Como Vim Parar Aqui

Estou no passeio. Na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Espero o semáforo verde para colocar o pé em baixo. Na passadeira que me vai levar ao outro lado. E quando passa a verde, quando o semáforo passa a verde e me liberta, o meu pé não se mexe. Já não sei se quero ir para o outro lado. Já não sei se quero ficar aqui. Já não sei nada e isso dá-me uma grande dor de cabeça.
Estou indeciso.
E digo indeciso para não ter que dizer que estou inerte. Não quero voltar a pensar em mim assim, dessa maneira.
Não estou inerte.
Levantei-me da cama, hoje de manhã. Tomei banho. Calcei os chinelos para tomar banho numa casa-de-banho pública. E isso foi uma grande decisão. Tomei banho. Vesti-me. Saí de casa. Cruzei-me com pessoas. Ouvi os carros a correr no asfalto. Ouvi as buzinas dos impacientes. Cheirei os vapores dos combustíveis. Senti o embate de um possível acidente.
E aqui estou eu.
Na rua. Com o pé suspenso e sem conseguir pensar o que é que quero fazer.
Apetece-me dizer que não me apetece nada a não ser ir a correr para casa, fechar a porta à chave, sentar-me no sofá munido de um volume de cigarros, um pacote de cinco litros de vinho tinto e uma vontade enorme de não fazer nada.
Mas não posso dizer. Na verdade não posso dizer porque, realmente, não sei o que quero fazer.
O pé está suspenso no vácuo entre as pedras do passeio e o asfalto da estrada. E não tomo a decisão final. O pé não cai. E eu nem sei se quero que o pé caia.
Lá está. Não sei o que quero fazer, o que deva fazer, o que pretendem que eu faça.
Todos estes anos que levo por aqui só para terminar assim, de pé no ar sem saber o que fazer?
O que me trouxe para aqui?
Estou sentado numa mesa do McDonald’s. Como um McRoyal Cheese e sinto o corpo a aumentar a cada dentada. Sinto o peso do hambúrguer a cair no estômago. O hambúrguer é pesado. Empurro batatas fritas pela boca aberta. Bebo uma cerveja de lata morna, vertida para um copo de plástico onde, em letras garrafais, diz que é Reciclável. Trinco o hambúrguer enquanto olho. Um grupo de jovens atletas. Rapazes. São uns dez ou quinze. Adolescentes. Cada um leva quatro hambúrgueres, batatas fritas e uma bebida grande que não descortino o que é. Devoram tudo num instante. Eu ainda estou de volta do meu e já eles terminaram. Deixam os tabuleiros nas mesas. Há uns homens mais velhos, de fato-de-treino, que não lhes ensinam a levarem os tabuleiros para os carros-depósito e libertarem as mesas para os outros. Duas raparigas partilham uma salada. Há um rapaz que devora um Sunday, enquanto uma rapariga o olha a comer. Um miúdo brinca com um boneco-brinde. Depois larga-o. Agarra num tablet. Tem um pequeno pacote de Nuggets, batatas fritas e um sumo de laranja e ainda não tocou em nada. Os pais, suponho que sejam os pais, comem cada um o seu hambúrguer em silêncio. Toda a gente come em silêncio. Não se partilham palavras. Mas alguém conversa. Não sei onde, mas alguém conversa. Não há picos de som. Há um bruá constante. Como um ruído. Que me embala. Acabo de comer o hambúrguer. E as batatas fritas. A cerveja despejo-a de uma só vez. No fim arroto. Sinto o estômago pesado. E penso Porque raio vim comer aqui? E penso que é porque estou sozinho. Sozinho no meio de gente sozinha. Famílias sozinhas. Namorados sozinhos. Há pouca comunicação. Cada um está fechado no seu mundo. Estou sozinho mas acompanhado. Uma triste alegria que vamos cimentando nos dias que correm. É o progresso!, dizem-me.
E saio do restaurante. Caminho pela cidade. Sem saber para onde vou. Para onde quero ir. Estou sem destino. Sem vontade. Sinto-me personagem de um filme de Antonioni, mas sem a Monica Viti. Estou sem rumo. Morto-vivo. Caminho. Calcorreio ruas, estradas. Passo de um passeio a outro. Subo ladeiras. Volto a descê-las. Vou ver uma montra mas perco o interesse. Entro numa pastelaria e percebo que acabei de comer um hambúrguer. Volto a sair. O que é que vim aqui fazer? Rodo sobre mim. Onde estou?
Estou na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Mal coloco o pé na passadeira. Passa um carro. Passa um carro a grande velocidade e bate-me na perna. Com força. Com tanta força que me leva o pé e me deixa a dançar entre o passeio e a passadeira e, enquanto caio, vejo o meu pé voar por cima das pessoas que olham assustadas para mim e para o meu pé voador.
Caio. Vejo, à frente, as luzes vermelhas de travão de um carro. Um carro parado. E vejo o carro a arrancar. Ouço ainda os pneus a chiarem no asfalto. As luzes vermelhas desaparecem. Sinto alguém aproximar-se de mim. Ouço alguém dizer Não lhe toquem! Mas não sei de quem falam. Sinto-me cansado. Acho que estou todo fodido mas não tenho a certeza. Não sei nada. Mas não estou inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/01]

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Acordo com a Monica Vitti à Cabeceira

Arrasto-me por casa. As portas e as janelas abertas para deixar correr o vento mas só o calor é que franqueia as portadas. Não sei o que fazer. Não me apetece fazer nada.
Abro a porta do congelador e retiro um saco de gelo. Vou enfiando os cubos na boca e sinto a água derretida a cair pelos cantos e escorrer pelo peito.
Estou quente. Não sei se tenho febre ou se é deste calor de Agosto que me consome.
O som da cantoria das cigarras entra-me pelos ouvidos e embala-me.
Pego num livro e sento-me no sofá. Mas os olhos fecham-se e não consigo começar a ler.
Toca o telemóvel tombado no móvel em frente. Não me consigo levantar. Olho-o enquanto toca. Não exerço nenhum gesto. Não tento levantar-me.
Reparo que tenho uma ventoinha a girar ao lado do sofá mas nem lhe notei a presença. O vento que provoca é quente. Mas só o percebo agora. É um bafo quente e seco que me faz encolher ainda mais no sofá.
O sofá aquece debaixo do meu corpo. Deixo-me cair para o chão. O chão de madeira está mais fresco. Arrasto-me de costas pela sala à procura de zonas mais frescas.
Uma farpa da madeira espeta-se nas costas. Grito de dor. Viro-me, estico o braço para trás e tento tirar a farpa. Não consigo. Vai ficar lá espetada. Levanto o corpo e sento-me no chão da sala.
Inclino-me para trás, para me encostar ao sofá. Mas é de veludo e queima-me as costas.
Que merda.
Levanto-me a custo. Caminho, lento, para o quarto. Deixo-me cair sobre o lençol da cama desfeita. Está fresco. Agradável.
Adormeço.
Acordo e é de noite.
Acordo com a Monica Vitti à cabeceira da cama. E diz Tinha vinte anos quando nos conhecemos. E era feliz.
Não sei o que é que isto quer dizer. Nunca conheci a Monica Vitti. Para minha grande desgraça.
Volto a acordar. A Monica Vitti já não está cá. Suspiro. A minha vida acumula azares.
A noite está mais fresca. Mas ainda quente.
Tenho fome mas não consigo comer.
Acendo um cigarro e fico ali deitado, na cama desfeita, a olhar o fumo que se acumula no tecto.
A cama já aqueceu debaixo de mim. Debaixo do meu corpo escaldante.
Não sei para onde ir.
Mas também não me apetece.
Ouço o telemóvel a tocar de novo lá dentro, na sala, onde o deixei. Fico a ouvi-lo tocar até se extinguir o som. Quem será?
A cinza do cigarro cai sobre mim. Sacudo-a para os lençóis. Mando a beata para a rua através da janela aberta. Penso que posso dar início a um incêndio. Ouço um morteiro. Dois. Três. Há festa algures. Perto. Os morteiros podem provocar incêndios. Pensei que estavam proibidos em Agosto, digo alto, para me ouvir, numa voz embargada pela secura da garganta.
Viro-me na cama e tento adormecer de novo. Olho para cima para ver se a Monica Vitti regressou. Mas não tenho essa sorte. Só o calor. Só o calor me faz companhia.
Tento adormecer, mas sei que vai ser difícil.
Penso que comia umas sardinhas assadas. Com pimentos. E bebia um copo de vinho. Tenho fome. E sede. Mas não me apetece comer. Não me apetece levantar. Não me apetece viver.
Quero adormecer. Quero dormir.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/20]