Na Linha do Oeste

Apanhei o comboio nas Caldas da Rainha. Queria fazer a Linha do Oeste. Uma desgraça de Linha. Poucos comboios. Poucos horários. Uma Linha abandonada. Gente abandonada. Uma terra abandonada. É o abandono do interior Litoral. Mas só pelo comboio. É uma terra cheia. Farta. Toda a gente tem carro. Aceleram pelas auto-estradas que as servem. A1. A8. E os outros?
Apanhei o comboio nas Caldas da Rainha. Queria ir para norte. Para onde me levasse. Não tinha destino. Queria ir. Só.
Apanhei o comboio nas Caldas da Rainha. De phones nos ouvidos. Uma mixtape em formato digital. AAC. Sentei-me. O comboio arrancou. Tive de trocar de banco. Estava sentado ao contrário. Comecei a ver o mundo a fugir de mim, quando o que eu queria era abraçá-lo. Às vezes dá-me para isto. Para a lamechice.
Sentei-me de frente, portanto. Abri os braços e deixei vir a mim o mundo. O mundo que me vinha era ali as bordas da zona saloia. Já quase não era. Estava no Oeste. Acho que na Beira Litoral que, afinal, parece que já não existe. Gosto de ver estas paisagens. São paisagens sujas. Cheias de ruído imagético. Nunca se está verdadeiramente isolado. O campo tem sempre gente. Há sempre uma casa. Um terreno lavrado. Um pinhal. Uma pequena floresta. E casas. Sempre casas. Vizinhança à distância. Mas vizinhança. Não se está só. Não se está sozinho. Só o comboio é uma miragem. E eu numa. Numa miragem. Eu sou uma miragem. Não existo. Imagino-me.
Levantei-me do banco. Abri a janela. Uma das liberdades do isolamento da Linha do Oeste. As janelas ainda abrem. Fui fustigado pelo vento. Soube-me bem. Ar frio. Era final de dia e eu ali, na zona do Valado, via o sol colocar-se atrás das árvores e acompanhar-me, num enorme travelling, durante alguns minutos, a descobrir-se e esconder-se, como se brincasse comigo às escondidas.
Nos phones percebi a chegada de Benjamin Clementine. E lembrei-me como o descobri, por acaso, quando estava a roubar umas músicas através de um blog na net. Era uma aposta do blog. Uma sugestão. E que sugestão! Um tipo com corte de cabelo esquisito e um som de piano de morrer. Roubei-o. Roubei-o logo. Mostrei-o. Falei dele. Ninguém conhecia. Ninguém tinha ouvido falar. Ninguém com muita paciência para as minhas descobertas. Ninguém com muita paciência para as minhas apostas. Um ano ou dois, depois, concertos esgotados. Toda a gente a fazer fila para o ver ao vivo. A grande descoberta da indústria. Muitos deles já o esqueceram. Eu ainda funciono com listas. Repito-as. E não esqueço o que gosto. Estou sempre em reciclagem. De vez em quando regresso. Não deixo morrer a memória. Mesmo a recente. Então, foi esta.
E que bem que encaixava ali. O piano de Clementine e o sol a piscar por trás das árvores do Oeste. Um clip de vídeo em directo e em tempo real.
O sol acabou por cair rapidamente. A luz foi-se. A noite chegou. Mas ainda era cedo. Uma luz nocturna em horário de diurno. A porra do Inverno rouba-nos a luz. Lá fora, nos campos do Oeste, pequenos pontos de luz não deixavam implantar a escuridão. Nunca há completa escuridão. Nunca há deserto. Nunca há solidão. Há sempre vida no Oeste.
Até onde iria o comboio? Já não sabia onde estava. Tinha parado várias vezes, em estações e apeadeiros. Tinha perdido a noção do espaço, perdido no tempo a partir do momento em que a noite caiu. O exterior é sempre o mesmo, mesmo na lonjura do espaço. Mas sabia que teria de passar por Leiria. Sabia que tinha de chegar à Figueira da Foz.
E foi então que entrámos numa estação. Eu estiquei-me pela janela para ver o nome. Para ler onde estava. E vi. Mas não consegui ler. Estava em cirílico. Acho. Achei, na altura. Achei que era cirílico. Onde raio é que afinal estava? Não era na Linha do Oeste, com certeza.
Que merda!

[escrito directamente no facebook em 2018/12/28]

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