Duas Histórias numa História

I
Saio de casa sem grande convicção. Preciso de comprar o livro, mas o ter de ir ao centro comercial destrói-me a vontade. Ainda para mais agora. Nesta altura. Nesta altura do ano. Nesta altura do ano onde anda toda a gente histérica a comprar. A comprar coisas. Não importa o quê. Coisas. Ontem ouvi alguém falar que ia a uma loja de chineses com vinte euros e comprava vinte prendas e tinha o Natal resolvido. E eu perguntei-me Porquê? Porque raio há-de gastar-se dinheiro em lixo? Em porcarias de plástico de baixo valor que acabam por ser estupidamente caras porque não servem para nada, ninguém quer saber delas, são lixo e vão directamente para o canto da tralha a que não se liga mais?
Chego ao centro comercial. Quer dizer, ainda não cheguei lá, mas já o avisto. Está lá em cima, ao fundo. No fim desta enorme fila onde estou preso. Pára-arranca. O motor a trabalhar e o carro parado. Ando um metro de cada vez e queimo não-sei-quantas octanas. Leiria está toda a caminho do centro comercial. A cidade às moscas.
Finalmente entro no parque de estacionamento exterior. Eu e todos os outros que vão comigo, à minha frente e atrás de mim. Estamos à procura de milagre? Se esta gente toda aí à frente não encontra um lugar, pequenino, insignificante, esquecido por aí, como é que o vou encontrar eu?
Guino, rápido, sem pensar, para a esquerda. Entro num caminho secundário. Para tentar algo de diferente. Nada. Nada de nada. Não há nada de diferente nos trajectos diferentes. Vou tentar dar uma volta. Vou andar à sorte. Pode ser que me caia em cima. Como um Toto-Loto.
Nada.
Ao fim de duas voltas ao parque de estacionamento, atrás de outras pessoas como eu, à procura de um lugar salvífico para parar, sem o conseguir, que raio faço aqui?
Desisto.
O Natal não é para mim. Que se lixe o centro comercial, o livro e o Natal.
Sigo em frente para contornar o centro comercial por trás e por fora. Quero sair daqui. Quero sair daqui já. Estou cansado.
E então vejo-o. Parado à minha frente. A olhar para mim. Auscultadores nos ouvidos. Cigarro na boca. Óculos à frente dos olhos, mas sei que está a olhar para mim. Aparece-me do nada. Ele está na passadeira para os peões. Na passadeira e no meio da estrada. Da minha estrada. Na mesma passadeira que eu estou a cruzar. Não o vi chegar. Vejo-o agora. Vejo-o ali. À minha frente. E sei que lhe vou bater. Merda! Vou-lhe bater porque isto está a acontecer muito depressa e eu é que o estou a atrasar na minha cabeça para o poder compreender e processar. E o que compreendo é que ele estava a atravessar a passadeira e eu não o vi a chegar, deve ter passado pelo ângulo morto do carro, não o vi, vejo-o agora e sei que vou bater-lhe em cheio, não vou muito depressa mas o suficiente para o partir ao meio se lhe acertar no sítio certo. Ou no sítio errado. Que merda! Que merda, pá!…

II
É melhor que nada, estas horas. Melhor que estar em casa sem fazer nada à espera de fazer alguma coisa que nunca faço. Mas são muitas horas seguidas. Para receber o que recebo. Estou cansado.
Mas gosto desta hora de pausa quando não chove. Saio do centro comercial. Venho à rua. Como qualquer coisa que trago de casa. Tenho de poupar. Não posso estar a gastar o que estou a ganhar.
Tiro a t-shirt da loja. Visto a minha camisola. Um casaco, que lá fora na rua está frio. Ponho os auscultadores e dou uma volta aqui ao pé, pelo parque de estacionamento, e fumo um cigarro. Ou dois. E ouço música que não aquelas porras dos Wham! e da Mariah Carey que já não suporto.
Hoje trouxe um pão com mortadela. O pão é de ontem porque não consigo comprar pão fresco antes de entrar ao serviço. Mas sou burro, não sou? Posso ir, num instante, ao supermercado comprar um pão. Trazia a mortadela de casa e fazia a sandes com pão fresco. Mas deve estar muita gente para pagar nas caixas do supermercado. Pois, é possível que esteja. Afinal é Natal. Anda tudo doido por aí a comprar coisas, coisas e mais coisas.
Como o pão aqui à saída. Não está mau. Nem muito duro, afinal. E estava a precisar de mastigar qualquer coisa.
Tanto carro aí fora! Porra! A cidade veio toda ao centro comercial. Como dizia a minha mãe Pariu a galega!
Já acabei o pão. Bebia um café. Bebo depois quando voltar para dentro. É melhor pôr os óculos. Vou fumar um cigarro. Vou dar uma volta pelo parque de estacionamento e fumar um cigarro. E pode ser que encontre uma nota de vinte caída aí entre dois carros. Querias! Pois queria! Que estupidez de conversa. Acendo o cigarro. Dou umas fortes passas e sinto a cabeça um pouco tonta da nicotina. Sabe bem.
Olha aquele carro! Aquele carro que vem aí! Não pára? Estou na passadeira, pá! Não está a ver-me. Que raio, pá. O carro vai bater-me, já percebi. O carro vai bater-me. Merda! Vou partir as pernas. A cabeça. Vou estragar o casaco. Vou perder os auscultadores e o iPod. E o cigarro está na boca. Espero não engoli-lo. E como é que consigo pensar nestas merdas todas enquanto vejo o carro a vir para cima de mim sem conseguir fugir?
Aí está ele. Foda-se! E a minha mãe? Onde está a minha mãe? Mãe, ajuda-me! por favor, se fazes favor, tenho medo, mãe, mãe, mãe!…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/09]

Morrer e Voltar a Nascer

Eu já tinha morrido há uns anos, bastantes até, quando fui descoberto. Não eu, eu fisicamente, que eu já estava morto e o que tinha restado de mim tinha sido feito pó e comido pelos bichos, mas o eu que deixou umas coisas escritas pela internet, buraco sem tempo, e que foram descobertas, por puro acaso, por alguém que gostou delas e as partilhou com o mundo.
Eu já tinha morrido. Tinha morrido de fome. Tinha deixado de conseguir trabalho. Tinha-me fechado em mim mesmo e perdido o contacto com um mundo que não espera por ninguém e quem fica para trás fica para trás que o futuro é em frente e o que é preciso é abrir sempre a porta do amanhã, um amanhã glorioso e cheio de vitórias, sucessos pessoais e glórias de equipa, num sempre-eterno crescimento económico e social sem paralelo nos anais da história do mundo.
Eu tinha-me afastado de tudo isso. Não era competidor. Não queria saber de corridas e grandezas. Tinha as minhas dores e não queria que mas tirassem. Era um processo muito pessoal numa época de portas escancaradas nas redes sociais onde toda a gente tinha opinião sobre tudo e sobre todos e quem tivesse mais admiradores e seguidores é que fazia o mundo girar. Oh, e se o mundo girou! Girou tanto que retrocedeu no tempo e o tempo medieval voltou.
Eu já tinha morrido antes de tudo isso acontecer. Tinha-me fechado em casa. Sem trabalho e sem dinheiro, afastei-me de tudo. Fechei-me em casa. Eu e as minhas dores. E comecei a escrever sobre elas e a lançá-las na rede. Para quem quisesse ler. Para que quem tivesse paciência para ler o pudesse fazer. Escrevi durante todos os dias durante todo o tempo que resisti a todas as faltas que começaram a fustigar-me.
Deixei de conseguir pagar a água e a luz. Abri a torneira selada da água. Fiz uma puxada de luz desde o candeeiro da estrada. Deixei de pagar o IMI, mas nunca me vieram chatear por isso. O telefone era coisa que já não usava há muito tempo. Telefonar a quem? Estava toda a gente ocupada. Andava toda a gente a tentar ser feliz, a destilar ódio nas redes sociais para libertar as dores de alma e a serem melhores e maiores uns-que-os-outros.
Fui alimentando-me com o que havia por aqui nas árvores em redor de casa e na pequena horta que fui mantendo enquanto tive paciência e força para tal. Os gatos e o cão desapareceram. Talvez tenham morrido, como eu. Ainda vi por aí um deles morto. Queria tê-lo enterrado, mas o tempo foi passando e eu esqueci-me.
Sentava-me todos os dias no sofá a olhar para a parede branco-ovo em frente, a parede onde esteve pendurado, durante anos, um grande poster da Lolita de Stanley Kubrick que fui obrigado a retirar e a destruir porque era uma pouca-vergonha pedófila. Sentava-me no sofá a olhar para a parede em frente, vazia, e via as estórias. As minhas estórias. Surgiam-me assim. Do nada. Formavam-se na parede, como um filme mudo projectado numa tela, e eu só tinha de escrever o que via e foi o que fui fazendo. Tornou-se esse o meu trabalho. O meu trabalho não remunerado. E durou até eu morrer. Morri de fome. Deixei de conseguir cultivar a horta. As árvores deixaram de dar o que davam. Ainda fui bebendo água durante algum tempo. Emagreci. Emagreci tanto que depois nem água conseguia beber. Fiquei translúcido. Fiquei deitado na cama durante algumas semanas. As semanas finais. Já nem escrevia. Já nem nada.
E um dia, deixei de ser.
Fui enterrado em cova rasa. Comido pelos bichos e mais tarde, quando era já só pó, despejado para dar lugar a outro pobre coitado como eu.
Deixei de ser e depois deixei de estar.
A minha passagem pela Terra não deixara rasto.
Até que um dia…
Um dia alguém encontrou o meu rasto na internet. Encontrou o meu blog e todos os meus contos. Alguém achou que aquilo que ali estava tinha valor. Alguém resolveu retirar os contos do blog e publicá-los. Alguém lucrou muito com o sucesso de um perdedor que tinha morrido de fome muitos anos antes. Antes de ser encontrado. Muito tempo depois do regresso das trevas e, de novo, do regresso da luz e de o humanismo ter regressado, de novo, e outra vez, às agendas políticas do mundo e de o Homem se ter reencontrado consigo próprio
E eu sei que isso aconteceu porque sei tudo. Mesmo depois de morto, desfeito e desaparecido da Terra sem deixar rasto. E estou aqui a contar tudo porque posso. Eu sei. Eu sou. Eu estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/03]

Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]

Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]

Tudo Escuro, Tudo Morto

Acordo assustado. Estou numa aflição. Pareço ter um peso sobre o peito. Sinto-me esmagar. Não consigo respirar.
Abro os olhos e olho o tecto escuro. Uma faixa amarela, do candeeiro da rua, cruza o tecto em diagonal. Vejo uma aranha a caminhar ao longo do feixe de luz.
Quero respirar.
Empurro com os pés, o edredão para o fundo da cama. Tenho peso em cima de mim. Preciso de me libertar.
Levo as mãos ao pescoço e massajo-o. E aperto-o. Para o libertar do que o oprime.
É um pesadelo que se transforma em angústia. Não sonho. Normalmente não sonho. E descubro-me num pesadelo. Não sei o que era. Só que me acordou. E me deixou assim. Assustado. Aflito. Como uma pata de elefante sobre o peito. A esmagar-me. A bloquear-me a respiração.
Ar.
Preciso de ar.
Arranho o pescoço como se arranhasse a garganta. Abrir caminho para o ar entrar nos pulmões. E respirar.
Inspirar.
Expirar.
Olho para o lado. Para a mesa-de-cabeceira. Vejo os contornos do Ventilan, mas não consigo chegar-lhe. Não consigo deitar-lhe os braços. As mãos. Os dedos.
De qualquer forma, não conseguiria fazer entrar o Ventilan nos pulmões. Nos alvéolos. Não tenho força para respirar. Para inspirar. Para expirar. Estou bloqueado.
Sinto o corpo aos saltos na cama. São espasmos. O corpo refila a ausência de ar. A ausência de oxigénio.
Sinto a vida a ir. Não consigo respirar. Sinto as pernas a espernear no ar. As mãos agarradas ao pescoço. Arranham o pescoço. Sinto o sangue a sair pelos rasgos das unhas. Sinto o sangue quente. Sinto-me quente. E sinto-me a rebentar. Sinto que vou explodir como um sapo com um cigarro na boca que não consegue parar de o fumar.
Já não vejo a aranha no tecto. O feixe amarelo que cruzava o tecto na diagonal desapareceu. Ou sou eu que já não o vê. Está tudo escuro.
Já não tenho forças. Já não tenho esperança em conseguir desenrolar o novelo e conseguir respirar. Dói-me. Nem sei bem o quê.
Abro muito a boca. Não entra ar. Não sai nada. Nem voz. Sinto os olhos esbugalhados. Mas já não vejo nada. Só escuridão.
Está tudo escuro. Está tudo morto.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/14]

Caído no Chão sem Me Conseguir Mexer

Estou caído no chão da cozinha e ouço os cães a ladrar lá ao fundo.
Não me consigo mexer. Estou caído no chão da cozinha e não me consigo mexer. Vejo o fumo que o cigarro que tinha na mão ainda deita. Vejo-o subir pelo ar e desaparecer. Apetecia-me ter fumado aquele cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro.
Não sei o que me aconteceu. Estava a fumar um cigarro aqui, à janela, e, de repente, fiquei paralisado, comecei a transpirar muito, senti muito calor, senti todas as gotas de suor que começaram a descer por mim abaixo, senti as pernas a tremer, a fraquejar, perdi a força nas mãos, deixei de sentir os dedos, o cigarro caiu para o chão e a seguir caí eu. Caí no chão.
Não consigo falar. Nem gritar. Não consigo mexer nada. Não, mentira, consigo mexer os olhos. É a única coisa que consigo mexer. Os olhos. E posso olhar em vários sítios, os sítios onde os olhos podem alcançar dentro das órbitas.
Não perdi os sentidos. Estou consciente. Assustado, mas consciente.
Agora começo a ouvir os carros na rua. É estranho como só ouvia os cães a ladrar e, agora, o barulho dos carros a passar na rua está a fazer-me deixar de ouvir os cães.
Já não vejo o fumo do cigarro a subir para o tecto. Já deve ter-se apagado. E eu não o fumei.
Queria fumar um cigarro.
Queria não estar aqui assim, caído no chão sem me conseguir mexer.
Queria não estar sozinho em casa para ser socorrido.
Queria estar à janela a fumar um cigarro e a olhar para as pessoas que entram e saem da pastelaria da rua.
Queria ir à Lua. Queria ir a Marte. Queria ir à Terra do Fogo.
Queria ter escrito o Space Oddity.
Queria ter escrito A Mancha Humana.
Queria ter pintado o No.301.
Queria ter dançado o Lago dos Cisnes.
Devia sentir as costas frias e húmidas da transpiração e do chão da cozinha. Mas não sinto nada. Continuo sem sentir nada. Continuo sem conseguir mexer-me. Pareço morto. Um morto consciente.
Não virá ninguém cá a casa.
Vão passar as horas.
Se calhar, os dias.
Vou sentir fome. E sede. E uma vontade diabólica de fumar um cigarro.
E eu vou estar aqui assim, caído, paralisado, consciente.
A luz mudou. A luz lá de fora mudou e alterou a luz aqui de dentro. Já é noite.
Agora ouço o som de conversas. As conversas sobrepõem-se ao barulho dos carros. A ruas devem estar cheias de gente a passear. A passear a pé.
As horas estão a passar. Gostava de me passear também pelas ruas da cidade. Gostava de me passear debaixo das luzes de néon da cidade. E fumar um cigarro.
Mas continuo aqui. Não sinto o meu corpo. Não sinto nada. Não… Sinto medo.
O que é que eu posso fazer?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/19]

No Fim das Férias

Está uma ventania diabólica. Estou quase a acabar as férias e não fui à praia. Sempre muito vento. Às vezes frio. Choveu. Com estas amplitudes térmicas acabei por apanhar uma gripe que me deitou à cama por quase uma semana.
As férias chegaram e estão quase a partir sem eu ter dado por elas.
Hoje quando acordei e vi o sol, ainda vesti os calções de banho e imaginei-me a dar umas braçadas em São Pedro de Moel, na esperança que depois do meio-dia o sol também havia de descobrir por lá.
Abro a janela do quarto para o arejar, e sinto o pó a entrar às pazadas. Sinto-o logo na boca. Trinco pedaços rijos que rangem nos dentes e arrepiam-me o corpo. Corro a fechar a janela. Sacudo os lençóis, o edredão e as almofadas. Vou buscar o aspirador e ando ali dez minutos, de costas curvadas, a apanhar o pó da rua que o vento convidou para o meu quarto e me obriga a estes trabalhos extra em tempo de férias.
No fim sento-me no sofá a descansar. Penso no que fazer. Olho para a capa de Máquinas como Eu do Ian McEwan que tenho ali para ler mas não consigo estender-lhe a mão. O braço recusa-se a pegar noutra coisa que não seja o comando da televisão. O braço está ligado a uma massa esponjosa e disforme e já não mais a um cérebro. Este braço já não está ligado a nada que pense. Agora é só emoção. Dou por mim a ter de olhar para a CMTV e para a enésima reportagem sobre os incêndios de Vila do Rei. Uma reportagem que já vi. Mais que uma vez. Quero mudar de canal mas o braço não se mexe. A mão está quieta. Os dedos mortos. A vontade não é suficiente.
Começo a sentir os olhos pesados. A televisão afasta-se de mim. Perco-a no horizonte da sala que não sabia tão grande. As vozes afastam-se e perdem-se na distância.
As vozes vão e vêm. Desaparecem. Estou no vácuo. Não ouço nenhuma voz. Não ouço o canto das cigarras. Não ouço as ondas do mar. Não ouço qualquer barulho. E depois tudo volta. Os cães a ladrar. Música muito alto. Estou a uma mesa. Uma mesa grande cheia de gente que conversa. Há uma grande confusão de vozes que se misturam. Ouço barulho de conversas, mas não percebo o que se diz. Há muita confusão de muita gente. Tenho à minha frente um prato com moamba. Salivo. Moamba de galinha em óleo de palma. Funge. Vejo à minha volta toda a gente na conversa. A beber vinho tinto. A comer moamba. Eu também como a moamba. E bebo o vinho. E que bem que me sabe! Há quanto tempo não como uma moamba?
Parece que estou numa festa. Numa comemoração. Numa efeméride. Parece que estou onde já estive. Pareço reconhecer onde estou e como estou e com quem estou. Alguém levanta-se na mesa e faz o que deve ser um pequeno discurso. Não consigo ouvir o que diz. Mas as pessoas batem palmas. Muitas palmas. Grita-se de alegria.
Conheço as pessoas que estão ali comigo. J. está ao meu lado. Do outro está L. À frente de L. está C. S. está à frente de J. À minha frente está M. Mas estão lá muitas mais pessoas. Pessoas que conheço. Que conheci. Elas estão num happening. Bebem. Comem. Conversam. Ouvem música. Eu estou num regresso ao passado. Como e bebo. E ouço. E vejo. Mas aos poucos, percebo que está cada vez menos gente. Há menos barulho. Já comi quase tudo. Sinto a barriga inchada. Abro o botão das calças. Alargo o cinto. Mando um arroto. Rasgo um pedaço de pão saloio e limpo o molho espalhado pelo prato. Rapo o prato. Gosto do óleo de palma e dos restos de galinha. Quando já não tenho mais pão, chupo os dedos. Levanto a cabeça e reparo que estou sozinho. Estou sozinho naquela mesa enorme. Toda a gente bebeu, comeu e foi embora. Foram-se todos embora. Eu fui deixado ali. Sozinho. Sozinho e em silêncio. No vácuo.
E depois, depois ouço a voz da rapariga. De novo o Sporting. A rapariga fala do Sporting, da Academia e de Bruno de Carvalho. Estou de novo sentado no sofá em frente à televisão. Está na CMTV. De novo a mesma reportagem sobre os acontecimentos de há um ano. Quantas vezes já transmitiram esta reportagem ao longo deste ano? A cabeça quer sair dali mas o braço não se mexe. Penso que afinal quero um cigarro. A mão levanta-se e pega num cigarro. Coloca-o na minha boca. Acende o isqueiro. Sinto o fumo a invadir-me os pulmões. Sabe-me bem.
Lá fora continua o vento. Um vento diabólico. As férias estão a acabar-se e estou aqui preso frente à CMTV. E não me consigo mexer.
Uma notícia de última hora diz que o filho de um secretário de estado terá celebrado contractos com o Estado. Parece que não é legal. Nem ético. O cigarro sabe-me bem. Queria comer uma moamba. Queria ir à praia. Não queria que as férias acabassem. Queria ter força para desligar a CMTV e ler o novo livro do Ian McEwan. Às vezes não queria ser eu.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/30]