A Pequena Manifestação dos Miúdos pelo Pouco Futuro que Me Resta

Eu estava à janela quando os vi passar. Vinham em grupo. Um pequeno grupo caótico. Um grupo de muitos pequenos grupos mais pequeninos. Mas vinham todos ao mesmo. Pequenos grupos a formar um pequeno mas maior grupo a apelar ao mesmo. Andavam aí pelos doze, treze, quatorze anos, talvez quinze. Mais raparigas que rapazes. Deve ser aquele amadurecimento precoce, diz-se. Os rapazes levam a meninice mais longe. As raparigas crescem mais cedo. Ainda vão dominar o mundo. Só ainda não o fizeram por pena. Pena de nós. De sermos ultrapassados sem apelo nem agravo. E depois ainda vão ter de nos dar mimo enquanto choramos agarrados à saia da mãe. Elas são mais na escola. Tiram melhores notas. São mais aplicadas. Quer dizer, é o que eu acho numa análise empírica feita aqui assim à minha volta. Não fui à Pordata. Estou à janela a fumar um cigarro enquanto vejo os miúdos a caminho da sua manifestação, não vou agora lá dentro, ao computador, à internet, para conferir algo que acredito ser verdadeiro. Se estivesse a escrever para um jornal lá teria de ir confirmar se a afirmação é verdadeira ou não para não me acusarem de Fake News. Mas isto é a minha cabeça a debitar ideias para mim mesmo. Ninguém está a controlar a minha cabeça, pá. Posso dizer o que quiser. Ca-ra-lho-Fo-da-se! Pronto! Estás a ouvir-me, mãe? Não, claro que não! Por isso posso dizer tudo o que me apetecer. Mas não vou muito mais longe porque o que me apetece dizer é mesmo isto que vejo e confirmo: esta geração, esta geração muito novinha é muito mais aguerrida que as que a precederam. A minha, então?! A minha ajudou a foder o mundo. Eu, se calhar, também, não sei. Mas não sou ninguém. Nunca fui. Não sou líder. Nem chefe. Não sou responsável por nada nem ninguém. Sempre cumpri ordens. Era essa a minha função. Cumpridor de ordens. Talvez também seja culpado pela minha inacção. Talvez. Olha, processem-me! Mas agora, agora gosto de olhar pela janela e ver estes miúdos a agitar as coisas. A exigir. A exigir o que é deles.
Ia mandar a beata pela janela e parei a tempo. Mesmo a tempo com a beata ainda presa entre dois dedos. Desatei a rir. Lembrei-me de uma amiga que se irrita comigo por estar sempre a mandar as beatas pela janela fora, para a rua. Depois, lembrei-me das multas. Agora pagam-se multas por deitar beatas para a rua. Em boa altura parei o que ia fazer.
Fui à cozinha. Apaguei a beata no cinzeiro. Acendi outro cigarro. Gosto de fumar. Faz-te mal, rapaz, ouvia a minha mãe dizer. Não fumes. Mas gosto desta companhia. O cigarro conversa comigo. Dá-me colo. Ajuda-me a criar. A desenrolar raciocínios. E então, na companhia de um copo de vinho tinto, temos uma orgia em casa. Fui ver o que havia no armário. Uma garrafa já encetada de Segredos de São Miguel. Bom, era alentejano. Mau, não seria. E não foi. Pelo menos enquanto resistiu às minhas investidas.
Voltei à janela com o copo de vinho. Acendi outro cigarro. A rua estava calma. A manifestação já tinha passado. Parecia que tinha levado a cidade de arrasto. Não se via ninguém. Parecia Domingo à hora da missa. É assim que imagino a cidade ao Domingo à hora da missa. Nunca confirmo. A essa hora estou deitado, a dormir. A dormir e a sonhar como será a cidade aquela hora, à hora da missa. E era isto que eu via. O vazio. O abandono. O silêncio.
Mas decidi ficar por ali à janela à espera que regressassem de lá para onde tinham ido. Os regressos são, normalmente melhores. As pessoas vêm mais soltas. Mais alegres. Satisfeitas com o que fizeram, especialmente se fizeram algo em que acreditam. E se fizeram bem. E eu acho que fizeram.
Fui buscar o cinzeiro para ao pé de mim.
Ainda aqui estou. Eles ainda não passaram, mas hã-de passar. E eu vou bater-lhes palmas e dizer-lhes que o mundo é deles. Que o agarrem. Mas eles vão achar que estou bêbado. E vão dizer O raio do velho está bêbado. Não! Vou ficar calado mas a gritar por eles cá dentro. Afinal são eles que estão a lutar pelo pouco futuro que ainda me resta.

[escrito directamente do facebook em 2019/09/27]

A Senhora que Vem Cá a Casa Falou-me na Aliança

Há uma senhora que vem cá a casa uma vez por semana. Vem cá ajudar-me a tratar da casa. Não que a casa precise muito de ajuda, que eu trato bem dela. Mas vem fazer coisas que eu às vezes me esqueço fazer ou nem sequer penso na necessidade de ser feito. Limpar os vidro das janelas, por exemplo. Ia lá lembrar-me disso? Mas ela tem razão, os vidros ficam bem melhor quando ela os limpa com Ajax, e depois passa um jornal para ficarem brilhantes e sem dedadas. É ela que traz os jornais. Normalmente, o Correio da Manhã do dia anterior que pede no café da aldeia. Eu às vezes aproveito para passar os olhos pelas catacumbas do país. Também olho para as páginas do Relax. Já tive tentado a ligar a alguns daqueles números, principalmente quando vêm acompanhados de fotografias com medidas generosas. Mas depois penso que tenho de sair de casa e ir não-se-onde, confraternizar e mais-não-sei-o-quê e desisto.
A senhora que vem cá a casa é muito prática nas suas escolhas e diz tudo o que tem para dizer com uma voz um pouco esganiçada. Ela, coitada, não tem culpa de ter a voz tão aguda. Mas às vezes abusa do tom. Gosto muito dela, é muito simpática mas, às vezes, espeta-me navalhas nos ouvidos. Trata-me sempre por doutor embora eu já lhe tenha dito, mais que uma vez, que não sou doutor. Ela responde sempre que todas as pessoas que trabalham em casa, como eu, são doutores. Doutores disto e daquilo, mas doutores. Alguns até são doutores da mula-ruça. Eu calo-me.
Quando decide que tem de lavar os tapetes, põe-se de gatas, a esfregar com uma escova e um balde de água quente e detergente a fazer espuma. Anda a manhã toda com o braço esquerda-direita, cima-baixo, a esfregar a escova nos tapetes. O rabo dela, espetado para o céu, dança de um lado para o outro a acompanhar a força com que o braço expurga o pó entranhado nos tapetes. É por isso que ela tem um braço mais grosso que outro. São os músculos. Os músculos por andar a esfregar a escova nos tapetes. Já fiquei assim, encostado a uma porta, a ver a dança do rabo. Mas nunca lhe disse que, às vezes, a apreciava.
De tempos-a-tempos aparece cá em casa com metades de notícias que não percebeu completamente mas que acha que me poderá interessar a mim, eu que vivo aqui isolado do mundo. Hoje apareceu aqui em casa com uma história que eu ainda não percebi logo bem o que era. Segundo ela, houve uma aliança que invadiu uma sede qualquer para exigir justiça.
?
Ainda lhe perguntei de estava a falar da Arca. Da Arca da Aliança que podia ter visto nalguma repetição dos Salteadores da Arca Perdida, mas ela não sabia o que era os Salteadores da Arca Perdida, nem a Arca da Aliança. Que a outra era só uma aliança, achava, sem Arca.
Perguntei-lhe se tinha algo a ver com a Amazónia, o Brasil, Macron ou a Melania Trump e o primeiro-ministro do Canadá, mas ela disse-me que achava que era em Portugal.
Fiquei curioso.
Liguei a televisão. SICN. RTP3. TVI24. CMTV. Nada. Quer dizer, muita coisa. Não, muita coisa não. Muita repetição da mesma pouca informação sobre os mesmos assuntos dos últimos três dias. Má-educação. Mulheres mais novas que outras. Homens boçais. Algum cinismo. Interesses vários.
E, então, vi, no oráculo, a passar rápido em letras pequeninas Pedro Santana Lopes invade ERC para exigir cobertura noticiosa ao Aliança.
Desatei-me a rir.
Fui acender um cigarro. Abri uma garrafa de Herdade dos Grous 23 Barricas que me tinham oferecido. Servi dois copos. E fui oferecer um à senhora que estava a passar-me as camisas a ferro. E pensei Então é assim que as camisas ficam esticadas, sem vincos e com aquela goma!
Ela disse Eu não devia!, mas aceitou. Eu rezei para as camisas continuassem a vir sem vincos.
Eu fui beber o meu copo para a varanda e fumar o cigarro. E dei comigo a pensar no que é que teria passado pela cabeça do Pedro Santana Lopes. Falta de mimo, de certeza!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/27]

Jesus Cristo no Tecto da Sala

O senhorio não quis renovar o contrato. Tenho de sair daqui de casa. É sempre estranho cada vez que tenho de sair de casa. Parece que estou a deixar bocados meus para trás. Afinal, a casa era minha. Era minha até ao final do contrato.
Tenho de voltar a encaixotar tudo outra vez. Cada vez mais sinto vontade de não o fazer. É um drama. Voltar a carregar os livros dentro de caixotes que se vão romper com o peso dos livros que vão cair no chão e dobrar capas, os cantos das folhas, eventualmente rasgar páginas. Vou carregar com caixotes para os quais não vou ter força. Por vezes apetece-me mandar os livros todos para o caralho.
Olho para o móvel onde estão ordenados. Olho para os caixotes vazios. As roupas é só enfiar nas malas. Os discos e os filmes já vão nos discos externos. Mas os livros!… Os livros são o cabo dos trabalhos para serem transportados ao longo de uma vida de saltimbanco. Nem quero pensar nos livros que já fui deixando para trás. Em todas as outras casas por onde passei. Até fico doente.
Acendo um cigarro. Deito-me no chão da sala. Olho o tecto. Descubro umas teias-de-aranha. Decido que já não tenho de me preocupar com estas limpezas.
Sinto comichão nas costas. Meto a mão debaixo de mim e coço-me. Sinto uma coisa a mexer. Agarro-a. Uma barata. Esmago-a com o polegar contra o chão. Ouço um barulho obsceno, um crack, enquanto a barata é esmagada. Ela desfaz-se numa pasta nojenta. O polegar fica sujo. Limpo-o às calças. Com o cigarro aceso, queimo as antenas da barata. Ela já está morta. As antenas vão-se queimando. Cheira-me a queimado. Não sei se o cheiro é do cigarro se das antenas da barata.
Apago o cigarro no chão da sala.
Tenho vontade de largar estes livros todos pela varanda abaixo.
Queria ser livre. Pular de casa em casa sem me preocupar com o que tenho de levar às costas. Foi isto o que a escola nunca me ensinou. Como viver uma vida de arrendamento em arrendamento? De aluguer em aluguer? Viver a vida ao pé-cochinho, ora assim, ora assado.
Vejo as lombadas dos livros. Há pequenas ilhas que identifico logo. Pela cor e pelo conjunto. Não, já não consigo ler nenhuma lombada daqui. Estou muito longe para conseguir ler. Os óculos que uso são para ler de perto. Mas identifico aquelas colecções. Ali, na quarta prateleira, mais para a direita, estão os livros do Philip Roth. Todos os livros que a Dom Quixote editou em Portugal. Pena que tenham andado sempre a mudar de capas. Há umas hardcover. Outras softcover. E nas softcover há géneros diferentes de capas. Cabrões do caralho! É só para me chatear! As capas que gosto mais são as coloridas. Capas softcover de cores vivas. Aquela vermelha do Casei com um Comunista é um mimo.
Acendo outro cigarro.
Naquela prateleira, do outro lado, vejo a colecção completa, mais uns livros especiais com capas desenhadas por outros artistas e dois volumes que compilam os trabalhos jornalísticos de Spider Jerusalem ao longo da série Transmetropolitan de Warren Ellis e Darick Robertson. Uma graphic novel fabulosa. Política. Agressiva. Muito violenta. Um pouco mais atrás a colecção completa do Sandman de Neil Gaiman.
É disto que me quero desfazer?
Não consigo. Vou ter de arrastar estes livros todos comigo até ao fim dos meus dias. E hei-de chorar todos os outros que fui deixando lá por onde passei. Espero que tenham servido a alguém. Espero que tenham sido lidos. Que tenham sido lidos como eu os li.
O borrão queimado do cigarro tomba sobre mim. Sobre o meu peito. Vejo-o queimar a camisola. Depois sinto-o queimar-me a mim. Mas não me queixo. Apago o cigarro no chão da sala, ao lado do outro.
Bom, vou levantar-me e começar a encher os caixotes.
Mas não me levanto.
Decidir é mais fácil que fazer. Eu decido muitas coisas. Tenho decidido muitas coisas ao longo da minha vida. E ainda ando para aqui. De casa em casa. À espera de parar. Como se acabassem as fichas dos carrinhos de choque. E eu tivesse de ficar dentro do carrinho à espera que me lá fossem buscar.
Fico deitado de costas no meio da sala. Cruzo as mãos atrás da cabeça. Olho de novo o tecto. Para além das teias-de-aranha, vejo umas rachas, umas manchas. Uma delas parece-me a cara de Jesus Cristo, exactamente como eu conheci no colégio das freiras. Rio-me. E penso que o senhorio vai ter de pintar a casa toda.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/03]

As Notícias do Dia Incomodam-me

Vim para o alpendre. Parou de chover. Descobriu o sol. O tempo está quente. Peguei na Catedral de Raymond Carver, que ando a reler, e sentei-me aqui fora. No alpendre.
Ao fundo as montanhas limitam-me o horizonte. Por cima, no céu azul, umas nuvens brancas como algodão doce.
Acendi um cigarro. Estou a fumar. Ainda não abri o livro. Ainda não recomecei a ler. Estou a pensar nas notícias que me acordaram hoje de manhã e que têm andado por aqui a calcar a cabeça. Não sei bem o que é que tudo isto quer dizer, mas não é nada bom, tenho a certeza.
Aquela história no Brasil assusta. A obscuridade. Os estudantes têm de limitar a sua rebeldia. Os estudantes, numa idade de revolta, de busca por identidade, de procura do conhecimento, de experiências e experimentação, têm de se comportar com juizinho. As raparigas e os rapazes não podem usar piercings e, os rapazes, nem brinco, que isso é coisa de maricas e maricas não, senhor! As calças não podem andar arregaçadas. Nenhum deles pode usar boné, boina, chapéu. Agora há militares armados nas instalações escolares a garantir a execução das novas normas de conduta. A filosofia vai desaparecer. A sociologia também. Todas as ciências sociais vão deixar de existir no currículo académico. Todas as disciplinas que possam ajudar a desenvolver a capacidade de raciocínio e ajudar a pensar, vão deixar de ser leccionadas. O Brasil quer ser um enorme curso técnico-profissional. Os alunos vão aprender ofícios que possam ajudar a erguer o novo país alicerçado no Boi, na Igreja Evangélica, na pistola na ponta da mão e na destruição da Amazónia. Amén.
Estou com azia.
Acabo o cigarro. Olho para a capa da Catedral que ainda não abri e pouso o livro na mesa de apoio. Olho para as montanhas lá em frente.
O Presidente americano, que se gaba de ser um excelentíssimo negociador e um notável homem de negócios, acabou por não conseguir levar a bom termo nenhuma das negociações a que se propôs, nomeadamente com a Coreia do Norte de Kim Jong-un. O Irão é o que se sabe. Israel, ainda está para se ver. O New York Times descobriu, por sua vez, que durante anos, Donald Trump não pagou impostos por ter perdido, em poucos anos, mais de mil milhões de euros. Um homem ancorado em mentiras sobre mentiras. Um arrogante construtor de mentiras que lhe abriram o caminho à presidência, a criar um novo género da fazer política. O que nos faz pensar na educação que (não) se dá ao povo. Um certo tipo de povo. Arredado do conhecimento. Da cultura do pensamento. Do raciocínio. Um voto na mão a eleger quem desdenha desse mesmo voto.
Sinto a garganta seca. Um nó no estômago. Uma certa angústia. As notícias deixam-me deprimido. É para isto que aqui chegámos?
Acendo outro cigarro.
Penso nos banqueiros. Penso nos banqueiros que não acham justo que não se paguem os movimentos no Multibanco. Penso nas caixas Multibanco que andam a ser substituídas por caixas ATM. Estas a pagar. E penso que não é justo que o dinheiro que não é deles tenha de lhe passar pelas mãos. Não é justo que os meus poucos euros dêem várias vezes a volta ao mundo a multiplicar os lucros dos banqueiros e eu não veja sequer a cor dele. Não há retorno. Nunca há retorno. Penso que não é justo os banqueiros utilizarem o meu dinheiro e não me pagarem nada por ele e obrigarem-me a pagar por toda e qualquer acção que eu faça com o meu dinheiro. Penso como não é mesmo nada justo que os seus lucros sejam distribuídos pelos accionistas e os seus deficits sejam cobrados aos contribuintes que não têm nada a ver com aquilo. Não, não é mesmo nada justo. Quero deixar de utilizar os bancos. Ou seja…
Ou seja, não! Odeio esta expressão. Repetir as mesmas coisas por outras palavras. Admitir que não me exprimi bem da primeira vez. Não! Que porra!
Sinto-me enterrar na cadeira. Fumo o cigarro. Sinto-me pequeno. Cada vez mais pequeno e enterrado na cadeira. As montanhas continuam lá à frente. Verdes. Um verde-azeitona. O céu azul. Umas nuvens largadas um pouco à sorte sobre o céu, como açúcar largado por cima de uma arrufada.
Os gatos e o cão pressentem a minha tristeza. O caminho aberto à depressão. Os gatos roçam-se nas minhas pernas. Miam. Não sei o que é que querem. Talvez darem-me mimo. O cão lambe-me a mão. Passa a língua pelo cigarro. Queima a língua. Gane. Deita-me o cigarro ao chão. O cigarro apaga-se inundado de saliva. Eu digo, baixinho, És mesmo bruto, pá!
Ela aparece com dois copos de vinho tinto. Dá-me um.
Ficamos ali os dois, mais os gatos e o cão, a olhar as montanhas lá à frente e a pensar no tempo que nos resta. E que tipo de tempo é que nos resta.
Acendo outro cigarro. E penso há quanto tempo é que não vejo o Óscar. O sardão cá de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/08]

A Mãe, de Joelhos, às Voltas no Recinto em Fátima

Eu conheci-a há uns anos, em Fátima. Eu estava lá a tirar umas fotografias. Ela andava lá de joelhos. Era uma daquelas mulheres a pagar promessas. Qualquer coisa que tivesse pedido a Deus. Qualquer coisa que tivesse recebido. E agora o pagamento. De joelhos à volta do recinto. Pedi-lhe autorização para a fotografar. Ela anuiu. Prometi-lhe um café. E assim foi.
No fim das suas voltas. No fim das minhas fotografias. Um café. E conversa.
Fiquei a saber o que a levara ali. Não era nenhuma promessa. Não estava a pagar nada. Não tinha pedido nada. Estava a crucificar-se. Culpada, cumpria a sua penitência.
E depois, contou-me sua história. Talvez para ilustrar a fotografia que tirei. Talvez para se justificar. Talvez para exorcizar a sua vida.
Era uma mão solteira. Vivia com o filho de 13 anos. Vivia para o filho de 13 anos.
Todos os dias, antes do filho se levantar, aquecia uma caneca de leite com chocolate, e ia levá-la à cama dele. Ele era assim acordado para o dia. Quando chegava à cozinha já lá estava a mochila da escola preparada. Uma malga com cereais. Um saco de plástico com duas sanduíches para o resto do dia. Uma de fiambre de peru. Outra de queijo flamengo. Ambas com manteiga.
Ao fim-do-dia, quando ele regressava a casa, a mãe tinha sempre um bolo caseiro, de pão-de-ló, à espera dele. Quando não era um bolo, era uma salada de frutas, mas cortada momentos antes e sem adicção de sumo nem de açúcar.
Mais tarde estaria feito o jantar. Invariavelmente carne, que o filho não gostava de peixe. Um mimo para sobremesa. Depois, à noite, enquanto o filho via um bocado de televisão ou ia dormir, a mãe passava a roupa dele a ferro. Cerzia umas meias. Dobrava as cuecas.
Antes de se ir deitar ainda ia levar uma caneca de leite quente ao filho que não adormecia sem o estômago quentinho e saciado.
Aos fins-de-semana ia com o filho ao cinema. Às vezes ao circo. Lanchavam fora. Às vezes a mãe aproveitava para ir com ele às compras. Umas calças. Uma camisola. Umas sapatilhas. Um jogo para a consola.
Chegavam a casa, o filho ia experimentar o jogo novo. A mãe ia pôr uma máquina a lavar roupa. Depois preparava o jantar.
Quando era bife de vaca, ou uma bifana de porco, a mãe cortava-lhe a carne aos bocadinhos. Tirava-lhe a gordura. Tirava-lhe o nervo. O frango assado só tinha pernas e asas. Que ele gostava de comer à mão. O resto do frango, o peito, a mãe utilizava para fazer outras coisas que ele acabava por comer. Umas quiches. Umas tostas. Uma pasta no forno com molho bechamel. No arroz de ervilhas tirava as ervilhas. No arroz de cenoura tirava todos os pedaços de cenoura. Na canja não podia lá deixar as moelas, o fígado ou o coração.
Aos Domingos, a mãe incentivava-o a sair. A ir brincar para a rua. A ir ter com os amigos do bairro. Mas o filho ficava o dia todo em pijama no sofá a jogar na consola. E ela acabava por gostar da companhia. Aproveitava e limpava a casa. O quarto do filho. Apanhava a roupa que ele deixava caída pelo chão. As latas de Coca-Cola acumuladas na secretária. Os pacotes vazios de Filipinos. As migalhas dos Oreos. As várias sapatilhas espalhadas.
Um dia a mãe conheceu alguém.
Um dia a mãe conheceu melhor alguém lá do trabalho. Era ainda uma mulher nova e bonita. Ainda era bonita a mulher que estava à minha frente, no café. Uma mulher bonita mas triste. Mas muito bonita. De olhos brilhantes.
Bom, a mãe conheceu alguém e foi passar um fim-de-semana fora.
A mãe deixou todas as refeições preparadas. Todas as refeições em embalagens individuais no frigorífico. Era só aquecer cada uma delas no micro-ondas. A roupa para cada um dos dias do fim-de-semana empilhada na cadeira do quarto do filho. Caso ele quisesse ir ter com o vizinho do andar de cima. Eram amigos. Andavam na mesma turma na escola. A mãe avisou a vizinha. Que ia sair. Que o filho ficava sozinho. Que fosse lá ver dele. Que lhe desse uma ajuda se fosse necessário.
A mãe passou o fim-de-semana isolada. Foi para uma cabana nas montanhas. Houve um temporal. As comunicações foram cortadas. As estradas também. O fim-de-semana transformou-se numa semana.
A vizinha de cima foi para o hospital com o filho, atropelado à porta de casa por um condutor bêbado. Nunca mais se lembrou do filho da vizinha.
O filho passou o fim-de-semana deitado na cama. E a semana. E foi assim que a mãe o foi encontrar quando regressou na outra Segunda-feira de manhã, quando finalmente abriram as estradas e deixaram de estar presos na montanha.
Tentou telefonar mas ninguém atendeu. Nem o filho. Nem a vizinha. Mal chegou a casa correu para o quarto dele. Ele estava deitado na cama. Rodeado de merda. Inanimado. Morto.
A mãe entrou no quarto e foi abrir a janela. O quarto exalava um cheiro que não se podia. Um cheiro a merda. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte.
O filho estava morto. Ela gritou. O amigo com quem tinha estado isolada na montanha abraçou-a. Ela afastou-o. Deitou-se sobre o filho. Sobre o corpo do filho. Sobre o corpo cheio de merda do filho. O amigo telefonou para as emergências. Para a polícia. Para o trabalho de ambos. Para a escola do rapaz. Depois foi-se embora. A mãe estava abraçada ao filho. Nem os para-médicos, nem os bombeiros, nem a polícia conseguiram afastar a mãe do corpo frio do filho.
Mais tarde, e depois da autópsia e de todas as perícias, ela soube o que, provavelmente, acontecera.
O filho estava sozinho em casa. Ninguém lhe levara o leite à cama. E ele não podia sair de casa sem beber o leite com chocolate na cama, sinal que podia levantar-se e sair de casa. A comida no frigorífico não apareceu quente na mesa. Esteve uma semana inteira sem comer e sem beber. Não saiu de casa para ir à escola nem para ir ao vizinho de cima. O vizinho de cima estava no hospital e a mãe dele nunca mais se lembrou do miúdo. Da escola telefonaram à mãe mas o telefone estava sem rede. Na verdade, o miúdo enfiou-se na cama e acabou por nunca mais sair de lá. Mesmo para fazer as necessidades. Ele ficou na cama à espera da mãe. Mas a mãe nunca mais chegou. Ou chegou, mas chegou tarde.
A mãe sentiu-se culpada. A mãe sentiu que foi tudo por ter querido um fim-de-semana de luxúria quando devia ter ficado a tomar conta do filho.
Isto é o que ela pensava.
As autoridades não pensavam o mesmo. Tudo tinha sido fruto das circunstâncias.
A mãe entrou em depressão. Foi internada. Acompanhamento psiquiátrico.
Há um mês que estava de regresso à vida. Virou-se para a religião. Não para a Igreja. Para a religião, mesmo. Sem intermediários. E estava a tentar sobreviver. Ultrapassar a culpa.
Era a primeira vez que falava sobre o assunto.
Eu não soube o que dizer.
Queria sair dali, mas não sabia como. Tive de esperar que fosse ela a ir embora. E assim foi.
Hoje, ao abrir o jornal da cidade, descobri que tinha morrido. Foi encontrada morta num banco de jardim nas margens do rio. Estava já morta há algum tempo quando foi encontrada. Parece que se sentou no banco à espera da morte.
Foi a fotografia dela, de joelhos no recito em Fátima, que me deu o meu primeiro prémio de fotografia.
Chorei quando vi a notícia da sua morte. Chorei mais ainda quando lembrei a sua história.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/09]

Tomei Banho

A serra ali em frente tem sempre um capacete a proteger-lhe o cume. Às vezes nem o vejo. O capacete subtrai-o. Outras vezes o capacete ganha umas abas que descem serra abaixo e, milagre, a serra desaparece.
É normal haver capacete sobre a serra e o resto do céu estar limpo. Azul, azul-água, azul-bebé, cinzento, branco-sujo. Mas sem nuvens. Elas juntam-se sobre a serra numa orgia monumental: por vezes percebo as nuvens movimentarem-se, lentamente, sobre a serra, a acariciá-la, a dar-lhe mimo. Por vezes chove. Por vezes chove só mesmo lá na serra.
É o que está acontecer agora, na serra. Está a chover. Aqui está sol. Um sol amarelo. Envergonhado. Não há nuvens. Não vai chover. Mas chove lá em cima. Na serra. Percebo daqui.
Estou no alpendre a tentar arranjar o aspirador. Desde que ele avariou que nunca mais aspirei a casa. Já lá vão quantos meses? Nem sei. Perdi-lhes a conta. Mas vejo a quantidade de cotão nos cantos da casa. O pó. Percebo-o quando respiro. Respiro mal. Sinto-o entrar-me pelos pulmões. Sinto-lhe o cheiro. Percebo-me a dificuldade em respirar.
Sentei-me no chão do alpendre e já desmontei o aspirador. Descubro que uma peça de lego estava a tapar a passagem do tubo. De onde é que terá vindo a porra da peça?
Retiro a peça. Sopro lá para dentro. Espreito. Não vejo nada. Volto a montar o aspirador. Coloco-lhe um saco de lixo novo. Levanto-me. Não!… Tento levantar-me.
Não estou habituado a estar sentado no chão. Os músculos estão a armar-se em parvos. Não querem ceder. Os ossos também não estão melhor. Foda-se! Rebolo no chão. Tento levantar-me de costas. Empurro o rabo para cima. Ajudo com os braços. Agarro-me à cadeira. E, finalmente, lá estou eu em pé. Estico-me. Agarro-me ao varandim do alpendre e estico-me. Estico os braços. As pernas. Tento elevar o corpo para cima. Ouço-me estalar. É bom sinal, não?
Começo a aspirar a casa. Começo aqui na cozinha e deixo-me ir por aí fora. O barulho embala-me. Corredor. Sala. Corredor. Quarto. Corredor. Quarto. Esqueço a serra, o capacete, a chuva. Esqueço o cotão que vai desaparecendo dentro do aspirador engolido pelo tubo de aspiração.
Mudo o saco do lixo. Duas vezes.
Com a casa aspirada e o aspirador arrumado na despensa, batem à porta. Ouço o toc-toc das nozes dos dedos a bater na madeira.
Abro a porta. É a vizinha. Traz uma cafeteira com café da avó e umas filhoses.
Sento-me no alpendre. Ela senta-se comigo. Bebemos o café. Trincamos uma filhós. Olhamos a chuva a cair na serra mas não vimos nada. Olhamos um para o outro. Tenho a casa limpa. Tenho a cama feita de lavado. Tomei banho.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/02]

Os Gomos da Laranja

Ele abria a boca. E fechava. Abria de novo. E tornava a fechar.
Repetia o movimento de uma forma rápida e urgente. Como se estivesse com falta de ar. Como se estivesse a sofrer. O corpo dava pulos. Levantava a cabeça e o rabo. Ao mesmo tempo. Com força. Com tanta força que acabava por levantar, também, o resto do corpo. Saltitava assim, de um lado para o outro. Aos pulos. A boca repetia os mesmos movimentos. Abria. Fechava. Depois já estava mais devagar. Os movimentos repetiam-se, mas mais espaçados. Como se estivesse cansado. Cansado de viver. Ou de me ver a olhar para ele. Ele olhava-me com aqueles olhos húmidos e vivaços. Parecia assustado. Ou não. Podia ser eu que o via assim, não sei. Depois… Depois parou. Parou de saltar. Parou de abrir e fechar a boca. Parou. Ficou quieto. Eu peguei-lhe e levei-o até ao rio. Levei-o até à água. Entrei dentro do rio. Entrei no rio com as sapatilhas e os calções. A água até aos joelhos. Baixei-me e coloquei-o dentro de água. Nada. Nada de nada. Nem pulos. Nem abrir e fechar a boca. Nada. Levantei-o e olhei para ele. Os olhos estavam secos. Abandonados. Larguei o peixe na água do rio. Ainda esperei que, num momento, ele acordasse e começasse a nadar. Mas limitou-se a estar ali. Virado de lado. Quieto. A ser arrastado pela suave corrente.
Saí do rio. Voltei para a margem. Agarrei no frasco de vidro. Enfiei a mão lá dentro e agarrei no sapo. Coloquei-lhe um cigarro, que tinha roubado ao meu pai, na boca e apertei-a à volta do cigarro com a minha mão. Acendi um isqueiro e aproximei-o do cigarro. O cigarro acendeu. Começou a queimar. A criar cinza. Uma grande ponta em cinza. O sapo estava a fumar o cigarro e não conseguia deitar o fumo fora. Engolia o fumo todo. Começou a crescer. A inchar. Como um balão em festa de aniversário. Grande demais para as minhas mãos. Até que rebentou. Explodiu. Estilhaçou-se em mil-e-um pedaços. Mil-e-um pedaços de merda. Metade dele espalhou-se por cima de mim. Fiquei cheio de merda de sapo. Uns pedaços viscosos. Um cheiro imundo. Ainda tentei limpar a cara e o cabelo, mas as minhas mãos estavam peganhentas. Cheias de merda esverdeada. Cuspi. Cuspi pedaços que senti entrarem-me na boca. Que senti na língua. Mandei para o rio os pedaços me ficaram agarrados às mãos.
Senti-me triste. Triste, não. Zangado. Muito zangado. Furioso. A minha boca começou a tremer. Estava quase a chorar. Mas fiz força. Fiz muita força e não chorei. A minha cara fez carantonhas. Eu senti-as. Fez carantonhas enquanto eu me esforçava por não chorar com aquele susto enorme. Aquela explosão. Os restos do sapo em cima de mim.
Dei um pontapé ao frasco de vidro e mandei-o para o rio. Ainda o vi lá cair. Fez plof. E depois foi afundando. Devagarinho. Afastei-me do rio. Subi a margem. Vinha zangado. Vi um pequeno montinho de uma colónia de formigas e dei-lhe um pontapé. Arrasei com a colónia. Cheguei ao caminho. Decidi ir para casa.
À minha frente, a cruzar o caminho para o rio, um pato e cinco patinhos a seguirem-no. Corri para o pato e dei-lhe um pontapé. Errei. Mas o pato, assustado, deu um pulo-voo à minha frente, enquanto grasnava horrores, e os patinhos fugiam, cada um para seu lado, assustados. Eu desequilibrei-me e caí. Magoei-me. Torci o pé. Chorei de dores.
Acabei por me levantar, a chorar e a coxear, e fui para casa. Precisava de fazer queixinhas à minha mãe. Precisava do mimo da minha mãe.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/28]

Ninguém

Ela puxou a porta do carro e entalou-me os dedos. Doeu-me. Não me doeu muito porque a porta tem borrachas. Mas a violência do gesto ao fechar a porta fez-me gritar, mais do susto do que realmente de dor.
Tirei a mão. Ela olhou-me com os olhos semi-serrados. Senti-me fuzilado. Estaria a maldizer-me, claro. Eu coloquei a mão magoada debaixo do sovaco. Não sei porquê. Talvez porque sentia que ali estava protegida e faria diminuir a dor que, afinal, não tinha.
Vai à merda!, disse ela baixinho para mim, enquanto ligava o carro e arrancava estrada fora. E eu a vê-la partir. Podia ter-me partido a mão, pensei. Podia ter-me partido os dedos, continuei. Estava a precisar de mimo. Alguém que me dissesse Pronto, já passa.
Ninguém.
Olhei à volta. A estrada com carros. O passeio com pessoas. As lojas a funcionar, iluminadas, fantasiadas de alegria e boa disposição, antecipavam o Natal.
Ninguém.
Acendi um cigarro. Olhei novamente à volta. Vi um café do outro lado da rua. Fumei o cigarro ali, enquanto continuava a olhar à volta à procura de alguém.
Ninguém.
Porque raio é que ela faz estas merdas?, perguntava-me. Mais para ter assunto. Já sabia o que a casa gastava. Ela era assim. Eu era assim. Éramos os dois assim. Terminou assim. Podia ter terminado pior.
Acabei o cigarro. Cruzei a estrada. Entrei no café. Fui à casa-de-banho. Olhei-me ao espelho. Abri a torneira e lavei a cara com as mãos. Olhei a mão magoada. Voltei a olhar-me ao espelho. Tinha os olhos encovados. Não era bem olheiras. Era o contrário de olheiras. Os papos estavam para dentro. Molhei outra vez a cara. Abri a boca. Tinha as gengivas sensíveis. Um pouco inchadas. Pus água na boca e bochechei. Cuspi. Cuspi sangue. Olhei-me de novo ao espelho. As gengivas pareciam feridas. Estavam um bocado escuras. Toquei nos dentes. Abanavam. Mas não me doíam. Ando a comer muito pão, lembro-me de ter pensado. Ultimamente tenho comido pão com manteiga ao almoço e ao jantar. Molhei de novo a cara. Limpei-a a uma folha de papel. Era rijo, o papel. Não limpou muito, não absorveu nada e magoou-me. Ando muito sensível.
Eu e mais ninguém.
Fui ao balcão. Encostei-me. Uma rapariga, do lado de dentro, chegou-se ao pé de mim e pôs-se a olhar. À espera. À espera que eu pedisse o que queria pedir.
Eu não sabia bem o que queria. Que raio queria? Um café? Uma cerveja? Um Martinito? Um Favaios? E depois pensei que podia estar com escorbuto e disse Um sumo de laranja natural, se faz favor.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/12]

A Despedida

Estava sentado à mesa.
Estava sentado à mesa com o copo de vinho tinto na mão a desejar-lhe as maiores felicidades.
Fazia agora três anos. Três anos de ausência e saudade.
Três anos tristes em que vivi preso no lamaçal. Três anos em que as lágrimas me alimentaram a alma.
Agora estava ali sentado, a mesa posta para duas pessoas, a encetar um jantar que queria brilhante.
Costeletas de borrego grelhadas no carvão acompanhadas de esparregado de espinafres. Era o seu prato de eleição. Ela que nem gostava de borrego, mas as costeletinhas assadas eram um mimo que devorava à mão e lambia os dedos.
Acompanhava com um Mouchão tinto. Caro mas merecido.
Servi-me. Comi as costeletas à mão e fui falando, fui contando as estórias, as várias estórias que fomos vivendo nos anos todos que nos acompanhámos vida fora. Lambi os dedos. Um a um. Como se fossem os dela.
Cada copo de vinho rendido em homenagem. À tua. À tua que tanta falta me fazes. Tchim-tchim.
Mas acabou.
Tinha de acabar.
Queria seguir em frente.
Precisava de seguir em frente com a minha vida.
Aquele foi o adeus, o encontro de despedida. O encontro em que lhe repeti o quanto a amava, sim, a amava ainda, mesmo depois de três anos de ausência, mas precisava de seguir em frente.
Juntei todas as coisas dela num caixote. Fui até à praia e deitei-lhe fogo. Vi as cinzas serem levadas pelo vento mar adentro e gritei-lhes Vão ter com ela. Encontrem-na.
Acabei as costeletas de borrego. Acabei o esparregado. Despejei a garrafa. Comi e bebi por mim e por ela.
Dei uma volta pela casa. Cheirei. Vasculhei. Olhei a toda a volta, em todo lado. E descobri que já nada ali restava dela. Nem o cheiro. Nem a imagem. Nem os despojos.
Nunca a visitei no cemitério. Para mim ela tinha continuado por aqui. Comigo. Durante estes últimos três anos.
Mas hoje despedi-me.
Não queria mais lágrimas.
Hoje decidi renascer.
Mantenho aqui, neste cantinho, um bocado dela que não irá nunca desaparecer. Mas vou em frente. Estou cansado de viver com fantasmas. Preciso de pessoas. Preciso de sentir. Tocar. Ser tocado. Preciso de voltar a amar. E ser amado.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/16]

Um Homem Não Chora

Encontrámo-nos num café. Um sítio público para evitar grandes dramas. Somos adultos, mas é com facilidade que regredimos à adolescência. As emoções fazem-nos reagir cegamente. Às vezes mesmo sem ter ainda pensado sobre as coisas.
Estávamos, portanto, num café. Frente a frente. Calados. Eu mexia a minha chávena de café. Ela deixava o seu café esfriar sem lhe tocar. Eu ia mudando o meu olhar dela para o café às voltas dentro da chávena, arrastado para o vortex provocado pela colher às voltas. Ela, muito direita na cadeira, não tirava os olhos de mim. Não sei o que é que ela estava a ver. Mas não devia ser nada de bom. Eu tinha de desviar os olhos dela porque me sentia intimidado. Era um olhar frio. Quase gélido. Preferia o maelstrom na chávena.
Ela lá acabou por se mexer e colocou a mão direita na mesa. Olhei para ela, à espera do significado, porque tudo era estudado, tudo significava alguma coisa, quando não significava várias coisas ao mesmo tempo e eu ficava desesperado por não conseguir lá chegar. Eram demasiadas coisas para descodificar.
Ela colocou a mão direita na mesa. Eu olhei-a. E esperei. E quando ela retirou a mão, devagar, vi as chaves que deixava lá ficar. As chaves de casa. Da minha casa. De nossa casa.
Levei a chávena de café à boca. Achei o café amargo. E frio. Tinha mexido tanto o café que ele tinha acabado por arrefecer. Soube-me mal.
Ela levantou-se e disse A minha irmã há-de lá ir buscar o resto das coisas. Ela combina contigo. Adeus., e eu pensei Há-de lá ir o caralho!, mas não lhe disse. E fiquei calado a olhar para ela enquanto saía do café.
Lá fora vi-a ir ter com um tipo que a abraçou, e esteve ali algum tempo, a abraçá-la, a afagar-lhe o cabelo, a dar-lhe pequenos beijos na cabeça, como se ela estivesse a sofrer, como se ela tivesse descoberto ter sida ou cancro ou esclerose lateral amiotrófica. Seria possível que estivesse a chorar? Raios partam, choram por tudo e por nada, por estarem tristes e alegres, porque sim e porque não.
Afinal, foi ela que se foi embora. Fui eu que fui abandonado. Não me queres vir aqui mimar, a mim? Eu é que preciso do teu carinho, não ela. E acabei por sorrir enquanto pensava naquelas patetices, embora estivesse com vontade de vomitar por a ver nos braços de outro gajo.
Depois puseram-se a atravessar a estrada, mesmo ali onde estavam, longe da passadeira, e vi chegar um autocarro de passageiros que ainda travou – ouvi o barulho dos pneus a chiarem no asfalto -, mas que acabou por levar os dois de arrasto, estrada fora, por vários metros, deixando um rasto de sangue e restos de carne esfacelada para trás.
Levantei-me num ápice, mas para descobrir que ela tinha tirado a cara do peito dele e estavam a beijar-se, ali, mesmo ali frente à vitrina do café, ali onde eu os podia ver.
Olhei para as chaves largadas em cima da mesa e tive um pequeno soluço. Senti cair uma lágrima e irritei-me comigo. E pensei Um homem não chora, foda-se!. Pois, mas há alturas em que somos uns adolescentes de merda.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/15]