uns anos ardeu. Agora não há uma árvore. Não há uma sombra. As tendas estão debaixo do sol torrencial.
Entrámos da Praia da Vieira. Eu disse Há muito tempo que não vinha cá. Ela não disse nada. Na realidade, da última vez que cá vim, vim com ela. E a impressão tinha sido a mesma. A Praia da Vieira parece uma feira. Uma feira muito popular. Uma feira cheia de tralhas para venda. Com cartazes a anunciar os preços em desconto. Já parecia e continua a parecer. Passo ao lado do auditório António Campos. Está decadente. Falta manutenção. Passamos de carro junto à marginal. A praia é lá no fundo. Num fundão. O mar é agressivo. Não é nada convidativo. Nem lhe pergunto se quer parar. Passamos em frente ao que fora outrora a Riomar, uma discoteca da minha adolescência quando as discotecas ainda eram as rainhas da noite e casa dos jovens com cio. Quando as discotecas ainda tinham espectáculo de abertura com gelo seco para os efeitos dramáticos. Depois começaram a aparecer as festas da espuma e acabaram com o glamour.
Seguimos para o Pedrogão. À saída da Praia da Vieira ainda dá para ver um parque para auto-caravanas, árido, sem uma árvore, seco, triste. Como é que as pessoas conseguem estar ali? Porque é que os municípios não plantam umas árvores? Não refrescam as terras? O que vemos não deixa antever melhorias. Nem futuro.
Fazemos a estrada Atlântica até ao Pedrogão.
Passamos no que já foi o Pinhal do Rei. Tudo isto ardeu. Nada mudou. Há pilhas de troncos à espera de qualquer coisa. Há árvores carbonizadas em pé, que não sei se estão mortas ou vivas. Há uma tristeza no ar. Faltam pinheiros.
Chego ao Pedrogão. Passei aqui alguns anos de férias na minha juventude. Vomitei em muitas esquinas. Fumei muita droga nas rochas da praia velha. Está melhor que a Vieira. Mas também não está grande coisa. Também aqui não há uma árvore. E as casas estão velhas. Estragadas. Parece que o tempo passou por elas e carregou-lhes nos anos. E há algumas casas que parecem não serem utilizadas há décadas. Há muitas marquises. Por momentos pareço estar no Cacém. Maldita sorte, a minha.
Há gente na praia, aqui no Pedrogão. Também já havia na Vieira. Os chapéus estão espalhadas ao longo do areal. Respeita-se a distância social. Mas depois há grupos de miúdos. Grupos de miúdos a brincar. Enquanto algumas pessoas percebem que estamos no meio de uma pandemia, há outras que acham que é tudo uma fantasia.
Quero parar o carro mas, ao mesmo tempo, acho que estou sem paciência. Ela desperta do seu torpor. Pede para eu encostar o carro. Sai. Vai comprar tremoços e pevides a umas senhoras que parecem vestidas para o Inverno. Traz também um bolo da festa. Eu digo-lhe que não é bem bolo da festa. Que é parecido mas não é. Ela vira-se para mim e diz Vai para o caralho! Eu rio-me. Ela também.
Arranco com o carro. Para onde vamos? pergunto-me em silêncio. Decido seguir em frente. Talvez até à Figueira da Foz. Estamos sem destino. Não temos obrigações. Podíamos ir até ao fim do mundo. Vamos andando e depois logo se vê. Ela já está outra vez com os pés descalços no tablier. Ela vai para onde eu a levar. Eu vou para onde for.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/08]

De um Lado para o Outro

Eu passei aqueles últimos dias caído sobre a mesa da taberna.
Ao fim da noite, o dono pegava em mim e despejava-me na rua, à frente da porta. Largava-me no passeio onde, não poucas vezes, acabava a vomitar e a desejar um dia sufocar no meu próprio vómito e deixar de passar por toda aquela tristeza a que não conseguia fugir.
Entrava lá me manhã para beber um café. Depois era um bagaço. E acabava por ficar por lá. Naquela altura já nem bebia tanto assim. Já não tinha corpo para isso. Bastava-me o primeiro, ou os dois primeiros bagaços do dia, logo depois do café, para já não ter forças para me levantar da mesa. E ficava por lá o resto do dia. A cabeça tombada sobre a mesa, em cima dos braços que a amparavam, que me amparavam. A meio da tarde levantava os olhos e bebia outro que alguém me oferecia. Mas desaparecia logo outro vez, na voragem do tempo e da minha lassidão.
Ao fim da noite, despejado na rua, arrastava-me até casa. Às vezes não conseguia abrir a porta e ficava ali mesmo, à entrada, a dormir em cima do tapete onde, antigamente, tinha força para limpar a sola dos sapatos. Às vezes passava por lá alguém que me abria a porta e puxava-me lá para dentro. A maior parte das vezes ficava ali mesmo, caído, à entrada de casa. Depois, de manhã, voltava a levantar-me e arrastava-me de volta até à taberna onde bebia um café. Depois um bagaço. Depois haveria alguém que dizia que eu cheirava mal. Que estava todo mijado. Que viam os piolhos a saltar na minha cabeça. Mas que queriam? Aquele era o ambiente da taberna. No fundo, eu era a cor local. Haveria de haver quem lá fosse só para me ver a dormir em cima da mesa, rir da minha vida e rezar para que nunca se tornassem nisto, e ouvir o White Traffic dos Go Graal Blues Band, um blues rock dos anos oitenta de companhia ao cavalo. Era assim, eu, aquele sítio, aquela época e o blues do Paulo Gonzo. Mas não se deixem enganar. Eu não andava no cavalo. Muitos outros andavam por lá, até o dono da taberna. Apanhei-o algumas vezes na casa-de-banho a fazer a sopa. Eu não. Eu só bebia. Bebia para esquecer, até que esqueci porque é que bebia e então só bebia porque era o que fazia. Não havia mais vida na minha vida para além daquele espaço, do café de manhã e dos bagaços que me entorpeciam ao longo do dia.
Quando conseguia entrar em casa, corria para a cama e deixava-me cair lá em cima. Evitava tudo o resto. Tudo o resto que já não existia lá em casa. A televisão, a alta-fidelidade, o leitor de dvds, o computador, os livros, os cds, a maior parte dos móveis, as roupas compradas em boa altura da qual restavam meia dúzia de camisolas e dois pares de calças, mas nunca mudava de roupa. Para quê? Por quê? O que é que me esperava para além da mesa da taberna onde repousava a cabeça e onde tentava não pensar mais no vazio em que tudo se tinha tornado?
Naquela última noite, quando o dono da taberna pegou em mim para me levar para a rua, parou mal me tocou. Colocou a mão no meu pulso. Colocou a mão no meu pescoço. Largou-me. Largou-me a mão e o braço caiu pesado sobre a mesa.
Eu estava a ver cá de cima e senti o braço bater com força na mesa. Vi que não me mexia. Ouvi o dono a telefonar para o INEM e dizer Acho que está morto. E lembro-me de sentir uma grande angústia, a garganta fechar-se e não conseguir respirar. Senti as lágrimas abeirarem-se dos olhos. Vi chegarem os paramédicos. Vi-os auscultarem-me. Vi-os darem-me descargas com o desfibrilador. Vi-os abanar a cabeça para o dono da taberna. Vi-os levarem-me. Vi-me na ambulância. Na morgue. No cemitério, num enterro simples e deserto no cemitério. Ninguém, nem mulheres ou ex-mulheres, nem filhos, nem mesmo o dono da taberna, para me dizer adeus, o último adeus na minha última viagem.
Agora ando por aqui a tentar perceber o que é que posso fazer, mas não posso fazer grande coisa. Nem beber. Ando de um lado para outro. Como se estivesse à espera de qualquer coisa. Não sei de quê. Nem sei se estou realmente à espera de alguma coisa. É só uma sensação. Uma sensação para que não regresse de novo ao vazio. Mas tudo parece ainda pior do que estava.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/16]

Uma Disputa de Território

Naquela altura devia eu andar pelos meus treze, quatorze anos. Vivíamos numa antiga casa de caseiro de uma quinta feita em retalhos, lá para os lados da Boa Vista, para os antigos donos pagarem as dívidas acumuladas ao longo dos anos enquanto aguardavam a herança familiar. Herança recebida, herança desfeita. Foi tudo para os credores. Os meus pais acabaram por arrendar a antiga casa do caseiro ao homem que a comprou. A casa era grande. Rés-do-chão e primeiro andar. Os quartos em cima e o resto em baixo. Só havia casa-de-banho no rés-do-chão e, durante a noite, usava um penico para fazer xixi que enfiava debaixo da cama. No dia seguinte a minha mãe usava o meu xixi, que misturava com água, para regar as plantas e as hortaliças que se entretinha a plantar e a semear num pequeno terreno, anexo à casa, e que nós utilizávamos em proveito próprio. A minha mãe é que cuidava daquela pequena horta. O meu pai só a regava à noite e aos fins-de-semana durante o Verão. Mas era a minha mãe que fazia quase tudo e tratava de levar à mesa tudo o que retirava de lá.
No tempo em que vivemos naquela casa fora da cidade, tivemos sempre um cão. Na verdade vários cães. Sempre que um morria, vinha outro. Cães rafeiros. Cães que nos davam. Cães que apareciam por lá. Os cães estavam sempre presos à casota por uma corrente. Naquele tempo era assim. Os cães estavam presos. Os cães eram os alarmes das casas isoladas. Sempre que os cães ladravam, já sabíamos que alguma coisa se passava. Os cães chamavam-se todos Bobby.
Um dia também apareceu por lá um gato. E ficou. A minha mãe alimentou-o e o gato acabou por ficar. O gato chamava-se Tareco e tinha mais liberdade que o Bobby. Às vezes até entrava em casa mas a minha mãe não gostava e enxotava-o para a rua.
Aconteceu que em determinada altura, apareceu por lá um gatarrão, gordo, enorme, arraçado de persa, que começou a chatear o Tareco. Não sei se era uma disputa de território mas, a primeira vez que fomos alertados para a guerra despoletada entre eles os dois foi com a chinfrineira que fizeram, engalfinhados um no outro, chinfrineira de tal ordem que o meu pai saiu de casa com a vassoura nas mãos para as eventualidades. E descobrimos os gatos enrolados um no outros e uma nuvem de pêlos a voar. O Tareco ficou com mazelas. Várias peladas no corpo. Algum sangue. E isto começou a acontecer com alguma regularidade. Não sabíamos de onde vinha o gato. Não conhecíamos ninguém com gatos ali perto. E sempre que nos aproximávamos, o gatão fugia. Não sabíamos como enxotar o raio do gatão. O Tareco estava cada vez mais desanimado, com menos pêlo e começou a emagrecer a olhos vistos.
Um dia percebi que o gatão costumava vir das traseiras e contornava a casa antes de atacar o Tareco.
Levei um toro de madeira para lenha que o meu pai ainda não tinha cortado, para o meu quarto. E pus-me a fazer uma espera ao gatão.
Depois de jantar fui para o meu quarto, fiquei à janela e aguardei. Sempre a olhar para o fundo da casa. Mas adormeci. Não sei quanto tempo fiquei ali de guarda à espera do gatão, mas adormeci antes dele chegar. Nem sei se chegou. Mas não ouvi nenhum barulho nessa noite. De manhã desci para tomar o pequeno-almoço e regressei ao quarto. Estava de férias da escola. As férias grandes. Passava as tardes a tomar banho de mangueira em frente à cozinha. Mas naquele dia, naquele dia voltei para o quarto e fui colocar-me à janela. À espera.
Ainda não era meio-dia. Já me chegava lá acima o cheiro do refogado que a minha mãe estava a fazer. Vi o gatão a vir sorrateiro dos fundos da casa. Passar rente à parede. Parar. Olhar em volta. Voltar a andar mais um pouco. Eu peguei no toro de madeira. O gato parou debaixo da minha janela. A olhar à volta. À procura do Tareco. E eu deixei cair o toro de madeira, pela minha janela, que acertou em cheio no gato. Acho que lhe acertou na cabeça. Ouvi um baque seco. O gato ficou lá caído. Eu fiquei debruçado sobre a janela a olhar o gato que não se mexia. O toro de madeira rolou um pouco depois de cair sobre o gato e parou um pouco mais à frente. O gato continuou quieto. Deitado no chão encostado à parece de casa. Devia estar morto. Nunca tinha visto nada morto. E depois, comecei a chorar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/22]

Ida à Praia

Hoje peguei no carro e saí de casa. Nem tomei banho nem me vesti. Fui com as calças de fato-de-treino que enfiei pelas pernas quando me levantei e uma sweat de algodão. Nem fiz café nem torradas nem comi nada. Nem fumei sequer o primeiro cigarro do dia. Calcei logo as sapatilhas e saí da casa.
Estava a dar em doido assim fechado. A espreitar pela janela. A ver o vazio nas ruas. As caras à janela. As caras mirradas como a minha nas janelas. A fumar cigarros. Uns atrás dos outros. Enquanto uns enfiaram sacos familiares de papel-higiénico nos carrinhos de supermercado, eu aviei-me de volumes de cigarros e vários pacotes de tabaco de enrolar, filtros e mortalhas. Falta-me a paciência. Não me falta tabaco.
Saí de casa e entrei no carro. Saí pela cidade. Pela cidade vazia. Quase vazia, afinal. Fui-me cruzando com algumas pessoas a caminhar pela cidade. Uns com cães. Outros sem cães mas solitários. Uns caminhavam decididos. Outros apalpavam terreno. Vi um velho de mãos atrás das costas à beira de uma passadeira a ver quem poderia passar. Passei eu. Levantou-me a mão num cumprimento cúmplice. Respondi também com o levantar da mão. Acho que o velho estava a dizer-me que éramos os corajosos, nós os que estávamos na rua. E eu só queria que ele percebesse que eu não era nenhum herói mas que precisava de ver o mar. Precisava mesmo de ver o mar. Não precisava de ir à praia, de mergulhar, de nadar, nada dessas coisas tão veraneantes como o tempo que parece estar, mas ver, só ver. Era só o que eu precisava. Uma espécie de Xanax da alma. Ver o mar.
Cruzei a cidade. Havia mais gente na rua que imaginava. Talvez bem menos que aquilo que tenho visto noutros lugares através da televisão e das redes sociais. Somos um povo de rua. Gostamos de estar na rua. É por isso que não entendo as poucas esplanadas na cidade, no país. Um país de bom tempo e poucas esplanadas. E as poucas esplanadas que existem estão cobertas. Nem todas, claro.
Cruzei a cidade, passei os subúrbios e deixei-me ir estrada fora até à praia.
Passei pelo pinhal ainda morto, com alguns focos de vida teimosa a brotar entre os cadáveres das árvores carbonizadas. Muito verde e violeta e amarelo a pintalgar o chão de onde ainda se erguiam árvores mortas, ainda não cortadas depois de todo este tempo em que o Pinhal do Rei ficou reduzido a pouco mais de vinte por cento da sua área original, anterior ao grande incêndio. Vê-se, aqui e ali, algumas tentativas de replantação. Mas está tudo ainda muito no início. Há ainda enormes pilhas de troncos de madeira que era suposto terem sido vendidas. Para as celuloses. Para lenha. Mas estão aqui. A apodrecer. Esquecidos.
Chego ao Vale Furado. O pequeno parque em terra batida frente ao Mad, fechado, está vazio. Não há ninguém. O dia está claro. Faz sol. Está calor. Saio do carro e aproximo-me da arriba. Sento-me em cima do varandim de madeira a olhar o mar lá em baixo. Não há ninguém na praia. Só o mar a rebentar as suas ondas e a espraiá-las pelo areal. Consigo ver a costa até à Praia do Norte e o Forte da Nazaré. Não dá para ver se há surfistas ou não na água. Estou demasiado longe para o perceber. Também vejo as Berlengas. Daqui de cima parece tudo muito calmo e tranquilo. Eu respiro. Respiro fundo e com calma.
Acendo um cigarro e deixo-me ali estar por um bom bocado, a apanhar os raios de sol, a maresia que espero que chegue cá acima, e a ver a melodia das ondas, acima abaixo, que me relaxam.
Depois, algum tempo depois, alguns cigarros depois, percebo que retemperei baterias. Fazia-me falta esta comunhão com o mar.
Vi chegar um outro carro com um casal. Voltei para dentro do meu carro e regressei a casa. Enquanto conduzia de regresso percebi que estava com vontade de reler o Knausgard. Tempos de excepção precisam de literatura de excepção. Era tempo de voltar à Morte do Pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/29]

Para um Diário da Quarentena (Primeiro Andamento)

No segundo dia de quarentena e não noto diferença no ritmo da minha vida. Continuo fechado em casa, com vários passeios pelo quintal a olhar as montanhas ao fundo, a beber copos de vinho tinto e a fumar cigarros no alpendre. Nada que já não faça nos outros dias da minha vida desde que resolvi virar costas à cidade que me estava a tratar mal.
Normalmente dou uns passeios pela aldeia. Bebo um café e um bagaço no café central, ao lado da igreja, e abasteço-me de pequenos produtos alimentares, frescos e pão, na mercearia. Ontem e hoje não saí daqui. Amanhã talvez vá comprar pão fresco. Se a mercearia estiver aberta.
Hoje o dia começou com sol. Não estava frio mas estava vento. Fumei um cigarro no alpendre, em pé, com um dos gatos a roçar-se nas pernas despidas. Depois voltei para casa e por cá tenho ficado.
Devia ir levar comida ao cão e aos gatos, mas estou com preguiça. Hoje não comem ração. Talvez cacem um rato ou um coelho. Os gatos costumam caçar coelhos e partilham-nos com o cão. Dão-se bem e não estão muito dependentes de mim. Mas eu prefiro dar-lhes ração para não andarem para ai restos de animais mortos e bolas de pêlos a voar. Sou alérgico aos pêlos dos animais.
Hoje não tomei banho. Já não lavo o cabelo há três dias. E está muito grande. Devia cortá-lo, mas não há-de ser agora. Não irei à cidade durante os próximos tempos.
Desde que me levantei que tenho andado nu cá por casa. A casa é quente e confortável. Tenho andado indeciso sobre o que fazer e ainda não vesti nada porque estou sempre a ponderar voltar para a cama e ir dormir.
Hoje não me apetece trabalhar. Comecei a ver uma série nova, The Outsider, e estava com vontade de terminar a temporada de uma vez mas, deu-me a fome e acabei por parar no terceiro episódio para ir grelhar um hambúrguer. Comi-o dentro de um pão da avó que torrei. Juntei-lhe uma fatia de queijo Limiano e um pouco de ketchup Heinz. Acompanhei com um resto de uma garrafa de vinho sobrevivente. Já tinha um pouco de pé. Ainda bem que o acabei. Amanhã tenho mesmo de ir à mercearia. Ou procurar alguém que tenha uns garrafões para vender.
Enquanto estava a comer o hambúrguer apanhei o Primeiro-Ministro na televisão a explicar as novas medidas de emergência. Não consegui concentrar-me no que ele disse. Sinto-me um pouco tonto. Tenho vertigens quando me falam de coisas que não quero ouvir. Mas acabo por perceber o geral da conversa. E percebi. Vou continuar fechado cá por casa. Nada a que não esteja habituado. Vou continuar a trabalhar em casa. O que já faço. Não vou a concentrações de pessoas. E não vou mesmo. Mesmo quando posso. Ou podia.
Passo na casa-de-banho para mijar. Lavo os dentes depois de ter comido o hambúrguer.
Páro no corredor. Sinto falta dos jogos de futebol. Tento perceber o que vou fazer. Tento perceber o que é que me apetece fazer. E percebo que não me apetece fazer nada. Acabo por rumar à cama. Deito-me. Tapo-me com o edredão por cima da cabeça.
Espero que os dias passem todos muito depressa, eu envelheça e mude de opinião. Às vezes gostava de voltar ao convívio das outras pessoas. Depois passa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/15]

Interrompido

Tinha agarrado nas quatrocentas páginas de O Amor nos Tempos de Cólera e ido para o alpendre, sentado numa cadeira, um copo de gin na pequena mesa de apoio ao lado e um cigarro aceso nos dedos quando o telefone tocou. Era ela. Atendi.
Olá!, disse. Ela ficou em silêncio depois do meu cumprimento e demorou a dizer Olá!
Ela é que tinha telefonado, mas eu é que fiz a conversa. Percebi que estava nervosa. Talvez arrependida de ter ficado em casa sozinha. Talvez arrependida de não ter aceite o meu convite. E eu disse-lhe Estou no alpendre. De papo para o ar a adormecer esta solidão. Podias estar aqui. Podíamos estar a jogar Monopólio.
Ela deu uma pequena gargalhada. Talvez a primeira desde…
Tossicou um pouco e disse Estou à janela a olhar para a rua. Não passa ninguém.
Aqui também não passa ninguém, respondi-lhe, solidário. Mas era verdade. Desde manhã que não via ninguém a passar na estrada lá ao fundo. Nem a pé nem de carro. Nem as motorizadas de motor estridente que se ouvem normalmente a passar na aldeia se ouviam. Mas ouvia vozes ao longe. Devia haver gente no campo, a tratar das hortas, dos pomares, do gado.
Olhei para o fundo do quintal. Tentei focar o olhar.
Pousei o livro na mesa ao lado do copo de gin e levantei-me da cadeira. O olhar ao fundo. Ao fundo do quintal.
Ela disse Já contei os mosaicos da casa-de-banho. São bastantes. Mas já esqueci quantos eram. Eu respondi Cá em casa não há mosaicos na casa-de-banho, como sabes. Só azulejos. São maiores. Serão menos, de certeza. Falava com ela enquanto descia as escadas do alpendre de olhos postos ao fundo do quintal.
Não sabia do cão e dos gatos. Deviam andar a passear alheios a toda esta situação de emergência. E ela disse Tenho comprimidos suficientes para um mês. Ainda bem!, saiu-me. Mas sim, ainda bem. Ainda bem por ela. Sabia como precisava dos comprimidos. Sabia como ficava sem os comprimidos.
Eu aproximava-me do fundo do quintal.
Ela disse Não tenho conseguido cozinhar. Tenho comido latas de conserva. Havia só dois dias que tínhamos ficado confinados em casa e ela já estava cansada. Esperava que conseguisse aguentar o tempo que fosse preciso. E vinha aí muito tempo. Muito tempo fechados em casa. Mesmo que ela quisesse agora aceitar o meu convite, eu não podia lá ir buscá-la. Ouvia as notícias que contavam das autoridades a patrulhar as áreas com mais densidade populacional para obrigar as pessoas a ficarem em casa. Já havia relatos de prisões. Já tinha lido no Facebook que tinham sido disparados tiros que tinham atingido algumas pessoas que teriam furado a quarentena. Para irem para a praia, dizia-se. Mas não sabia se era verdade ou não. Por aqui não se via polícias, guardas ou militares. É verdade que não tinha visto ninguém a passar aqui ao fundo. Mas ouvia vozes. Barulhos. Devia haver gente nos campos. A tratar das hortas. Dos pomares. Do gado. As pessoas aqui estão isoladas do mundo e aproveitam para furar o bloqueio. Devem andar de casa em casa. Eu estou por aqui. Sozinho.
Abri uma lata de atum com feijão frade. Nunca pensei gostar. Não é mau.
Cheguei ao fundo do quintal. Mandei fora a beata do cigarro. Baixei-me. Era um pássaro morto. Não estava ferido. Não via nenhum golpe. Não havia sangue. Estava morto mas estava intacto.
Está? ouvi lá do outro lado ela a sentir-se ignorada. Desculpa! disse, e continuei Descobri um pássaro morto aqui no quintal.
E depois senti o som seco de uma pancada um pouco mais ao lado, dentro do quintal. Fui até lá. Era outro pássaro que tinha acabado de cair. Igualmente intacto. Olhei à minha volta e não vi ninguém. Olhei para o céu e não vi nada. Olhei para a estrada e descobri mais dois pássaro caídos no asfalto.
Senti-me engolir em seco. Lembrei-me do copo de gin que tinha deixado na mesa lá em cima no alpendre. Tentei salivar para humedecer a garganta, mas não consegui. E disse-lhe para o telefone Tenho de desligar, e desliguei.
Comecei a andar mais depressa para o alpendre enquanto tentava ligar para o cento e doze. Interrompido. Para a polícia. Interrompido. Cheguei ao alpendre e bebi um grande gole de gin. Refresquei a garganta. Tentei ligar para a guarda. Interrompido. Acendi um cigarro. Vi cair mais dois pássaros no quintal. Tentei ligar para a linha de saúde, para o jornal da cidade, para a câmara municipal… Tudo interrompido!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/14]

A Vida Cá por Casa

Eu já não era o único a arrastar-me cá por casa. Agora era ela, também. Depois de nos levantarmos de manhã, depois de bebermos uma caneca de café de saco, eu, em fato-de-treino, sentava-me numa poltrona e ela, de roupão por cima da camisa de dormir, sentava-se na outra. Ligávamos a televisão e ouvíamos as notícias na CMTV. Estávamos em guerra. Estávamos em guerra contra um vírus e estávamos a perder essa guerra. Entrámos em angústia. A morte rondava-nos. Perto da hora do almoço eu carreguei no botão do comando e passamos para a SICN e sossegamos um pouco. A situação era má, mas não era desesperada como parecia.
Ao almoço aquecemos um resto de feijoada que ela tinha trazido de casa da mãe há umas semanas e tinha guardado no congelador. Havia um resto de arroz de cenoura da véspera e aquecemos tudo no micro-ondas. Acompanhámos com um copo de vinho de uma garrafa sem rótulo que ela também tinha trazido de casa da mãe. Era vinho do produtor. Uma zurrapa. Era boa para matar o bicho.
Eu já estava habituado àquela vida de andar por casa, a arrastar os chinelos do quarto para a sala, da sala para a casa-de-banho, da casa-de-banho para a cozinha, caneca de café na mão, um cigarro e um biscoito, uma vida de desempregado de longa-duração, já entrado numa idade em que se está morto para o mercado de trabalho que os mercados financeiros gostam é de gente novinha a quem possam chupar toda a energia. Eram as minhas manhãs. Umas a seguir à outras. Em repetição. Depois de aquecer algum resto perdido pelo frigorífico para almoçar, a tarde não fugia aos mesmos passos. Vestia umas calças e uma camisola. Ia até à rua. Bebia café. Às vezes um copo de vinho. Fumava uns cigarros. Arrancava uma maçã da árvore, limpava-a às calças e comia-a por ali mesmo, pelo quintal. Depois regressava à sala. Regressava à companhia da televisão. Via um ou outro programa da tarde, programas para donas-de-casa, mulheres da limpeza ou para velhos sedentários, e esperava que ela regressasse. E ela acabava sempre por regressar. Os meus dias eram assim e eu já estava habituado a eles.
Ela não. Ela não estava habituada a estar por casa. No início tentou copiar-me os ritmos, mas não tinha estofo para aquilo. O estar ali quieta, afundada no sofá a fumar cigarros, não era para ela. Esperava não ficar muito tempo por casa. Esperava que passasse a crise do Covid-19 e a vida retomasse o seu ritmo normal. Fosse lá o que o normal fosse. Bom, para ela, era sair de casa de manhã para ir trabalhar e só regressar ao final do dia. Olá amor, Olá, um beijo, um cigarro em conjunto e o jantar para os dois antes de ver um filme requentado no canal Hollywood.
Depois de uma manhã a arrastar-se pela sala, cozinha e casa-de-banho, depois de uma dieta de cafés e cigarros e o vinho ao almoço a acompanhar aquele resto de feijoada que tinha trazido de casa da mãe, ela precisava de agitação. Foi vestir o fato-de-treino colorido, resto dos anos noventa, e foi lavar o carro. Passou-lhe cera. Aspirou-o por dentro. Verificou o óleo. Pôs-lhe água no depósito do pára-brisas. E eu à janela, a fumar um cigarro e a pensar Era eu que devia estar a fazer aquilo, não era?, mas ela gostava. Ela gostava de fazer aquelas coisas. De estar ocupada. De não ter motivos para pegar num livro. Eu gostava de ter motivos para pegar num livro, mas a televisão punha-se sempre entre mim e o livro. E deixava-me ficar por lá, frente à televisão, a enfardar entretenimento em forma de conhecimento popular.
Depois de deixar o carro num brinco, ela entrou em casa e disse Vou dar uma volta. Vou caminhar. Queres vir?
Não me apetecia nada ir. Não percebia aquela loucura por caminhar em direcção a lado nenhum, sem outro objectivo que não o caminhar, mas sabia que, ao fazer-me a pergunta, já esperava que eu dissesse que sim, e era melhor dizer sim e evitar problemas.
E disse, Sim, vou contigo.
Ela ainda vestiu um colete amarelo-fluorescente por cima do fato-de-treino colorido. Era para se ver bem na estrada. Eu fui com o fato de treino azul escuro que já tinha vestido. Ela ia suficientemente colorida por nós os dois. Fui só calçar umas sapatilhas e partimos.
Ela caminhava depressa. Aquilo não era um passeio. Era uma prova de marcha. Em ritmo acelerado. Não sei se fazia bem a caminhada. Parece que tem de haver sempre uma planta dos pés no chão. Não sei muito bem como é que isso se processa, mas fui andando atrás dela. E ela levou-me por caminhos de terra batida que eu nem conhecia. Consegui que ela parasse um pouco ao pé do ribeiro. Ainda bebi um pouco de água. Ela avisou que a montante, havia uma cerâmica Há uma cerâmica lá mais em cima. Se calhar não é boa ideia beberes do rio. Mas já era tarde. Era melhor preparar-me para um desarranjo intestinal. E lá continuámos.
Acabámos por fazer uma volta enorme e voltar pelo outro lado da casa. Doíam-me as pernas. Eu vinha cansado. À chegada a casa, vi um dos gatos morto no meio da estrada. Atropelado. O gato tinha rebentado. Havia tripas espalhadas pelo asfalto. Encostei-me a uma árvore na berma da estrada e comecei a vomitar. Ela agarrou numa espécie de cajado e puxou os resto do gato para a berma.
Agarrou em mim e ajudou-me a ir para casa. Deixou-me na casa-de-banho e foi encher um balde para enxaguar a estrada. Tirou umas sapatilhas minhas de uma caixa e levou a caixa para colocar o resto do gato.
Quando regressou já eu tinha tomado banho e estava de fato-de-treino lavado a fumar um cigarro no alpendre à espera dela. Ela pegou-me no cigarro e deu duas passas. E disse Vou tomar um duche. Depois vou fazer uma salada para o jantar. E eu respondi Está bem.
Ela foi tomar banho e eu regressei à sala. Sentei-me no sofá e liguei a televisão. Estava a responsável da Direcção Geral de Saúde e a Ministra da Saúde a falar em directo. A fazer um ponto da situação da expansão do vírus. Comecei por ouvir. Acabei por adormecer.
Acordei quando ela me chamou e disse Anda! Anda, vá! Vamos comer uma salada.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/10]

Alguém Ia Ter de Pagar

Quando, hoje, ia a sair de casa para ir ao café da aldeia beber uma amêndoa amarga e abrir o apetite para o almoço (estava a guisar um coelho que uma vizinha me ofereceu), vi o corpo do cão caído no chão do quintal. Senti um aperto no coração. Imaginei que não seria boa coisa. O cão anda sempre a correr de um lado para o outro com os gatos. Nunca está assim parado. Não seria boa coisa.
E não era.
O corpo estava parado. Vi espuma a sair-lhe da boca. Pus-lhe a mão sobre a barriga e percebi que estava morto. Envenenado, com certeza.
Acendi um cigarro. Senti um nervoso percorrer-me o corpo. Olhei em volta. Para os muros do quintal. Por cima dos muros do quintal. Para a estrada que passa lá em baixo. Para o terreno em frente. Não vi ninguém. Um Domingo como os outros. Nunca há ninguém nas ruas da aldeia antes de almoço. Uns estão na missa, outros a fazer o almoço e, os restantes, estão no café da aldeia. Não anda ninguém nas ruas. E hoje também não andava.
Dei uma volta em torno da casa. Olhei o chão com atenção. Espreitei atrás dos arbustos, das flores, dos troncos das árvores.
Espreitei atrás de todas as esquinas da casa. Levantei pedras. Subi ao muro e andei lá por cima a olhar para o lado de fora. Não sei do que é que andava à procura, mas saberia quando visse. Estava à espera de não ver. Não queria ter razão. Gostava que tivesse sido um acaso. Um azar.
Não vi nada de estranho.
Desci a pequena alameda até à estrada. Espreitei através das grades do portão. Caminhei ao longo do muro. Sempre a olhar para a estrada. Para o outro lado da estrada. Para as árvores do outro lado da estrada. Para os postes de electricidade. Vi os caixotes do lixo. Há ali, no fim do muro da casa, no outro lado da estrada, uma pequena ilha para separação de lixo. Há lá sempre alguns monstros. Tábuas de passar-a-ferro, esqueletos de máquinas de lavar, caixas de televisores de cinescópio. Que ficam por ali meses. Fiquei por momentos a olhar para os caixotes. Depois regressei a casa e subi a pequena alameda.
Estava furioso.
Entrei em casa. Fui ao quarto. Abri o guarda-fatos. Agarrei no cofre. Abri-o. Tirei o revólver. Confirmei que estava carregado. Prendi-o no cós das calças. Nas costas.
Passei na cozinha e agarrei num saco de lixo de 50 litros.
Saí de casa.
Enfiei no corpo mole do cão morto e enfiei-o no saco.
Desci a pequena alameda com o saco nas mãos. Fui à ilha e deixei-o no caixote de lixo RSU.
Acendi outro cigarro. Olhei em volta. Coloquei a mão atrás das costas para sentir o revólver. Estava lá. Estava lá à espera.
Voltei para trás na estrada. Olhei em volta. Fiz o caminho até à casa do vizinho mais próximo. Debrucei-me sobre o muro. O cão deles estava deitado no jardim. Viu-me e veio até ao muro a abanar o rabo. Esticou-se no muro. Fiz-lhe uma festa na cabeça. Voltei para trás. Ia fazer toda a aldeia. Olhar em todas as casas, em todos os quintais, em todos os jardins.
Alguém seria culpado. Alguém ia ter de pagar.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/09]

O Advogado

Ainda o autocarro não tinha saído de Sete Rios, já o tipo se anunciava ao mundo. Sim, era advogado, mas estava sem farda. Já era entradote e não estava de fato, o que complicou um pouco o imaginário. O meu imaginário. Sim, eu sei, as coisas já não são como eram. O mundo é outro. As pessoas evoluíram e os estereótipos são redutores, além de serem estúpidos e preconceituosos. Pronto, mas eu sou um tipo um bocado estúpido e cheio de estereótipos que me ajudam a balizar o mundo. Preciso de me manter em equilíbrio. O homem usava umas calças de sarja, salmão (quem é que usa umas calças salmão?). Calçava umas botas de pele, de meio-cano, com atacadores e fecho atrás, no calcanhar, umas botas daquelas com furinhos em forma de cornucópias na biqueira e de um castanho-amarelado quase-Camel. Na parte de cima, e por baixo de um anoraque cinzento, daqueles muito barulhentos que orquestram o ar a cada movimento, vestia um pulôver vermelho. Talvez tivesse uma camisa, não sei, mas não consegui ver por baixo do cachecol às riscas, em vários tons cinza, que tinha enrolado à volta do pescoço. Aquelas cores, muito próximas e, no entanto, tão diferentes, criavam assim uma espécie de ton-sur-ton bizarro e louco, demasiado colorido para alguém que se queria advogado, isto segundo as minhas leis pré-estabelecidas sobre a ordem do mundo, e antes de ser jogado para outra dimensão.
Então, ainda o autocarro estava em Sete Rios, o advogado dizia, num tom de voz jorrado do palco sobre a plateia, que estava a conduzir, tinha parado para uma mijinha (palavra dele), estava a ver o processo pelo WhatsApp enquanto bebia um cafezinho, mas que aquele tipo de assunto merecia ser visto num computador, com ecrã grande, que o deixasse pensar, o que iria fazer assim que chegasse ao escritório.
Eu estava zangado com a algazarra ao telemóvel, mas não deixei de sorrir à mentira gritada frente a tantas testemunhas. E pensei, É mesmo advogado?
O tipo estava sentado ao meu lado, no outro lado da coxia central. Cofiava a barba de três-dias, grisalha. Acenava com a cabeça como se o interlocutor o estivesse a ver. Mas aquela não era uma vídeo-chamada. Despediu-se com um Com certeza! e desligou a chamada.
À nossa volta, minha e dele, uma série de passageiros, quase todos com ar de estudantes universitários, todos agarrados a computadores e tablets e umas meninas, bastante coloridas nas roupas e na decoração, que falavam baixinho entre si e passaram o tempo todo a escrever nos telemóveis com dedos encimados com unhas-de-gel que faziam tec-tec-tec no ecrã, estavam em trânsito de uma cidade para outra.
Pensei no que esta gente fazia com os computadores e com os tablets porque não havia internet no autocarro. O wireless é uma miragem mais prometida que oferecida. Estava tudo morto. Só o telemóvel do advogado continuava a apitar.
Gritava para se fazer ouvir do outro lado. Está?, perguntava. Não era nenhum constituinte. Era a mulher. Sim, claro que a mulher sabia que ele ia de autocarro. E sim, sabia que tinha de o ir buscar. E sim, ainda tinha tempo para fazer o que precisava de fazer. Ele ainda estava em Lisboa, dizia quando se aproximava já de Loures, mas ainda não tinha passado a portagem. Eu não ouvia a mulher. Mas ouvia-o a ele e percebia-a a ela.
O autocarro não ia cheio. Qualquer coisa para cima de meio. Mas quem ouvisse o homem, julgaria que o autocarro estava vazio e que se tinha transformado em escritório de advogado que trabalhava por WhatsApp, embora o computador fosse melhor para analisar alguns casos.
E à mulher ainda disse Sim, querida, vamos jantar… O que tu quiseres… Pode ser uma sopinha. Ainda estou cheio do almoço, vê lá tu.
Depois uns beijinhos enviados em rapidez e, finalmente, desligou.
Fez-se um silêncio que me pareceu estranho. Já me tinha habituado.
Mas logo ouvi Oh, foda-se! quando o advogado percebeu que o wireless do autocarro não estava a funcionar. Olhou em volta para ver se alguém tinha internet, mas tal como eu não deve ter percebido nada. Toda a gente que se avistava estava a fazer coisas nos computadores, nos tablets ou nos telemóveis. Eu vi isto pelo canto do olho.
O silêncio não durou muito tempo. O telemóvel começou a tocar uma música clássica muito alto. O homem foi apanhado de surpresa. Vejo-lhe os dedos a tocarem no ecrã. Está aflito. Devia estar a fazer alguma coisa no WhatsApp, fora surpreendido com a música de chamada e não estava a conseguir responder à situação.
Finalmente consegue atender o telefone. Troca o barulho da música por um português que balança o samba. Percebo que fala com alguém brasileiro. O seu português ganha as curvas musicais adocicadas do hemisfério sul. E diz Não pude fazer a transferência porque o seu IBAN só tem 20 números e o nossos tem 21. O ATM não aceitou a transferência. Veja lá isso.
Sim, pensei eu, veja lá isso e dê-me tempo.
Depois desculpa-se e diz que tem outra chamada. Atende a outra chamada. Fica mais alegre. Ouço-o dizer O bom que há aqui é que não há ninguém no meio. Estou directamente com a empresa. Isto é cinquenta por cento para cada lado. Exactamente. Ok? Um abraço.
Quando era mais novo, não novo de adolescente, mas ainda jovem, conseguia dormir em qualquer lado e em quaisquer condições. Sentava-me sobre o cóccix, os joelhos presos nas costas do banco da frente, deixava-me embalar pelos solavancos do autocarro e passava pelas brasas. Recuperava forças. Dormitava um pouco e, quando chegava ao destino, estava pronto para o que o destino me quisesse aprontar. Agora era mais difícil. Estou maior. Mais gordo. O espaço entre os bancos encolheu, não encontro conforto e já não consigo dormir em andamento. Mesmo ler qualquer coisa provoca-me vómitos. Mas gosto de ir sossegado. A pensar com os meus botões sobre as vicissitudes da minha vida.
Mas aquele advogado ali ao lado, aquele advogado-actor que parecia estar em cima de um palco a falar para a última fila da plateia, estava a dar comigo em doido. E foi assim até ao destino.
Ao chegar ao destino, o advogado ansioso já em pé durante as manobras de estacionamento do autocarro, voltou a receber uma chamada telefónica do brasileiro do IBAN. Dizia que estava no ónibus e não podia tratar de nada. Agora não posso tratar de nada, dizia. Estou no ónibus. Amanhã, dizia. Mas tem de arranjar alguém com uma conta portuguesa com um IBAN de 21 espaços para 21 números. Veja lá. Amanhã… Amanhã…
E enquanto descia as escadas da porta traseira do autocarro, e eu atrás dele, o advogado continuava a dizer Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, como um final de peça, Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, quase até ao limite da audição. Amanhã… Amanhã…

[escrito directamente no facebook em 2020/01/28]

Duas Histórias numa História

I
Saio de casa sem grande convicção. Preciso de comprar o livro, mas o ter de ir ao centro comercial destrói-me a vontade. Ainda para mais agora. Nesta altura. Nesta altura do ano. Nesta altura do ano onde anda toda a gente histérica a comprar. A comprar coisas. Não importa o quê. Coisas. Ontem ouvi alguém falar que ia a uma loja de chineses com vinte euros e comprava vinte prendas e tinha o Natal resolvido. E eu perguntei-me Porquê? Porque raio há-de gastar-se dinheiro em lixo? Em porcarias de plástico de baixo valor que acabam por ser estupidamente caras porque não servem para nada, ninguém quer saber delas, são lixo e vão directamente para o canto da tralha a que não se liga mais?
Chego ao centro comercial. Quer dizer, ainda não cheguei lá, mas já o avisto. Está lá em cima, ao fundo. No fim desta enorme fila onde estou preso. Pára-arranca. O motor a trabalhar e o carro parado. Ando um metro de cada vez e queimo não-sei-quantas octanas. Leiria está toda a caminho do centro comercial. A cidade às moscas.
Finalmente entro no parque de estacionamento exterior. Eu e todos os outros que vão comigo, à minha frente e atrás de mim. Estamos à procura de milagre? Se esta gente toda aí à frente não encontra um lugar, pequenino, insignificante, esquecido por aí, como é que o vou encontrar eu?
Guino, rápido, sem pensar, para a esquerda. Entro num caminho secundário. Para tentar algo de diferente. Nada. Nada de nada. Não há nada de diferente nos trajectos diferentes. Vou tentar dar uma volta. Vou andar à sorte. Pode ser que me caia em cima. Como um Toto-Loto.
Nada.
Ao fim de duas voltas ao parque de estacionamento, atrás de outras pessoas como eu, à procura de um lugar salvífico para parar, sem o conseguir, que raio faço aqui?
Desisto.
O Natal não é para mim. Que se lixe o centro comercial, o livro e o Natal.
Sigo em frente para contornar o centro comercial por trás e por fora. Quero sair daqui. Quero sair daqui já. Estou cansado.
E então vejo-o. Parado à minha frente. A olhar para mim. Auscultadores nos ouvidos. Cigarro na boca. Óculos à frente dos olhos, mas sei que está a olhar para mim. Aparece-me do nada. Ele está na passadeira para os peões. Na passadeira e no meio da estrada. Da minha estrada. Na mesma passadeira que eu estou a cruzar. Não o vi chegar. Vejo-o agora. Vejo-o ali. À minha frente. E sei que lhe vou bater. Merda! Vou-lhe bater porque isto está a acontecer muito depressa e eu é que o estou a atrasar na minha cabeça para o poder compreender e processar. E o que compreendo é que ele estava a atravessar a passadeira e eu não o vi a chegar, deve ter passado pelo ângulo morto do carro, não o vi, vejo-o agora e sei que vou bater-lhe em cheio, não vou muito depressa mas o suficiente para o partir ao meio se lhe acertar no sítio certo. Ou no sítio errado. Que merda! Que merda, pá!…

II
É melhor que nada, estas horas. Melhor que estar em casa sem fazer nada à espera de fazer alguma coisa que nunca faço. Mas são muitas horas seguidas. Para receber o que recebo. Estou cansado.
Mas gosto desta hora de pausa quando não chove. Saio do centro comercial. Venho à rua. Como qualquer coisa que trago de casa. Tenho de poupar. Não posso estar a gastar o que estou a ganhar.
Tiro a t-shirt da loja. Visto a minha camisola. Um casaco, que lá fora na rua está frio. Ponho os auscultadores e dou uma volta aqui ao pé, pelo parque de estacionamento, e fumo um cigarro. Ou dois. E ouço música que não aquelas porras dos Wham! e da Mariah Carey que já não suporto.
Hoje trouxe um pão com mortadela. O pão é de ontem porque não consigo comprar pão fresco antes de entrar ao serviço. Mas sou burro, não sou? Posso ir, num instante, ao supermercado comprar um pão. Trazia a mortadela de casa e fazia a sandes com pão fresco. Mas deve estar muita gente para pagar nas caixas do supermercado. Pois, é possível que esteja. Afinal é Natal. Anda tudo doido por aí a comprar coisas, coisas e mais coisas.
Como o pão aqui à saída. Não está mau. Nem muito duro, afinal. E estava a precisar de mastigar qualquer coisa.
Tanto carro aí fora! Porra! A cidade veio toda ao centro comercial. Como dizia a minha mãe Pariu a galega!
Já acabei o pão. Bebia um café. Bebo depois quando voltar para dentro. É melhor pôr os óculos. Vou fumar um cigarro. Vou dar uma volta pelo parque de estacionamento e fumar um cigarro. E pode ser que encontre uma nota de vinte caída aí entre dois carros. Querias! Pois queria! Que estupidez de conversa. Acendo o cigarro. Dou umas fortes passas e sinto a cabeça um pouco tonta da nicotina. Sabe bem.
Olha aquele carro! Aquele carro que vem aí! Não pára? Estou na passadeira, pá! Não está a ver-me. Que raio, pá. O carro vai bater-me, já percebi. O carro vai bater-me. Merda! Vou partir as pernas. A cabeça. Vou estragar o casaco. Vou perder os auscultadores e o iPod. E o cigarro está na boca. Espero não engoli-lo. E como é que consigo pensar nestas merdas todas enquanto vejo o carro a vir para cima de mim sem conseguir fugir?
Aí está ele. Foda-se! E a minha mãe? Onde está a minha mãe? Mãe, ajuda-me! por favor, se fazes favor, tenho medo, mãe, mãe, mãe!…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/09]