A Pequena Manifestação dos Miúdos pelo Pouco Futuro que Me Resta

Eu estava à janela quando os vi passar. Vinham em grupo. Um pequeno grupo caótico. Um grupo de muitos pequenos grupos mais pequeninos. Mas vinham todos ao mesmo. Pequenos grupos a formar um pequeno mas maior grupo a apelar ao mesmo. Andavam aí pelos doze, treze, quatorze anos, talvez quinze. Mais raparigas que rapazes. Deve ser aquele amadurecimento precoce, diz-se. Os rapazes levam a meninice mais longe. As raparigas crescem mais cedo. Ainda vão dominar o mundo. Só ainda não o fizeram por pena. Pena de nós. De sermos ultrapassados sem apelo nem agravo. E depois ainda vão ter de nos dar mimo enquanto choramos agarrados à saia da mãe. Elas são mais na escola. Tiram melhores notas. São mais aplicadas. Quer dizer, é o que eu acho numa análise empírica feita aqui assim à minha volta. Não fui à Pordata. Estou à janela a fumar um cigarro enquanto vejo os miúdos a caminho da sua manifestação, não vou agora lá dentro, ao computador, à internet, para conferir algo que acredito ser verdadeiro. Se estivesse a escrever para um jornal lá teria de ir confirmar se a afirmação é verdadeira ou não para não me acusarem de Fake News. Mas isto é a minha cabeça a debitar ideias para mim mesmo. Ninguém está a controlar a minha cabeça, pá. Posso dizer o que quiser. Ca-ra-lho-Fo-da-se! Pronto! Estás a ouvir-me, mãe? Não, claro que não! Por isso posso dizer tudo o que me apetecer. Mas não vou muito mais longe porque o que me apetece dizer é mesmo isto que vejo e confirmo: esta geração, esta geração muito novinha é muito mais aguerrida que as que a precederam. A minha, então?! A minha ajudou a foder o mundo. Eu, se calhar, também, não sei. Mas não sou ninguém. Nunca fui. Não sou líder. Nem chefe. Não sou responsável por nada nem ninguém. Sempre cumpri ordens. Era essa a minha função. Cumpridor de ordens. Talvez também seja culpado pela minha inacção. Talvez. Olha, processem-me! Mas agora, agora gosto de olhar pela janela e ver estes miúdos a agitar as coisas. A exigir. A exigir o que é deles.
Ia mandar a beata pela janela e parei a tempo. Mesmo a tempo com a beata ainda presa entre dois dedos. Desatei a rir. Lembrei-me de uma amiga que se irrita comigo por estar sempre a mandar as beatas pela janela fora, para a rua. Depois, lembrei-me das multas. Agora pagam-se multas por deitar beatas para a rua. Em boa altura parei o que ia fazer.
Fui à cozinha. Apaguei a beata no cinzeiro. Acendi outro cigarro. Gosto de fumar. Faz-te mal, rapaz, ouvia a minha mãe dizer. Não fumes. Mas gosto desta companhia. O cigarro conversa comigo. Dá-me colo. Ajuda-me a criar. A desenrolar raciocínios. E então, na companhia de um copo de vinho tinto, temos uma orgia em casa. Fui ver o que havia no armário. Uma garrafa já encetada de Segredos de São Miguel. Bom, era alentejano. Mau, não seria. E não foi. Pelo menos enquanto resistiu às minhas investidas.
Voltei à janela com o copo de vinho. Acendi outro cigarro. A rua estava calma. A manifestação já tinha passado. Parecia que tinha levado a cidade de arrasto. Não se via ninguém. Parecia Domingo à hora da missa. É assim que imagino a cidade ao Domingo à hora da missa. Nunca confirmo. A essa hora estou deitado, a dormir. A dormir e a sonhar como será a cidade aquela hora, à hora da missa. E era isto que eu via. O vazio. O abandono. O silêncio.
Mas decidi ficar por ali à janela à espera que regressassem de lá para onde tinham ido. Os regressos são, normalmente melhores. As pessoas vêm mais soltas. Mais alegres. Satisfeitas com o que fizeram, especialmente se fizeram algo em que acreditam. E se fizeram bem. E eu acho que fizeram.
Fui buscar o cinzeiro para ao pé de mim.
Ainda aqui estou. Eles ainda não passaram, mas hã-de passar. E eu vou bater-lhes palmas e dizer-lhes que o mundo é deles. Que o agarrem. Mas eles vão achar que estou bêbado. E vão dizer O raio do velho está bêbado. Não! Vou ficar calado mas a gritar por eles cá dentro. Afinal são eles que estão a lutar pelo pouco futuro que ainda me resta.

[escrito directamente do facebook em 2019/09/27]

Água Tónica com Gelo e Limão Espremido

Saí de casa de manhã e estava frio. Aquele frio que vem com a neblina matinal que estava habituado a enfrentar em São Pedro de Moel mas não noutro lado qualquer. Saí com um casaco de algodão vestido.
Depois de almoço chegou o calor. Um calor abafado. Húmido.
Não gosto de andar com coisas nas mãos e então, mantenho-me com o casaco vestido. Estou a transpirar que nem um porco. Transpiro em bica. Tenho o cabelo encharcado e a pingar pela cara abaixo, pelo pescoço abaixo, pelo peito abaixo. Sinto manchas de humidade debaixo dos sovacos. Nem quero olhar para não me enojar. E uso desodorizante. Mas o calor está demais, agora. Cruzei a cidade. Não havia árvores por onde escapar. Vim debaixo da torreira de sol. A destilar.
Encontro uma esplanada. Uma esplanada fechada. É o que há, penso. Entro. Peço uma água tónica com limão espremido.
Agarro num Correio da Manhã e leio as gordas do país profundo. Sinto-me agoniado com as manchetes, com as caixas. Largo o jornal. Agarro n’A Bola. Milhões. Milhões, milhões, milhões. N’A Bola só se fala de milhões. O novo normal. Errei o amor, a paixão e o desejo profissional. Devia ter continuado aos chutos na bola e cagado para os livros. Às vezes sinto-me zangado. Zangado comigo próprio. Pelas escolhas erradas que fui fazendo ao longo da vida. Gostar de ler, gastar dinheiro em livros, deixá-los perdidos ao acaso. Devia ter continuado aos chutos na bola. Ter escolhido estudar economia. Ou direito. Ter-me tornado um filho-da-puta que poderia dizer, com um sorriso cínico nos lábios É a economia, estúpido! E gozar com os falhados desta vida que ainda acreditam no Pai Natal, na Europa e na bondade do homem.
O rapaz chega com um copo quente, acabado de sair da máquina de lavar louça, duas gotas de limão que mal consigo ver no fundo do copo e duas pedras de gelo, que o gelo está pela hora-da-morte, nem uma rodela de limão! e a garrafa de água tónica, Schweppes, vá lá!, a temperatura ambiente.
Peço ao rapaz para espremerem mais um pouco de limão. Mas para não cuspirem no copo. Mais uma rodela. Mais gelo. E a garrafa fria. Ah!, e uma colher para mexer o limão, se faz favor. O rapaz pede desculpa e volta para trás.
Largo também A Bola. Olho em volta. Na televisão passam vídeo-clips de grupos musicais que desconheço, mas não ouço o som que o som da televisão está desligado. Ali, na esplanada fechada, dá-se primazia ao barulho das gralhas que vomitam opinião sobre a vida dos outros. Os outros são os primos, vizinhos e demais conhecidos. Elas são, invariavelmente, vadias, eles uns calões, toda a gente cheia de defeitos mas elas, elas não! Elas são poços de virtude e lugar cativo na missa das nove na Sé Catedral.
O rapaz traz o copo à temperatura ambiente, com um dedo de limão espremido e cheio de cubos de gelo. A garrafa de água tónica, Schweppes, está gelada. Verto a água tónica no copo e mexo com a colher.
Vou bebericando enquanto olho, na televisão gigante ao fundo da sala, um grupo de raparigas com fatos de látex a dançar em grupo, os mesmos passos, os mesmos gestos com os braços, as mesmas voltas retorcidas com os corpos. E penso que todos tendemos para aquilo. Para sermos iguais. Para ficarmos iguais. E penso que, na verdade, é o melhor a fazer. Ser igual. Mas não consigo afastar de mim aquela sensação de calor debaixo do casaco de algodão que não ouso despir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/19]

Homem Procura Companheira

Homem maduro, de bem com a vida, procura senhora jovem e bonita para fazer companhia e algo mais se assim surgir a oportunidade.
Tenho cinquenta anos. Casa própria. Não totalmente paga. Faltam ainda alguns, poucos, anos. Tenho carro. Comprado em leasing. Quase pago. Tenho também bicicleta mas para fazer exercícios em casa. Tenho a bicicleta na sala e pedalo enquanto vejo a novela das nove na TVI.
Tenho um pequeno café na periferia da cidade em bairro quase dormitório. É o único café nas redondezas. Está sempre cheio. Há sempre gente a ver os jogos de futebol à noite. Faço uns bons petiscos. Principalmente Pica-Pau. No Verão aposto nos caracóis. Vem gente de fora para comer os meus caracóis. Ao lado também tenho um pequeno negócio de aluguer de filmes em DVD que já teve melhores dias mas que ainda funciona.
Não tenho filhos, pelo menos que eu saiba.
Fui casado. Duas vezes. Foram elas que se foram embora. Não sei porquê. Nunca lhes faltei com nada em casa. Mas não lhes guardei rancor. Nem deixei de gostar de senhoras. Tenho-lhes muito respeito e amor.
Vou sempre à missa ao Domingo de manhã.
Às vezes vou ao cinema ao Shopping, mas não gosto muito dos filmes actualmente. Nem gosto do cinema português. Gostava muito dos filmes com o Vasco Santana, o António Silva e a Beatriz Costa. Agora os filmes portugueses são muito chatos.
Tiro férias em Agosto e passo uma semana na praia da Vieira.
Estou sempre à espera da noite de Santo António para comer as primeiras sardinhas do ano. As sardinhas são o meu prato favorito. Mas também gosto de chanfana. De borrego. De lampreia. Sou boa boca e como de tudo um pouco.
Gosto do Benfica. Do Tony Carreira e do José Cid. Das novelas da TVI e da Cristina Ferreira que agora tenho de procurar na SIC de manhã enquanto sirvo as meias-de-leite às senhoras aqui do bairro.
Ainda tenho cabelo, embora já não tão forte nem tão abundante como antigamente. Não fumo e o cheiro do tabaco enjoa-me. Não gosto de beijar senhoras que fumem. Não gosto do cheiro do tabaco entranhado nas roupas. A proibição de fumar nos cafés foi a melhor decisão política depois da revolução.
Bebo pouco. Uma cerveja de vez em quando. Um copo de vinho às refeições. Um whiskey à noite. Um vodka de vez em quando.
Fiz o nono ano. À noite.
Não gosto muito de ler livros. Mas leio o Correio da Manhã e A Bola todos os dias.
Tenho votado sempre em todas as eleições, normalmente no PSD, mas também já votei no PS e no CDS. Nos comunistas é que nunca votei. E espero nunca votar. Não gosto de comunistas. Mas já não sei se devo continuar a votar. A política deixa-me desgostoso. Eles são todos iguais. Só querem encher-se.
Levanto-me todos os dias às seis e meia da manhã para abrir o café às sete. O café abre todos os dias do ano, mesmo no Natal e no Ano Novo.
A minha mãe ainda vive comigo. Mas não incomoda. Está acamada. É só preciso levar a comida à cama. Dar-lhe à boca. Dar-lhe banho uma vez por semana. Mas fora isso, é uma doçura de senhora.
Também tenho um cão. Está preso à casota. É só preciso limpar os cocós todos os dias. E ele come os restos do café.
Não gosto de jogar e também nunca fui muito afortunado ao jogo. É por isso que ainda acredito que vou encontrar o amor. Como se costuma dizer, azar ao jogo sorte ao amor.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/07]

O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]

Sexta-Feira Santa

É Sexta-feira Santa.
Almocei um bitoque na esplanada. Desculpa, mãe! Duas imperiais. Molhei um bocado de pão na gema mole do ovo a cavalo.
Ao meu lado, um casal com dois filhos adolescentes devorou um cabrito com batatinha assada e grelos. Por encomenda. Só há por encomenda. Os miúdos não tocaram nos grelos.
Enquanto bebo uma Ponte de Amarante e um café, observo quem passa na marginal à minha frente. Ao fundo o mar, de um azul bem escuro e a contrastar com o azul bebé pintado no céu.
Uma velha passa manca, sem bengala.
Três gordos com coletes do Moto-Clube da Nazaré discutem o tamanho das mamas da striper.
Carros, de alta cilindrada, passam em passo de caracol. Não há milagres. É a procissão dos tristes. Ali, na fila, são todos iguais. A rapariga do Punto. O homem do Jaguar.
As gaivotas vêm a terra. Grasnam. Voam em círculos. Rasam a cabeça das pessoas. É impossível não pensar no Alfred Hitchcock.
Um casal de namorados, muito novinhos, adolescentes, comem uns carapaus secos, como se fossem tremoços. Beijam-se. Ela queixa-se. Leva os dedos à boca e retira uma espinha dos dentes. Ele ri-se.
Há muita gente repetida a passar. Velhos barrigudos de bigode farfalhudo. Velhas empinocadas com o cabelo armado como as senhoras finas da Tentadora, ali no início da Ferreira Borges, no exclusivo Campo de Ourique, em Lisboa. Também há classe nas berças. E repetem-se. Há muita gente velha a passear ao sol envergonhado de Abril.
Uma miúda tira fotografias. É gira, a miúda. Coça a cabeça. Depois leva o dedo à boca. Ninguém é perfeito.
Uma criancinha chora. Quer um gelado. Um Epá. A mãe, presumo que seja a mãe, não diz nada e continua o seu caminho. A criança segue-a a chorar. Os dedos a esfregar os olhos.
Ao meu lado há uns espanhóis. Bebem cafés e comem pastéis de nata.
Há muita gente com roupa domingueira. Mas o Domingo já não é o que era. Nem as roupas. Muito menos as roupas domingueiras que hoje são compradas nas lojas dos chineses onde conseguem ser mais baratas que na Zara. Mas também são de muito pior qualidade. De qualquer forma não é Domingo.
Então, uma pausa. Não passa ninguém, agora. Acabo a Ponte de Amarante.
Do outro lado alguém berra Amanhã vou almoçar a Fátima! mas um velho pergunta O quê? Vou almoçar a Fátima! O velho acena a cabeça mas não ouviu nada.
Alguém deposita outra Ponte de Amarante à minha frente. Eu não queria. Mas não vou desperdiçar.
Os espanhóis vão-se embora. Passam mais motards. Gordos. Enormes. Alguns deles são mulheres. Também são enormes. Gordas. Mas têm os cabelos mais compridos.
Vejo alguém a tirar-me uma fotografia. Não digo nada. Aceito como parte do processo de globalização a que estamos sujeitos. Vou aparecer no Instagram de quem?
Senta-se um pai. Uma mãe. Um filho adolescente com a cara cheia de acne. Ele pede um café. Ela um descafeinado. Um compal para o miúdo. A mãe acende um cigarro. O miúdo abana a mão à frente da cara em jeito de reprovação. A mãe ignora-o. Putos insolentes!, penso.
Recomeça a passar gente à minha frente. Gente vestida para todas as estações. Miúdos de manga curta. Velhos com casacos de pêlo. Adultos com anoraques, gabardines e sobretudos. Mas está sol. E calor. É Sexta-feira Santa.
Reparo, ao olhar as pessoas que passam à minha frente, que há muita gente feia no mundo. Valha-me Deus.
Topam-se os estrangeiros pelos desenhos das caras. Pelos cabelos. Pelas roupas. Mas também são feios. Aqui, o mundo é democrata. São todos feios. Eu acabei por ter sorte.
Passa um pescador de camisa ao quadrados, como um grunge de Seattle, de bicicleta. Cigarro ao canto da boca. Atrás, uma miúda de patins segue-o.
Os carros continuam a passo de caracol. Já me agonia o cheiro a gasóleo, gasolina, combustível. O barulho dos motores. A greve dos motoristas de materiais perigosos não podia ter demorado um pouco mais?
No meio de tanta gente vestida de preto e cinzento, uma senhora passa com um casaco vermelho. Dá nas vistas. Os homens que passam por ela viram-se para trás.
Um rapaz olha para o telemóvel e escreve qualquer coisa enquanto caminha. Não olha para onde vai. Olha para o telemóvel. E escreve. Vejo os dedos mexerem-se à velocidade da luz.
Uma loira pára mesmo à minha frente. Baixa-se e sacode os cabelos. Depois tira um elástico do pulso e prende o cabelo num rabo de cavalo.
O pai já bebeu o café e pede uma mini. O filho pede uma torrada. A mãe acende outro cigarro.
Eu esqueci-me da Ponte de Amarante. Agarro no cálice e bebo dois goles. Também acendo um cigarro. Um homem senta-se ao meu lado, onde estavam os espanhóis, e olha-me com reprovação por estar a fumar ali na esplanada. Ignoro-o.
É Sexta-feira Santa. Alguém foi à missa?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/19]

No Domingo de Ramos

Entrámos na semana da Páscoa. A Semana Santa. Hoje celebra-se a chegada de Cristo a Jerusalém. Hoje também joga o Benfica. Hoje também é o último dia do fim-de-semana. Amanhã, há regressos ao trabalho. Os miúdos ficam por casa. Não há escola. São as férias. Uma dor de cabeça para alguns pais. E para mim. Eu já não posso ir ao café. Há muita confusão. Muita miudagem. Demasiada brincadeira de miudagem à solta, para mim.
Sento-me no sofá com vontade de pensar em tudo isto. Depois lembro-me das notícias que, cada vez mais, declaram que isto, isto tudo, esta vida que vivemos, estas vidas que vemos viver, não passam de simulações.
Sento-me no sofá mas já não penso em nada. Olho para a televisão. Apanho, em directo, o Nuno Rogeiro a comentar a semana política. Arranco no zapping. Cada vez mais rápido. Estou a ficar bom nisto. Nisto de carregar com o dedo no botão a grande velocidade e ainda conseguir ver, pelo menos, um frame de cada canal. Por vezes ainda consigo ouvir uma sílaba. Um esgar. Uma onomatopeia.
Mando o comando contra a parede. Vejo-o estilhaçar-se. Ouço-o quebrar-se em milhares de pequenas peças.
A televisão fica ligada num canal qualquer. Nem sei o que é. Nem percebo o que vejo.
Levanto-me. Vou até à janela da cozinha. Penso Podia estar a chover. Mas não está. Não está a chover. Os gatos estão a dormir sobre o pequeno muro do alpendre. O cão anda lá em baixo. Levanta a perna em todas as árvores. Como é que tem mijo para tanta árvore?
Olho em volta. Vejo o maço de cigarros na mesa da cozinha. Acendo um cigarro. Saio para o alpendre. Ouço o som da televisão lá ao fundo na sala, enquanto saio. Os gatos abrem os olhos. Olham para mim. Mas ignoram-me.
Ainda não comi nenhuma fatia de folar. Nem um ovo de chocolate. Não gosto de chocolate. Devo ser a única pessoa no mundo que não gosta de chocolate. Mas gosto do folar. Sem ovo. Nunca percebi para que serve aquele ovo.
O sino na igreja começou a bater. Está a chamar para a missa. Será que vai muita gente? Se calhar, nesta altura, vai lá muita gente. É preciso reforçar os pedidos de ajuda ao altíssimo.
O cão viu-me. Corre na minha direcção. Salta à minha volta. Lambe-me as mãos. Depois volta lá para baixo. Mais uma mija. Raios o partam.
Os gatos levantam a cabeça mas regressam ao sono.
Acabo o cigarro. Vou para mandar a beata ao chão e penso que depois sou eu que tenho de a apanhar. É melhor levá-la já para dentro de casa e colocá-la num cinzeiro.
Volto para dentro de casa. Penso Hoje é Domingo de Ramos. Entrámos na Semana Santa. Mas não sei o que quero dizer com isto.
Lembro-me que quebrei o comando da televisão. Penso Amanhã tenho de comprar um comando universal.
Apetecia-me beber uma aguardente, mas lembro-me que já acabou e ainda não comprei outra garrafa.
Volto para a sala. Quero sentar-me no sofá a olhar para a televisão e vou na esperança que o Nuno Rogeiro já tenha ido embora. Depois volto a lembrar-me que já não tenho comando. Vou olhar para o que estiver a dar. Ou então tenho que me levantar cada vez que queira mudar de canal. Decido que olho para um canal qualquer. Tenho a secreta esperança de conseguir adormecer no sofá, embalado por um qualquer canal televisivo que me consiga levar. Os Domingos de Ramos são bons para dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/14]

As Minhas Virtudes São Públicas, os Meus Vícios Privados

As minhas virtudes são públicas. Os meus vícios são privados. Que é que posso fazer? Sou um filho de Leiria e ajo como tal. Espero não ser censurado. Sou o que de mim fizeram.
Toda a gente sabe que vou à missa e comungo com regularidade. Sou baptizado. Circuncidado. Fiz a primeira comunhão, a segunda e o crisma. Casei pela igreja. Estudei num colégio de freiras. Dou dinheiro para a caridade. Ajudo a Cruz Vermelha. Não praguejo. Voto normalmente à direita. Ajudei a eleger o sr. Quinze por Cento e sou um anti-comunista primário. Sou a favor da vida, contra a interrupção voluntária da gravidez, contra a eutanásia, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra a adopção por pessoas solteiras ou em casamentos não convencionais. Sou um leitor compulsivo mas tenho cuidado com o que compro. Vejo cinema nas salas do Centro Comercial e compro alguns CD’s na FNAC. Como peixe cozido, bitoques e frango assado. Às vezes vou ao McDonald’s. Às vezes como pasta. Gosto muito de morcela de arroz, chanfana e alheira.
O que não sabem, nem têm de saber, é que já paguei vários abortos. De várias raparigas. Nenhuma delas a minha mulher. São acidentes de percurso. A que todos estamos sujeito, mas ninguém tem nada a ver com isso. Não foram feitos cá, pronto.
Frequentei, com alguma assiduidade, o Maybe e o Raínho. Mas só porque eram os únicos bares abertos àquelas horas. Tive umas experiências homossexuais, mas acabei com isso porque estava a tomar uma dimensão que já não podia controlar. Atropelei uma velhota que acho que morreu. Mas ninguém viu. Às vezes também roubo no supermercado, mas é mais pela sensação, pela vertigem que me atinge. Fumo erva. Comecei no colégio a fumar. Nos intervalos. Quando tenho dinheiro dou na coca que me anima, no cavalo que me deprime, no mdma que me faz dançar all night long e nos cogumelos que me ilustram a existência. Compro alguns livros mais obscuros na Amazon. Vejo pornografia na internet e já me arrisquei na deep web. Já vi snuff movies e outras coisas que não posso dizer porque acho que pode ser considerado crime.
Acho que vou divorciar-me. Não porque queira, é claro.
Mas esta é a minha vida privada e ninguém tem nada a ver com ela. É a minha. E se não fosse assim, como conseguiria sobreviver à terra cinzenta que é Leiria?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/09]