Bang Bang, parte 03 e última

[continuação de ontem]

O dia estava a cair. Havia gente a ir embora da praia. Ela continuava deitada na cama de borracha a ondular ao sabor da maré. Eu, farto de mergulhar naquele mar chão, saí da água e fui sentar-me na esplanada de uma casa de pasto espetada no meio da praia. Pedi Una cerveza e calamares. E assim foi. Veio uma imperial e uma caixinha de latão com calamares.
Ela levantou a cabeça à minha procura. Eu acenei-lhe da praia, da esplanada da praia. Ela viu-me e sossegou. E deixou-se estar a baloiçar naquelas águas quase paradas.
Eu fiquei ali a apreciar o que parecia o paraíso. Tínhamos dinheiro. Estávamos apaixonados. Fazia bom tempo. A água do mar estava quente. A cerveja fria e os calamares eram saborosos. Precisava de guardar aquele tempo o máximo que me fosse possível. Sorvi tudo gulosamente como se o fim do mundo estivesse a espreitar. Os bons tempos estavam prestes a terminar. Eu sentia-o.
Naquela noite haveríamos de alugar um quarto de hotel com varanda e vista sobre o mar. Aquele mar. Faríamos amor na varanda. Faríamos amor a olhar a Lua reflectida no mar. Depois ainda fumaríamos uns cigarros e haveríamos de ter uma grande conversa. Uma conversa onde falaríamos de tudo. De nós e do nosso futuro. Haveríamos de falar do nosso futuro, do nosso fabuloso futuro, um futuro partilhado a dois, com filhos, dois, talvez três, duas raparigas e um rapaz, talvez ao contrário, mas antes iríamos conhecer a Europa, conhecer o Mundo, abrir os olhos e a mente, olhar para além dos horizontes e perceber que não éramos as únicas pessoas neste planeta, um planeta espectacular à espera de coisas espectaculares feitas por pessoas como eu e ela, pessoas espectaculares.
No dia seguinte iríamos passear por Torremolinos, os dois, os dois de mãos dadas, felizes com o que a vida nos estava a proporcionar, e ela haveria de sofrer um acidente. Seria atropelada numa passadeira por um grupo de miúdos ingleses, bêbados, a conduzir um carocha cor-de-rosa, que não conseguiam perceber o conceito de conduzir à direita. Ela iria morrer antes mesmo de chegar ao hospital para onde seria levada e eu acabaria por andar perdido pela Costa del Sol, solitário, de calções e chinelos nos pés, sem tomar banho nem lavar os dentes, à procura dela, à procura de uma ideia dela, a tentar perceber a minha vida sem ela.
Haveria uma pergunta que me iria acompanhar nesses dias que se aproximavam: O que é que irei fazer sem ela? O quê?
Acabaria por voltar para casa. Pegaria no Peugeot que o meu pai me tinha dado e regressaria a Leiria, mas ainda demoraria algum tempo. Iria fazer toda a costa sul. Entraria por Vila Real de Santo António e iria fazer o Algarve e depois começaria a subir o litoral alentejano e demoraria dois meses a chegar a casa, dois meses que demoraria o meu luto por ela e durante todo esse tempo iria deitar-me com todas as miúdas que se quiseram deitar comigo, sem escolha, aberto a tudo e a todas, e choraria no regaço de muitas delas, que me tratariam sempre bem, com carinho, dar-me-iam colo, e muito amor, até que finalmente haveria de chegar a Leiria, fechar-me-ia em casa e começaria a escrever, a escrever muito, a escrever estórias que tinha vivido, ou não, já não sabia o que era verdade ou mentira, o que tinha realmente vivido ou imaginado, mas escreveria tudo, tudo o que me lembrasse, tudo o que pensasse que era vagamente verdade, e depois iria depositar tudo numa gaveta e iria esquecer tudo outra vez, até que pudesse nascer de novo e ser outra vez uma pessoa, alguém completo a quem as estórias já não magoariam, o que me iria trazer até aos dias de hoje.
Mas então, naquele tempo, iria procurar trabalho e o primeiro trabalho que encontraria seria o primeiro trabalho que aceitaria, iria trabalhar por turnos numa fábrica de rações na periferia da cidade, fábrica onde ainda hoje trabalho, trabalho que me embruteceu a alma e as mãos, ásperas, grossas, grosseiras, mãos que nunca mais tocaram a seda de uma pele como a dela, mas que me foi aguentando a vontade de estar vivo e o poder pagar o preço desta vida que já não é querida, só suportada.
Ainda hoje trabalho na mesma fábrica de rações a fazer as mesmas coisas que comecei a fazer há quarenta anos. O meu olfacto não detecta mais nada que o cheiro daquelas rações para alimentar animais. Quando chego a casa escrevo estórias que ninguém me paga. Escrevo histórias que ninguém lê. Escrevo estórias que aconteceram ou não mas, escrevo estórias que são o legado da minha passagem por cá. Publico estas estórias nos redes sociais, não à espera de reconhecimento, mas à espera que fiquem aqui para sempre e que, de qualquer forma, me deem a imortalidade que não consegui de outra maneira. E evitaram o Bang Bang.
Mas isso ainda não aconteceu. Ainda está para acontecer. E neste momento, estou com uma imperial nas mãos e alguns calamares à espera para serem comido por mim. E ali ao fundo, no mar, no mar onde a noite já começa a cair, está o amor da minha vida com quem irei fazer amor esta noite. A nossa última noite. Mas eu ainda não sei disso e, por isso, deixem-me ser feliz mais umas horas, se fazem favor.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/08]

Desespero

Isto já se deu há muito tempo. Há mais de trinta anos. O pai de uma amigo, um amigo próximo, matou-se. Enfiou os canos de uma caçadeira na boca e disparou. Dizem, quem viu ou, pelo menos, quem ouviu dizer, que rebentou com a cabeça.
Na altura lembro-me de pensar Como é que um tipo se suicida com uma caçadeira? É que não deve ser fácil. Fisicamente, não é? Agarrar na arma. Naquela arma específica. Numa arma grande. Grande e comprida. E disparar o gatilho. Como é que se chega ao gatilho?
Lembro-me de ter recebido a notícia com alguma frieza. Talvez, desdém. Lembro-me de ficar condoído pelo meu amigo. Lembro-me de estar lá para ele. Não muito, na verdade. Acho que foi mais as palavras da praxe. Estou aqui, Se precisares de alguma coisa, Ânimo, esse tipo de frases feitas compradas numa coleccionável da D. Quixote para oferecer em alturas de Natal e Páscoa a pensar nos infortúnios anuais.
Os anos foram passando e passaram por entre mim e esse meu amigo e levou-nos para vidas diferentes e, provavelmente, longínquas. Nunca mais o vi. Nunca mais soube dele. Pode até já ter morrido, não sei. Sei que nada sei dele.
No entanto, de tempos a tempos recordo a morte do pai dele. Recordo a morte do pai, não pela morte do pai em si, mas pela minha indiferença à morte dele. Não sei se pelo suicídio, se pelo facto de ir embora e deixar cá o filho (mais uma filha e a mulher), se por outra razão qualquer que ainda não me tenha ocorrido. Mas ao longo dos anos tenho, quando me lembro desta história, ficado cada vez mais zangado comigo.
Desta vez chorei. Finamente chorei pelo meu amigo e, mais importante, pela morte do pai do meu amigo. Acho que este choro me libertou de alguma angústia aprisionada cá dentro por mais de trinta anos. Pelo menos foi o que me pareceu.
Finalmente percebi o desespero e a coragem que ele deve ter tido para fazer o que fez. Não é algo que se faça de ânimo leve. Não é algo que se decida fazer porque sim. Não é, como alguns querem fazer crer, uma saída fácil. E é preciso haver um enquadramento. Uma razão. Um motivo. E é preciso muita coragem. Uma coragem extrema.
Não vou falar sobre os motivos. Não os conheço. Nunca virei a conhecê-los, provavelmente. Quem se lembra da morte de alguém ao fim de tantos anos? Neste caso, talvez os órfãos e a viúva, se ainda forem vivos, e eu.
Hoje percebo que os motivos devem ter sido muito fortes. Só o peso de um drama sem saída empurra alguém para aquele desfecho. Alguém decidir deixar cá, sós, os filhos, a família, é porque o caminho das respostas está vedado – e está-o tantas vezes! bem mais do que nós sabemos, ou julgamos saber. Sim porque nós julgamos saber sempre da vida alheia e até temos a mania que sabemos as respostas e temos as soluções, como se elas viessem em saquetas de brinde nas caixas do Juá.
Mas posso falar sobre a coragem. Aquela coragem que muitos acham que é corbardia, medo, que é fuga. A coragem de decidir pôr um fim a tudo. E conseguir dar todos os passos. É que cada passo pesa toneladas. Cada passo tem o peso de uma vida. De várias vidas. Cada passo é uma ida sem regresso. Cada passo é mais um acelerador das batidas do coração. Cada passo é uma batalha entre todas as dúvidas e certezas que uma pessoa tem. E então imagino aquele homem, homem ainda novo, mais novo do que eu sou hoje, com filhos pequenos, a pegar numa arma, a carregar essa arma, a apontar essa arma a si próprio, lutar contra todas as conversas que lhe hão-de estar a consumir a cabeça, a dizer para o fazer, a dizer para não o fazer, manter a força da mão, do braço, do braço que suporta essa arma, pensar em tudo o que vai perder, pensar que tudo vai acabar, pensar que já não vai mais haver aniversários, nem Natal, nem cabrito assado, nem jogos do Benfica, nem netos, nem beijos, nem amor, nada, nada, nada, não vai haver mesmo mais nada e ainda assim ter força suficiente para mexer o dedo que está sobre o gatilho e disparar e, naquela fracção de fracção, naqueles nano-segundos entre o disparar o gatilho e o cartucho, a bala, sair disparado, disparada, pelo cano até atingir o alvo, pensar num possível arrependimento e saber que já é tarde, tarde demais, e depois já não é mais nada, nem o vazio, é apenas só uma ausência, o mundo acaba, desfaz-se, desaparece, e só continua para quem fica por cá, às vezes em que condições.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/04]

Sair da Cadeia e Voltar a Entrar

O dia em que saiu da cadeia foi também o dia em que voltou para lá.
Eu não o conhecia pessoalmente. Mas sabia quem ele era. Tinha ouvido muitas histórias dele. Ele também não me conhecia de lado nenhum mas, devia ter ouvido falar de mim. Foi por isso que, no dia em que saiu da cadeia, foi a casa da ex-mulher e espetou-lhe três tiros no peito. Ela morreu logo ali, segundo me contaram. À entrada de casa. Ele ficou por lá, à espera da polícia. Resignado à sua condenação. Ouviram-no dizer que a minha sorte foi não estar lá com ela. Porque, se estivesse, seguia o mesmo caminho dela. O que ele não sabia é que eu já estava com ela há muito tempo. Aquilo entre nós, entre mim e ela, durou o que durou e depois acabou. Se ele tinha ciúmes, já não precisava de ter.
Ele cumpriu dois terços da pena, uma pena a que tinha sido condenado por cenas com drogas que terminaram mal (sim, é que há cenas de drogas que terminam bem). Nunca foi condenado por violência doméstica, embora ela me tivesse contado várias vezes que ele lhe batia. E como lhe batia. E porque lhe batia. Porque havia sempre um motivo, pelo menos na cabeça dele. E havia sempre uma maneira de lhe bater. Como se fosse um ritual de vingança estúpido. Uma espécie de praxe fora de tempo, se é que elas, as praxes, têm tempo. Talvez na cabeça daquelas criancinhas malformadas, pequenos reizinhos ávidos de mandar. Geralmente ele batia-lhe com o cinto. Com a fivela do cinto. A primeira vez que vi os vergões, as cicatrizes, percebi de onde vinham. Ela precisou de muito mais tempo, e coragem, para me contar como foram deixadas ali assim.
Quando ele saiu da cadeia, eu e ela já não nos víamos. Já tínhamos acabado há algum tempo a relação que tínhamos tido. No entanto, o que lhe chegou aos ouvidos na cadeia não foi a informação toda. Para ele, ela estava a traí-lo comigo, embora eles já não fossem mais casados um com o outro. Aliás, ele já tinha tido uma Licença Precária e nessa altura foi ter com ela para lhe perguntar porque é que ela nunca o tinha ido ver à cadeia. Ela fechou-se em casa, assustada. Com medo. Eu não estava. Nessa altura estava em filmagens no norte do país. Ela telefonou-me nessa noite. Disse que estava tudo bem. Que tinha saudades minhas. Só mais tarde é que me contou que ele a procurou e que ela se tinha fechado em casa com medo. E não avisou a polícia com medo dele. Da reação dele. Ele depois regressou à cadeia.
Agora, quando saiu, agora depois de ter cumprido dois terços da pena a que fora condenado e por ter tido bom comportamento na prisão, a primeira coisa que ele fez foi arranjar uma pistola, ir a casa dela, esperar que ela abrisse a porta casa e disparar três tiros no peito dela. Ela teve morte instantânea. Ele entrou em casa dela, talvez à minha procura, mas eu não estava. Há muito que eu não estava. Depois sentou-se à entrada de casa e esperou que a polícia chegasse. A polícia ou alguém que avisasse a polícia. A polícia chegou e levou-o preso.
O meu telefone tocou pouco tempo depois. Um primo dela. Um primo que eu conhecia do tempo em que éramos um par. Foi ele que me contou tudo isto.
Eu estava em casa. Estava em casa, afundado no sofá com uma depressão a pensar o que fazer agora que o dinheiro se estava a acabar. E não tinha trabalho. Ninguém me dava trabalho. E o dinheiro estava a acabar. Estava a pensar em vender uma série de coisas, a televisão, livros, cds, dvds para ver se me mantinha à tona de água até chegar o milagre que tardava, quando o telefone tocou. Mal soube que ela tinha morrido comecei a chorar. E só pensava que podia ter ido eu no lugar dela. Enquanto ele me contava o que tinha acontecido, eu só pensava que podia ter sido eu em vez dela. E pensava isso enquanto as lágrimas me caíam pela cara abaixo. E continuei a chorar já depois de ter desligado o telefone. Não sei porque chorei assim tanto.
Depois acabei por me levantar do sofá e fui enfiar-me na cama, dentro da cama, debaixo do edredão, vestido e calçado, a pensar que iria visitar o cabrão à cadeia. Acabei a pensar de novo na minha falta de trabalho e de dinheiro e esqueci-me dele e dela e da morte dela.
Voltei a lembrar-me disso hoje, assim do nada. Continuo sem trabalho e sem dinheiro. Não sei o que fazer. E, então, pensei nas vidas desta gente. Um assassino preso pelo seu crime. Uma vítima morta. E eu. Eu no meio disto tudo. Eu e os meus problemas. Não sei. Mas não tenho vontade de me levantar da cama.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/06]

Escondido, parte 08 e final

[continuação de ontem]

Agarrei na pistola que ela me deu. E perguntei-lhe O que é que vou fazer com isto? E ela olhou nos meus olhos, vi que ainda tinha os olhos inchados e vermelhos de chorar, pousou a mão sobre a minha perna, talvez para me tranquilizar, embora aquele toque me tivesse feito recuar alguns anos, até ao tempo em que ela punha as mãos sobre as minhas pernas nuas e me dizia Vem! e eu ia, obediente, e íamos os dois e o tempo passava e nenhum de nós dava pelo tempo a passar e quando dêmos por ele já não estávamos um com o outro, as coisas tinham morrido assim, quase de morte natural, pelo menos foi assim que eu percebi, foi assim que nós percebemos, ou talvez não tenha sido assim, talvez isto tenha sido uma narrativa que criei para fugir a qualquer história que me pudesse magoar, sei lá! não sei! e talvez seja por isso que agora estou sempre a regressar lá atrás, onde lá atrás éramos os dois, os dois juntos, eu e ela, um conjunto feito de um par que durante algum tempo parecia ter sido feito um para o outro, pelo menos sexualmente, não era? sexualmente éramos o prolongamento um do outro, não era? e nunca mais me prolonguei assim com mais ninguém, mas tenho procurado esse prolongamento ao longo de toda a minha vida, procurado exaustivamente, por vezes até demais, embora nunca seja demais, pois não? até terminar aqui assim, sozinho, sozinho como estou hoje, a desfazer um só lado da minha cama grande, a usar um único individual nas refeições caseiras, uma única escova de dentes no lavatório da casa-de-banho, e penso isso enquanto olho para os olhos inchados e vermelhos dela, os olhos de quem tem estado a chorar pelo marido, com prognóstico reservado numa unidade de cuidados intensivos depois de ter sido estupidamente agredido com tacos de baseball por um grupo de gente selvagem, carregada de ódio e disposta a destruir toda a humanidade que ainda mantínhamos entre nós, apesar de tudo o que têm sido estes últimos anos, quando ela disse As coisas vão ficar perigosas.
Sim, as coisas iam ficar perigosas. Percebemos que o país estava a ficar refém de um grupo de gente motivada a ódio, ódio nas redes sociais, ódio de género, ódio de idade, ódio de raça, ódio de sexo, ódio de educação, havia quem não quisesse mais nada desta vida que controlar a vida dos outros e espalhar ódio, e esse ódio estava a alastrar-se como as metástases que se espalham pelo corpo e o contamina e o condena à morte e eu voltei a dar comigo a regressar no tempo outra vez, como se todos estes anos de separação entre a nossa ausência e o nosso reencontro fosse somente um hiato de tempo para nos preparar para o que aí vinha, As coisas vão ficar perigosas, disse ela e eu percebi, percebi que tínhamos de ir à guerra, à guerra contra o mundo e ao lado dela ia para todo o lado, contra quem quer que fosse, o que me deixou preocupado a pensar se estava ali a tomar aquelas decisões porque achava que eram as ideias certas, uma luta por valores, ou porque queria só estar com ela, consolá-la por o marido estar nos Cuidados Intensivos? e esperar por algo mais?
Não. Tínhamos tomado uma decisão. Tínhamos os dois tomado uma decisão e a minha decisão não fora tomada de ânimo leve nem a pensar com a cabeça da pila. As coisas vão ficar perigosas e agora tínhamos de nos preparar para elas.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/25]

Sozinhos

Estamos sozinhos. Estamos todos sozinhos. Sempre. Mesmo que às vezes nos iludamos.
Nascemos sozinhos, mesmo que às vezes nasçamos com mais um ou outro como companhia e que, durante toda a vida, dizem, partilhemos sensações e uma espécie de sentido só nosso, que sentimos o mesmo que o outro como se o outro fôssemos nós. Mas estamos sozinhos naquele momento em que nos puxam para a rua e nos dão uns açoites para largar o berro da vida Coitado, tem bons pulmões. Vai poder chorar alto toda a vida.
E morremos sozinhos. Nós e o nosso caixão, quando não é a vala comum, e a companhia dos vermes que nos vão desossar. Sozinhos no adeus e para além dele. No fim da existência. Sempre a solidão.
A solidão numa acanhada barraca com placas de zinco ou na imensidão de uma torre de marfim. A solidão não escolhe classe social, e a mentira da companhia insere-se em todas elas. Talvez o mais rico sofra mais com as amizades de ocasião. Afinal, o dinheiro pode ser o maior aglutinador de amizades. É um bom afrodisíaco. Mas também é um grande mentiroso. O pobre também se vê enredado no mesmo esquema. Onde come um, comem dois. Às vezes só querem mesmo é encher a barriga.
Dos jardins de infância aos lares da terceira idade vai à distância da ilusão. Acenam com a companhia. Com a criação de amizades. Com o aprender a estar com os outros. E fala-se dos amigos de infância, dos amigos da rua, dos amigos da escola, dos amigos da tropa, dos amigos da guerra, dos amigos da claque, dos amigos do partido, dos amigos dos copos e, quando chega a altura, olha-se para o lado e estamos no deserto do Sahara.
Depois de passarmos uma vida dentro de transportes públicos a suportar o cheiro a transpiração dos outros que não conhecemos para ir trabalhar para um emprego que não gostamos, para fazer o que não queremos para poder sobreviver mal e porcamente, somo atirados para o fundo da fila social, depositados num qualquer lar da terceira idade onde iremos encontrar outros como nós, outros à espera da morte, outros a vegetar, com a baba a cair pelo canto da boca enquanto na televisão passa um reprise da Fátima Lopes ou da Júlia Pinheiro sem saber se ainda estamos vivos ou mortos. Mas a culpa não é nossa, nem, em última análise, de quem nos lá põe. A culpa é deste modelo de vida que muitos defendem como o melhor possível quando este melhor só é bom para alguns, poucos, eleitos, que conseguem um pouco mais que a sobrevivência rasteira feita a pão com manteiga, com pão de véspera e manteiga feita margarina.
Ouvi a notícia de um cliente num restaurante de um luso-descendente em Nova Jérsia, depois de pagar a despesa de cinquenta dólares pelo pequeno-almoço de família, deixou uma gorjeta de mil dólares. Um e outro à procura de reconhecimento. De amizade. De companhia. De alguém.
É claro que fico contente que alguém que pode, possa dar uma gorjeta de mil dólares. Mas incomoda-me que alguém possa dar uma gorjeta de mil dólares a outro alguém a quem essa gorjeta é bem mais do que pode ganhar um mês inteiro a trabalhar para sobreviver.
No final caminhamos todos para o mesmo fim. Morremos todos da mesma maneira e ninguém leva nada daqui. Podíamos partilhar mais as coisas e sermos mais uns com os outros. Beber uns copos mas bebermos por prazer e não por ritual, porque sim, ou por desfastio.
Estamos todos sozinhos porque nos achamos sempre melhor que os outros. Quaisquer outros. Somos mais cultos, mais bonitos, mais elegantes, com melhor cabelo, um gosto mais apurado, uma carteira mais recheada, fodemos melhor, cheiramos melhor, temos um cabelo mais forte e mais brilhante e até as nossas doenças são bem mais glamourosas que as dos outros e só os aceitamos, os outros, para manter a ilusão de que somos queridos de alguém. Fingir que existe amor. Que amamos e somos amados. Que a história não é a história de uma solidão. Mas é.
E no fim, mesmo no final da estória, quando estamos mesmo sozinhos, é assim que morremos.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/13]

Avalanche

A vida é feita de avalanches. Umas seguem-se às outras. E nós, as nossas vidas, seguem enrodilhadas nessas avalanches que nos levam pelo tempo. Quando estamos bafejados pela sorte, as coisas boas sucedem-se umas às outras e, por vezes, é comum ouvir-se falar em maré de sorte. Quando estamos amaldiçoados pelo azar, não há nada que possamos fazer que altere o nosso estado de alma: a única coisa que conseguimos atrair é o azar. Raios nos partam, dizemos.
Chego ao fim-de-semana. É Sábado mas podia ser qualquer outro dia. Mesmo dia da semana. Sei que é fim-de-semana porque o telemóvel informa-me. Mas tudo na minha vida se mantém igual desde há cerca de três meses.
Comecei por ficar em casa porque me aconselharam a tal. Um conselho prudente. E fui ficando. Fui percebendo que, se por um lado a vida não pode parar, porque se não morremos da doença morremos da fome, por outro lado, não precisamos de saltar da frigideira para o lume. Acelerar as coisas? Talvez seja mesmo isso que algumas pessoas andam a fazer.
Tenho ficado por casa. O meu azar é também a minha sorte, pelo menos aqui, nesta falta de necessidade de ter de sair de casa para trabalhar. Saio quando tenho de sair. Quando sou obrigado a sair. Com responsabilidade. Com cuidado. Em segurança. Levo luvas. Máscara. Uma garrafinha de álcool. Mantenho distâncias. E não me deixo influenciar pela ocorrência. Deixei de ouvir as pessoas. As pessoas normais, pelo menos. As pessoas como eu. Pessoas que não sabendo nada julgam que sabem tudo. Já ouvi todo o tipo de teorias. Já ouvi pessoas aconselharem uma coisa e o seu contrário. Chega. Não serve para nada usar álcool nas mãos? Também não fará muito mal. O álcool provoca problemas dermatológicos? Quando tiver um problema de pele, vou tentar resolvê-lo. Para já, uso. Chega de teorias e ultimatos de sabedoria.
Há três meses que deixei de frequentar o café. Gostava de me sentar numa esplanada a beber uma bica, uma água tónica, uma cerveja, um gin, a ler um livro, uma revista, o jornal do dia. Conversar com este e com aquele. Petiscar um rissol de camarão. Um pastel de nata queimado. Ver quem passava. Imaginar estórias. Há três meses que deixei de frequentar o café. Agora entro, bebo uma bica ao balcão e vou embora.
Ao princípio pensei sentir falta disto. Falta de pessoas. Falta de conversa. De discussões. Falta da amizade. Falta de jantares com companhia. Falta de toque. De beijos. De sussurros no ouvido.
Afinal, três meses passados e sim, sinto falta de estar sentado numa esplanada a ler um livro e sentir a aragem fresca do fim-de-tarde, mas não sinto falta das pessoas. Talvez a deficiência seja minha. Talvez seja um erro de programação. Talvez esteja somente numa maré de azar com as pessoas. Talvez eu me seja suficiente. Talvez a distância das redes sociais seja o meu conforto que impede de me magoar.
A vida é feita de avalanches. Umas a seguir às outras. Nada é definitivo. No final de uma, começa sempre outra. Depois do azar, a sorte. Agora estou numa avalanche solitária. Solitária mas responsável. Talvez amanhã regresse aos meus dezasseis anos e arranque eu mesmo com a minha própria avalanche sem me preocupar com as consequências. Afinal, amanhã é sempre outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/04]

Cinquenta

Foi rapidamente que cheguei aos cinquenta anos. Depois de chegar aos cinquenta anos, deixei de contar a idade. Depois dos cinquenta anos sinto que já estou para lá do que seria espectável. Não que já tenha feito tudo o que queria fazer ou que já tenha atingido os objectivos marcados para a minha vida mas, simplesmente, porque é uma idade em que isso deixou de me interessar. Estou vivo. Vou vivendo. Ok.
Há uns anos, lá em cima, no cimo das cataratas do Iguazú, ali na confluência do Brasil, Argentina e Paraguai, ao ver cair no vazio aquela enorme massa de água, e o poder que de lá emanava, lembro-me de ter pensado Agora já posso morrer! Quando vivemos e vemos coisas assim, coisas intensas, parece que se liberta de nós um peso e percebemos que já chegámos onde queríamos chegar ou onde a vida nos poderia levar. Claro que, logo que saí de lá, logo que se quebrou aquela magia poderosa da força da água a cair e o som trovejante que arrasta consigo, percebi que ainda tinha outras coisas mais para ver e sentir antes de poder dizer Agora já posso morrer! Mas já lá vão muitos anos depois disso. Entretanto, já cheguei aos cinquenta anos, já passei dos cinquenta anos, já deixei para trás os cinquenta anos, por vezes já me sinto cansado, muito cansado, demasiado cansado, já vi muito e já vivi muito e não preciso dizer Agora já posso morrer! porque sei que essa é a condição a que estou a chegar, mais dia menos dia.
Passei dos cinquenta anos. Não vi nenhuma luz. Não atingi o nirvana. Simplesmente deixei de me preocupar. Pelo menos, comigo.
Telefonei à minha mãe. Atendeu e disse Agora não posso falar, e desligou. Achei estranho. A minha mãe adora falar. Mesmo ao telemóvel. Esperei que me ligasse. Não ligou. À noite, refiz a chamada. Atendeu. Já tinha jantado. Estava à janela a ver quem passava. E eu perguntei Porque é que não podias falar? e, do outro lado, o silêncio. O silêncio de uma criança apanhada com a boca na botija. Apanhada em flagrante e sem saber como fugir. E o melhor ataque é a defesa. E, finalmente, diz Olha, queres mesmo saber? Estava no Pingo Doce e havia lá gente e não queria estar a falar alto ao telemóvel para toda a gente ouvir a minha conversa e eu precisava de uns morangos e fui lá à procura deles e levei a máscara e não toquei em mais nada juro! juro por Deus! e também não havia morangos e vi-me embora pronto! Ela sabe que não devia ir ao Pingo Doce sozinha.
E fiquei eu em silêncio.
Já cheguei aos cinquenta anos, estou na ladeira da minha vida e a minha preocupação é com uma criança de quase noventa anos que se faz rebelde e arma a revolução.
Acabei a rir. O que é que adianta? Ficar zangado? Triste? Já passei dos cinquenta anos. Acho que temos de viver o resto dos nossos dias como se fôssemos morrer já amanhã. Porque amanhã pode mesmo já ser tarde. E o resto são só estórias que levamos connosco para o túmulo para nos fazer companhia na eternidade. E consta que, por lá, não há vinho nem cerveja nem cigarros nem música nem dança nem sexo, só mesmo a porra de uma eternidade sem sabor.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/26]

Não Consigo Respirar

Desculpa, não consigo respirar.
Eu pedia. Acho que pedia. Na minha cabeça eu ouvia-me dizer Desculpa, não consigo respirar. E não conseguia. Não conseguia mesmo respirar. Ele tinha o joelho em cima do meu pescoço. O joelho com o peso de todo o corpo em cima do meu pescoço. Eu não conseguia respirar e dizia-lhe Desculpa, não consigo respirar, mas ele não devia ouvir-me ou eu não estava realmente a pedir alto, com força, porque o joelho dele continuava a prender-me o pescoço e a impedir-me de respirar e eu já me sentia sem forças.
Sentia-me afastar. Afastar dali. Daquele chão. Daquele canto de chão junto ao carro, à roda do carro. Sentia-me afastar. Sentia-me flutuar e via-me ali, eu-ele naquele chão de asfalto, debaixo do joelho do homem, o joelho a prender-me a respiração e eu a tentar pedir-lhe que me deixasse respirar.
E é estranho. Não consigo respirar mas não consigo deixar de pensar que fumava um cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro. Sentar aqui no lancil do passeio, ao lado do carro, e fumar um cigarro. Ou um charro. Podíamos partilhar um charro, eu e ele, e falaríamos desta coisa de sermos diferentes mas, no fundo, sermos iguais. Ambos tivemos pais. Ambos, eventualmente, tivemos filhos. Dois braços. Duas pernas. Dois olhos. Duas orelhas. Duas narinas num só nariz. Fomos à escola. Fomos à escola aprender a ler. Aprender a escrever. Aprender a fazer contas. Aprender a raciocinar. Ou talvez não. Jogámos às escondidas e à apanhada. Jogámos futebol. Namorámos. Dançámos. Beijámos e, com sorte, fomos beijados. Lemos livros. Ou não lemos. Jogámos ao Monopólio. Roubámos moedas da carteira da mãe. Em algum momento da vida vimos O Rei Leão e nenhum de nós se identificou com o Scar ou com as hienas. Comemos um Big Mac…
Não devia ter falado em comida. Muito menos em hambúrgueres. Aquilo cai-me no estômago como uma pedra. E dói-me o estômago. Sabes? também me dói o estômago. Terá sido do Big Mac que comi?… Quando é que comi um Big Mac?… Estou perdido no tempo. Que dia é hoje? Terá sido do Big Mac ou do murro que levei?
Não consigo respirar. Ouve, por favor, não consigo respirar. O teu joelho no meu pescoço não me deixa respirar. Sinto-me tonto. Maldisposto. A desmaiar. Dói-me o estômago. Dói-me o pescoço. Doem-me os braços. Dói-me tudo. Dói-me todo o corpo.
Desculpa, não consigo respirar.
Não consigo respirar contigo em cima de mim. Com o teu peso concentrado no teu joelho e descarregado no meu pescoço. Não consigo respirar.
Estou a morrer, sabes?
Não consigo respirar por causa do teu joelho no meu pescoço.
Estás a matar-me, sabes?
Estás a matar-me.
Não consigo respirar.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/28]

O Dia Seguinte

Cada vez se torna mais difícil sobreviver ao dia seguinte.
O dia em que o mundo quer morrer.
O dia da ressaca.
O dia que passo debruçado na retrete a deitar fora o que o fígado já não quer tratar.
Cada vez se torna mais insuportável descobrir-me velho, velho e fraco. São os cabelos que acordam comigo na almofada, a minha única companheira de cama. São as peles que respondem à gravidade e tombam por mim abaixo. São os papos nos olhos. Os dentes que caem. Os pêlos que crescem nas narinas. As unhas que encravam. Os lábios finos, ridículos. As manchas no corpo. O cheiro, o cheiro a velho, o cheiro a velho e a morte.
Ontem dancei até de madrugada. Beijei perfumes. Bebi vinho tinto alentejano. Shots de vodca. Linhas de velocidade.
Ainda sei o que era um B52.
Um broche.
Uma chinesa.
E hoje?
Hoje é o dia seguinte.
O dia em que juro e prometo.
O dia em que me vendo em troca de um pouco de juventude.
Já não vou à igreja.
Nem a casa dos pais.
Já não frequento os amigos.
E perdi a família.
O que me resta é o resto. O que fica.
O que ninguém quis. Ninguém quer.
Ontem dancei até de madrugada com os fones nos ouvidos. Ninguém quer mais ouvir Cabaret Voltaire e Ultravox.
Ontem dancei até de madrugada e depois fui comer pão quente com manteiga Milhafre.
Bebi um chocolate quente.
Depois entrei no carrossel de Maio de onde ainda não saí.
E já não tenho mais nada para deitar fora.
Só se me deitar a mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/27]

Tinha Quatorze Anos e Ia Fazer Quinze

Tinha quatorze anos. Ia fazer quinze. Ia fazer quinze anos mas ainda não os tinha feito. Tinha quatorze anos e ia a conduzir a motorizada, uma acelera que não andava muito mas andava o suficiente para ir de casa à cidade sem estar a depender dos meus pais e da carreira que não funcionava nos horários pretendidos, quando fui abalroado por um carro que vinha a sair de um parque de estacionamento à entrada da cidade, e não olhou à esquerda, de onde eu vinha, só terá olhado à direita, que lhe dava mais jeito e tinha a vista desafogada, e levou-me à frente, deitou a motorizada a baixo, eu fui abaixo com a motorizada, andei a deslizar pelo asfalto, a motorizada acabou por ser pisada pelas rodas do carro e quando voltei a acordar estava no hospital e era o meu dia de anos.
No meio daquele azar também tive alguma sorte. Foi mais o susto que outra coisa. Não morri. Nem tive grandes danos.
A motorizada foi para a sucata. O carro passou-a a ferro e mandou-a para a sucata.
O meu pai disse que o homem do carro ia ter de me dar uma motorizada nova.
Eu desmaiei. Devo ter batido com a cabeça no chão e desmaiei. Mas não tive nenhuma contusão nem nenhum traumatismo. Queimei as mãos e os joelhos quando deslizei pelo asfalto. O capacete protegeu-me. Mas não me livrei do susto.
Fiz os quinze anos na cama do hospital. A minha mãe levou-me um Bom-Bocado com uma vela, às escondidas dos enfermeiros, e cantou-me os parabéns baixinho para eles não ouvirem.
No dia seguinte, quando saí do hospital, já tinha quinze anos e não tinha motorizada.
Já passei uma semana inteira com quinze anos e continuo sem motorizada. O meu pai disse-me que o homem do carro ia ter de me dar uma motorizada nova, mas ainda não deu. Estou há uma semana em casa. Sem sair de casa. Sem ver a minha namorada. A minha mãe ofereceu-se para me ir levar a casa da minha namorada mas eu não quero lá aparecer com a minha mãe.
Tenho quinze anos e estou há uma semana à espera da minha independência na forma de uma motorizada que nunca mais chega. O meu pai disse que sim. A minha mãe não diz nada. Eu não sei.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/26]