05:38′

05:38’
Ando às voltas na cama. Estou com calor. Ponho os braços fora da cama para endireitar a dobra do lençol sobre o edredão e sinto o frio. Pareço um profiterole invertido.
Ando às voltas na cama. Estou com sede. Queria levantar-me e beber água. Mas não consigo. Está muito frio fora do edredão. Aqui debaixo estou quentinho.
Ouço um zumbido nos ouvidos. Como um rádio antigo, daqueles de válvulas, a funcionar. A minha mãe tinha um rádio desses. Não sei onde foi parar. Quem é que ficou com ele?
05:39’
Mais uma volta. O tempo parece que não anda. Os números no relógio digital, pousado na mesa-de-cabeceira, são sempre os mesmos. E quando se alteram parece que se passou uma eternidade e eu ainda aqui à voltas, cheio de calor. Estou muito desperto. Quando tiver que me levantar, vou querer dormir.
Passam-me muitas ideias pela cabeça. Estas ideias vêm acompanhadas do zumbido. Algumas destas ideias, nem parecem minhas. É estranho pensar nelas. E quanto mais alto o zumbido, mais estranho me é a ideia que passa, galopante, pela minha cabeça. Costumo ser bastante racional. Costumo ter pensamentos racionais.
05:40’
Sinto vontade de me levantar e ir escrever tudo o que me está a passar pela cabeça. Mas sinto preguiça. Digo que vou escrever quando me levantar, mas já sei que não vou me lembrar em que é que estou a pensar. A minha memória já não funciona muito bem. E percebo que afinal estou a conversar comigo como se fosse dois e discuto duas posições. Penso novamente na hipótese disto, disto tudo, da vida, ser um jogo, e tento perceber se a morte, a morte física das personagens, é uma mudança de nível ou um game over. E não consigo perceber onde quero chegar com esta conversa. Sinto abater-se sobre mim uma ligeira angústia.
Preciso de dormir. Deixar de pensar em coisas assim.
05:38’
Como são cinco e trinta e oito? Ainda agora eram cinco e quarenta. Ou não eram? Voltei atrás no tempo? Estou a ficar maluco? Ou estou a dormir? O jogo terá algum defeito? Será que vou hibernado a caminho de um qualquer destino a milhões de anos-luz e estas merdas foi o que a minha cabeça encontrou para me entreter durante a viagem? Sou eu a personagem principal desta história? E isto é tudo o que tenho para contar? Que raio de história é esta? Onde está o princípio? E o fim? Onde está o problema que a história tem de resolver? Ou nunca há problemas para resolver que a IA resolve-os todos?
05:38’
Oh, porra…
[acabei por ir beber água, tenho a boca e a garganta molhadas, mas não me lembro de me ter levantado da cama]

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]

Era Natal e Bateram na Porta dos Fundos

E foi na noite do amor, na noite do amor ao próximo, na noite da família, na noite em que (quase) toda gente se reúne à volta de uma mesa a comer, a beber e a partilhar boas experiências e se enterram machados de guerra, dores e invejas e se anunciam cessar fogos, na noite mais cristã de todas as noites, na noite que se celebra o nascimento do Cristo que morreu para nos salvar, o Cristo que pregava o amor, a dádiva, e a redenção, que cristãos saíram do conforto dos seus lares, do conforto das suas famílias do conforto das suas amizades para executarem uma reles vingança contra um pequeno grupo de comediantes que têm como função fazer rir as pessoas, ilustrando o mundo com o ridículo das nossas vidas, da nossa fé, do nosso amor, das nossas convicções políticas, das nossas crenças, um pequeno grupo de comediantes que não apela ao crime, nem à morte, ou à desgraça alheia, nem à vingança, e não fazem pistolas com os dedos da mão, não garantem estar, temerosos, debaixo das leis de Deus, não matam nem achincalham ninguém, só expõem ao ridículo todos os nossos ridículos e foram atacados pelos filhos da fé, do amor, da paz e da sabedoria.
Mas o pior nem estava na garrafa do cocktail molotov que rebentou na fachada do prédio da Porta dos Fundos, mas nos comentários abjectos que se espalharam pelas redes sociais em defesa do indefensável:

“Toda a merda respeita a merda toda… Que morram, esses porcos…”
João Paulo in Expresso;

“Mas qual violência? Então agora só a esquerdalha é que se pode manifestar pelas artes? Trata-se de liberdade de expressão religiosa e estavam apenas a expressar gratidão pela homenagem.”
Flávio Costa in Expresso;

“És um ignorante de primeira, as cruzadas foram uma resposta dos cristãos a quase 300 anos de agressão muçulmana à Europa, os cruzados foram importantes na formação de Portugal, D. Afonso Henriques sem a ajuda dos cruzados nunca teria conquistado o território nacional. Falas de alianças com os fascistas porque o mundo ocidental estava ameaçado pelos comunistas, ninguém matou mais gente que a religião comunista, em meio século mataram mais que todas as religiões juntas. Falas também na inquisição, há quem fale que foram mortos 300 mil mas documentado não chega aos 30 mil, e a inquisição tem de ser posta no seu contexto histórico, as acusações eram feitas por pessoas normais.
Falas também em pedofilia, caso não saibas há mais professores pedófilos que padres, vês alguém a querer deitar as instituições de ensino abaixo?
Vergonha devias ter tu.
A igreja católica tem defeitos mas não deixa de ser a instituição que mais pessoas ajuda no mundo.”
Vasco Gomes in Observador;

“A paneleiragem que arranje assunto para fazer humor com eles próprios, quando é ao contrário vêm logo a correr feitos histéricos a reclamar com tudo e não venham com comparações, se fosse outra religião se calhar já tinham as cabeças penduradas á porta.”
Rui Santos in Observador;

“Eles se dizem ateus e atacam a religião do próximo por motivos políticos, são militantes comunistas que desejam acabar com símbolos da sociedade ocidental como família e religião…”
Márcio Dinis in Jornal de Notícias;

“Os que atacaram a Porta dos Fundos serão os mesmos que perdoam os padres que procuram introduzir o pénis no intestino grosso de criancinhas?”
Pedro Nuno in Público;

“A liberdade de expressão não é mais sagrada que Deus.
Amor não é deixar que escarneçam de quem amamos.
Se preparem agora, pois os muçulmanos não serão mais os únicos que lhes colocará no lugar.”
Helena de Carvalho in Público;

“Auto atacam-se para gerar pena e alertar as autoridades! Um Charlie Hebdo no Porta dos Fundos, por favor!!!”
Samuel Charrano in Correio da Manhã;

“O que é que vocês pretendem com provocações? Falam em liberdade de expressão, mas pelos vistos é só para vocês que conta. Será que em vez de liberdade vocês queriam dizer Libertinagem? Ora se não simpatizam com a religião católica, só têm é que respeitar para também serem respeitados. Ah, mas pelos vistos olhando bem para vocês, só querem é confusão. Não sabem que a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro? Ai não sabem o que é Democracia, Liberdade com Responsabilidade? Olhem, vão para a escola aprender na disciplina de Cidadania os direitos, deveres, tolerância e bom senso comum que cada cidadão deve ter? Vocês querem é carnaval todo ano, porque trabalhar e estudar dá trabalho.”
Maria Marques in Correio da Manhã.

Alguns destes perfis são falsos, criados para defender posições políticas, religiosas e de grupos de influência. Mas outros são bem reais e mostram como nos tornámos tão boçais, intolerantes, estúpidos e mesquinhos.
Mostram também que somos todos muito corajosos escondidos atrás do ecrã do computador e de nomes falsos e fotografias forjadas.
Mostra como estes tempos de prosperidade e crescimento, económico e social, pós-Segunda Grande Guerra, deixou-nos intelectualmente anémicos e desejosos de um caos que, no fundo, não podemos realmente querer.
Enquanto a ciência corre para o futuro, o pensamento tende a fechar-se no passado. Num passado ignorante e obscurecido. De livros censurados. De ideias proibidas. De raças menores. De porcos mais porcos que todos os outros porcos.
E, afinal, devíamos era estar a celebrar o Natal. Lembram-se do Natal, antes de toda esta fúria consumista nos ter atacado?
E fala-se de amor…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/25]

O Primeiro Natal

Era o primeiro Natal depois da morte do meu pai. E toda a gente estava empenhada em ajudar a minha mãe a ultrapassar essa ausência da melhor maneira possível.
Família que eu nunca vira. Alguns amigos, não assim tão chegados. Vizinhos solitários. Toda esta gente resolveu passar a noite da consoada lá em casa.
E eu percebi que iria cair tudo em cima de mim. Previ a catarse geral. O choro compulsivo. O rasgar das vestes (havia algumas tias mais dadas a excentricidades). O tecer de elogios de quem nunca tinha privado com ele. A amizade de quem nunca o ajudou quando ele mais precisou. Enfim. Não são assim as pessoas? Distantes na miséria mas simpáticas e condoídas depois das desgraças fúnebres? Depois de morrer, toda a gente era a melhor gente do mundo.
Eu estava empenhado em que nada daquilo se passasse. Queria a minha mãe distante de tudo. Queria que a ausência não fosse mais que uma ausência.
Não me meti na organização da festa de Natal e deixei que as pessoas fizessem como bem entendessem. Deixei tudo nas mãos experientes das damas da família com muitos natais nas mãos. Escolheram a ementa. Fizeram divisão de tarefas. Arranjaram mealheiro colectivo e não me pediram dinheiro.
O meu único contributo para a noite da consoada foi pôr a mesa de Natal, sem lugar para o meu pai, assim decidi, para não aumentar o tamanho da ausência. Assumi a cabeceira. A minha mãe ao meu lado. O resto, distribuído por afinidades ou falta delas para não criar ansiedades nem desgostos. Há sempre quem aproveite o Natal para criar expectativas. Pelo menos nos meus natais tem sido assim.
E, depois, uma pequena surpresa. A confecção de uns pequenos e saborosos bolos. Uns pequenos e saborosos bolos de haxixe. E fiz umas miniaturas para as crianças, sem haxixe.
No início da noite andei a oferecer bolinhos a toda a gente. Ninguém se negou comê-los. E eu insistia em ficar por lá até os ver comer tudo, até à última migalha. E foi o que aconteceu. Não sobrou uma migalha. Até a minha mãe comeu. Fui elogiado. Eu e os bolinhos.
O jantar foi devorado.
Ninguém foi à Missa do Galo.
A noite foi passada a discutir a hipótese, plausível, de Jesus Cristo ser um extra-terrestre de Alfa-Centauro. Ainda se referiu a Atlântida e a Ilha de Mü. As estátuas gigantes da Ilha da Páscoa e os astronautas nas Linhas de Nazca.
Acabou toda a gente a dormir lá por casa. Qualquer canto era uma boa cama. Andei a distribuir cobertores e almofadas. Descalcei quase toda a gente. Havia quem tivesse as meias rotas. E logo os tios mais ricos. São sempre os mais miseráveis.
Na manhã seguinte saí cedo com a criançada toda até ao parque infantil no jardim da cidade. E deixei a casa, em silêncio, a curtir a ressaca do Natal.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/23]

Houve uma Época

Houve uma época em que gostei do Natal. Houve uma época em que eu brinquei ao Natal como todas as outras pessoas, crianças e adultos que, nesta altura, brincam às amizades, aos amores e à paz no mundo entre os homens.
Houve uma época em que me levantava de manhãzinha para ir ao fogão da cozinha buscar as prendas que o Pai Natal lá deixava. Não era na lareira porque não havia lareira lá em casa. Nem era na chaminé porque a chaminé era um buraco negro e escuro lá em cima, por cima do fogão onde a minha mãe cozinhava as filhoses e as fatias douradas, dias antes do Natal, e o bacalhau na noite em que nos reuníamos os quatro à volta da mesa, felizes com o que tínhamos porque não sabíamos que havia mais para ter, que havia gente que tinha muito mais e gente que não tinha nada. Naquela altura o Natal não era quando um homem quisesse, era mesmo a 24 de Dezembro a cair para o 25 a festejar o nascimento do Cristo.
Houve uma época em que a mesa da sala levava um acrescento a meio, e a mesa da cozinha ia fazer companhia à mesa da sala para albergar toda a gente que ia jantar lá a casa. Eram os pais, os filhos, os avós, alguma família de todos os lados de todas as famílias, alguns amigos. Gente, muita gente. Muitas prendas que toda a gente presenteava os outros, em especial os mais pequenos. As prendas não era muitas. Mas não havia cá prendas das lojas dos chineses nem a um euro e despacho já o Natal de toda a gente. Dava-se o que era preciso, preferido, desejado. Livros. Jogos. Roupa. Alguns brinquedos. Sim, éramos uma geração estúpida que ainda não tinha encontrado a sagração da tecnologia.
Houve uma época em que nos sentávamos todos à mesa a comer bacalhau, polvo, peru. Mousse de chocolate, pudim flan e molotov. Filhoses, coscorões e rabanadas. Os jantares terminavam com um café da avó a acompanhar uma fatia de Bolo Rei, de que toda a gente retirava as frutas cristalizadas, e uma bebida branca, licores para os mais fraquinhos e whiskey para os mais fortes.
Houve uma época em que tive família e o Natal era, por excelência, a minha festa. A festa da minha família. Numa época em que até eu tive família.
Houve uma época, houve.
Depois, depois deixou de haver uma época. A família desintegrou-se. A morte rondou. Zangas. Separações. Ódios. Oh, tantos ódios e invejas. A família desentendeu-se. A desgraça veio ao caminho da família e irmãos de armas transformaram-se em irmãos com armas.
Sento-me agora aqui fora e deixo-me ir com eles. Com todos eles. Com as crianças que choram. Com os adolescentes de telemóvel em punho e olhar vidrado. Com homens atrasados. Com mulheres desesperadas. Tudo a correr. Tudo a comprar. Compram-se uns aos outros para, em cinco minutos, voltarem a virar costas uns aos outros e até para o ano que haverá mais. Temos de nos encontrar mais vezes, dizem. Eu telefono, continuam a dizer. E fingem acreditar.
Estou sentado aqui fora na rua há duas horas. Já tanta gente passou por aqui e ninguém me viu. Estão todos muito ocupados. Demasiado ocupados para olharem em volta. Para verem.
Hoje morreu alguém. Alguém que eu conhecia. Hoje morreu alguém que eu conhecia e morreu sozinho. Sozinho e na miséria. Esquecido de todos. Eu também o esqueci. Não sou melhor que os outros. Não me lembro melhor que os outros. Acho que só choro um pouco mais. Porque também eu estou esquecido. O Natal não mora aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/10]

Que…

Estou à espera. Estou sempre à espera. Não sei bem de quê. De qualquer coisa. Acho que espero qualquer coisa que aconteça. Que chegue. Que se faça anunciar. Mas não acontece nada. Não se passa nada. Não chega nada. Nada de nada.
E eu continuo. Continuo à espera.
Não sei…
Que a minha mulher deixe de ter dores de cabeça.
Que a minha filha me telefone.
Que o meu filho não me ignore.
Que a minha mãe não morra.
Que o meu pai ressuscite.
Que eu tenha trabalho, dinheiro e saúde.
Que me saia o Euromilhões.
Que consiga escapar à Sida, à Hepatite e ao Cancro.
Que esta ferida no lábio não seja Herpes.
Que o Linic funcione e deu deixe de ter caspa.
Que o vinho nunca se me acabe.
Que a bronquite não me impeça de continuar a fumar.
Que eu não perca a capacidade de dançar.
Que eu não deixe nunca de gostar de música. Fazer filmes. Escrever estórias.
Que não perca nunca a capacidade de me surpreender e de me apaixonar.
Que o Benfica ganhe a Liga dos Campeões.
Que alguém, que não eu, chegue a Marte, não sem antes deixar a Terra em condições de funcionamento para os vindouros.
Que parem de usar combustíveis fósseis.
Que utilizem o calor do sol e a força das ondas.
Que a banana da Madeira continue saborosa.
Que nunca se acabe a Tosta de Galinha da Geliz.
Que Bolsonaro tenha chatos e Trump piolhos.
Que desapareçam as caixas de comentários.
Que tenham urticária todos aqueles que vão destilar ódio para as redes sociais.
Que ninguém gaste um tostão na Black Friday. Nem dê prendas no Natal.
Que toda a gente queira um abraço e toda a gente o consiga dar.
Que Amo-te signifique alguma coisa.
Que humanidade também.
Que os cães e os gatos sejam felizes uns com os outros.
Que acabem as mortes no Mediterrâneo. Que acabem os combates parvos e idiotas que só servem a gente mesquinha e gananciosa.
Que o Corto Maltese continue a ter grandes aventuras. E o Tintim também.
Que eu volte a ter paciência para ler Os Cinco e Os Sete.
Que haja sempre alternativa.
Que eu deixe de estar à espera do que nunca vai chegar, do que nunca vai acontecer.
Que eu seja tudo, a Noite e o Dia a Pergunta e a Resposta o Alfa e o Ómega a Vida e a Morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]

Chorar com Facilidade

Agora desato a chorar por tudo e por nada. Acho que nem preciso de motivo para começar a chorar.
Estava a ver um episódio da série This Is Us, mas sem grande convicção, tinha lá parado no decurso do zapping e, cinco minutos depois, comecei a chorar, solidário com as dores de uma das personagens. Pior que isso, achei que era eu que estava em causa. Que as dores eram minhas. Que aquela história encaixava verdadeiramente na minha história. Que era um eco da minha vida. Que aquela história era a minha história. Bolas. E era mesmo assim. Triste. Emotiva. Dolorosa. E comecei a chorar. Mas a chorar compulsivamente.
Peguei, ao acaso, nos Poemas Quotidianos do António Reis, estiquei o braço para a estante e foi o livro que veio preso nos dedos, abri à sorte e li

Sei que choras
muitas vezes
sozinha

e que lavas
o rosto

(ah onde
ando eu)

para a tua dor
não ser minha

e rompi a chorar. O livro nas mãos. As páginas molhadas das lágrimas. O papel a enfolar. A dor. A dor é minha. Abro a boca. Em silêncio. Mas choro. Choro muito.
Aconteceu-me também ao ver as notícias na televisão. O pivot contava que a Argentina tinha recusado a última tranche da ajuda financeira do FMI ao país por causa dos enormes encargos que acarretava e comecei a chorar. A pensar que ainda havia gente como eu. Gente que pensava como eu. Que achava que havia sempre mais alternativa que a alternativa que diziam ser única.
Também com a morte de José Mário Branco, acontecido nestes últimos dias, chorei. Mas não foi a morte dele que me fez chorar. Foi o ouvir, pela enésima vez, a catarse que é o FMI. Estava sentado no sofá e senti-me desfazer. Deixei de ser eu, de ter corpo e misturei-me ao sofá. Eu era uma massa amorfa e disforme que se tinha moldado ao mais banal dos elementos: o sofá de sala onde se assiste aos filmes de Domingo à tarde; onde se passa pelas brasas debaixo de uma mantinha quente e aconchegante; e, afinal, onde estava sentado, sozinho, enquanto ouvia o FMI na voz dolorosamente bela de José Mário Branco.
Acendi um cigarro e, enquanto fumava, enquanto via o fumo subir ao tecto da sala, comecei, outra vez a chorar. Por nada. Comecei a chorar. Acabei por molhar o cigarro. Apagou-se. Entristeceu-me ainda mais. E acendi outro.
Mas cada vez que choro sinto um enorme alívio e pareço renascer.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/27]

Dias Loucos, os de Chuva

Em dias como este, entrávamos no carro e íamos andar à doida para a Estrada Nacional.
Mesmo com duas auto-estradas, uma de cada lado da cidade, a A8 mais junto ao litoral, a A1 mais pelo interior, mas as duas muito próximas de Leiria, os grandes camiões TIR continuavam a circular pela EN1 para pouparem nas portagens, extremamente caras.
Então, em dias assim como o de hoje, dias de muita chuva, pegávamos no carro e íamos para a EN1 acelerar entre os grandes camiões que por ali passavam sempre com muita pressa. Ultrapassávamos os camiões no limite. Prego a fundo. O pé quase a furar o chassis.
E riamos. Riamos os dois que nem perdidos.
Dávamos um beijo à porta de casa, com as montanhas a servir de fundo, eu tirava o carro debaixo do telheiro onde estava resguardado, conduzia com cuidado enquanto ela fazia um charro e, antes de chegarmos ao IC2, que se fundia na EN1, já o tínhamos fumado e já eu estava a fumar um cigarro.
Os vidros do carro fechados por causa da chuva e o fumo a acumular-se no interior, criando uma nuvem tão espessa e escura que, por vezes, nos impedia de ver o que se passava à nossa volta na estrada.
Foram tempos loucos esses. Bebíamos muito. Fumávamos muito. Fodíamos muito. Sempre nos limites. Às vezes ela levava a PC4 e gravava as nossas aventuras na estrada. Quando estávamos mais calmos, de ressaca por casa, a arrastar o cu pelos sofás, víamos as gravações e eu perguntava-me o que é que andávamos a fazer. Ela ria. Acabávamos os dois a rir. Voltávamos à estrada. À EN1. Passávamos junto às raparigas sentadas, em cadeiras de praia, de pernas abertas e olhar alheado, à beira da estrada. Acelerávamos na estrada que passava pela Benedita, pela Venda das Raparigas e seguia para Rio Maior ou para Aveiras. Sempre que víamos um traço descontinuo, lá íamos nós à aventura, a ultrapassar enormes camiões, alguns com dois eixos, a espremer o motor, a rezar para que não surgisse outro carro, e muito menos outro camião, na faixa contrária.
Uma vez, ia de camioneta para Lisboa, e nessa época as camionetas faziam também aquela estrada porque a auto-estrada só começava em Aveiras, vi um carro, um carro pequenino, um Renault 5 GTI, cravejado com tubos de cimento que deviam ter saído disparados de algum camião e entraram, como flechas, pelo pára-brisas do pequeno Renault. Lembro-me de ver, através da janela da camioneta, um corpo tombado no asfalto. Um corpo desfigurado. Um corpo em sangue. Inerte.
Várias foram as vezes em que me lembrei desse corpo enquanto me punha a ultrapassar os camiões debaixo de fortes quedas de água, com ela ao meu lado a gritar Vai! Vai! Vai! Vai, meu caralho! e eu ia. Prego a fundo. Cheio de adrenalina. A ultrapassar camiões na EN1, uma estrada cheia de buracos e bermas baixas, e eu de cigarro ao canto da boca com o fumo a entrar-me pelos olhos e a fazer-me chorar.
Um dia, foi o último dia, saímos de casa assim, debaixo de uma chuvada como a de hoje. Demos um beijo sem as montanhas como pano de fundo que o nevoeiro não as deixava ver. Ela fez um charro enquanto eu chegava à EN1. E entrámos. E disparámos por ali fora. Como loucos.
Só eu é que voltei.
Arrisquei passar um camião TIR que estava a respingar água para os lados e, quando ia a meio da ultrapassagem, deixei de ver a estrada com toda aquela água a tombar-me no pára-brisas e ela, ela tinha-se agarrado a mim, estava a dar-me um beijo no pescoço, em êxtase, o corpo sobre o travão de mão, e eu guinei um pouco o volante, aproximei-me demasiado do camião, levei um toque que me projectou para o outro lado da estrada, bati nos rails de protecção laterais, o carro virou-se, capotou e andou a derrapar pela faixa de rodagem até ser atingido por um outro camião, que vinha em sentido contrário. Eu tive sorte e fui cuspido do carro. Ele ficou entalada na chapa e, segundo os peritos, deve ter tido morte instantânea. O funeral dela foi de caixão fechado, tal o estado do corpo. Eu não fui ao funeral. Estive hospitalizado durante alguns meses. Alguns meses para voltar a andar.
Nunca a visitei no cemitério. Não ouso.
Voltei a conduzir, dois anos após o acidente. Agora já conduzo sozinho. Mantenho-me dentro dos limites de velocidade. Opto, sempre que possível, por andar em auto-estradas. Não tenho medo de conduzir mas, vou sempre muito atento.
Às vezes, quando chove assim, como está a chover hoje, penso nela. Penso nela e nas loucuras que vivemos. Penso em como a matei. Eu sei que não devo pensar assim. A minha psicóloga está sempre a dizer-me isso. Que a culpa não tinha sido minha. Eu digo que sim com a cabeça, aceno, para cima e para baixo, mecânico, às vezes até me ouço dizer sonoramente Sim, mas é só para a sossegar.
Eu sei que a culpa foi minha. É uma dívida que, um dia, vou ter de pagar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/26]