Houve uma Época

Houve uma época em que gostei do Natal. Houve uma época em que eu brinquei ao Natal como todas as outras pessoas, crianças e adultos que, nesta altura, brincam às amizades, aos amores e à paz no mundo entre os homens.
Houve uma época em que me levantava de manhãzinha para ir ao fogão da cozinha buscar as prendas que o Pai Natal lá deixava. Não era na lareira porque não havia lareira lá em casa. Nem era na chaminé porque a chaminé era um buraco negro e escuro lá em cima, por cima do fogão onde a minha mãe cozinhava as filhoses e as fatias douradas, dias antes do Natal, e o bacalhau na noite em que nos reuníamos os quatro à volta da mesa, felizes com o que tínhamos porque não sabíamos que havia mais para ter, que havia gente que tinha muito mais e gente que não tinha nada. Naquela altura o Natal não era quando um homem quisesse, era mesmo a 24 de Dezembro a cair para o 25 a festejar o nascimento do Cristo.
Houve uma época em que a mesa da sala levava um acrescento a meio, e a mesa da cozinha ia fazer companhia à mesa da sala para albergar toda a gente que ia jantar lá a casa. Eram os pais, os filhos, os avós, alguma família de todos os lados de todas as famílias, alguns amigos. Gente, muita gente. Muitas prendas que toda a gente presenteava os outros, em especial os mais pequenos. As prendas não era muitas. Mas não havia cá prendas das lojas dos chineses nem a um euro e despacho já o Natal de toda a gente. Dava-se o que era preciso, preferido, desejado. Livros. Jogos. Roupa. Alguns brinquedos. Sim, éramos uma geração estúpida que ainda não tinha encontrado a sagração da tecnologia.
Houve uma época em que nos sentávamos todos à mesa a comer bacalhau, polvo, peru. Mousse de chocolate, pudim flan e molotov. Filhoses, coscorões e rabanadas. Os jantares terminavam com um café da avó a acompanhar uma fatia de Bolo Rei, de que toda a gente retirava as frutas cristalizadas, e uma bebida branca, licores para os mais fraquinhos e whiskey para os mais fortes.
Houve uma época em que tive família e o Natal era, por excelência, a minha festa. A festa da minha família. Numa época em que até eu tive família.
Houve uma época, houve.
Depois, depois deixou de haver uma época. A família desintegrou-se. A morte rondou. Zangas. Separações. Ódios. Oh, tantos ódios e invejas. A família desentendeu-se. A desgraça veio ao caminho da família e irmãos de armas transformaram-se em irmãos com armas.
Sento-me agora aqui fora e deixo-me ir com eles. Com todos eles. Com as crianças que choram. Com os adolescentes de telemóvel em punho e olhar vidrado. Com homens atrasados. Com mulheres desesperadas. Tudo a correr. Tudo a comprar. Compram-se uns aos outros para, em cinco minutos, voltarem a virar costas uns aos outros e até para o ano que haverá mais. Temos de nos encontrar mais vezes, dizem. Eu telefono, continuam a dizer. E fingem acreditar.
Estou sentado aqui fora na rua há duas horas. Já tanta gente passou por aqui e ninguém me viu. Estão todos muito ocupados. Demasiado ocupados para olharem em volta. Para verem.
Hoje morreu alguém. Alguém que eu conhecia. Hoje morreu alguém que eu conhecia e morreu sozinho. Sozinho e na miséria. Esquecido de todos. Eu também o esqueci. Não sou melhor que os outros. Não me lembro melhor que os outros. Acho que só choro um pouco mais. Porque também eu estou esquecido. O Natal não mora aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/10]

A Criança

O velho apontou para uma pequena tenda rasgada. Uma pequena tenda rasgada ao pé de outras pequenas tendas rasgadas, montadas umas ao pé das outras mas cada uma à sua maneira e virada para seu sítio. Juntas mas separadas. E depois disse É aquela, e eu vi a boca do homem sem dentes. A língua a chicotear suavemente o céu da boca à procura da fonética para que eu entendesse o que dizia à falta dos dentes a ajudar. É que nem um para amostra. E questionei-me como é que o homem comia. Como é que rasgava a comida? Como é que a mastigava? E percebi que aquele homem, aqueles homens ali, aqueles homens e mulheres que viviam ali naquelas pequenas tendas já não deviam comer há muito tempo. Talvez uns goles de vinho, que escorre garganta abaixo e ajuda a esquecer a miséria onde vivem, e uns bocados de pão duro amolecido com água da chuva. Não são precisos dentes para engolir pão amolecido pela água da chuva. É uma sorte ter chovido, mesmo assim. E depois vi os rasgos nas tendas onde este homem e os outros vivem e arrependi-me de ter pensado o que pensei. Há gente que não precisa de chuva.
Acenei um agradecimento ao velho e avancei até à tenda que ele indicou. Olhei para a tenda. E pensei E agora? O que é que se faz frente a uma tenda? Não se pode bater à porta. Bato palmas? Chamo por alguém? Olhe, se faz favor! Não. Não sei.
Agachei-me frente à entrada da tenda. Estava aberta. Não tinha fecho. Mas o tecido de nylon da porta estava caído sobre a entrada. Aproximei-me. Estiquei a mão e levantei-o. Olhei lá para dentro. Senti o odor azedo que saía de lá. Vi um corpo deitado, enrolado em folhas de papel de jornal. Vi uma mancha a meio. Uma mancha que saía debaixo do corpo. Uma mancha escura. Ao sentir-me, o corpo mexeu-se. Vi uns olhos escondidos em buracos profundos olharem para mim sem grande interesse. Era uma mulher. Talvez uma rapariga. Era difícil de dizer a idade. A cara estava suja. Cheia de rugas. O corpo estava escondido debaixo das folhas de jornal. E perguntei-me Como é que alguém pode viver assim?
Os meus olhos cruzaram-se, num dado momento, com aqueles olhos mortos. Aquela mulher estava morta. Não morta de corpo frio e sem respirar. Morta no coração. Morta na alma. Morta nas esperanças de vida que qualquer pessoa devia poder ter. Aqueles olhos não tinham esperança. Não tinham vida. Aqueles olhos eram os olhos de alguém que a vida já matou.
Como é que chegámos aqui? Como é que podemos lutar pela vida, combater o aborto, proibir a eutanásia, prevenir o suicídio, se depois não damos condições de vida digna a estas pessoas? É muito simples cuspir É a economia! e depois? O que é que dizemos a estas pessoas? O que é que dizemos a nós próprios quando nos vamos deitar numa cama quentinha de lençóis esticados e sem vincos e um edredão confortável?
Não me apetecia estar ali. Gostava que o caso tivesse sido atribuído a outra pessoa. Convivo mal com esta miséria. A vida torna-se triste. A minha vida torna-se triste. Choro. Não consigo superar a dor que me consome.
Antes de vir, antes de me ser atribuído este caso, ao olhar as redes sociais, li coisas horríveis sobre esta mulher. Não esta mulher que está aqui à minha frente, mas esta mulher que fez o que fez. As pessoas são cruéis. As pessoas são más. As pessoas são carrascos sempre prontas a baixar o machado da degola.
Respirei fundo.
O olhar morto deixou o meu, perdeu o interesse que nunca teve, e o corpo voltou a ficar quieto debaixo das folhas de jornal. E então eu disse Encontrámos a sua criança no caixote do lixo. Preciso que venha comigo. E custou-me ouvir dizer o que disse.
Silêncio. Depois ouvi um pequeno choro. A mulher chorava baixinho. Quase em silêncio. E eu sabia que não era por ela, por ter sido encontrada, a criminosa. Era pela criança. Por ter sido salva. No fundo era o que ela queria. Mas não sabia como havia de fazer. Onde é que nós falhámos? Nós todos?
O corpo começou a levantar-se. As folhas de jornal caíram para os lados. Vi que a mancha era uma mancha de sangue. Uma mancha de sangue que a mulher, que acho que era uma rapariga, talvez uma miúda, uma criança com certeza, estava também com uma mancha de sangue na calças de fato de treino que envergava. Ela ergueu-se com os braços juntos e os pulsos oferecidos a mim. Oferecia-se às algemas. Eu levantei-me e afastei-me para trás. Dei-lhe espaço para sair da pequena tenda.
Ela saiu. Senti o cheiro que saiu com ela. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte. Vi duas cabeças à entrada de duas tendas vizinhas. A dar fé do que estava a acontecer.
Senti vontade de vomitar. Mas aguentei.
Quando ela se ergueu, na rua, fora da tenda, vi-a. Pela primeira vez vi-lhe a cara. A cara de uma criança. E saiu-me O que é que nós te fizemos?

[escrito directamente no facebook em 2019/11/08]

Voltar a Votar

Por vezes tento recordar como as coisas eram. Mas já se torna cada vez mais difícil. A memória já não é a mesma. E o presente vai matando o passado aos poucos. Nunca houve muita necessidade de o esconder. O passado. Na verdade nunca foi preciso reescrevê-lo. Ele morre de morte natural na memória dos poucos resistentes que ainda não morreram. Tudo se perde. Tudo acaba por se perder. Tudo acaba por se perder se não fizermos nada para manter vivas essas memórias.
Lembro-me da última vez que houve eleições livres. Eleições em que todas as pessoas, homens e mulheres, com mais de dezoito anos, puderam votar. Era Primavera. Uma Primavera especialmente quente. As alterações climáticas estavam a começar a alterar o ritmo dos ciclos climáticos. As estações andavam baralhadas. Estava, portanto, muito calor. As pessoas foram para a praia. Lembro-me porque, em dia de eleições, a abertura dos serviços noticiosos foi com as filas intermináveis de carros para ir para a praia e para vir da praia. Foi um Domingo que entrou por Segunda e Terça-feira dentro. Lembro-me porque tudo isso criou um grande caos. Gente que faltou ao trabalho. Miúdos que faltaram à escola. Até deputados que faltaram à Assembleia. Todos perdidos em filas de trânsito intermináveis. Lembro-me porque essas foram as últimas eleições. As últimas eleições livres. As eleições dos dez por cento. Só dez por cento dos eleitores é que foram votar. Houve mesmo candidatos que não chegaram a ir às urnas. Candidatos que não foram votar. Lembro-me porque foram as eleições ganhas por grupúsculos de bandidos sem ideologia mas com uma fome imensa de poder e capital. Lembro-me porque foi assim que assumiram o poder e nunca mais de lá saíram. Lembro-me porque foi assim que chegámos ao dia de hoje.
Pouca gente se lembra. Mas ainda há quem se lembre.
Quase ninguém quer lembrar. Lembrar é assumir a culpa. O erro. E é difícil dizer que a culpa é nossa. É difícil dizer que a culpa é minha. Minha!
Sim, eu ainda me lembro. E por vezes tenho de contar. Contar a mim. Para me ouvir. Para que não me esqueça. Para que não deixe de saber o caminho que me trouxe aqui onde estou hoje.
Estou à janela. Estou à janela do meu quarto. Agora partilho a casa com mais quatro pessoas. Agora as pessoas vivem em quartos. As casas são divididas em quartos. Uma pessoa, um quarto. Uma família, um quarto. É a divisão equitativa para evitar a miséria dos sem-abrigo. É um estado-protector. É assim que contam a história. Mas eu sei dos condomínios onde vive a elite. Os condomínios. Os parques. Os jardins. Os lagos. Longe das cidades. Longe da miséria das grandes cidades.
Enrolo um cigarro. É difícil arranjar cigarros. Fazem mal à saúde, disseram. Foram proibidos. Mas arranjo barba-de-milho e consigo enrolar uns nas folhas de uma Bíblia que encontrei no mercado. Custou-me dez LP’s de vinil. Voltaram a estar na moda. O povo ouve música em MP3. O som flat, sem perspectiva, sem dimensão, sem ondas dos MP3. A elite redescobriu a qualidade de vinil. Os meus antigos discos têm muito valor. Dez deles valeram-me esta Bíblia que me permite continuar a fumar aqui, assim, à janela, enquanto olho as pessoas que continuam iguais, a correrem para sítios, a irem para trabalhos sem sentido mas ocupacionais. Sem tempo para nada. Sem tempo para olharem umas para as outras. Sem tempo para pensarem no tempo que ficou. Sem tempo para olharem para trás.
Eu não.
Eu gosto de pensar naquilo que perdi. Eu obrigo-me a pensar naquilo que perdi. Porque tenho esperança de um dia conseguir recuperar a vontade de ser mais que um grupo. Porque tenho esperança de um dia ser mais que um número num conjunto de gente igual. Porque tenho a esperança de um dia conseguir voltar a ser um indivíduo. E voltar a votar. Voltar a ter a possibilidade de votar. Voltar a ter o direito e o dever de escrever a minha própria história.
Tenho uns livros do Philip K. Dick. Do Stanislaw Lem. Do Philip Roth. Livros que vou passando a algumas pessoas. A pessoas que ainda não perderam a esperança. A pessoas que ainda questionam. A pessoas que ainda não perderam a capacidade de pensar, mesmo que seja cada vez mais difícil fazê-lo. E quando regressam, esses livros, vêm com algumas memórias. Vêm com algumas ideias. Alguns deles vêm com relatos de vidas escondidas. As boas e as más. É assim que eu sei dos condomínios. E de outras coisas que um dia contarei.
Agora só quero fumar esta cigarro feito com barba-e-milho e uma folha da Bíblia. Agora só quero parar esta lágrima que teima em tombar cada vez que penso nestas coisas em que penso. Agora só quero olhar lá para fora e imaginar que estas pessoas, que vejo ali a passar autómatas, um dia, ainda podem voltar a ser livres. Livres e felizes.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/24]

Amanhã Haverá Sempre por Quem Chorar

Olho para trás e não gosto. Não gosto do que vejo. Não gosto principalmente do que acho que vejo. O meu olhar está condicionado pelo meu presente, mas tenho a arrogância de pensar que o passado é um erro e que tenho de o emendar hoje, à distância de várias vidas. Acabo por me contentar em tentar endireitar o presente. Dentro do possível.
Tenho uma barriga enorme. Uma barriga enorme adornada com um umbigo à proporção da minha barriga. Eu sou o centro do Universo. Tudo gira à minha volta. Eu sou a lâmpada que ilumina as vidas dos outros e encandeia os pobres coitados que ousam ter uma linha de pensamento discordante. Tocam-me. Morrem. Desaparecem.
Esqueço-me que o presente de hoje é o passado de amanhã. Um outro eu, na posse de outra linha civilizacional, vai olhar para mim, e para os meus erros, para os meus arrogantes erros, e mandar-me para o lixo. Como eu fiz.
Mas não. Não sou assim. Não tenho a arrogância de pensar como se fosse o único. Como se a minha concepção fosse a única. Como se estivesse, sempre, repleto de razão. Mesmo que esteja. É difícil perceber. É difícil compreender. É difícil ver para além do horizonte da minha barriga e do meu bonito umbigo. É assim que querem que eu pense. Mas não consigo. Eu sei que preciso do outro. Dos outros. Do passado com todos os seus erros. Do presente com todas as minhas dúvidas. A desejar ainda ter um futuro.
Preparo um gin. Lá está. Uma bebida da moda. Mas eu já gostava de gin antes dele ser inundado de coisas esquisitas a boiar em copo do tamanho de piscinas em vivendas da periferia. Gosto de um gin muito clássico. Um Bombay Sapphire. Ou um Tanqueray. Num copo alto. Também pode ser redondo, mas não precisa de ser muito grande. Com bastante gelo. Limão exprimido. Ou lima. Não sou esquisito. E água tónica. Schweppes. E mexo com uma colher comprida e fina. Para misturar tudo bem.
Acendo um cigarro. E atenção, estou em casa. Mas está bem, estou sozinho. Fumo o cigarro em casa. Sinto o fumo invadir-me os pulmões e penso Faz-me mal, mas sabe-me bem. O futuro que me castigue. A mim e à minha bronquite.
Pego no copo de gin tónico sem frescuras modernistas e vou até à janela. Vejo as pessoas passar. Apressadas. Preocupadas com o seu tempo presente. Preocupadas com o trabalho onde não podem faltar. Preocupadas em ter trabalho que lhes garanta um salário. Um sustento. Uma miséria que possam trocar por umas migalhas de pão de véspera.
Vejo as pessoas passar. Atarefadas. Vão buscar os filhos ao Jardim de Infância. Cada minuto mais é um extra na conta no final do mês. Uma conta que pagam já com dificuldade. Uma conta que pagam com dificuldade para garantir gente a um país envelhecido e que destrata os seus filhos. Depois ainda vão buscar as filhas à Escola C+S e levá-la ao ballet. Porque precisam de actividades extra-curriculares. Gastar energia. Estarem ocupadas enquanto os pais trabalham em prol da nação.
Vejo as pessoas passar. Ensimesmadas. Que fazer para o jantar? Tenho de fazer uma máquina de lavar roupa. Tenho roupa para passar a ferro. Qual é a novela que sigo? Já as confundo todas. Também não interessa muito. O que é que hei-de preparar para o almoço de amanhã? Que se lixe. Nada. Como uma sopa e um rissol no café do lado. Ele que se amanhe. E os miúdos comem na escola.
Vejo as pessoas a passar. E onde vão elas? Ao cinema? Ao teatro? A um concerto? A uma poetry-slam? À ópera? A uma esplanada relaxar, beber uma cerveja e ler um livro?
As pessoas passam rápidas a caminho dos seus afazeres e não têm tempo para serem cidade e a cidade não quer saber delas. Envia-as para a periferia. Para os subúrbios. Para distâncias longínquas que têm de refazer todos os dias. Cansadas ou não. Com vontade ou não.
Algumas destas pessoas estou a vê-las pela última vez. Umas vão pendurar-se numa corda no final do dia. Encharcar-se em barbitúricos. Ligar o gás do fogão e sentar-se no sofá a respirar a eternidade. Algumas delas vão levar os filhos. Algumas delas vão levar os seus amores. Amanhã iremos chorá-las. Depois esquecemos. Haverá mais por quem chorar. Depois de amanhã. Depois de depois de amanhã. Depois… Sempre. Enquanto estivermos vivos.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/11]

Ler… Devagar…

Regresso a uma livraria. Regresso ao cheiro dos livros. Ao pó dos livros. Sentia-lhes a falta.
Como consegui estar tanto tempo sem manusear um livro novo? Um livro que não fosse um daqueles poucos que tenho em casa, em cima da mesa-de-cabeceiro, à espera de serem lidos pela… Enésima vez?
Sentei-me numa mesa. Fechei os olhos. Aspirei longamente. Gosto deste cheiro. Sinto as estórias entrarem-me pelas narinas e invadirem-me os pulmões. Crimes. Espionagem. Romance. Sexo. Porra! tanto sexo. História. Ensaios políticos. Filosofia. Tanta coisa sobre tudo.
Vou ao bar. Peço um café. Duplo. Não que precise de acordar. Não que o café seja a minha energia. O café é o ambiente que preciso para pegar num livro. Trago o café para a mesa. O café duplo. Pego num livro qualquer das estantes. Sento-me com o livro na mão. Aproximo-o do nariz. Aspiro-o longamente. Reconheço-lhe o cheiro. Percorro as arestas com o dedo. Contorno-o. Um livro pequeno. Encosto-o ao ouvido. E ele sussurra-me: Portugal, Povo de Suicidas. Ah, porra! Miguel Unamuno. Já tive este livro. Numa edição da &etc. Ficou num dos caixotes estantes garagens prateleiras armários arrecadações de uma das casas por onde passei. Já nem o recordo. Esta edição é outra. Mas também já não é nova.
Pouso o livro. Ponho açúcar no café. Duplo. Mexo com uma colher de plástico. Há que mudar isto. Gosto de colheres de metal. Acendo um cigarro. Aspiro longamente. Deixo sair o fumo numa nuvem enorme e espessa. Olho à minha volta e penso Quem me dera ter uma livraria. E depois digo alto Não! E corrijo Quem me dera ter estes livros todos. E sorrio. Sorrio e volto a falar alto Sim! Queria ter estes livros todos. Alguns para ler. Outros só para olhar as capas. Ler os títulos. Imaginar o que vai lá por dentro. E outros para me forrarem a vida. Livros à minha volta. Janelas da alma. De aventuras. De bem-aventurança. De paixão.
Bebo o último gole de café. Dou a última passa no cigarro. Esmago-o no cinzeiro. Abro o livro que tenho na mão e leio “É claro, eu sou português e portanto filho de um povo que atravessa uma hora indecisa, crepuscular do seu destino.” e volto a folhear o pequeno livro e procuro à sorte as minhas sortes e leio “Dentro de dias, a 1 de Dezembro, vão celebrar-se as festas da restauração da nacionalidade, da libertação da soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte voltarão a falar da bancarrota e da intervenção estrangeira. Pobre Portugal!” e em baixo leio a data em que Miguel Unamuno escreveu isto Lisboa, Novembro de 1908, e penso na tristeza de gente que somos enquanto povo. Sempre na mesma roda-viva de miséria. Quando é que podemos ir a um restaurante sem ter de contar os tostões para ver se podemos comer um bife ou ter de nos contentar com um prato de sopa?
Levanto-me e decido Vou levar esta nata de prosa. Já tenho jantar. Que se lixe o bife.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/07]

A Mulher que Canta

Estamos no deserto. Num deserto do Médio Oriente. Naqueles desertos de pó. Uma pequena aragem levanta nuvens de poeira. E um ambiente bege. O céu e a terra confundem-se no horizonte. O plano é largo. Bastante largo. Abarca a acção, os protagonistas da acção e o ambiente onde a acção decorre. Vê-se um soldado-cristão levantar a mão. Uma arma na mão do soldado-cristão. À frente do soldado-cristão, pequenino no plano, e na vida, uma criança corre. Corre desalmada. Corre para os braços da mãe carbonizada no autocarro em chamas. Um autocarro com famílias muçulmanas que os soldados-cristãos mataram a tiro. Mulheres. Crianças. Velhos. Tudo morto a eito a tiros de metralhadora. Depois gasolina para a combustão e queimar tudo. Tudo menos esta criança retirada por uma cristã sobrevivente que estava no autocarro. Mas que quis a mãe. No fim, a mãe. E corre para os seus braços carbonizados. Mas não chega lá. O soldado-cristão levanta a mão com a arma e dispara. A criança é projectada para a frente. Como se levasse uma paulada na cabeça. O tiro atinge-a por trás. A criança não chega aos braços carbonizados da mãe.
Estou num filme de Denis Villeneuve. Estou a descobrir o cinema de Denis Villeneuve. E descubro um cineasta urgente. Que urge descobrir. Quase todos os anos tem aparecido na cerimónia dos Óscares com filmes nomeados. Mas poucos o conhecem. O reconhecem. Poucos guardam o seu nome e, no entanto, aqui está um cineasta cheio de cinema. De um cinema obrigatório. Forte. Político. Humano.
Estou em Incendies, A Mulher que Canta. E vejo essa Mulher que Canta na prisão. Na prisão onde esteve quinze anos, numa cela de um por dois metros. Na prisão onde foi humilhada, torturada, violada. Onde foi violada pelo pai dos seus futuros dois filhos. Gémeos. Frutos dessa violação. Violada pelo próprio filho primogénito, veio a descobrir mais tarde. Próprio filho que tivera anos antes e que fora roubado dela, tirado dos seus braços, levado para um orfanato por desonra da família. Oh quanta honra nas famílias! Puta que pariu as famílias e a sua honra! E tornado guerreiro. Soldado. Criança-soldado. Que acaba por se tornar naquilo. No terror. Na miséria. Na desgraça.
Que merda de humanidade somos!
Estou na prisão com a Mulher que Canta. A Mulher que Canta está deitada no chão, semi-nua. O filho-violador vai a sair da cela, vira-se para trás e, do alto da sua arrogância de soldado-vencedor, diz Canta lá agora!

[escrito directamente no facebook em 2018/11/04]

Não Havia Dinheiro

Não havia dinheiro. Era o que se dizia Não há dinheiro.
Qual é a parte da frase ‘Não há dinheiro’ que não entendem? começaram por dizer. E depois foi sempre a eito. Não havia dinheiro. Não havia dinheiro para nada. Quer dizer, haver devia haver, nós não sabíamos era onde. Onde é que havia. Onde é que ele estava. Quem é que o tinha. Porque nos diziam que não havia dinheiro, mas depois ele aparecia para as coisas muito muito importantes.
Salvaram-se Bancos. Instituições Financeiras. As rendas nas grandes empresas de energia nunca pararam. As Parcerias Público-Privadas também não. Nem as Subvenções Vitalícias dos Deputados que legislaram em causa própria.
Não havia dinheiro, mas havia.
Havia dinheiro para coisas muito muito importantes.
Em casa deixou de haver luz eléctrica. Já não havia dinheiro para a pagar. Mas a companhia continuava a receber as rendas.
Em casa deixou de haver água. Já não havia dinheiro para a pagar. Mas as empresas de águas e saneamento, municipais, continuaram de vento-em-popa.
Em casa deixou de haver carne de vaca. E peixe.
O pão circulava entre amigos. Quem ainda tinha gás fazia pão no forno. As banheiras foram invadidas pelas hortas. Os quintais passaram a ter árvores de fruto e guardadas com um homem armado. Os livros eram lidos e relidos e passados de mão-e-mão. As livrarias morreram e os poucos livros que existiam, eróticos e de auto-ajuda, eram vendidos nos supermercados onde ainda ia quem podia ir.
Mas tudo ia bem.
Às Sextas, Sábados, Domingos e Segundas havia sempre futebol da Liga. Ou da Taça. Da Taça da Liga. Ou da Taça de Portugal. Às Terças e Quartas havia Liga dos Campeões. Às Quintas a Liga Europa. De vez em quando o Fernando Pimenta e o Nelson Évora. E o Salvador Sobral. As mamas da Rita Pereira e os bíceps do Diogo Morgado. Os gritos da Cristina Ferreira e da Júlia Pinheiro. Os fatos do Manuel Luís Goucha. A simpatia da Fátima Lopes. As acusações do Hernâni Carvalho. Havia também qualquer coisa da Rita Ferro Rodrigues mas já não me lembro o que era.
Ainda tinha uma televisão a pilhas. Pequenina. Para poder ver alguma coisa do que se passava para lá das minhas limitações. Para entreter o tempo. A fome. E a miséria em que a vida se tornou.
O tempo descontrolou-se. Chovia e fazia muito calor ao mesmo tempo. Chovia muito e muito depressa. As barragens e os rios inundavam os terrenos. As cidades. As aldeias. Mas depois havia seca. Os produtos morriam antes de chegar a crescer.
Sempre que arranjava um cigarro, era uma festa. Fumava-o aos poucos. Duas ou três baforadas por dia.
Deixei de cheirar café. Deixei de beber cerveja. Nunca mais vi vinho tinto.
Chegámos a um ponto em que a vida perdeu sabor. Já não sabemos o que andamos aqui a fazer. Mas também não nos sentimos com vontade de saber.
Eu pelo menos não me sinto. Não me sinto com vontade de saber nem de fazer o que quer que seja. Nem forças tenho para cortar as veias. Olho a faca e nem a consigo agarrar. Está ferrugenta.
Vou andando. Vou andando até parar de andar.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/03]