Duas Histórias numa História

I
Saio de casa sem grande convicção. Preciso de comprar o livro, mas o ter de ir ao centro comercial destrói-me a vontade. Ainda para mais agora. Nesta altura. Nesta altura do ano. Nesta altura do ano onde anda toda a gente histérica a comprar. A comprar coisas. Não importa o quê. Coisas. Ontem ouvi alguém falar que ia a uma loja de chineses com vinte euros e comprava vinte prendas e tinha o Natal resolvido. E eu perguntei-me Porquê? Porque raio há-de gastar-se dinheiro em lixo? Em porcarias de plástico de baixo valor que acabam por ser estupidamente caras porque não servem para nada, ninguém quer saber delas, são lixo e vão directamente para o canto da tralha a que não se liga mais?
Chego ao centro comercial. Quer dizer, ainda não cheguei lá, mas já o avisto. Está lá em cima, ao fundo. No fim desta enorme fila onde estou preso. Pára-arranca. O motor a trabalhar e o carro parado. Ando um metro de cada vez e queimo não-sei-quantas octanas. Leiria está toda a caminho do centro comercial. A cidade às moscas.
Finalmente entro no parque de estacionamento exterior. Eu e todos os outros que vão comigo, à minha frente e atrás de mim. Estamos à procura de milagre? Se esta gente toda aí à frente não encontra um lugar, pequenino, insignificante, esquecido por aí, como é que o vou encontrar eu?
Guino, rápido, sem pensar, para a esquerda. Entro num caminho secundário. Para tentar algo de diferente. Nada. Nada de nada. Não há nada de diferente nos trajectos diferentes. Vou tentar dar uma volta. Vou andar à sorte. Pode ser que me caia em cima. Como um Toto-Loto.
Nada.
Ao fim de duas voltas ao parque de estacionamento, atrás de outras pessoas como eu, à procura de um lugar salvífico para parar, sem o conseguir, que raio faço aqui?
Desisto.
O Natal não é para mim. Que se lixe o centro comercial, o livro e o Natal.
Sigo em frente para contornar o centro comercial por trás e por fora. Quero sair daqui. Quero sair daqui já. Estou cansado.
E então vejo-o. Parado à minha frente. A olhar para mim. Auscultadores nos ouvidos. Cigarro na boca. Óculos à frente dos olhos, mas sei que está a olhar para mim. Aparece-me do nada. Ele está na passadeira para os peões. Na passadeira e no meio da estrada. Da minha estrada. Na mesma passadeira que eu estou a cruzar. Não o vi chegar. Vejo-o agora. Vejo-o ali. À minha frente. E sei que lhe vou bater. Merda! Vou-lhe bater porque isto está a acontecer muito depressa e eu é que o estou a atrasar na minha cabeça para o poder compreender e processar. E o que compreendo é que ele estava a atravessar a passadeira e eu não o vi a chegar, deve ter passado pelo ângulo morto do carro, não o vi, vejo-o agora e sei que vou bater-lhe em cheio, não vou muito depressa mas o suficiente para o partir ao meio se lhe acertar no sítio certo. Ou no sítio errado. Que merda! Que merda, pá!…

II
É melhor que nada, estas horas. Melhor que estar em casa sem fazer nada à espera de fazer alguma coisa que nunca faço. Mas são muitas horas seguidas. Para receber o que recebo. Estou cansado.
Mas gosto desta hora de pausa quando não chove. Saio do centro comercial. Venho à rua. Como qualquer coisa que trago de casa. Tenho de poupar. Não posso estar a gastar o que estou a ganhar.
Tiro a t-shirt da loja. Visto a minha camisola. Um casaco, que lá fora na rua está frio. Ponho os auscultadores e dou uma volta aqui ao pé, pelo parque de estacionamento, e fumo um cigarro. Ou dois. E ouço música que não aquelas porras dos Wham! e da Mariah Carey que já não suporto.
Hoje trouxe um pão com mortadela. O pão é de ontem porque não consigo comprar pão fresco antes de entrar ao serviço. Mas sou burro, não sou? Posso ir, num instante, ao supermercado comprar um pão. Trazia a mortadela de casa e fazia a sandes com pão fresco. Mas deve estar muita gente para pagar nas caixas do supermercado. Pois, é possível que esteja. Afinal é Natal. Anda tudo doido por aí a comprar coisas, coisas e mais coisas.
Como o pão aqui à saída. Não está mau. Nem muito duro, afinal. E estava a precisar de mastigar qualquer coisa.
Tanto carro aí fora! Porra! A cidade veio toda ao centro comercial. Como dizia a minha mãe Pariu a galega!
Já acabei o pão. Bebia um café. Bebo depois quando voltar para dentro. É melhor pôr os óculos. Vou fumar um cigarro. Vou dar uma volta pelo parque de estacionamento e fumar um cigarro. E pode ser que encontre uma nota de vinte caída aí entre dois carros. Querias! Pois queria! Que estupidez de conversa. Acendo o cigarro. Dou umas fortes passas e sinto a cabeça um pouco tonta da nicotina. Sabe bem.
Olha aquele carro! Aquele carro que vem aí! Não pára? Estou na passadeira, pá! Não está a ver-me. Que raio, pá. O carro vai bater-me, já percebi. O carro vai bater-me. Merda! Vou partir as pernas. A cabeça. Vou estragar o casaco. Vou perder os auscultadores e o iPod. E o cigarro está na boca. Espero não engoli-lo. E como é que consigo pensar nestas merdas todas enquanto vejo o carro a vir para cima de mim sem conseguir fugir?
Aí está ele. Foda-se! E a minha mãe? Onde está a minha mãe? Mãe, ajuda-me! por favor, se fazes favor, tenho medo, mãe, mãe, mãe!…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/09]

Tarde de Piquenique

A tarde era de piquenique entre nós. Nós, os miúdos. Sim, porque já fui miúdo. Como todos vós. Não nasci de natureza espontânea. Desci à rua pelo mesmo vaso comunicante entre o interior e o exterior. Nasci. Cresci. Estupidifiquei. Envelheci. E finalmente cheguei à razão. Já é tarde. O que me resta? As memórias.
Vamos lá então.
A tarde era de piquenique entre nós. Nós, os miúdos. Tínhamos roubado a saca das carcaças da mercearia. Havia dez pães para cada um de nós. Quantos pães? Não sei. Quantos éramos? O R. o P. o outro P. o outro R. o V. o A. e o J.P. a C. a N. e… Perco-me nas memórias. Há gente que cresceu comigo e desapareceu das histórias. Sei que estavam lá. Porque estavam sempre lá. Como eu e os outros, os que não esqueço. Os que me lembro. Estávamos lá sempre todos. Em conjunto. Em comunhão. Antes de crescermos e nos tornarmos intolerantes. Antes de virarmos à esquerda. E à direita. Antes de nos tornarmos parvos. Senhores de um nariz emproado e com a mania da razão. Filhos da certeza. Adultos. Burgueses. Malteses e às vezes. Mas divago. Isto hoje está difícil. Perco-me nas estradas da memória. Fico zangado por me esquecer. E por me lembrar.
Recomeço. Vamos lá.
A tarde era de piquenique entre nós. Os miúdos. Tínhamos roubado a saca das carcaças da mercearia. Havia dez pães para cada um de nós. O que faltava? O que pôr lá dentro. O que pôr lá dentro do pão. Eu roubei duas latas de atum Bom-Petisco em casa. Uma lata de sardinhas com tomate picante. E uma lata de salsichas Isidoro, que a Nobre só chegaria mais tarde. Ninguém lá em casa daria pela falta das latas de conserva. Havia lá sempre bastantes. Cada vez que a minha mãe ia ao Ulmar, o único supermercado da cidade, trazia sempre umas latas que iam para o monte das latas. Não importava se faltavam ou não. Se eram necessárias ou não. As latas davam sempre jeito. Para aqueles dias de pressa. Para aqueles dias em que não apetecia cozinhar à minha mãe. O que quase nunca acontecia. E, então, mesmo nessas ocasiões, era um empadão de arroz com atum e umas pinceladas de ovo por cima do arroz. Para tostar no forno. Era esparguete com atum e ketchup. Era uma Salada Russa com atum, que ocupava o espaço da pescada cozida. Era um cachorro como já não se faz. O pão torrado, não aquecido, a salsicha frita, não cozida, a manteiga a barrar o pão torrado e a mostarda a riscar as salsichas cortadas a meio, e não batata-palha (que merda de conceito!) e alface migada e milho cozido em cima de uma salsicha grossa, cozida e mal parida.
Escolhemos o pinhal atrás do RAL4. Perto de casa, mas longe da vista. Sentados no chão, que a ninguém lembrou levar uma manta. Os rabos picados na caruma, nos restos de pinhocas partidas. A escolha pelos montinhos de musgo que não chegavam para todos os rabos. O pão rasgado à mão, que ninguém se lembrou de levar uma faca, uma navalha, um corta-unhas. O atum e as sardinhas, as salsichas, as fatias de fiambre popular, de mortadela, de queijo flamengo cortado toscamente e enfiado à pressão dentro do pão rasgado, que ninguém tinha levado um garfo, uma colher. Muito menos guardanapos. Em casa ainda se utilizavam guardanapos de pano, lavados depois de uma semana de uso. Ainda nos lembrámos de encher um antigo garrafão de vinho de cinco litros, de vidro, de vidro coberto de palhinhas, de água trazida da torneira exterior da casa de um de nós. A mesma torneira onde uma mangueira, no Verão, nos fazia as delícias de um duche pré-piscina, que não tínhamos, mas que éramos bons a imaginar, que a imaginação foi razão que nunca perdemos mesmo se o dinheiro e as facilidades não fosse coisa que abundasse na rua. Naquela rua da minha infância.
A tarde era de piquenique. Tinha sido de piquenique. Dez pães para cada um de nós. Pães com atum. Com sardinhas. Com salsichas. Com fiambre popular. Com mortadela. Com queijo flamengo. Com embuchanço empurrado com água de sabor a vinho tinto rasco que ainda permanecia, e iria permanecer para o resto da vida, no interior daqueles garrafões que iam constantemente a encher nas adegas sem nome que os pais conheciam. Havia sempre um amigo de um amigo.
A tarde tinha sido de piquenique. A noite seria de dores de barriga. Vómitos. Diarreia e vomitado. Nada que estragasse a minha infância. Era já ritual do habitual. No dia seguinte já estava bom para outra parvoíce qualquer.
E era de parvoíce em parvoíce que íamos gozando a nossa infância. Uns mais que outros. Eu, sempre que possível. Gostava de parvoíces. Ainda gosto. E de piqueniques. Vinho tinto rasco. Agora, sem água. E latas de sardinhas com molho de tomate picante.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/01]

Esquecer Tudo o que Nos Faz Sentir Mal

Íamos os dois estrada fora. Duas faixas. Nós sempre na faixa da direita, mais devagar, a apreciar a paisagem, o verde, o amarelo, o castanho, as casas perdidas algures, entre montes e vales e muitas nas encostas. Há sempre uma casa perdida na paisagem. Já não há paisagens virgens.
Era o primeiro dia de férias. Janelas abertas. Eu com o cotovelo pousado na janela aberta. Ela com os pés esticados sobre o tablier. Uma mania. Já tínhamos sido multados por isso. Por ela ir com os pés descalços colados ao pára-brisas. Nunca cheguei a pagar essa multa. Qualquer dia vão buscar-me a casa. Se eu lá estiver.
Éramos ultrapassados por camiões cheios de pressa que nos faziam tremer na deslocação de ar das suas ultrapassagens, em velocidade bizarra e colados a nós. Cheguei a pensar que podíamos ser chupados por um túnel de vento.
Ela acendia-me um cigarro. Outro para ela. Íamos assim, descontraídos, a fumar um cigarro, com o rádio a debitar uma qualquer música local que não percebíamos por causa do ruído do vento que vinha de fora e nos enchia os ouvidos.
Então, senti a mão dela, suave, sobre o meu braço descansado sobre a alavanca de velocidades. Olhei para ela que disse Preciso de fazer chichi.
Continuei a conduzir naquela velocidade quase sonolenta mas agora atento às placas de indicação de Estações de Serviço.
Odiava aquelas Estações de Serviço. Quer dizer, para encher o depósito de combustível, eram todas iguais. Mais cêntimo, menos cêntimo, esta marca ou aquela, normal ou aditivada, era só enfiar a agulheta no buraco do depósito e encher. Mas para comer e ir à casa-de-banho, eram todas muito sofríveis. A comida era cara e geralmente muito má. O pão era seco. A manteiga margarina. O queijo corrente. O fiambre era mortadela. As vezes até a Coca-Cola era Pepsi. Quanto às casas-de-banho, por mais que fossem limpas, estava lá sempre o papel com os horários de limpeza e a assinatura da funcionária responsável, nunca perdiam aquele cheiro entranhado a mijo, as retretes entupidas, a falta de papel-higiénico, as torneiras automáticas que não davam tempo de mudar a mão de um lado para o outro e os secadores que, por mais que as mãos ficassem lá por baixo a esfregarem-se, nunca ficavam secas.
Saí na primeira indicação. Não valia a pena escolher. Eram todas iguais. Entrámos mais uma vez em contra-mão no parque de estacionamento da Estação de Serviço. Nunca acerto com as direcções pintadas no chão, e entretanto apagadas pelos pneus dos milhares de carros que entram por ali diariamente, e as placas de trânsito com as suas mil-e-uma informações ao utente e qual-é-a-minha, porra?
Parei num lugar vago debaixo do sol escaldante. Nestas Estações de Serviço nunca há árvores. Ela tirou os pés a contra-gosto do tablier e enfiou-os nas Havaianas.
Saímos do carro.
Entrámos no bar da Estação de Serviço. Encostei-me ao balcão. Ela encostou-se a mim. De costas para o balcão. Abraçada a mim. A morder-me o pescoço. Eu pedi Duas Coca-Colas e un bocadillo de calamares cortado pela mitad. E ele respondeu Solo Pepsi. Ela riu-se. E eu disse Entonces, puede ser.
Ela deixou-me encostado ao balcão, e foi, a rir, em direcção à casa-de-banho. Eu mandei um grande gole na Pepsi. E disse Foda-se! Comecei a comer uma metade do pão com calamares.
Ela apareceu. Branca como a cal. Agarrou-se a mim. Estava a tremer. A tremer que nem varas-verdes. Caíam-lhe gotas de suor pelas têmporas. E eu perguntei O que foi? e ela encostou-se mais a mim, aproximou a boca do meu ouvido e disse, num sussurro quase inaudível, assustado, quase-morto Acho que está um feto morto na casa-de-banho. No meio do caixote de lixo. Era assim uma coisa… E começou a chorar. A chorar baixinho.
Eu tirei uma nota de dez euros do bolso. Larguei-a no balcão. Agarrei na outra metade de pão com calamares, em vários guardanapos e saí do bar, com ela agarrada a mim, a querer cair por mim abaixo, a querer desmaiar, a querer adormecer e despertar de um horrível pesadelo.
Entrámos no carro. E arranquei, de novo, pela estrada fora.
Levávamos as janelas abertas. A rádio desligada. Ela não falava. Eu não dizia nada. Continuámos em silêncio. Continuámos em frente mas já não sabia se queríamos ir para onde íamos.
Às vezes basta um pequeno acidente no percurso para nos mudar a vida. Para o bem ou para o mal. Para nos mudar, com certeza.
Já não somos os mesmos depois da paragem naquela Estação de Serviço. Mas também ainda não sabemos o que é que somos. Ainda estamos a processar as coisas. Estas coisas que nos acontecem. E não pedem autorização para acontecer. E nos mudam, assim, de repente.
Parei o carro à beira da estrada. De um lado e outro, descampado. Ao fundo, o touro da Osborne. Eu mijei virado para o touro. Quando regressei ao carro, vi que ela estava agachada entre o carro e a porta aberta. Eu entrei no carro. Ela também. O carro arrancou. Ela acendeu um cigarro e deu-mo. E depois acendeu outro para ela. E fomos, estrada fora, a fumar, a ouvir o vento a entrar pelas janelas abertas, e a tentar esquecer todas as coisas que nos fazem sentir mal.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/20]