O Coronavírus

Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já era demasiado tarde. O vírus já se tinha espalhado por todo o lado.
A resposta das autoridades à epidemia do Coronavirus foi muito lenta e tardia. As poucas decisões, titubeantes, esbarraram sempre na impossibilidade política: não se podiam fechar os aeroportos; não se podiam parar os comboios; não se podiam fechar as estações de Metro e de autocarros. Havia sempre algo em jogo. Nomeadamente dinheiro. Havia sempre demasiado dinheiro em jogo para impedir as pessoas de circular e, eventualmente, espalhar o vírus. Que importa algumas mortes se o dinheiro continuar a circular, junto com as pessoas e a economia. Nada pode parar. Parar é morrer. O objectivo é sempre o crescimento. Parar a circulação de pessoas e bens materiais é parar o crescimento. E isso é impossível.
Lembrei-me do Tubarão, o filme-marco da inauguração dos blockbusters de Steven Spielberg. Quando um grande tubarão aparece numa praia americana a trincar pessoas, o governador não permite que se feche a praia porque as pessoas dependem do Verão para viver o resto do ano – a economia, percebem? E assim vamos indo. O primado da finança sobre a humanidade. Onde é que isso nos levou? Para já, e segundo parece, ao fim-do-mundo. É onde estamos.
Eu estou melhor aqui em casa que as pessoas que estão em Lisboa ou, pior ainda, em Hong Kong. Tenho mantimentos no meu quintal. Comecei a produzir outros mal percebi que as coisas iam descarrilar, como descarrilaram.
Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já tinham morrido alguns milhões de pessoas em todo o mundo. Como foi possível esperar tanto tempo?
Tenho seguido as notícias através da internet. A internet continua a funcionar. Algumas estações de televisão e rádio também.
Aqui no meu canto, numa aldeia perdida no sopé das Serras de Aire e dos Candeeiros, não tinha a noção de como as coisas estavam. Estão. Agora, nos grandes centros urbanos, ninguém pode sair de casa. O exército patrulha as ruas. Quem for encontrado na rua, é morto a tiro, esteja contaminado, ou não. Quando decretaram o recolher obrigatório total, quem estava em casa ficou em casa, quem estava no trabalho, ficou no trabalho. Algumas dessas pessoas puderam continuar a fazer o seu trabalho, como os que estavam na televisão, um trabalho limitado, claro, mas que mesmo assim, ia tentando pôr alguma ordem na informação que circulava pelas redes sociais.
Houve alguns movimentos de revolta que quiseram desafiar as autoridades e saíram para a rua. Um grupo de pessoas, em Lisboa, arrancou para a cidade em cima de uma camioneta, munida com colunas e música techno. Uma festa ambulante. Foram apanhados por um pelotão da Cavalaria e foram mortos a meio da Avenida de Roma. Alguém filmou do interior de um dos apartamentos. As imagens circularam rápidas pelas redes sociais. A indignação subiu de tom. Havia sempre dois grupos em confronto: os que achavam que a Cavalaria tinha feito o que lhe competia; e os que achavam que as pessoas deviam ter opção de escolha. Eu? O que é que eu acho? Onde estou é diferente. Aqui as pessoas circulam entre as casa de uns e outros. Os militares passam por cá, de vez em quando, mas não ficam. Há pouca gente. Numa cidade grande é diferente. De qualquer forma, eu não costumo sair de casa. Já antes não saía. Mas faço algumas trocas com os meus vizinhos. Ajudamos-nos dentro do possível.
A primeira coisa que fiz quando senti que o caos se estava a instalar foi colocar arame-farpado à volta do quintal. Tenho de proteger a minha horta, o meu pomar. As galinhas e os patos. Anda muita gente por aí no saque. Já disparei sobre dois indivíduos que tentaram saltar o arame-farpado. O cão começou a ladrar e eu disparei a espingarda sobre eles. Acho que lhes acertei, mas não tenho a certeza. Havia sangue sobre o muro, mas podia ter sido das feridas motivadas pelo arame-farpado.
Não sei como é que tudo isto vai terminar. As expectativas não são boas. As últimas notícias davam conta da impossibilidade de controle da epidemia do Coronavírus.
Estão-se-me a acabar os cigarros. Ainda tenho algumas garrafas de vinho na adega. Tenho algumas caixas de balas. Limpo a espingarda todos os dias. O cão e os gatos patrulham o quintal. Arranjei a câmara, que não funcionava, do portão de entrada. Tenho pena de não ter outra para o muro das traseiras.
O céu promete chuva.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/24]

Onde É que Arranjaste o Dinheiro?

O frio tinha finalmente chegado. Entrou com o último sol de ontem. Um sol mentiroso. Um sol brilhante, lá no céu, mas um frio terrível cá em baixo. Quando o sol se foi, o frio ficou.
Hoje nem houve sol. Só o frio.
Estava deitado dobre o tapete da sala a olhar para uma racha no tecto. A televisão desligada. A lareira apagada. Ela sentada no sofá, com uma manta por cima. Eu deitado no tapete da sala, de casaco vestido, a olhar para o tecto, a ver a racha a meio e o bolor da humidade que se estava a instalar nos cantos e por cima da janela. Pensei que tinha de pintar o tecto. Um dia destes.
Ela perguntou Já não há cigarros, pois não? e eu abanei a cabeça. Não sei se ela viu ou não o meu abanar de cabeça. Tentei responder mas a minha voz não saía. Depois ela perguntou Nem há vinho? e eu voltei a abanar a cabeça.
Levantei a mão para o tecto. Tentei apagar a racha com a minha mão, mas os cantos bolorentos estavam sempre visíveis. O tecto estava mesmo nojento.
Ela perguntou Tens algum dinheiro? e eu voltei a abanar a cabeça e fiz um enorme esforço para falar e disse Não. Não sei se ela ouviu. Também não sei se o meu tom de voz era audível. Eu mesmo não me ouvi. Mas eu já não me ouvia há muito tempo. Mantinha acesa a sensação de que falava, mesmo quando não o fazia, e assim nunca sabia quando falava ou estava calado mesmo quando estava a pensar que o estava a fazer.
Enfim.
Não tinha dinheiro. Nem eu, nem ela. Estávamos sem trabalho há algum tempo. Trabalhos precários dão nisto. A disponibilidade desvaloriza-te e a falta de reverência, digamos que também não abonava muito na hora de contratar alguém. Mas não importavam os motivos. A verdade era que estávamos os dois sem trabalho e sem dinheiro. Nem tínhamos direito ao subsídio de desemprego. Fazíamos parte de um grupo de gente marginal que nunca entra nas contas. Éramos artistas. Passávamos recibos verdes. Fazíamos todo o tipo de trabalhos mal pagos. Nunca conseguíamos juntar dinheiro. Andávamos sempre nas lonas. Éramos miseráveis. Uns indigentes.
Ela levantou-se. Saiu da sala.
À minha volta, sobre o tapete onde eu estava deitado, via uns bichinhos a passearem-se. Não eram formigas. Não sei que bichos eram. Mas andavam de volta das migalhas que estavam lá pelo chão. A casa estava um bocado imunda. Precisava de uma barrela. Mas quanto menos se faz, menos se tem vontade de fazer. Não conseguia levantar-me. Não conseguia ir buscar o aspirador. Ou a vassoura. Sentia-me incapaz. Queria ficar ali deitado no chão e deixar-me morrer assim.
Ela entrou na sala de casaco vestido. Tinha pintado os olhos. E os lábios. Os lábios estavam vermelhos. Um vermelho vivo. Tinha dado um jeito ao cabelo. Escovou-o. Prendeu-lhe uma flor. Perguntei-lhe Vais sair? E ela baixou-se ao pé de mim, deu-me um beijo rápido, leve, sobre os lábios e disse Já volto. E saiu de casa. A porta da rua a bater ficou a ecoar dentro da minha cabeça. Agora estava sozinho em casa e não queria estar sozinho em casa. O silêncio era ainda maior. Tentei dizer algumas palavras alto. Para me acompanharem. Rothko. Batman. Godard. Bife com batatas fritas. Um sonho de menino. Mas não sabia se estava mesmo a falar ou não. Não me ouvia. Mas podia dar-se o caso de estar a dormir. A sonhar. Ou estar afónico. Talvez surdo. Não, surdo não, que a ouvi dizer Já volto. Ou foi Já venho? Não tenho a certeza. Esqueci-me. Ando a esquecer-me das coisas.
Queria ir olhar pela janela. Queria ir olhar para a rua. Ver se a via passar lá em baixo. Mas não conseguia levantar-me do chão. E não sabia se era preguiça ou incapacidade física de fazer esforço para me levantar. Estou fraco, pensei. E devia estar. Não me lembrava da última vez que tinha comido. Nem me lembrava o quê.
O tempo passou. Eu continuei deitado no chão da sala. Deitado em cima do tapete sujo da sala. Devo ter passado várias vezes pelas brasas. Estava sonolento. A luz tinha baixado bastante.
Ouvi a porta da rua. Alguém entrou. Ela, com certeza.
E antes de a ver, ouvi-a Levanta-te, vá. E foi então que a vi com uns sacos de papel do McDonald’s. E com um cigarro aceso ao canto da boca. Já não tinha os lábios pintados. Nem a flor no cabelo. E ela ainda disse E há vinho.
Eu tentei levantar-me mas não consegui. Disse-lhe Ajuda-me a levantar, mas não sabia se ela me tinha ouvido e estiquei-lhe um braço. Ela agarrou-me na mão e levantou-me. Senti umas dores nas costas à medida que me erguia. Vacilei. Mas não caí. Agarrei-me a uma cadeira que estava à volta da mesa da sala. E perguntei-lhe Onde foste arranjar o dinheiro? mas percebi que a minha voz não estava audível. Vi-a colocar os hambúrgueres e as batatas fritas em cima da mesa. Vi-a colocar um volume de cigarros e um cinzeiro na mesa. Vi-a abrir uma garrafa de vinho tinto e a encher dois copos. Estendeu-me um. Batemos levemente com o copo um no outro. Bebemos.
E ela disse Não me perguntes onde é que arranjei o dinheiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/16]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Sinto-me em Queda

Querem que sorria?
Que agradeça a sopa quente que me oferecem num copo de plástico?
Que a minha cabeça acene, obediente, as ordens de um algoritmo?
Querem gratidão pela dádiva do Pai?
Estou em queda.
Tudo cai. Tudo morre. Não há gratidão possível quando tudo morre.
Foi o quadro que caiu parede abaixo. Não rasgou a tela, vá lá. Mas partiu a moldura. Uma moldura barata comprada numa loja de chineses. Assim como a tela. Foi numa loja de chineses que o artista comprou a tela que pintou. Não havia dinheiro para mais, disse. Não há dinheiro para mais, digo.
Foi o computador que caiu do braço da poltrona abaixo, onde estava em equilíbrio precário para apanhar o wireless fugidio. Uma amolgadela no alumínio perfeito do MacBook Pro, desenhado na América mas fabricado na China.
Foi o carro que bateu num pilar numa marcha-atrás feita às escuras e sem visão no ângulo morto. Chapa rasgada, amolgada e tinta descascada.
Foi a conta da electricidade. Tenho-a aqui na mão. Valor por kwh. Escalão 1. Potência mais baixa. Taxas e impostos. Contribuição audiovisual. Mais o IVA para isto tudo. Deixar cortar? Que importa agora? Não estou em casa.
Estou em queda.
Escorreguei no meu próprio vómito. Parti a bacia. Tenho de parar de beber vinho barato. É barato mas sai caro. Dá-me azia. Revolve-me o estômago. Faz-me bolsar as tripas.
Escorreguei no vomitado e caí. Parti a bacia. Enxaqueca. Dentes cariados. Garganta inflamada. Cravos nas mãos. Unhas encravadas nos dedos dos pés. Hemorroidas. Borbulhas várias ao longo do corpo, especialmente nas costas e nas virilhas. Algumas com cabeça branca. Cheias de pus. Varizes. Pernas trémulas. Artroses. Já não escrevo nada com caneta. Mal toco as teclas do computador amolgado. Agora só falo. Comigo. Duas horas caído no chão até conseguir arrastar-me pelo corredor, os gritos calados, até chegar ao telemóvel e chamar os bombeiros.
Estou no SNS. Talvez o que melhor funciona nesta pobre país a cair das arribas para o mar. Talvez por isso queiram dar cabo dele. Talvez porque funciona para quem não tem seguros de saúde privados. Como pagá-los? O Salário Mínimo Nacional é de 635 euros em 2020.

O presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, considerou que 635 euros para 2020 é Um objectivo ambicioso, tal como o objectivo para 2023, de atingir 750 euros.

Triste quando a ambição do presidente da CIP é tão pouco ambiciosa. Reflecte a realidade empresarial nacional. Temos os salários que merecemos. Os trabalhadores que merecemos. Os empregos que merecemos. Os patrões que merecemos.
E eu? O que é que eu mereço?
Estou em queda. E a vida tirou a vida para me chatear.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/10]

O Fim do Mundo e uma Lata de Coca-Cola

Já não sei há quantos dias venho a caminhar. Acho que já passaram algumas semanas. Talvez meses. Já perdi a noção do tempo. Os dias são iguais. Cinzentos. Com esta chuva de cinza, constante, que cai dia e noite. A minha respiração ressente-se. Às vezes falta-me o ar. Preciso de parar. Tenho de parar. Recuperar o fôlego, a respiração. Mas tenho de voltar logo a partir, tenho de continuar em frente. À procura. Tenho de encontrar o grupo.
Ainda não me cruzei com ninguém. Desde que saí lá de cima, da quinta, nunca mais me cruzei com ninguém. Não há pessoas por aqui. Nem cães. Os pássaros, tal como lá em cima, desapareceram todos. Talvez tenham morrido. Talvez tenham ido todos morrer para o mesmo sítio. Não se vê nenhum caído pelo chão. Talvez os comam. As pessoas que eu também não vejo. As pessoas com quem não me cruzo. Devem estar por aí escondidas, talvez. Não morreu toda a gente. Não. Não morreu toda a gente. Mas todos têm medo. E escondem-se.
Estou cansado. Desde há alguns dias que me sinto cansado. Já não é só a respiração pesada por causa desta fuligem que teima em cair dos céus. São as pernas que já se movimentam sozinhas, mantendo o ritmo da caminhada, mas já não as sinto. As botas estão a ficar rotas. Devia arranjar outras, mas não encontro nenhumas. Nem uma loja nem um morto calçado. E pelo caminho que estou a fazer, já foi quase tudo saqueado.
A comida está a acabar-se. Tenho uma garrafa de plástico de 33cl ainda com água. E ando a poupá-la. Não tenho arranjado comida nem bebida. Está tudo vazio. Seco. Pareço que estou no fim do mundo depois do mundo ter acabado.
Tenho parado e entrado em quase todas as casas por onde passo. Procuro coisas. Não sei bem o quê. Coisas que me possam ajudar, que me possam servir. Comida. Roupa. Ferramentas. Coisas.
Hoje de manhã entrei num café à beira da estrada. Deve ter sido um café-restaurante para camionistas. Tinha um enorme terreno em terra batida, vazio, ao lado. Lá dentro, um enorme balcão e dois espaços grandes com mesas e cadeiras, tudo revolvido. Procurei por todo o lado. Abri todas as portas, abri todas as gavetas, procurei em todos os armários, dentro de todas as arcas frigoríficas, de todos os frigoríficos. Nada. Nada de nada. E depois, ao sair de uma das casas-de-banho onde fui à procura de papel-higiénico, que também não havia, vi, atrás de um grande vaso, um vaso que antes de tudo isto deve ter tido flores, mas que agora estava vazio, atrás do vaso, um pouco de lado, um bocado de vermelho que me chamou a atenção, e cheguei-me a ele, e baixei-me e estiquei o braço e a mão e alonguei os dedos e agarrei. Era uma lata. Uma lata de Coca-Cola. Coca-Cola clássica. Lata vermelha. Já fora do prazo, mas que sobrevivera a todos os saques que aquele café sofrera para esperar por mim. E ali estava eu. Com a lata de Coca-Cola na mão. Sem gelo. Sem limão. Sem um copo sequer. Ainda procurei, mas estava tudo partido. Sentei-me ao balcão. Abri a lata. Ouvi o estalito do alumínio a abrir e o fsch que o gás da Coca-Cola fez ao ser libertado. Levantei a mão com a lata e cheguei-a aos lábios e beberiquei um pouco, e senti as borbulhas a explodir na boca e despejei mais pela garganta abaixo e senti a garganta a rebentar com a aspereza do gás e fui seguindo o trajecto da Coca-Cola dentro de mim até chegar ao estômago e então, arrotei. Mas um arroto tão sonoro que me assustei. Não estava habituado ao barulho. Soube-me bem, arrotar. E soube-me muito bem sentir aquele sabor adocicado da Coca-Cola. E foi no momento em que voltei a levar a lata à boca pela segunda vez, que me lembrei d’ A Estrada de Cormac McCarthy e do momento em que o homem dá a provar ao rapaz, pela primeira vez na vida, um bocado de Coca-Cola. E sorri. Como a ficção pode antecipar tão bem a realidade. Naquele momento, senti-me uma personagem da ficção de McCarthy, mas em real. Aquilo não era uma história. Aquilo era a minha vida. E sim, tínhamos dado cabo do mundo. Alguns de nós tinham dado cabo do mundo, mas acabámos todos a sofrer com isso. Não deve haver ilhas isoladas, condomínios fechados ou paraísos fiscais que tenham sobrevivido ao apocalipse. Não há sol. Já há muito tempo que não se vê o sol. Quanto tempo? Talvez anos. Já não sei. E esta fuligem! Esta cinza constante a cair dos céus. Não há terrenos cultivados. Não há rios de água cristalina. Não há culturas nem água potável. Há restos. Restos que sobreviveram ao fim. Há esta chuva de cinza. E frio. Muito frio. Estamos todos na merda a tentar sobreviver, os que sobreviveram, com o que se consegue recuperar, saquear, descobrir nos sítios por onde se passa. Já não há Continente e Pingo Doce com os seus camiões de distribuição a encher os lineares dos supermercados. Já não há nada. Nada de nada. Só meia-dúzia de pessoas que deixei lá para cima há não-sei-quantos-dias para procurar um outro grupo de pessoas que, parece, está cá para baixo, não-sei-bem-onde, e está a tentar organizar o que resta de nós. De nós todos.
Tenho ouvido algumas histórias. Violência. Grupos que percorrem as estradas à caça. Canibalismo. Até agora são só histórias. Já venho a caminhar há tanto tempo e ainda não encontrei vivalma. São essas histórias que me fazem companhia na estrada.
E lá vou eu. A descer, acho. Em direcção a sul se a bússola estiver a funcionar. Às vezes o ponteiro dá umas voltas tontas. Depois pára e mostra-me o norte. Acho. E eu sigo para sul.
Estou cansado. Não sei se vou encontrar alguém. Não sei se as pessoas que deixei lá para cima estão ainda vivas. Eu continuo aqui. A caminhar na estrada. Estou com uma respiração ofegante. Cansado. E com as botas a ficarem rotas.
Mas hoje foi um bom dia. Hoje bebi uma Coca-Cola.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/09]

Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

Gosto

gosto da primavera, de namorar raparigas jovens e menos jovens, já vividas e cheias de estórias para me contarem e gosto do cheiro das flores campestres, de mergulhar no rio, no açude, no lago, nu, e de me deitar sobre as margaridas e deixar-me aquecer pelo sol do meio-dia, e de ler livros deitado na relva, no sofá, sobre a cama, gosto de ler philip roth e mário de sá-carneiro, cormac mccarthy e baudelaire, rimbaud e cocteau e não esquecer camus, borges e cortázar, gosto de sumo de laranja fresco, peixe assado nas brasas, frango de churrasco, e pão acabado de fazer em panificadoras, gosto de rosas e malmequeres, de fumar cigarros e um charro de vez em quando, gosto de ir à escola agora que já não vou, gosto de desenhar mesmo não sabendo, e de matemática, literatura e poesia, gosto da poesia do al berto, da szymborska e do joan margarit, gosto de chupar as azedas que encontro à beira da estrada, de festas de aniversário em garagens onde eu sou o dj, gosto de beber cerveja, loira, stout ou blanche, gosto de tremoços e pevides, castanhas de caju e amendoim torrado, gosto de passear de mão-na-mão, de mãos transpiradas de desejo e de antecipação, gosto de cortar o cabelo muito curto para refrescar a cabeça, usar desodorizante, calçar sapatilhas e vestir t-shirts, gosto de passear pelo país, conhecer as praças das cidades, vilas e aldeias, e gosto do verão, do calor do sol a queimar-me o corpo e a dificultar-me a respiração, gosto de vestir calções e calçar chinelos, gosto da praia e de mergulhar nas ondas do mar, de beber um gin numa esplanada à sombra de uma árvore, de um vodka antes de jantar, de uma pizza em forno a lenha, de uma salada de rúcula e tomate cherry, queijo feta e iogurtes naturais com granola caseira, gosto de ver os jogos olímpicos e o mundial de futebol, que também pode ser o europeu, gosto de banda-desenhada, do hergé e do hugo pratt, do comés e do frank miller, do lostal e do bilal, gosto de água das pedras e coca-cola e não, não pode ser pepsi, mas pode ser zero, sem cafeína ou light e com uma rodela de limão, gosto de amêijoas, berbigão, mexilhão e conquilhas, navalheiras, camarão de moçambique e da figueira da foz, gosto muito de limonadas sem açúcar, do bafo quente do interior alentejano, da costa vicentina e do sotavento algarvio, gosto das festas das aldeias perdidas no interior e das grutas de alvados, gosto das serras d’aire e dos candeeiros e de caminhar por elas, gosto das imperiais no lebrinha, de ver os girassóis a girar, de melancia, melão e meloa, de beber um tinto esporão, um verde alvarinho, gosto de adormecer na praia, ver as suecas em topless, jantar na rua, na varanda ou no quintal, olhar as estrelas, e sonhar ser o starman, também gosto do outono, do casaquinho de algodão, dos óculos escuros que uso o ano inteiro, de música, muita música, dos beatles e dos stones, dos velvet underground e do nick cave, dos joy division, dos jesus and mary chain e dos chameleons, mas também gosto do nick drake, do leonard cohen e do david bowie, dos mão morta, dos pop dell’arte e dos gnr com vítor rua e alexandre soares, de bolas de berlim com creme, da chuva que molha tolos e do cheiro da terra molhada, gosto do fim das férias, do início das aulas, dos cadernos novos, de livros novos, do regresso à vida de todos os dias, do benfica e da união de leiria, gosto de viajar para longe e saber que regresso, gosto de conhecer o que não conheço, de visitar o rainha sofia sempre que possível, de arroz de cabidela, de raparigas despenteadas pelo vento, de lábios carnudos pintados de red velvet, de peitos pequenos médios e grandes, de pernas em meias de vidro pretas, de música ao vivo em salas escuras e sombrias e em jardins luminosos, gosto de ler jornais em papel, sujar os dedos com tinta, desligar a televisão, jogar ao monopólio e ao risco, gosto dos dias a encurtar e as noites a crescer, gosto de dormir acompanhado, de fazer sexo, mas gosto mesmo é de foder, de gritar alto na rua às duas da manhã, de ouvir as persianas a serem levantadas e gente a ralhar comigo, gosto de passear à chuva à beira do rio, e também gosto muito do inverno, da lareira acesa e a lenha a crepitar, de uma morcela de arroz e um chouriço assado, de uma bifana grelhada nas rulotes ao pé do mercado da cidade, gosto de arroz doce e rabanadas, filhoses e sonhos, gosto do frio que me recorda a vida, gosto de filmes e de teatro, do wenders e do godard, da anna karina e da monica vitti, gosto de estar sentado numa sala e ver os actores ao pé de mim, gosto de tempestades, de relâmpagos e do som cavo de um trovão, gosto de tocar campainhas e de sobreviver ao natal e à passagem de ano, gosto de sentir que o mundo está a acabar para me agarrar com unhas e dentes ao tempo que me resta, gosto do meu pai e da minha mãe, dos meus filhos, mesmo os que não sei que tenho e os que não são meus, gosto de todas as mulheres que foram mulheres da minha vida, e gosto muito das saudades que tudo isto me dá, gosto de escrever, ler e aprender, gosto de cozinhar e de comer, gosto de dançar, pular e rir, gosto de estar com pessoas e brincar com os amigos, mesmo que não sejam muitos, gosto das minhas memórias, mesmo as falsas, gosto muito de viver mas, não tenho medo de morrer

[escrito directamente no facebook em 2020/01/07]