Em Alcobaça Há Maçãs, Mercedes, Turistas e um Rei do Toys R Us

Alcobaça. Praça 25 de Abril. Frente ao Mosteiro. Estou na esplanada. Numa das esplanadas viradas para a fachada do Mosteiro. Nas escadas de acesso à entrada, Dom Pedro V, rei de coroa de plástico falsa, espada do Toys R Us e capa de cetim vermelha, estende a mão ao grupo de turistas asiáticos (devem ser de um só país, mas não sei qual) que o fotografam em inúmeras fotografias todas iguais.
É fim-de-dia. Ainda está sol. Está frio. Estou numa esplanada em frente à fachada a beber um café e quando levo a chávena aos lábios, o café está frio. Frio e queimado.
Na Praça 25 de Abril, na praça onde em certos fins-de-semana se vendem velharias como antiguidades, está uma mãe com uma criança pequena. A mãe agarra a pila da criança na mão e aponta para uma árvore. A criança mija como os cães, contra a árvore raquítica e despida como são todas, ou quase, neste Inverno onde começou realmente, agora, a fazer frio.
O sol começa a baixar rápido. As sombras começam a invadir a fachada do Mosteiro. O rei continua de mão estendida. Dois autocarro param no parque de estacionamento ao lado e os asiáticos enfiam-se, rápidos, lá dentro. Vão-se embora. O rei bate com os pés no chão de pedra das escadas. Tem frio, provavelmente. O rei não é um cão. O rei tem frio.
Um Mercedes pára na berma da estrada frente à esplanada. Estaciona onde não pode estacionar. Mas é um Mercedes. Os velhos, que perderam a vista para o Mosteiro, refilam. Mas refilam em voz baixa. Nunca se sabe quem sai de dentro de um Mercedes. E quando a porta se abre, sai lá de dentro o filho do dono do Mercedes. Os filhos são sempre mais desligados destas coisas que os pais. Os filhos já nasceram assim, donos da vida. Da vida deles e da vida dos outros. Que importa que não se possa estacionar ali onde se quer estacionar? Que importa que se tape a vista aos velhos? Não deviam estar no lar? No cemitério?
Estava no meu solilóquio quando estaciona outro Mercedes atrás do primeiro. Agora é uma carrinha. Duas senhoras. Meia-idade. Bem vestidas. Cabelo de cabeleireira. Casacos quentinhos. Carros elegantes. Há muitos Mercedes em Alcobaça.
Alcobaça também é uma zona de muita fruta. A Maçã de Alcobaça é bastante conhecida e apreciada em todo o lado. Mas é impossível de encontrar no Pingo Doce. Santos da casa não fazem milagres.
Já não há sol. O céu ainda está azul, mas já não há sol. Fecho o casaco. O frio está mais forte. O rei foi embora e nem dei por isso. Os asiáticos também. Nem vi os autocarros a partirem. A mãe e o filho que mijava nas árvores do 25 de Abril também desapareceram. Já não há ninguém na praça frente ao Mosteiro de Alcobaça. Há algumas pessoas nas esplanadas, senhoras de casacos-de-pele e homens de sobretudo. Alguns jovens de fato-de-treino e banho por tomar.
Olho à volta e espero que alguém me convide para uma Cornucópia no Alcoa. Não há ninguém. Onde estão todas as pessoas da minha vida?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/25]

Gosto de Dançar Músicas Bonitas da Minha Infância

Hoje andei cá por casa a dançar.
Acordei cedo, com o sol a bater-me nos olhos e uma fome dos diabos. Liguei o rádio da mesa-de-cabeceira e espalhou-me The Windmills of Your Mind, na versão de Dusty Springfield, por toda a casa. Mandei o edredão para o fundo da cama com os pés e levantei-me de um pulo. Tinha vontade de mijar mas tive de refrear a vontade. Primeiro a dança. E foi a dançar que saí do quarto, percorri o corredor todo até à cozinha, fiz café, uma torrada, fumei o primeiro cigarro do dia enquanto esperava pelo café e pela torrada, no balanço de uma dança muito minha que me punha a bailar como me apetecia bailar ao som da música saída do rádio e que me inundava a casa como um perfume caro de boa disposição.
No fim da música lá fui mijar.
Desliguei o rádio, que não queria saber de noticiários, e acabei a beber a caneca de café e a comer a torrada cheia de manteiga Milhafre, manteiga que me escorria pelo queixo abaixo a cada dentada que lhe desferia.
Aproveitei a boa-disposição para aspirar a casa. Abri todas as janelas de todas as divisões da casa. A corrente-de-ar que sentia percorrer-me o corpo agradava-me. Fui à rua levar o saco do lixo. Só quando lá estava é que me lembrei que estava de cuecas. Na verdade eram boxers e passavam bem por calções. Estava calor e ninguém se sentiu incomodado com as minhas intimidades.
No regresso a casa tudo mudou.
Foi logo ao franquear a porta.
O sol foi coberto por uma nuvem cinzenta. A corrente-de-ar em casa tinha arrefecido e causava-me arrepios. Fechei as janelas todas. Começou a chover. Uma chuva que começou logo por cair violenta. Fiquei à janela da cozinha a ver a chuva a cair forte lá fora. E pensei As coisas boas nunca duram. E acabei a concluir E o Domingo é sempre o Domingo.
Agarrei num cigarro. Não cheguei a acendê-lo. Olhei-o, não senti vontade de o fumar, e acabei a amarfanhá-lo na mão. Lancei-o para o lava-loiça com um desprezo que nem parecia meu. Eu gosto de fumar.
Senti o meu corpo a desfazer-se. Senti o meu corpo a ir por mim abaixo até ao chão que tinha acabado de aspirar e desaparecer entre as frinchas das ripas de madeira.
Regressei ao quarto. Demorei a fazer o corredor. Parecia maior, mais comprido, sem fim, com um horizonte que se projectava para além de si próprio a cada passo que eu dava na tentativa de lá regressar.
Cheguei de novo à cama. Deitei-me. Puxei o edredão sobre mim, sobre a cabeça, e nem os olhos ficaram de fora.
E enquanto tentava adormecer, no quentinho confortável do edredão, pensei como gostava de dançar. Dançar sozinho. Só para mim. Sem ninguém ver. Gostava muito de dançar estas músicas bonitas da minha infância.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/29]

Éramos Jovens

Éramos todos jovens. Jovens, bonitos, elegantes e muito sensuais. Eu também era assim. Era o futuro. Aquele que, no presente, representava o futuro e nunca, nunca por nunca, seria passado.
As calças apertadas. As camisas abertas. A barba de três dias. O cabelo revolto ou o gel no cabelo. As discotecas. Os bares dançantes. As saídas de casa. O teatro. O cinema. Os concertos. As bebedeiras. As drogas. As noites de sexo que os pais, coitados, nunca tinham tido. Eram namoradas, amigas, amigas muito coloridas, conhecidas.
No alto da minha arrogância apontava o dedo acusador aos velhos que me tinham precedido. Não sabiam. Já não sabiam. Ria-me de os ver curvados, gordos, carecas. De perderem o fôlego numa pequena corrida. De não entenderem a tecnologia. De terem dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. De esquecerem onde tinham largado os óculos e não verem nada sem eles. Das roupas sem graça que usavam. Dos livros esquecidos que citavam. Das músicas parolas que dançavam. E como dançavam. Colados. Uns aos outros. A sentirem a transpiração uns dos outros.
Eu nunca usaria óculos nem bengala. Nunca mijaria nas calças nem na cama. De corpo direito e cabeça erguida nunca receberia ordens. Seria eu a dá-las.
O mundo era meu. Nosso. Nosso, dos jovens. Os que tinham futuro. Íamos ter trabalhos de grande responsabilidade mas cheios de glamour, com salários com que os nossos pais nunca puderam sonhar, e podíamos ir de férias para todo o lado. O mundo era o nosso quintal. A globalização tinha-nos dado a ideia de que podíamos ir a todo o lado. A internet levou-nos lá. As low-cost levaram-nos, de facto, a quase todos os lados. Mais a uns lados que outros que temos tendência para ir onde vai toda a gente. Precisamos de eco. Ver o que os outros vêm. Ouvir o que os outros ouvem. Ler o que os outros lêem. Ir onde os outros vão. Mas não uns outros quaisquer. Os nossos outros. Os meus outros. Os meus amigos. A minha tribo. O meu parâmetro de comparação. Fomos às mesmas ilhas das caraíbas, em resorts assépticos que a realidade é uma merda. Às mesmas cidades de cartaz. Quem não foi a Veneza? A Barcelona? A Paris? A Londres? Quem não passou férias na República Dominicana e em Cuba? Quem não foi a Jericoacoara? A Natal? Quem não sonhou em ir à Nova Zelândia? Mas já não chegámos lá.
Éramos a geração escolarizada. Todos aprendemos a ler e a escrever. A ter opinião e a deixar de a ter. Éramos superiores aos nossos pais que não sabiam ler ou tinham uma quarta classe tirada em adulto. Fomos os primeiros a levar livros para casa. Falávamos várias línguas. Íamos conquistar o futuro.
E saímos de casa dos pais para ir estudar. Estudar longe de casa – ainda se podia. E a pensar nunca mais voltar.
Como estávamos enganados.
E depois, depois de muitos anos de tudo a que nos julgávamos com direito, depois de muitos anos a tratar o mundo por tu, percebemos que nós éramos os nossos pais.
Eu percebi isso quando voltei para casa deles. Quando regressei, porque não podia ter sido de outro modo. Todo o meu conhecimento não foi suficiente para conseguir um trabalho bem pago. Sem capacidade de pagar uma renda de casa. Mais água. E gás. E electricidade. E o cabo. Como viver sem internet? Sem férias. Sem viagens. O mundo era meu, mas era digital. Estava lá, não estando. Um sonho que que só existia no Facebook, no Instagram.
Então, descobri que eles era eu. Eu era o velho. Era o gordo. Eu é que tinha os dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. O meu presente já não tinha futuro, só passado. Um passado cheio de esperança e ambição que não chegou ao presente.
Agora uso calças largas porque me são mais confortáveis. Óculos para perceber quais os comprimidos a tomar. Já não tenho cabelo. O sexo só por marcação e com ajuda do comprimido azul. Já não saio de casa sem a bengala. Na verdade, já não saio de casa. Tenho frio. E medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/04]

Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

Eu Sei!

Estou no carro. Vou a descer a estrada em direcção à Batalha. Ao fundo, sobre a montanha o céu está negro.
Estou a descer a estrada e sinto cair-me em cima uma enorme opressão sobre o peito. Não sei de onde veio. Caiu assim. Sobre mim. Entristeço. Largo por momentos o volante.
Esqueço-me que estou na estrada.
Pareço ter uma ninhada de ratos a roer-me as entranhas. A furar dentro de mim. A morder-me. A moer-me.
Ponho as mãos na barriga. Dói-me lá dentro. Mas não sinto nada. Não me dói nada físico. É só qualquer coisa lá dentro. Uma impressão. Que sobe até ao pulmões e os aperta. Dificulta-me a respiração. Respiro devagar. Respiro.
Tenho a cabeça a rebentar. Pende do pescoço. Quer cair e rebolar por mim abaixo.
Não cai. Mas eu queria que caísse. Que a cabeça caísse eu deixasse de pensar nos ratos que me comem cá por dentro.

queria fumar um cigarro beber um copo de vinho tinto ver o carmina burana pelos la fura dels baus o jogo sem interesse da selecção nacional contra a lituânia comer uma língua de vaca uma salada de orelha de porco uma salada de polvo com um molho de vinagrete beber uma cerveja belga blanche ir para a cama com a ana com a bela com carla com a dora com elas todas em separado ou juntas não importa quero mijar tomar um ben-u-ron caff contra a enxaqueca que me cega uma bombada de ventilan para respirar melhor usar preservativos para me proteger das intempéries ouvir o novo disco do devendra banhart ou ver o parasitas de bong joon-ho mas esse afinal já vi já vi e gostei bastante foda-se tanto cinema e análise social lá dentro um filme sobre a luta de classes já transportada para outro nível agora é a sobrevivência a qualquer custo e o salário mínimo é miserável e o médio não é grande merda e o salário do antónio mexia é pornográfico mas que se foda o antónio mexia e a edp e o antónio costa e o antónio saraiva e são todos antónios estes cabrões que já me chateia e agora até uma torrada de pão caseiro e barrada com manteiga milhafre dos açores ou primor meio-sal e um chá já me alegrava e podia levar para longe esta amargura que tenho dentro de mim que não sei de onde veio mas podia para lá voltar e deixar-me em paz de papo para o ar a apanhar banhos de sol na praia de são pedro de moel onde o sol nunca nasce antes do meio-dia e beijar a minha mãe o meu pai a minha filha o meu filho a mim num espelho onde me vejo de barba feita e cabelo penteado num eu que não sou mas que deveria ser dizem-me e beber uma garrafa de vinho branco talvez um verde alvarinho a acompanhar umas pernas de rã que comi uma vez e jurei que voltaria a comer porque gostei tanto mas tanto e nunca mais as vi as pernas de rã em lado nenhum e um pastel de tentúgal e um esquimó que dantes havia em todo o lado e agora em lado nenhum ou uma morcela de arroz que acho que ganhou um prémio qualquer que deve ter sido importante e eu só penso em comida não sei porquê que nem fome tenho mas ia ver o concerto do nick cave que afinal é só em abril e no altice arena que tem uma merda de som nunca lá vi nenhum concerto que me agradasse e agarrava agora na eliete da dulce maria cardoso para ler e porque é que não agarro no livro e o leio porquê porquê porquê porquê

E descubro-me dentro do carro a descer a estrada em direcção à Batalha e o céu está escuro como breu e começa a chover torrencialmente e eu vejo as mãos, as minhas mãos, a tremer por cima do volante que está solto, e baixo-as e agarro o volante e o carro e tomo a vida, a minha vida, nas minhas próprias mãos.
Sinto uma angústia enorme a consumir-me. Cá dentro. Cá dentro do peito. Do meu peito. Quero gritar mas não consigo. Tenho o volante nas mãos.
Vejo um camião TIR a vir no sentido contrário. Vem depressa. Eles andam sempre depressa nestas estradas. Eu conduzo na minha faixa. E, no último segundo, viro o volante do carro. E quero mesmo que seja o último segundo. E nesse último segundo ainda penso Eu sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/14]

As Dores de Nick Cave

Tenho de ter no meu horizonte um jogo do Benfica. Ou o lançamento de um livro de um autor de cabeceira. Ou o novo disco de uma banda do coração. Ou a estreia de um filme que penso poder ser extraordinário.
Tenho de ter um horizonte que me garanta motivo de vida. Vontade de galgar os dias que se seguem, secos. Um motivo para me fazer saltar da cama, largar o conforto do edredão, o cheiro a mim nos lençóis e sair para o frio da casa gelada, solitária e triste.
Há dias em que me agarro ao edredão e o puxo para cima da cabeça. Mergulho, inerte, naquela escura solidão. Não ouço o barulho da rua. Não vejo a luz do dia. Não saio da cama. Nem para comer. Nem para mijar.
Sinto-me afundar no conforto do colchão. Deixo todos os problemas lá fora. Sinto-me seguro. Livre. Quero deixar-me ir. Mas depois penso Quando é que o Benfica joga? E contra quem? Acho que quero ver! Quero ver o Benfica!
E então mando o edredão para trás, decidido. Aguento o frio da casa. Levanto-me. Vou mijar. Beber café. Comer uma torrada. Olhar pela janela para a rua, em dia de sol ou de chuva, suspirar e pensar que vou tomar um banho quente, vestir-me e sair de casa.
Coço o rabo com a mão por dentro do pijama. Ainda não estou convencido, embora já tenha decidido. Massajo os testículos. Cheiro os dedos. Tenho de tomar um banho.
Vou sair. Vou à rua. Mas vou escolher caminhar por ruas esconsas e escuras onde ninguém me veja e onde eu não conheça ninguém.
Não quero ter de vomitar sobre os sapatos de ninguém que pare para me dizer Olá, pá! Quero só dar uma volta pela cidade. Respirar o dióxido de carbono dos carros em fila na avenida de um só sentido. Escarrar para o chão as minhas tripas. E aguentar os dias que se sucedem uns-aos-outros até ao próximo jogo do Benfica e esperar que nenhum fim-de-mês se interponha entre mim e o meu futuro breve.
Desvio o olhar da janela. Acendo um cigarro. Sento-me na mesa da cozinha. Trinco a torrada seca. Bebo um gole do café frio. Sinto um novelo dentro de mim. Não descubro a ponta do novelo. Fumo o cigarro. Fumo-o à pressa enquanto acabo com a torrada seca que enfio toda na boca. Engulo o café frio que amolece a torrada seca. Acabo o cigarro. E corro até à cama. Passo pela aparelhagem. Carrego no Play. E deixo, em Repeat, o Ghosteen do Nick Cave & The Bad Seeds. Uma depressão só se combate com outra, penso. Enfio-me de novo debaixo do edredão. E digo, para me acalmar É só por um bocadinho. Só por mais um bocadinho. E penso Devia ter lavado os dentes. Mas acabo por não fazer nada do que devia. E ouço, lá ao fundo, na sala, as dores do Nick Cave.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Uma Vida Arrumada em Caixotes

Tenho a vida toda arrumada em caixotes. Em caixotes grandes e em caixotes pequenos. Cada memória tem o seu caixote. Tenho os caixotes numerados. Identificados. E depois arrumo-os todos na despensa, no roupeiro do corredor, por cima do guarda-fatos do quarto. Quando tenho necessidades, vou à procura dos caixotes. Há sempre um caixote para mim. Para aquele momento. Para aquele momento específico. Normalmente esta necessidade acontece-me quando estou bêbado, deprimido ou demasiado só. Mas às vezes é só mesmo saudades do passado.
Hoje abri um caixote. Um caixote à sorte. Um caixote que não me lembrava que tinha. E quando o abri, libertei uma série de fantasmas que contribuíram para ter chegado aqui, coxo, onde cheguei. Mas o mais importante foi mesmo a memória desses fantasmas. Não sabia que eles existiam. Que ainda os tinha. Descobri um caixote com bilhetes dos concertos da minha juventude. Bilhetes de uma época em que a bilhética era também uma forma de arte. Os bilhetes eram personalizados. Remetiam para épocas e para as tournées que as bandas estavam a produzir ou para os álbuns que andavam a promover. Descobri, com alguma surpresa, como a parte de trás dos bilhetes era um mundo cheio de informação numa altura em que ainda não havia Google, a internet ainda era um bicho de sete cabeças e eram ainda poucas as pessoas que tinham computador e sabiam o que era o Windows.
Coloquei o primeiro disco das 69 Love Songs dos Magnetic Fields, em época de vinte anos de aniversário, na alta-fidelidade. Abri a janela. Sentei-me no chão da sala. O caixote aberto. Acendi um cigarro. Meti a mão. E trouxe um monte de bilhetes.
Os meus olhos brilharam. Vários bilhetes dos Mão Morta. Naked City. Miles Davis. Vários do Nick Cave. Pogues. Lords of the New Church. R.E.M. Sundays. Durutti Column. Varios dos Metallica. Até Manowar e outras coisas assim, mais bizarras.
À medida que ia passando os bilhetes, ia-me lembrando de pequenas histórias que os acompanhavam. Coisas que me aconteceram. Pequenas estórias que vivi. Desatinos com amigos. Nascimento de amizades. Morte de outras. E o sexo! A quantidade de sexo que os concertos traziam. O que é feito desta minha vida?
Lanço a beata para a rua através da janela aberta.
Fecho os olhos.
Volto atrás no tempo. Regresso aos meus vinte anos. Que se foda o futuro. Este futuro. O meu futuro. Quem quer saber deste futuro de merda com um passado tão cheio? Volto à escola. Não, não à escola. À universidade. Ao Bairro Alto dos anos ‘80. Ao Cais do Sodré das putas e dos marinheiros. A uma Lisboa que me fascinava. Uma Lisboa provinciana, feia, malcheirosa, de prédios abandonados e a cair, mas cheia de vida e de gente com vida. Uma Lisboa de padarias abertas às cinco da manhã. Uma Lisboa de arrufadas e sardinhas assadas. De gente que falava alto e mijava nos cantos da cidade. Dos charros fumados às escondidas e dos selos passados de língua em língua. De namorados a correr de mãos dadas pelas ruas esconsas e de asfalto esburacado.
Volto atrás no tempo e não quero regressar mais. Fecho-me no caixote com os meus bilhetes e as minhas estórias. Que se foda o futuro que não é meu. Que se foda esta Lisboa impessoal, fria e gananciosa. Eu quero o meu mundo de paixões.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]