O Brinco

Todos os dias era a mesma coisa. Antes de entrar, tirava o brinco da orelha. Depois, mais tarde, ao final do dia, quando saía, voltava a colocá-lo.
Era estranho. Eu não contactava com o público. Aliás, eu não contactava com ninguém. Mas tinha de tirar o brinco. Não podia entrar na empresa de brinco na orelha. Brinco na orelha era coisa de bicha, paneleiro, pirata ou marginal. Nenhum destes poderia trabalhar ali onde eu trabalhava.
Para além de mim só havia mais outro como eu, com o qual me cruzava por duas ou três horas por dia, que eram as horas em que os nossos turnos se sobrepunham. Depois havia um velhote, o chefe, que já estava por ali quando a empresa começou, e que nos dava algumas ordens, o que é que poderíamos fazer quando aquilo para o qual tínhamos sido contratados estava feito. Era um velhote simpático com o qual almocei algumas vezes e com quem acabei por ter algumas conversas interessantes. Não tinha muitos estudos, mas compensava com uma vida cheia.
Passava a maior parte do meu horário de trabalho fechado numa cave a contabilizar senhas de refeição. Era impressionante a quantidade de senhas que entravam diariamente. Nunca teria imaginado que circulava tanta senha de refeição pelo país. Todos os dias havia sempre uma quantidade de senhas suficientes para me dar trabalho a mim e ao meu colega, trabalho que fazíamos em turnos diferentes e alternados. Havia uma máquina que contabilizava as senhas e o valor que elas tinham. Nós só tínhamos de organizar pequenos grupos, bem alinhados, sem dobras, nem agrafos, e metê-los na passadeira da máquina que os ia ler electronicamente.
Aquilo tinha sido um trabalho arranjado. Alguém conhecia alguém que conhecia alguém que conhecia a minha mãe. E foi assim que fui contratado. Não foi por causa das minhas competências, boas, nem por causa dos meus estudos, superiores. Foi um trabalho que arranjei porque conhecia alguém e alguém precisou de fazer um favor a alguém e eu fui o favor. Mas era um trabalho de cão. Não era necessário grandes competências.
Aquele era um trabalho quase solitário. Ninguém me via e eu não via ninguém. Um dia o chefe, o velho, mandou-me ao escritório, dois andares acima, para ajudar uma secretária a fazer não-sei-o-quê. Subi dois andares de escadas. Abri a porta e entrei num escritório. Eram só mulheres. Novas e velhas. Todas giras. As mulheres são sempre todas giras. Também gostava de ser mulher para ser gira. Bom, mas fui lá para ajudar uma das secretárias a levar uma grande quantidade de folhas para um outro escritório, três andares mais acima, este já com janelas panorâmicas sobre a cidade, e que era ocupada por um homem. E foi nessa altura que pensei porque é que não podia usar brinco. Para poder subir todos estes andares da empresa e não chocar ninguém com as minhas modernices. Os tempos eram outros. Os homens não usavam saias. As mulheres ganhavam menos que os homens. Os meninos usavam bibe azul e as meninas usavam bibe rosa. E depois lembrei-me do colégio católico onde estudei, um colégio de freiras, colégio misto, em que todos os alunos usavam batas brancos e não havia distinção entre meninos e meninas. E foi então que pensei que fui um miúdo com sorte. Na verdade, a minha vida era uma merda, mas não me podia queixar de ter tido uma má vida. Antes pelo contrário. Sempre tive uma boa vida que foi olhando por mim e teve o cuidado de me manter sempre no lado correcto. Da vida, percebem? Não da morte. Não do ódio. Não da competição. Não do ter de ser melhor que os outro. Da vida! Fui um filho da vida. Da boa vida.
Habituei-me a tirar o brinco da orelha que já fazia em andamento, metros antes de entrar pela porta da empresa. Não era um grande brinco. Era uma simples argola de prata. Uma argola nem muito pequena, nem muito grande. Uma argola que eu já nem veria se não tivesse de a tirar da orelha todos os dias.
No último dia em que trabalhei naquela empresa fui de brinco. Subi ao andar das secretárias. E fui muito elogiado pelo brinco. Especialmente pelas mais velhas. Algumas convidaram-me para almoçar. Lanchar. Jantar. Na tasca lá ao lado. Numa pastelaria da baixa da cidade. Em casa delas. Eu sorri. Agradeci. Mas declinei todos os convites. Disse que tinha namorada, que ela era muito ciumenta e que elas eram todas demasiado bonitas para que a minha namorada não fizesse uma cena de ciúmes. Passaram a gostar ainda mais de mim. Eu ouvi os suspiros que foram largados.
Quando me fui embora, e eu estava no turno da manhã, por isso todas elas estavam ainda a trabalhar, vieram despedir-se de mim. Fizeram um corredor e fui obrigado a beijá-las a todas antes de sair. A maior parte delas nunca me tinha visto antes daquele dia. Mas isso não serviu de nada. Todas quiseram o seu beijo. E eu beijei-as todas.
Nunca mais na minha vida tive de tirar o brinco. Nem sei se ainda o consigo tirar da orelha.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/26]

E a Laura Acompanhou-me a Casa

Fim de um dia de trabalho. Estou na cidade. No meio da cidade. Tenho fome. Preciso de jantar.
Olho à minha volta. Procuro um toldo. Um néon. Uma placa. Um nome. Procuro um restaurante. Um sítio onde mitigar a fome. E descansar um pouco. Nada. Muito néons mas nenhum restaurante.
Pego no telemóvel. Serve para muita coisa. Google. Restaurantes na cidade. Na parte baixa da cidade. Na zona histórica. E mereço qualquer coisa mais. Peixe cru. Japoneses na zona histórica da cidade. E lá vou eu a caminho de um sushi. Subo. Viro. Desço. Já não existe. O Google está desactualizado. Experimento outro. Percorro. Subo. Ora porra! Um corner! É isto um corner? Outro. Desço. Caminho. Escadas. Viro. Está vazio. Existe. Está aberto. Mas está vazio. Não é apelativo. Experimento mais um. O último, digo-me alto. Estou cansado. Mas ando. Ando. Ando mais um pouco. Modernices. Música em altos berros. Turistas jovens à entrada. Fumam. Falam alto para se sobreporem à música. Parecem estudantes do Erasmus. Não. Definitivamente não. Estou cansado.
Desisto. Na minha cidade saía à rua e tropeçava em restaurantes de sushi.
Continuo com fome.
Prometo entrar no primeiro restaurante que não tenha música aos berros, miúdas com as mamas ao léu e adolescentes aos saltos e a empinar shots.
E lá vou eu.
Ora bem. Cá estou. No primeiro.
Um sítio agradável. Pouca gente. Mas com gente. Uma decoração minimal. Suave. Mas acolhedora. A lista é curta. Uma lista de conceitos. Mas intrigante.
Escolho ceviche de não-sei-quê. Com redução. E espuma. Acompanho com um vinho tinto de não-sei-donde.
Estou cansado. Mas estou sentado. Trazem-me umas fatias de um pão escuro e saboroso. Um bocado de queixo de cabra com pó de laranja. Manteiga de qualquer-coisa que tem uma cor creme e uns bocados de cebolinho por lá espalhado. Devoro tudo enquanto o diabo esfrega um olho. E é depois de comer tudo que me lembro que não tinha lavado as mãos. Ainda vou a tempo. Lavo as mãos. As mão e a cara. E a boca. Estou transpirado. Cheiro-me os sovacos. Não cheiro mal. Ato os atacadores das sapatilhas que descubro desatados. Como é que isto aconteceu?
Regresso à mesa. Sento-me e colocam-me o prato à frente. A quantidade não é muita mas a decoração agrada-me. Parece um quadro do Pollock. Tenho pena de o destruir. Fico a olhar para ele por instantes. Custa-me. Estou aqui para comer, penso. E antes de terminar de formular a frase, já comi tudo. Pouco mas intenso. Tenho o interior da boca a explodir de sensações. Uma pequena maravilha. E não fiquei com nada preso nos dentes. Não preciso de palitos. Nem de fio-dentário.
Pago. Vou-me embora.
Chego ao carro e começa a chover. Uma chuva violenta. Laura. Parece que se chama Laura e está deprimida.
Já matei a fome. Estou cansado. Agora preciso de dormir.
Arranco para casa. Abro o vidro do carro. A chuva molha-me a cara e eu pergunto à Laura Queres vir comigo? E ela vem. Acompanha-me até casa. É a minha companhia.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/05]