Quando É que Estávamos?

A rádio transmitia o I Could Be Happy dos Altered Images. Acho que era a TSF.
Nós vínhamos de carro, pela nacional, ali entre Águeda e Anadia.
I would like to climb
High in a tree
I Could Be Happy
E lembrei-me Queres ir comer uma sandes de leitão ali na Mealhada?, Sim, pode ser, respondeu.
Continuámos estrada fora. Eu ia a bater os dedos no volante. E chegámos à Mealhada. Onde queres ir?, perguntei. Um qualquer, respondeu.
E eu ia a virar no primeiro e ela disse Aí não que há muitos autocarros de turistas, e desviei o carro de regresso à estrada e no seguinte, Esse não que está muito cheio, e depois, Esse não que está muito vazio, e continuou, Fui a esse uma vez com os meus pais e foi muito mau, e a seguir estava fechado e o seguinte também e depois acabou-se e disse-lhe Acabaram-se os restaurantes, o leitão e a Mealhada. Não me respondeu. Mas percebi a cara fechada dela. Ainda ia sobrar para mim.
All of these things I do
All of these things I do
To get away from you
Fomos andando. Acabei por apanhar a A1.
Viemos calados o tempo todo.
Saímos em Leiria.
Perguntei-lhe Queres ir ao Mac?, Sim, pode ser, resmungou baixinho, assim num sussurro para que ninguém ouvisse que ela até ia ao McDonalds.
Chegámos à rotunda, e a fila de carros para o McDonalds era enorme e ela disse Caga nisso, vamos para casa, e eu até a compreendi, percebi a frustração, eu também estava assim e então acelerei o carro, acelerei prego a fundo Avenida da Comunidade Europeia acima, acelerei tanto e com tanta raiva que desapareci, melhor, a estrada desapareceu, houve uma explosão a branco como se nos tivessem tirado uma fotografia com um flash gigantesco e, quando regressámos, ou a estrada regressou, não havia estrada, estávamos no campo, num caminho de terra batida entre videiras pontuadas com algumas oliveiras, com uma carroça a ser puxada por uma parelha de bois conduzida por um moço de barrete na cabeça e duas moças roliças e coradinhas sentadas em cima de um monte de roupa branca em cima da carroça.
Já não ouvia o rádio. Não havia rádio. Nem estática.
Mas continuava a ouvir na minha cabeça:
Get away
Runaway
Far away
How do I
Get away
Runaway
Far away
How do I escape from you
Olhei para o lado e vi que ela estava assustada.
Eu também estava assustado.
Onde raio é que estávamos?
Ou melhor, Quando é que estávamos?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/08]

São Cinco da Manhã e Estou Acordado

Lá vou eu.
Cinco da manhã. Podia estar a sair de um dos quaisquer sítios fixe da noite. No caso, da noite leiriense.
Cinco da manhã e podia estar a sair da Stereogun, a nova casa nocturna que promete agitar a movida musical da cidade.
Cinco da manhã e, depois de um belo concerto dos Moonspell (não terei dúvidas quanto a isso!), abraçado a duas belas e roliças moças, estaria a arrancar a pé, para curar a bebedeira, subir a Avenida Vinte e Cinco de Abril, se não errar no nome, avenida que contorna o belo estaleiro futebolístico municipal desenhado pelo colorido Tomás Taveira para dois jogos do Europeu de Futebol de-já-não-sei-quando, para o qual nos prometeram mundos-e-fundos, todos foram a favor, da mesma forma que hoje todos foram contra, e que, depois disso, serviu para uns quantos jogos da União Desportiva de Leiria, a colectividade mais representativa da cidade, que o Leiria e Marrazes fica do outro lado do rio e por isso já não conta, isto até a colectividade ficar de candeias-às-avessas com a edilidade por questões fundamentais e pertinentes que se prendem com dinheiro, acho, e de ainda servir para alguns outros eventos de atletismo que até ajudam a colocar enormes telas plásticas pela cidade (não sei o que raio é que a cidade tem com a indústria das telas de plástico que elas andam por todo o lado!), o que a embeleza de sobremaneira e é mais barata que a estatuária, mas, como estava a dizer, estava eu a subir a Avenida Primeiro de Maio (é assim que se chama a avenida?) agarrado a dois matulões ainda mais bêbados que eu, para ir terminar a noite na primeira pastelaria a abrir madrugada fora na cidade (desculpem mas não me lembro do nome da pastelaria, estou a olhar para o letreiro mas vejo tudo desfocado): Ora, se faz favor, é uma sandes de fiambre, cortado fininho, com manteiga, e atenção, não quero margarina, e um galão de máquina, escuro e com leite frio, afinal transformado numa Bola de Berlim cheia de creme e açúcar e uma média, que acabei por ir vomitar à rua depois de me ter feito andar o estômago às voltas.
São cinco da manhã mas, afinal, estou sentado numa cama, bem quentinha por sinal, de novo acordado, não sei porquê, eu que passo os dias a dormir para recuperar o tempo perdido, e estou a olhar para a lombada do Ulisses. E penso: não, não te vou ler, não te li quando era novo, não te vou ler agora que começo a ficar velho, vou-te deixar para as novas intelectualidades da cidade que, com certeza, estarão com muito mais arcaboiço para mostrar serviço que eu.
São cinco da manhã, estou acordado, sinto a chuva lá fora, e só quero que não me chateiem.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/15]