De um Lado para o Outro

Eu passei aqueles últimos dias caído sobre a mesa da taberna.
Ao fim da noite, o dono pegava em mim e despejava-me na rua, à frente da porta. Largava-me no passeio onde, não poucas vezes, acabava a vomitar e a desejar um dia sufocar no meu próprio vómito e deixar de passar por toda aquela tristeza a que não conseguia fugir.
Entrava lá me manhã para beber um café. Depois era um bagaço. E acabava por ficar por lá. Naquela altura já nem bebia tanto assim. Já não tinha corpo para isso. Bastava-me o primeiro, ou os dois primeiros bagaços do dia, logo depois do café, para já não ter forças para me levantar da mesa. E ficava por lá o resto do dia. A cabeça tombada sobre a mesa, em cima dos braços que a amparavam, que me amparavam. A meio da tarde levantava os olhos e bebia outro que alguém me oferecia. Mas desaparecia logo outro vez, na voragem do tempo e da minha lassidão.
Ao fim da noite, despejado na rua, arrastava-me até casa. Às vezes não conseguia abrir a porta e ficava ali mesmo, à entrada, a dormir em cima do tapete onde, antigamente, tinha força para limpar a sola dos sapatos. Às vezes passava por lá alguém que me abria a porta e puxava-me lá para dentro. A maior parte das vezes ficava ali mesmo, caído, à entrada de casa. Depois, de manhã, voltava a levantar-me e arrastava-me de volta até à taberna onde bebia um café. Depois um bagaço. Depois haveria alguém que dizia que eu cheirava mal. Que estava todo mijado. Que viam os piolhos a saltar na minha cabeça. Mas que queriam? Aquele era o ambiente da taberna. No fundo, eu era a cor local. Haveria de haver quem lá fosse só para me ver a dormir em cima da mesa, rir da minha vida e rezar para que nunca se tornassem nisto, e ouvir o White Traffic dos Go Graal Blues Band, um blues rock dos anos oitenta de companhia ao cavalo. Era assim, eu, aquele sítio, aquela época e o blues do Paulo Gonzo. Mas não se deixem enganar. Eu não andava no cavalo. Muitos outros andavam por lá, até o dono da taberna. Apanhei-o algumas vezes na casa-de-banho a fazer a sopa. Eu não. Eu só bebia. Bebia para esquecer, até que esqueci porque é que bebia e então só bebia porque era o que fazia. Não havia mais vida na minha vida para além daquele espaço, do café de manhã e dos bagaços que me entorpeciam ao longo do dia.
Quando conseguia entrar em casa, corria para a cama e deixava-me cair lá em cima. Evitava tudo o resto. Tudo o resto que já não existia lá em casa. A televisão, a alta-fidelidade, o leitor de dvds, o computador, os livros, os cds, a maior parte dos móveis, as roupas compradas em boa altura da qual restavam meia dúzia de camisolas e dois pares de calças, mas nunca mudava de roupa. Para quê? Por quê? O que é que me esperava para além da mesa da taberna onde repousava a cabeça e onde tentava não pensar mais no vazio em que tudo se tinha tornado?
Naquela última noite, quando o dono da taberna pegou em mim para me levar para a rua, parou mal me tocou. Colocou a mão no meu pulso. Colocou a mão no meu pescoço. Largou-me. Largou-me a mão e o braço caiu pesado sobre a mesa.
Eu estava a ver cá de cima e senti o braço bater com força na mesa. Vi que não me mexia. Ouvi o dono a telefonar para o INEM e dizer Acho que está morto. E lembro-me de sentir uma grande angústia, a garganta fechar-se e não conseguir respirar. Senti as lágrimas abeirarem-se dos olhos. Vi chegarem os paramédicos. Vi-os auscultarem-me. Vi-os darem-me descargas com o desfibrilador. Vi-os abanar a cabeça para o dono da taberna. Vi-os levarem-me. Vi-me na ambulância. Na morgue. No cemitério, num enterro simples e deserto no cemitério. Ninguém, nem mulheres ou ex-mulheres, nem filhos, nem mesmo o dono da taberna, para me dizer adeus, o último adeus na minha última viagem.
Agora ando por aqui a tentar perceber o que é que posso fazer, mas não posso fazer grande coisa. Nem beber. Ando de um lado para outro. Como se estivesse à espera de qualquer coisa. Não sei de quê. Nem sei se estou realmente à espera de alguma coisa. É só uma sensação. Uma sensação para que não regresse de novo ao vazio. Mas tudo parece ainda pior do que estava.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/16]

Os Riscos nas Folhas de Papel

Todos os dias a via. Sentada no banco do jardim, virada para o rio, a desenhar. Estava ali ao pé do Moinho de Papel, depois da pequena queda de água que fazia o rio saltar de uma plataforma para outra para continuar a correr até à praia da Vieira e se transformar em espuma suja que morre na areia.
Eu passava por ali todos os dias. Passava a correr. Desde que tinha sobrevivido ao acidente que tive há cerca de três anos que comecei a correr. Corro como catarse. Fazia todos os dias o mesmo trajecto. Corria ao longo da Polis. Corria nas margens do rio Liz. Às vezes corria ao lado de um leito de rio deserto. Outras vezes ao lado de um rio que corria veloz, mais veloz que eu.
Sempre que cruzava a estrada, ali ao pé da Estação de Serviço da Total, depois de ver a pequena cascata do rio que tombava sobre um pequeno lago rodeado de árvores verdes e frondosas que tapavam a entrada de sol e tornavam aquela zona bastante fria, húmida e fria, e antes mesmo de chegar ao Moinho de Papel, o Moinho que Alvaro Siza Vieira recuperou, que a via sentada. Sentada num banco de jardim a desenhar. Desenhava o rio. As pessoas a correr. A andar. Sozinhas, aos pares e em grupo. Os homens mais sozinhos. As mulheres mais em grupo. No Verão desenhava os miúdos aos mergulhos no pequeno lago na queda de água. Desenhava o Moinho de Papel. A cascata. Às vezes levava fotografias e desenhava outras coisas. Coisas que gostava. Algumas delas pintava-as com aguarelas. Um dia esqueceu-se das aguarelas e foi ao café buscar uma bica. Pintou o desenho com o café. O café na ponta do dedo. Eu sei porque vi. Ela mostrou-me. Eu às vezes sentava-me ao lado dela a descansar. Fumava um cigarro e ela mostrava-me os desenhos com que enchia as páginas dos diferentes cadernos da Moleskine que preenchia. Folhas e folhas e folhas. Muitas delas só com rabiscos. Esboços a carvão. Experiências. Preenchia cadernos grandes. Pequenos. Cadernos japoneses com folhas que se desenrolavam em leque. Pequenas sebentas quando não havia mais Moleskines.
Acho que passava lá os dias inteiros. Mesmo nos dias de chuva. Encontrava-a lá de manhã cedo, a minha hora normal de correr pela Polis. Mas aconteceu ter de correr ao final do dia e voltei a cruzar-me com ela. E os seus desenhos, as cores dos seus desenhos, reflectiam essa diferença de luz, a queda do dia, a aproximação da noite.
E um dia passei por lá e ela não estava. Sentei-me no banco de jardim onde costumava estar sempre a desenhar e fumei um cigarro. Fumei um cigarro sozinho. E senti o vazio. Percebi que se tinha ido. Percebi que ela já não estava mais ali. Nem ali nem em mais sítio nenhum.
Larguei o resto do cigarro nas águas do rio. Continuei a correr.
Nunca mais corri ao longo da Polis. Não queria voltar a passar por ali. Por onde a via a desenhar. A desenhar-me. Desenhou-me várias vezes. Desenhou-me nas minhas calças de fato-de-treino azuis da Converse. Nas minhas sapatilhas amarelas fluorescentes da Asics Tiger. Nas minhas t-shirts velhas, algumas rasgadas, que ele reproduzia fielmente, o buraco feito pela ponta incandescente do cigarro, as garras dos gatos, o desgaste do tempo e das lavagens ao longo dos anos.
Depois dela ter desaparecido passei a subir à Cruz d’Areia, descer a São Romão, cruzar o rio ao pé do McDonalds e ir até ao Vale Sepal, subir a estrada do Vale Sepal, aquela estrada sem passeio, e descer, descer até à cidade, lá em baixo, passar ao lado da morgue e chegar às ruas entupidas de carros em aceleração e buzinas a apitar.
Arranjei uma moldura e pendurei um dos desenhos que ela me deu na parede do escritório e, todos os dias, depois de ler as notícias online enquanto bebo uma caneca de café, e antes de sair para a minha corrida matinal, olho-me desenhado naquela folhar grossa arrancada de uma Moleskine e pintado a aguarela, e recordo-a, sentada no banco de jardim, a desenhar, a pintar, a olhar tudo com muita atenção, o rio, as margens, a queda de água, o Moinho de Papel, a pessoas a correr nas suas roupas coloridas e os adeus que muitas delas lhe ofereciam quando passavam a correr e a viam a desenhar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/03]