Regressar a Casa, parte 06 e Final

[continuação]

Vejo o tecto desfocado. As duas rachas transformam-se em quatro.
Sinto a aragem a passar pelo meu corpo e a provocar-lhe um pequeno arrepio. Mas não é frio. Não está frio. Talvez seja a passagem de algum fantasma. Talvez seja a passagem de alguma memória.
Levanto-me da cama e vou à estante dos livros. Procuro o Príncipe Valente. Não o encontro. Aliás, não encontro nenhuma banda-desenhada. E depois recordo-me que as levei todas comigo e acabaram por ficar lá atrás, numa das minhas casas, numa das minhas vidas. E depois percebo que gostaria de voltar a ler o Príncipe Valente, mas que já não o vou voltar a comprar. Já não vou voltar a comprar livros que já comprei. Já o fiz e não quero voltar a fazer. Há livros que já comprei duas e três vezes e continuo sem eles. Já não vale a pena. Já comprei. Já li. A maior parte deles já os li. Já desfrutei. Talvez alguém mais tenha desfrutado, talvez mesmo apreciado. E isso é o principal, não é?
Não quero mais comprar livros que vou deixar nalguma casa onde não irei voltar. Nunca regresso aos sítios de onde saí.
E o que é que faço aqui, então?
Olho em volta. A cama. A estante. A escrivaninha. O sofá. A cadeira. A máquina de escrever em cima da escrivaninha. Há quantos anos não ouço aquele matraquear? Taque-taque-taque…
Acendo um cigarro.
Ouço-me perguntar alto Ficava aqui bem um escritório, não ficava? Talvez mesmo uma pequena biblioteca?
O telemóvel toca. Agarro nele e vejo quem está do outro lado. Desligo o telemóvel. Depois viro-me no quarto, para as paredes do meu antigo quarto e digo Estantes em toda a volta. Uma secretária à janela. A escrivaninha recuperada para outro lado qualquer.
De repente sinto-me cheio de energia. Mando a beata do cigarro pela janela fora, para o quintal, e ouço-me censurar Tens de deixar de fazer isso! e sorrio.
Ouço a voz da minha mãe dizer O dia de amanhã ninguém sabe! e agradeço à minha mãe o nunca ter-se desfeito daquela casa tão cheia de memórias, recordações, fantasmas das minhas vidas passadas e que sinto que querem voltar a viver.
O telefone volta a tocar. Vejo de novo quem é e não atendo.
Puxo as persianas para baixo mas deixo os vidros abertos para a casa arejar. Se vou regressar cá para casa a casa tem de perder este cheio a humidade e mofo. Sinto-me contente com a minha decisão. Mas já decidi? Vou fechando as persianas e decido O meu quarto no quarto dos meus pais. Decido No meu quarto uma biblioteca. Decido A sala mantém-se a sala. Decido A cozinha precisa de mais espaço e uma mesa para trabalhar, que gosto de trabalhar na cozinha, e maior abertura de janela para o quintal. E decido Preciso de mandar verificar as canalizações. Decido Tenho de mandar verificar a instalação eléctrica, o quadro, as fichas, as tomadas, os interruptores, os fios, os cabos, essa coisa toda que nem sei o que é. Chego à porta da rua, viro-me para trás, para o corredor de regresso a uma certa penumbra e digo Parece que já decidi mesmo. E digo Tenho de ir buscar os livros que fui deixando por aí, e é só nesse momento que me baixa uma pequena angústia ao imaginar voltar a contactar com algumas das pessoas com que vou ter de contactar.
E pergunto-me Valerá a pena?
Que se foda! Claro que vai valer a pena. Recuperar anos e anos de livros, aqui, aqui na casa onde tudo começou. Onde eu comecei. Onde nasci e me criei. De onde nunca me fui verdadeiramente embora, afinal. Sei-o agora.
E vejo a minha mãe a cruzar o corredor da cozinha para a sala com uma panela fumegante e o meu pai logo atrás a abrir uma garrafa de vinho. Olham-me e sorriem-me.
O telefone volta a tocar. Volto a olhar para quem me chama. E agora atendo. Mas nem espero que digam nada. Digo eu Afinal a casa não está para venda. Saiu de mercado. Aliás, nem sequer lá chegou a entrar. E desligo.
Saio para rua e fecho a porta. Fecho a porta à chave. Passo devagar ao longo do quintal em direcção ao portão. Olho as árvores mal tratadas. As pequenas árvores quase mortas. Os arbustos moribundos. A erva crescida ao Deus-dará. As ervas daninhas. O canto cheio de fisális. Penso Tenho de arranjar um jardineiro. E penso que tenho amigos arquitectos. Arquitectos paisagistas. Não é para isto que servem, também?
Ao chegar ao portão viro-me para trás, para a casa, olho, olho com atenção e ainda tomo outra decisão Um alpendre. O que esta casa precisa é de um alpendre. E saio pelo portão para a rua. E sinto-me mesmo de regresso à casa-de-partida. Ao sítio onde tudo começou. Onde eu comecei.
De repente lembro-me dos primeiros dias de escola e da maravilha dos cadernos novos e dos livros por estrear e dos lápis afiados e as canetas com tinta e a borracha lisinha e a pasta sem vincos nem coçada e a caixa nova de doze canetas de feltro e a caixa nova de doze lápis-de-cor e a caixa nova de doze lápis-de-cera e a caixinha de aguarelas e os tubos de guache e os pincéis e o mata-borrão e o compasso e o transferidor e o esquadro e a régua-t e…
Calma, pá! Calma! Não estás a regressar à escola, estás somente a regressar a casa, à tua casa, e dá-te por contente se conseguires recuperar os livros que foste plantando em casas-alheias. Já será um bom regresso. Já será um bom recomeço.
E vejo-me a sorrir como um tonto, a caminhar sozinho na rua, a pensar nas voltas que a vida dá para acabarmos a regressar ao início.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/24]

Regressar a Casa, parte 03

[continuação]

Volto a olhar a janela da cozinha e a minha mãe já lá não está. Há já muito tempo que deixou de lá ir gritar por mim em diminutivo para voltar para casa, Malandro, que o teu pai já está a jantar.
Chego-me à frente, enfio a chave no fechadura e forço a porta a abrir, para trás, para dentro, e sou invadido por um terrível cheiro a mofo vindo das entranhas de uma casa que não era aberta há tanto tempo quanto o tempo da despedida. Adeus, mãe! Adeus, pai! Encontramos-nos lá, onde quer que seja.
Entro em casa e deixo a porta aberta nas minhas costas. Não há luz. Toco no interruptor mas não acontece nada. Avanço pelo corredor e viro à esquerda, entro no que era a sala e ainda será provavelmente a sala. Procuro as janelas e abro-as. As cortinas, as persianas e os vidros. Deixo entrar a luz. Deixo entrar o ar fresco. Preciso de combater esta humidade que me está a deixar maldisposto.
Viro-me para trás. Há pó por todo o lado. Vejo a televisão. A televisão fininha, lcd, em cima de um móvel comprado em tempos para suportar uma televisão grande com cinescópio. Agora parece-me estranho. A televisão parece perdida na dimensão do móvel. Há um naperon em cima do móvel. A televisão está em cima do naperon. A minha mãe era de uma época em que os napeons eram reis. Eu nunca gostei de naperons nem de bibelots nem de acumuladores de pó que não têm utilidade nem sequer estética e são só acumuladores de pó que é preciso andar a limpar e era o que fazia a minha mãe, sempre na lida da casa, a limpar o pó, a aspirar, a sacudir os tapetes, pôr os edredons e os cobertores a arejar, mudar a disposição dos móveis, de seis em seis meses entrava em casa e pensava se não estaria a entrar em casa dos vizinhos tal as alterações ocorridas e o sofá agora estava de costas para a porta e a poltrona ao canto, perto da janela e com vista para a rua, o sítio onde eu mais gostava de ter a poltrona mas que só podia usufruir quando o meu pai não estava porque aquela poltrona era a cadeira dele, era dali que via a televisão, era ali que lia A Bola quando ainda tinha paciência para ler jornais, ainda A Bola era trissemanal e do tamanho do Expresso.
Vejo ao lado o móvel da aparelhagem, a minha aparelhagem, a aparelhagem de alta-fidelidade que o meu pai comprou para mim e onde eu devorei os meus discos de vinil até à exaustão e que ainda estão, posso vê-los, na prateleira por baixo do amplificador. Aqueles vinis são os que ouvia mais, mas hão-de haver outros, outros mais, que a minha colecção era grande e devem estar numas prateleiras no meu quarto que era onde a aparelhagem estava até eu deixar de vir cá a casa e do meu pai trazer a aparelhagem para aqui, para a sala, para ele poder ouvir o António Variações (foi ele, o meu pai, que comprou os dois discos do António Variações) e a minha mãe poder ouvir os discos da Amália de quem era realmente fã, e reparo também que as colunas, uma em cada canto da sala, colunas grandes como caixotes, também têm um naperon por cima e uns objectos artísticos que tenho dificuldade em identificar, mas acabo por perceber que um deles é uma escultura moçambicana que eu trouxe quando estive lá, em Moçambique, há muitos anos, tantos anos que já não reconhecia uma coisa que tinha sido escolhida por mim para presentear os meus pais.
A cristaleira está toda suja, mas ainda consigo perceber lá dentro os copos de vidro, sim, que lá dentro da cristaleira não sei se há cristais, talvez só mesmo vidro, os copos cá de casa eram de vidro, muitos deles comprados na Marinha Grande, uma colecção, talvez completa de vidros da Ivima, com os seus piquinhos a lembrar a Casa dos Bicos, em tantas cores quanto o arco-íris, copos que durante a vida dos meus pais só viam a luz do dia em épocas excepcionais, no Natal, na Passagem de Ano, na Páscoa, num ou noutro aniversário que calhasse fazer cá em casa. E o mesmo se passava com os pratos das colecções de louça da minha mãe, coisas às quais nunca liguei nenhuma mas que ela entendia serem de valor, como um conjunto de louça inglesa estreada nas vésperas do meu casamento e, tal como o meu casamento, foi usado uma vez e guardado. Mas talvez tivesses razão, mãe, talvez eu não perceba o valor destas coisas que tu valorizavas como tu não entendias o valor das minhas coisas. Talvez tivesses razão, talvez eu gostasse, afinal, de comer as minhas refeições nesses pratos artísticos e com história em vez daqueles pratos brancos e simples e anónimos que estou sempre a partir quando me ponho a lavar a louça à mão, coisa que faço muitas vezes quando estou aborrecido, coisa que me acontece com uma certa regularidade nestes últimos anos, mãe.
Volto ao corredor e cruzo-o para a cozinha. Volto a abrir as persianas e os vidros da janela. Experimento abrir a torneira de água mas nem um fiozinho. Nem o barulho engasgado de um tubo fechado mas ainda com água na sua garganta.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/21]

Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

Dos Fracos Não Reza a História

A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou um fraco. Quebrado. Destruído. Mas eu conto a minha história. Vou contando a minha história. Vou contado a história de um falhado, perdido na voragem gananciosa da cidade, mas que está aqui, vergado, mas está aqui, a dizer que está aqui. Porque, afinal, os vencedores precisam dos vencidos para existirem. E eu estou aqui. Só existem por mim. Porque eu vos garanto existência pela minha derrota.
Acendo um cigarro. Puxo o fumo para os pulmões. Travo o fumo. Mas não aguento muito tempo. Tempo nenhum. Também os meus pulmões estão falhos. Tudo em mim falha. Mas sigo em frente. Continuo a fumar. Indiferente aos gritos da minha fraca respiração. Não importa que eles parem. Não tenho porque continuar a respirar. Eles vão funcionando até deixarem de funcionar. Não é assim com tudo?
Arrasto-me pela rua escura. Os prédios altos não deixam cá chegar a luz do dia. Não deixam cá chegar o calor do sol. Cheira a mofo. A humidade. Cheira a mijo. Vejo passar uns ratos junto à parede. Uma velha mija num canto, abaixada, coberta pelo pano largo da saia rodada. Não a olho e ela agradece. Conhecemos os códigos.
Vejo um puto a cheirar cola. Apetecia-me gritar com ele. Arrancar-lhe o saco de plástico das mãos. Dar-lhe um par de estalos e depois levá-lo a comer um Happy Meal. Mas sigo em frente. Não faço nada do que devia fazer. Baixo a cabeça. Uns rapazes novos, ainda com esperança na vida, descarregam um camião nas traseiras do Centro Comercial. Mais tarde irão lá gastar o dinheiro que ganharam a descarregar o que lá irão consumir. Que mundo de merda.
Olho mais à frente. O tipo está cá fora a fumar um cigarro. Eu deito fora o meu. Aproximo-me dele. Silencioso. O silêncio dos que não existem. O silêncio de quem não tem história. Na mão uma navalha. Levanto a mão. Levanto a navalha. Faço-a deslizar ao longo do pescoço. Abro-lhe um rasgão. Apanhado de surpresa leva a mão ao pescoço mas não lhe serve de nada. Já é tarde. Tarde para tudo. O cigarro cai-lhe da mão. O sangue jorra às golfadas e ele também deixa de existir enquanto desliza para o chão. Eu tiro-lhe o telemóvel do bolso das calças. Coloco-lhe o dedo, que limpo às suas calças, no telemóvel e ligo-o. Aproximo o telemóvel da fechadura electrónica e entro no Banco pelas traseiras. Faço a visita completa a todos os gabinetes do Banco. Sou invisível. Ninguém me vê. Não existo. Vou apanhando todas as poucas notas que vou encontrando. Nas gavetas. Nas carteiras dos funcionários. Nas caixas. Mesmo debaixo do nariz de toda esta gente que não me vê. E saio. Saio com os bolsos forrados com algumas notas que não são muito, mas irão dar para alguma coisa. Para ir vivendo no meu canto.
A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou fraco. Mas vou contando a minha história para que a história dos vencedores não seja a única história a ser aprendida. Porque os fracos também têm história. Uma história que quer ser escutada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/29]

De Regresso

Regresso da minha ausência.
Os gatos correm para mim a refilar. Não param de miar. Parecem dizer-me Oh meu cabrão! Por onde é que andaste? Onde está o jantar?
O cão também se manifesta. Mas está contente. Abana o rabo e salta à minha volta. Lambe-me as mãos. Eu tento afastá-lo mas ele insiste. Os gatos zangam-se com ele. Os gatos zangam-se com toda a gente. Mas dura pouco. Não tarda ignoram-me. A mim e ao cão. Voltam para o alpendre e deitam-se sobre o muro a dormitar.
Ainda há um resto de luz do dia. Muitas nuvens. Nuvens coloridas. Em tons de cinza rosados. Ou tons de rosa acinzentado. Parece um céu roubado ao quadro de algum anónimo renascentista encontrado à venda nas feiras de rua.
Entro em casa. Sinto o cheiro a mofo da casa fechada. Mas gosto de sentir o cheiro da casa no meio do mofo. Gosto de regressar. Vou olhar as prateleiras onde estão os livros. Confirmo que estão cá todos. Que nenhum deles fugiu.
Abro as janelas. Não as vou ter abertas por muito tempo porque o dia está a cair. Mas vai ser o suficiente para arejar a casa e fazer desaparecer a maior parte do cheiro da humidade que paira por aqui.
Dou comida aos gatos para se entreterem e não entrarem em casa pelas janelas abertas. Tenho de fazer redes mosquiteiras para as janelas. Para mantê-las abertas e deixar os gatos, o sardão e toda aquela população alada do lado de fora. Há três anos que me prometo o mesmo. Fazer as redes mosquiteiras. Não me levo muito a sério. Mas um dia destes…
Gosto do silêncio que recupero. Por aqui não há muito barulho. Vou para ligar o leitor de cd’s e desisto. Ligo a televisão. Num canal noticioso. Quero ouvir as notícias. Anda tudo em polvorosa. Parece que se fotografou um Buraco Negro pela primeira vez na vida. Ouço dizer que esta fotografia vem comprovar a Teoria da Relatividade da Einstein. Não entendo como. Nem porquê. Quero tomar atenção ao noticiário para ver se percebo. Acabo a ouvir sobre a nova vitória eleitoral de Benjamin Netanyahu em Israel. Penso que as pessoas continuam a ser o elo mais fraco da democracia. Penso que as pessoas não pensam, são dirigidas por quem lhes diz o que acham que querem ouvir. Penso que as pessoas são um desastre à mercê delas próprias. Penso que os mesmos que conseguem fotografar um Buraco Negro à distância de milhões de anos-luz são também os mesmos que escolhem ser dirigidos por gente menor. Penso que as pessoas procuram sempre um paizinho-idiota que lhes pague as bebedeiras em Benidorm e se ocupe das questões que não querem compreender.
Ainda agora cheguei a casa e já sinto crescer uma pequena depressão.
Mas gosto de estar em casa.
Desligo a televisão. Desligo-me do noticiário.
Abro uma garrafa de vinho. Volto ao alentejano. Tinto.
Sirvo-me de um copo e vou para o alpendre. Acendo um cigarro e sento-me a olhar as montanhas lá ao fundo à espera que a noite caia.
E penso Depois deste copo tenho de ir fechar as janelas. Está a arrefecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/10]

Ir a Lisboa Comprar o Concert dos Cure

Apanhámos a camioneta para Lisboa. Os dois. Eu e ela.
Era Sábado. Almoçámos e apanhámos a camioneta. Na Rodoviária. Ali na Heróis de Angola. Demorámos várias horas a chegar a Lisboa. A camioneta passou por Rio Maior. Parou no Pôr do Sol 2. Bebemos uma cerveja. Comprámos outras para a viagem. Fumámos uns cigarros. Em Aveiras entrámos na auto-estrada. Na camioneta continuámos a fumar. Bebemos as cervejas. Largámos as latas no chão da camioneta. Ficámos a ouvi-las a dançar pelo chão até chegarmos a Lisboa. Saímos na Casal Ribeiro. Subimos ao Saldanha. Apanhámos o metro para os Restauradores. Entrámos na Bimotor. Comprei o Concert dos Cure. Era chato andar com o saco do disco. Mas valia a pena.
Ainda era cedo. Fomos ao Pirata beber um. Um Pirata. Ir a Lisboa e não beber um Pirata no Pirata, não era ir a Lisboa. Acabámos por beber dois. Fomos até ao Rossio. Passeámos pela baixa. Vimos as montras na Rua Augusta.
Anoiteceu. Fomos às Portas de Santo Antão comer um bitoque. Comemos o bitoque. Molhámos bocados de pão na gema do ovo. Bebemos umas cervejas. Comemos as batatas fritas todas. Eu comi as minhas e as dela. O resto das dela. Fumámos uns cigarros. Bebemos café. Partilhámos uma Ponte de Amarante. Eu bebi. Ela ajudou.
Cruzámos os Restauradores. Subimos a Calçada da Glória a pé. Eu com o saco na mão. Fomos ultrapassados pelo Elevador. Chegámos lá cima cansados. A deitar os bofes pela boca. Ela sentou-se nos degraus da escada. Eu encostei-me à parede. Fumámos um cigarro. Eu e ela. Cada um de nós fumou um cigarro. Depois fomos ao Gingão. Íamos encontrar um amigo que nos dava guarida para a noite.
Entrámos no Gingão. Estava gente mas ainda não estava cheio de gente. O tipo que eu conhecia estava sentado a uma mesa. Caído sobre a mesa. Os braços na mesa e a cabeça tombada sobre os braços. Ela sentou-se na mesa dele. Eu fui ao balcão buscar três minis. Acabei por beber a dele que o tipo não despertava. Mas estava a respirar. Continuou a dormir. Eu e ela olhámos um para o outro. Ela encolheu os ombros. Eu levantei-me. Dei-lhe a mão e disse Vamos dar uma volta. Passamos aqui mais tarde. E fomos. Fomos dar uma volta. Fomos ao Estádio. Depois ao Esteves. Passámos pelas Primas. E ainda fomos às Catacumbas.
E eu com o saco do disco sempre atrás.
Foi nas Primas que nos cruzámos com o tipo. Tinha despertado e tinha ido dar uma volta. Demos de caras um com o outro. Lembrou-se de mim. De nós. Deu-me as chaves de casa. Da casa do quintal. Na Estrela. Eu lembrava-me onde era. Ele ficou nas Primas. Nós fomos às Catacumbas.
Já era madrugada quando passámos na Juke Box. Estava cheia de skins. Acabámos por ir embora e terminámos no Ocarina. Dançámos. Ficámos lá até fechar. Fechou. Saímos. Subimos a Rua da Rosa. Fomos a pé até à Estrela.
Estávamos cansados.
Chegámos a casa do tipo, galgámos o muro e nas traseiras da casa, lá estava o barracão. Abri a porta. Entrámos. Cheirava a mofo. Abrimos a janela. Fumámos uns cigarros. Depois ela começou a ficar com frio. Fechei a janela. Deitei-me na cama. Com ela. Encostei-me. Ela encostou-se. Eu toquei-lhe. Toquei-lhe no corpo nu. Ela adormeceu.
Que merda!
Eu não consegui dormir. Andei sempre às voltas na cama. Ouvi todos os barulhos da Estrela. De Lisboa. Vi alguém a espreitar pela janela. Pareceu-me. Senti umas patinhas pequeninas a caminhar pelo chão do barracão. Talvez ratos. Talvez baratas. Talvez outra coisa qualquer.
Deitei-me e levantei-me sem ter pregado olho. Ela dormiu que nem um anjinho.
Fumámos o primeiro cigarro da manhã. Vesti-me. Ela perguntou-me Onde é a casa-de-banho? Eu fiquei a olhar para ela. E disse Ali fora! Ela ficou a olhar para mim. Desatou a rir. Ri com ela. Rimos com vontade. Fomos os dois à rua mijar. Estávamos nas traseiras das casas de uma rua na Estrela. Ela baixou-se junto a umas couves. Eu mijei para as rodas de uma bicicleta. Deixámos as chaves dentro do barracão e fomos embora.
Descemos até ao Rato. Depois apanhámos um autocarro até à Casal Ribeiro. Esperámos umas horas até termos uma camioneta de regresso a Leiria. Quando entrámos, adormecemos. Eu e ela. De mãos dadas. Eu com a cabeça no vidro da camioneta. Ela com a cabeça no meu ombro. E fomos o caminho todo a dormir.
Quando acordámos já tínhamos passado o nosso destino. Estávamos em Coimbra. Porra! Agora tínhamos de voltar para trás. Mas só havia camionetas mais tarde. Bem mais tarde. Passeámos um pouco por Coimbra e acabámos no jardim da Sereia. Eu adormeci. Ela não. Eu constipei-me. Ela só ficou irritada por eu ter adormecido no jardim. E eu sempre com o saco com o disco dos Cure na mão.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/27]

Um Regresso

Há muito que lá não ia.
Abri a porta e vi a escuridão. Entrei. Liguei o interruptor mas não houve luz. Fui abrir as janelas. As persianas. As portas.
Um cheiro nauseabundo inundava a casa. Mofo, especialmente.
Algumas teias de aranha penduradas nos candeeiros. Ainda vi as aranhas a subir pelas teias acima.
Nos cantos da casa senti o caminhar metálico das baratas tica-tica-tica… Vi uma enorme. Percebi que não era uma barata. Era um rato. Bati com o pé no chão e levantei uma grande poeirada. O rato fugiu. Andou a fugir pelos cantos da casa, feito doido. Depois deve ter arranjado um buraco e desapareceu.
Fui à cozinha. Abri um armário e apanhei umas velas de cheiro. Acendi-as. Espalhei-as pela casa.
A mesa da sala estava tombada. Tinha perdido uma perna para as térmitas.
Dei uma volta pela casa. Vi o estado em que estava. E pensei Vou ter de dormir aqui, hoje?
Passei na casa-de-banho. Levantei a tampa da sanita e senti qualquer coisa a mexer lá em baixo, na água. Urinei. Carreguei no autoclismo mas a única coisa que saiu foi um grito estridente dos canos a dizer que não havia água para despejar.
Olhei à volta.
Precisava de fazer alguma coisa.
Saí da casa-de-banho e andei até à porta da rua. Acendi um cigarro.
A luz do fim do dia deixou-me ver a árvore morta que estava à frente de casa. Ainda tinha um baloiço pendurado num ramo.
Pensei que o melhor seria voltar no dia seguinte com alguém que soubesse o que fazer.
Acabei o cigarro.
Apaguei as velas. Fechei as janelas. As persianas. As portas.
Deixei de ver a bicharada a mexer-se. Devia estar toda escondida.
Empurrei a porta da rua. Não queria fechar. Empurrei-a com força. A porta bateu com estrondo. Fechei à chave.
Tinha andado cinco metros quando a varanda do primeiro andar caiu. Ali, ao meu lado.
A casa estava a desfazer-se. Mas queria preservá-la. Uma parte de mim estava ali. Uma parte de mim fora ali construída. Não podia desistir das minhas memórias.

Era o que me restava.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/30]