Cavalgar na Onda

Cheguei cedo de manhã ao Sítio. Dei umas voltas à procura de lugar para o carro. Todos os cantos estavam cheios de carros. Não havia um lugar vago. Era dia de semana e o Sítio da Nazaré estava cheio de gente de fora que tinha ido à caça das ondas gigantes.
Acabei por arranjar lugar já fora da localidade. A caminho do Pinhal do Rei, ao longo da Estrada Atlântica que faz toda a costa junto ao mar.
Voltei a pé até ao Sítio. Mochila às costas. Máquina fotográfica na mão. Desci em direcção ao forte. Mas acabei por não ir até lá abaixo. Estava muita gente. Muita confusão. Odeio confusão.
Optei por um cabeço acima do forte. Via as carecas dos mirones ao longo da estrada até ao forte e noutros cabeços mais abaixo. Mas ali estava bem. Sozinho e com uma boa vista para o mar. Estava toda a gente à espera. Ver as ondas gigantes e as pranchas a cavalgá-las requer tempo e paciência.
Sentei-me numa pedra. Estava sozinho ali naquele cabeço. Como companhia, o som das ondas que rebentavam nas rochas. Tirei uma sanduíche de paio com manteiga da mochila e pus-me a comer enquanto ia olhando as ondas, já grandes e imponentes, para mim, mas ainda não gigantes.
As pessoas continuavam a chegar. Muitas raparigas novas. Muitos rapazes em calções. Estava frio e vento. Mas havia muitos rapazes em calções. Eram estrangeiros. Toda a gente com máquinas fotográficas com objectivas muito melhores que a minha. Senti uma certa inveja. E pensei Sou igual a toda a gente. Inveja. Ciúme. Azedume. Sou um gajo como os outros.
Depois via os casais que circulavam por ali. Os grupos de amigos. E percebia o acentuar da minha solidão. Estava ali sozinho. Gosto de estar sozinho. Mas às vezes não.
No mar andavam as motos de água de um lado para o outro com os surfistas atrás. Estavam à procura da onda perfeita. Ou de aproximações. Mas nada. O mar estava bravo. Revolto. Com muita rebentação. As ondas não eram as ideais para montarem e deixarem-se levar.
Acabei a sanduíche de paio. Guardei a prata na mochila. Limpei a boca as mangas do casaco e acendi um cigarro.
Às vezes penso que fazer surf é como ir à pesca. É preciso tempo. Ter paciência. Esperar. Não sou muito de esperar. Não tenho muita paciência. Mas às vezes tenho que ter.
Passaram duas miúdas pelo meu cabeço. Eram estrangeiras. Há muitos estrangeiros por aqui, agora. Vinham de mãos dadas. Acenaram-me, simpáticas. Olharam o mar dali. Acharam longe. Continuaram em frente.
Caiu-me um pingo na cara. Olhei para cima. Para o céu. Vi cair pingos. Começou a chover. Puxei as golas do casaco para cima. Pus a câmara dentro do casaco. Ao fundo abriram-se alguns chapéus-de-chuva. Mas ninguém arredou pé. Toda a gente ficou onde estava. Iam para onde? Não havia sítio para onde fugirem. Não havia beirais. Árvores. Carros. Ou iam embora, de regresso ao Sítio e aos carros estacionados lá, algures, ou entravam em algum café, ou aguentavam a chuva que aí vinha. Foi o que eu fiz. Aguentei a chuva. Encolhido sobre mim. O cigarro molhou-se e apagou-se. Mandei-o fora. Mandei-o ao mar.
Estranhamente estava a gostar de estar ali. Estava frio. Fazia vento. Chovia. As ondas ainda não eram as melhores para ver uma corrida. Mas o estar ali, sentir o cheiro a maresia, ver o céu cinzento, muito escuro, um céu de fim-de-mundo, e um mar agitado e com muita rebentação que provocava um lençol de espuma junto à Praia do Norte, fazia sentir-me bem como há muito não sentia.
Estes últimos meses tinham sido complicados. Não conseguia trabalho. Estava a entrar na fase de gastar os últimos tostões que tinha escondidos em casa para uma emergência quando caiu este pedido para fotografar as ondas gigantes que se esperava que viessem a acontecer na Praia do Norte.
E ali estava eu. Na Praia do Norte. À espera. À espera debaixo de uma chuvada que, passado pouco tempo, parou como tinha começado.
As nuvens fugiram. O céu cinzento e escuro deu lugar a um céu azul, não muito limpo, mas o suficiente para tornar o dia mais alegre. E pensei que era uma premonição. Aquele dia era um retrato da minha vida. Depois da tempestade, a bonança. E assim ia passando o tempo. A ver se agarrava a esperança.
Entretanto, as ondas começaram a crescer e a vir mais redondas.
As motos de água voltaram a galgá-las.
Agarrei na câmara. Tirei uma fotos. Uma fotos soltas. Do forte cheio de gente. Da Praia do Norte. Da frente urbana da Nazaré brilhante com o sol que despontava.
E então, alguém agarrou uma onda. Comecei a disparar a máquina. Vi a moto a descer a onda para trás e alguém, solitário, a cavalgar a onda. Uma onda grande. Não gigante, mas grande. Grande o suficiente para causar medo. E dar umas grandes fotos. A rebentação perseguia a prancha e o rapaz que lá ia em cima e que se mantinha, sempre, à frente da onda destruidora. A fugir. E eu a disparar a máquina. Estava a tirar boas fotos. E o rapaz mantinha-se na prancha, sem cair, a deslizar pela onda abaixo e para o lado, a manter-se paralelo à terra, a ganhar terreno, a voar nas asas da prancha. A tentar ganhar tempo. E espaço. A fugir à crista da onda e da sua rebentação que começava agora, a ser mais forte. E eu a fotografar. E então, a rebentação apanhou o rapaz e a prancha, envolveu-o e chicoteou-o. Ele fora apanhado. Enrolado na confusão da rebentação que vinha onda abaixo. Eu deixei de fotografar. Olhei para o mar. Para a onda. Para a rebentação. Procurava um ponto negro. Procurava o rapaz. Procurava a prancha. Procurava qualquer coisa que me garantisse a segurança daquele surfista. Olhei. Procurei. Esperei.
Depois vi muita gente a correr para a Praia do Norte. A correr ao longo das arribas. A descer para a areia da praia. Eu agarrei na mochila. Desliguei a máquina. E virei costas ao mar. Não ia tirar mais fotografias naquele dia.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/16]

A Celebrar o Equinócio de Outono

Estava toda a gente contente e triste ao mesmo tempo.
Estavam contentes porque celebravam o equinócio de Outono e, ao mesmo tempo, tristes por dizerem adeus ao Verão, às férias, ao calor e à vitamina D.
Mas estavam enganados.
O Verão não estava a acabar. Agosto já tinha partido, sim, era verdade. Setembro estava a chegar ao seu fim. O equinócio de Outono dizia-nos que estávamos a mudar de estação mas, na verdade, e eu sentia-o nos ossos, o frio ainda vinha longe e a praia ainda tinha muito para me dar.
Tenho ido todos os dias à praia. Ainda não é tempo das marés-vivas. Tenho mergulhado no mar. Todos os dias. Deito-me na areia e deixo-me lamber pelo sol.
Ainda ando de calções. T-shirt. Uso o cabelo curto. Às vezes boné para proteger a cabeça dos excessos de raios solares, principalmente nas horas mais quentes.
Mas já ninguém mais vem à praia. Pelo menos a esta aqui, onde estou agora, nu, com ela em cima de mim, a saltar em cima de mim a celebrar o equinócio. Com doçura. Com violência. Arranhou-me o peito. Fez sangue.
Celebra, miúda. Celebra comigo.
O mar está tranquilo. A água está fria, mas é o Atlântico, não é de se esperar outra coisa.
Estou deitado de costas na areia. Ela está sentada em cima de mim. Pula devagar. Por vezes mais depressa. Ginga as ancas com mestria. Eu olho o cimo das arribas e penso se ainda andarão por lá os mirones de Agosto. Se alguém está lá ainda a masturbar-se com a visão da performance sexual dela ou se está a gravar a nossa história para fazer um filme e colocá-lo no PornHub.
Estamos, também, a celebrar o equinócio à nossa maneira. Mais ela que eu. Eu estou mais concentrado em listar a equipa do Benfica que jogou no Sábado passado e não me vir depressa demais e deixá-la frustrada e furiosa com os seus desejos não cumpridos.
As cidades voltaram a encher-se de carros. Os transportes públicos voltaram a encher. Os estudantes ocupam as ruas com as suas manifestações pelo clima. Os partidos políticos, alheados do presente, mantêm as suas campanhas velhas e com cheiro a mofo, em arruadas, festas e debates onde não se fala de nada que interesse às gerações mais novas mas a mesma lenga-lenga de sempre, a esquerda, a direita, a maioria absoluta, os funcionários públicos, os professores, os enfermeiros, a tourada, a carne de vaca, a social-democracia na boca de todos e todos a jurar, a pés-juntos, que só eles conseguem estancar o aumento da pobreza e a falta de perspectivas de trabalho digno para o grosso da população que não tem as valências necessárias para as exigências do futuro.
Ela grita agora um pouco, embora tente abafar o grito, e eu penso que o salário mínimo são seiscentos euros. Seiscentos euros.
E acabo por me esquecer da equipa do Benfica e do valor do salário mínimo nacional e deixo-me ir com ela, para dentro dela e sinto-a tombar sobre mim e não sei se é verdade ou mentira, se ela chegou onde queria chegar ou só não quer que eu me sinta diminuído na minha evidente fragilidade sexual perante ela.
Enfim.
Ela levanta-se. Dá-me a mão. Ajuda-me a levantar. Vamos os dois de mãos dadas ao mar. Mergulhamos no Atlântico. Gritamos com o frio da água, mas rimos de estarmos ali assim, sozinhos, a viver o nosso Verão dentro do Outono e a pensar que Agosto é quando queremos e nós queremos Agosto agora, em plena celebração de um equinócio que também nós vivemos.
Aproveitamos uma onda para sair do mar e voltamos para as toalhas para aproveitar mais um pouco de vitamina D.
Mais tarde sairemos daqui. Subiremos à arriba. Iremos beber um copo de vinho branco. Petiscar uns camarõezinhos da Figueira. Olhar um para o outro. E iremos rir como parvos.
Como gostamos de ser parvos! E iremos rir de novo. E eu irei pensar se, um dia, irei encontrar a minha cara no PornoHub. Mas não estarei preocupado. Nem triste.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/23]

Estou em Stereo e Recordo o Chiado

Estou em stereo. À minha direita o Sol. À minha esquerda a Lua. O Sol ainda vive os últimos raios antes de morrer para além da praia, do mar, lá para os lados da América. A Lua já canta lá em cima, foco de luz num azul petróleo que pinta o céu por cima das montanhas.
Enquanto me sinto em stereo, aqui no alpendre, recordo.
Sim, recordo.
Recordo o rescaldo do grande incêndio do Chiado.
Era Agosto e eu estava de férias na província. Vivia o Meu Querido Mês de Agosto. São Pedro de Moel, Vieira, Pedrogão. Em Leiria perdia-me pelo Terreiro, nos Vicentes e na Estrebaria. Nos Filipes. No Panaceia se ainda não tinha fechado. No Amadeus se já tinha aberto. A memória aqui torna-se um pouco difusa e perde-se nos pormenores. Mas também havia o Alibi. E o strip-tease no Raínho. E a Ala dos Namorados às cinco da manhã. As sandes de panado. A sopa de feijão na companhia das putas, dos chulos e da droga.
Mas recordo aquela manhã. E a tarde. E a noite. E os dias que se seguiram. E todas as imagens do Inferno. E todas as reportagens angustiantes e angustiadas de quem via uma parte importante do seu mundo desabar. Quem perdeu tudo. Quem viu perder tudo. Quem viu o diabo subir à Terra.
O Chiado como o conhecia, acabara. Acabara ali em poucas horas. Consumido pelas chamas.
Regressei a Lisboa em Setembro. Já bem no fim de Setembro. Mas ainda havia Inferno.
E recordo. Recordo de me aproximar mas não conseguir lá ir. Recordo que era assustador. Recordo que não queria ver. E vi à distância. À distância de segurança.
Para ir para o Bairro Alto subia pelo Elevador da Glória. Não precisava de subir o Chiado. Não queria subir pelo Chiado.
Recordo mais tarde. Recordo a reconstrução. Recordo os estaleiros. Recordo os fins-de-tarde de final de aulas, a descer o Chiado e passar pelas pontes, pelos passadiços, no meio dos estaleiros da reconstrução, e dos mirones que faziam fila para observarem os trabalhos de quem lá estava a trabalhar. Os trabalhadores. Os processos de reconstrução. De inovação. De recriação de uma zona que deixou de ser uma coisa para se tornar outra.
Mais tarde revi-a num filme de João César Monteiro. Não me recordo qual, mas ele era um militar que observava, do alto da sua arrogância de conhecedor, como todos os mirones, os trabalhos de recuperação do coração da cidade.
Em stereo recordo o Chiado. Recordo um tempo que não mais regressa. E mesmo tendo sido terrível, deixa-me um amargo pelo impossibilidade de regressar a um tempo em que tudo ainda era possível. Um tempo em que eu ainda era capaz. Uma época em que eu ainda acreditava. Em que julgava que tudo estava à mão-de-semear e que era só preciso estender a mão e agarrar. E em que estava tão enganado.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/24]