Os Gatos Lambem o Cu

Há uns anos vivi no meio da cidade, num pequeno apartamento de um quinto andar num prédio com dois elevadores que estavam, quase sempre, avariados.
Essa foi uma época em que andei realmente bastante magro. E em excelente forma física. Subia e descia as escadas do prédio várias vezes ao dia. E é preciso dizer que era um prédio antigo com pé-direito bastante mais alto que hoje em dia. Ou seja, mais degraus para subir e descer.
Data dessa época o meu primeiro gato. Quer dizer, não era bem meu, na verdade nunca tive um gato, como nunca tive um cão, como nunca tive um carro e como, na verdade, nunca tive uma casa realmente minha. Nada em que possamos usar aquela expressão de posse Meu! Este apartamento era emprestado, por um amigo, para o meu período de trabalho na cidade. Não sabia quanto tempo iria ficar por ali e acabei por aceitar o convite. Estive três anos na cidade. Três anos naquele apartamento. Mas paguei sempre a renda, claro. Nem poderia ser de outra maneira. Um valor para amigos, de qualquer forma. Mais barato do que seria uma renda normal. Como é que as pessoas conseguem pagar as rendas das casas na cidade? Como é que uma renda tem um valor superior ao trabalho? Bom, mas foi aí, nesse apartamento, durante esse período de vida no centro da cidade, que tive, mais ou menos, o meu primeiro gato.
Eu estava, num daqueles fins-de-dia de enorme calor, em cuecas, espojado no sofá, a beber uma cerveja e a fumar um cigarro, quando vi entrar, pela porta da varanda aberta, um gato todo preto, um ninja, a caminhar com ar de dono-da-casa, arrogante como só os cabrões dos gatos sabem ser, e vir-se enroscar junto a mim. Eu deixei-o ficar. Acabei o cigarro. Acabei a cerveja. Acabei por adormecer. Acabei por ser acordado pelo miar incessante do gato. Tinha fome, claro. Não se calou enquanto não lhe dei um pires com leite que lambeu enquanto o diabo esfrega o olho.
Ficou por ali. Às vezes. Outras vezes desaparecia. Acho que ia para o apartamento do lado. De onde deve ter vindo, originalmente. As varandas comunicavam, mas era preciso perícia para saltar de uma para outra sem cair lá em baixo, cinco andares lá em baixo.
Passei a deixar a porta da varanda aberta para ele entrar e sair. Dormia várias vezes aos meus pés. Enrodilhava-se em mim quando eu estava sentado no sofá a ver um filme. Acompanhava-me à varanda quando eu ia fumar um cigarro e beber uma cerveja. Por vezes descobria-o assim, no meio da cozinha, a lamber o cu, numa operação que me parecia difícil de entender, pela parte física e, especialmente, pela parte orgânica. Faz-me confusão imaginar a língua a limpar o cu. Mas isto sou eu, filho de uma burguesia religiosa cheia de tabus e culpa.
Um dia ao chegar a casa, descobri o gato caído cá em baixo. A cabeça desfeita. Deve ter vindo a bater com ela nas varandas dos andares por onde foi passando na sua queda de cinco andares.
Fui a casa buscar um saco de lixo. Agarrei naquele corpo mole, parecia um boneco, quente, ainda estava quente, e enfiei-o no saco do lixo e fui colocá-lo no contentor do rsu.
No início não me fez muita impressão mas, depois, com o passar das horas, comecei a pensar no gato, que nunca mais ia estar em casa à minha espera, nunca mais me iria fazer companhia a ver um filme francês de merda, nunca mais me iria aquecer os pés nas noites mais frias, nunca mais teria ninguém para escutar os meus monólogos como diálogos unipessoais. Aí deu-me uma certa fraqueza. Solucei, o meu corpo contorceu-se e cheguei ao choro. Ainda tentei espreitar para o apartamento do lado mas não vi nada. Nada nem ninguém. E nunca me vieram perguntar pelo gato.
Acho que foi nesse dia que decidi nunca mais ter gatos na vida.
E foi nesse dia, também, que percebi como sou um fraco de merda que nem as minhas mais simples decisões, como nunca mais ter um gato na vida, consigo levar a sério. Aprendi as minhas fraquezas nas decisões que tenho tomado ao longo da vida. Por todas as casas por onde tenho passado, tenho tido gatos. Ou já lá estão, e são das pessoas com quem vou viver, ou aparecem-me lá por casa, assim do nada, como aquele meu primeiro gato. Nunca mais assisti à morte de um gato. Mas os que me aparecem lá por casa, acabam por desaparecer pouco tempo antes de eu me ir embora. Não sei se eles percebem, presentem ou lá o que é. Mas desaparecem da minha vida como se não quisessem ser um incómodo, quando está na altura e eu ir embora.
Não percebo esta minha relação com gatos. Eu nem gosto de gatos. Eu gosto de cães. Mas há mais de vinte anos que não tenho nenhum. Sim, há mais de vinte anos. Também não gosto de pessoas e, no entanto, insisto em ir vivendo com elas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/01]

A Árvore em Chamas

O cão devia estar na casota. Eu não o via, mas ele devia lá estar. Metido para o fundo. Com o que estava a chover, os salpicos que batiam na laje frente à entrada da casota disparavam para todos os lados. O cão devia estar dentro da casota bem metido lá para o fundo para fugir à chuva.
Eu via a casota da janela do quarto. Tinha ido fechar a janela porque a água da chuva estava a entrar dentro do quarto. Tive de andar com uma esfregona a limpar o chão. O soalho é flutuante. Esperava que a madeira não enfolasse com a água da chuva.
Foi quando andava a limpar a água da chuva do chão do quarto que vi a casota e pensei no cão. Ainda não lhe tinha dado comida nenhuma. Mas também não ia sair com aquele tempo.
Os gatos nem os via. Mas esses, às vezes, andam por aí a passear debaixo de chuva. Às vezes vão brincar com o gato da vizinha. Mas mal ouvem a porta da cozinha a abrir, há sempre um, pelo menos, a vir a correr para o alpendre e roçar-se nas minhas pernas.
O cão não o via mas devia estar lá dentro, bem fundo na casota. Se continuasse a chover não ia comer. Ele não ia sair lá de dentro e eu não ia colocar comida que ia ficar toda molhada. Não, ele não ia comer.
Depois de ter arrumado a esfregona, olhei em volta, em volta de mim, em volta de mim dentro de casa a pensar que raio iria fazer sem me apetecer fazer nada com o tempo chuvoso que estava; pensei em acender a lareira mas não estava frio nem eu tinha lenha para queimar; pensei comer um bolo daqueles estúpidos de pão-de-ló e iogurte que a minha mãe costumava fazer e lhe chamava o Bolo das Cerimónias mas a minha mãe já não estava ali para fazer o bolo e eu não sabia fazer bolos, na verdade nem gostava de bolos, estranhamente estava a apetecer-me uma fatia, e quem dizia uma fatia podia dizer duas ou três fatias de bolo e ficar ali em pé, no meio da cozinha a olhar para a chuva a cair lá fora na rua, dali não via a casota do cão, e pensava se este meu desejo por qualquer coisa doce não denotava alguma carência, nomeadamente afectiva já que me encontrava recluso em casa ia já para uma série de semanas, semanas essas sem contactos com quase ninguém e fisicamente com ninguém mesmo até que resolvi ir até à casa do vizinho pedir uma garrafa de vinho, ou talvez duas ou três.
O vizinho era na verdade uma vizinha, uma vizinha com quem já tinha tido um pequeno caso amoroso, bom, na verdade mais sexual que amoroso, que terminara mal e por isso já não nos falávamos. Mas precisava de um doce e, à falta de melhor, olhar para a cara da minha vizinha, mesmo que a dois ou três metros de distância, e quem diz cara diz o resto do corpo, era bastante tentador.
Peguei no chapéu de chuva e saí de casa. Ainda não tinha descido as escadas do alpendre quando apareceu um dos gatos a miar e a circular entre as minhas pernas. Já venho, pá! disse-lhe e o gato até pareceu ter entendido e sentou-se no chão do alpendre a ver-me descer as escadas.
Foi nessa altura que começou a chover mais ainda, uma chuva violenta, torrencial. Começou a trovejar. Vi uns relâmpagos a riscarem o céu para os lados das montanhas.
E, depois, ainda não tinha chegado ao portão de saída quando um raio caiu sobre uma das laranjeiras do quintal que, como uma acendalha, desatou em fogo imediato.
Fiquei parado a olhar a árvore a arder. Precisei de alguns segundos para perceber o que tinha acontecido. Estava fascinado. Nunca tinha visto nada assim. Voltei para trás. Voltei para o alpendre. Larguei o chapéu. Os gatos apareceram todos de todo o lado e ficaram a olhar para a árvore a arder. O cão não apareceu. Acendi um cigarro. Encostei-me à ombreira da porta da cozinha a olhar, com um certo prazer, para a laranjeira a arder. E pensei para comigo É melhor não ir a casa dela. É melhor ficar por aqui. E enquanto via o incêndio, perguntava-me se ainda me restava um bocadinho de gin. Ou de vodka.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/05]

A Morte a Rondar

De novo a morte. Ela ronda. Anda sempre a rondar. Como se quisesse dizer que está ali, sempre presente. À nossa espera. Que não somos mais que ninguém. Que todos temos um bilhete de ida e volta e, o regresso, é inevitável.
A morte não precisa de se anunciar ao nosso lado. Não precisa ser dentro de casa. Não. Basta ser à distância. É só um lembrete. Quem julgas que és?
Hoje foi assim. Primeiro um aviso noticioso no telemóvel. Depois as redes sociais. Primeiro timidamente, em seguida de jorro. Por último a televisão.
Não se lhe pode escapar. Não era dentro de casa. Era exterior. Mas um exterior que andou anos e anos a entrar em casa através da televisão, dos livros, das ideias. Um nome muito presente se bem que um pouco esquecido nos últimos anos. Mas basta um pequeno clique para que tudo venha à tona.
A morte. A morte de alguém é sempre a consciência da nossa própria mortalidade.
Dou por mim encostado à ombreira da porta da cozinha a olhar lá para cima, para as montanhas. O dia está limpo. O céu está azul chroma. Não há nuvens. Vejo na perfeição os contornos das montanhas e as poucas árvores existentes naqueles montes carecas estão recortados no céu.
Será assim a morte? Uma luz tão forte e tão branca que não vejo nada e só lembro os dias ensolarados da minha vida? Ou uma escuridão de breu onde nada existe a não ser o sonho da minha própria morte numa repetição sem fim?
Divago.
Tenho uma relação muito estranha com a morte. Não me mete medo, mas incomoda-me. Não tenho medo que chegue quando achar que deve chegar, mas chateia-me quando me leva quem eu amo e queria ter aqui ao meu lado para sempre. Pelo menos para todo o meu sempre.
Estou encostado à ombreira da porta da cozinha a olhar lá para cima, para as montanhas. Acendo um cigarro. Penso que posso morrer um dia destes de cancro do pulmão. Mas não me impede de aspirar, com algum prazer, o fumo, e prendê-lo nos pulmões.
O gato vem ter comigo. Roça-se nas minhas pernas enquanto faz curvas impossíveis entre uma perna e outra. Senta-se à minha frente a olhar, apático, para mim. Mia. Mia sem grande convicção. Acho que mia porque é da sua condição miar. Mas tem comida na tigela. E água. A areia das necessidades está limpa. A cama sacudida, embora prefira dormir em qualquer lado menos na cama que lhe destinei.
Olho para o gato e pergunto-lhe O que vai ser de ti quando eu morrer? E o gato levanta-se e vai-se embora. Ignora-me. Acho que eu preciso mais dele que ele de mim.
Apago o cigarro. Entro em casa e ponho um tacho com água ao lume. Vou cozer um bocado de esparguete. Depois misturo atum. Está a apetecer-me comer algo assim, simples e estúpido. Vou partilhá-lo com o gato.
Fico sempre assim, perante a morte. Não tenho medo. Mas incomoda-me. E dá-me para a estupidez. Como comer esparguete com atum.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/03]

As Ninhadas

O Óscar não tem aparecido. Aliás, nunca mais apareceu desde que hibernou no final do Verão passado.
O tempo também não tem estado convidativo para pôr o seu sangue frio ao sol. Com excepção de alguns, poucos, dias de calor em Maio, e agora em Espanha e França, demasiado longe para ele viajar, a verdade é que o tempo não tem convidado ao bronze nem ao despertar hibernal.
O facto da população de felinos ter aumentado tanto por aqui também pode ter contribuído para a ausência do Óscar.
Quando o Óscar apareceu da primeira vez, não havia por cá gatos. Entretanto, depois do Óscar ter-se despedido do Verão, chegou a primeira gata. Prenha. Da ninhada sobreviveu uma gata. Passou quase um ano. A gata voltou a emprenhar. Deu à luz quatro gatos. A filha sobrevivente da ninhada anterior também emprenhou e deitou cá para fora cinco gatos. Entretanto, salvei dois gatos arraçados de siamês que foram largados na rua e estavam famintos. As gatas adoptaram-nos. Por isso, agora, cá por casa há… Há muitos gatos. É só contá-los.
Muitos gatos mas não o Óscar. Tenho saudades daquela pose majestática e fixa, digna da estatuária das Caldas.
Entretanto, com os gatos voltou a entrar leite cá em casa. Não lhe suporto o cheiro. Páro de respirar enquanto corto a ponta do pacote para despejar o leite por três ou quatro caixinhas de plástico para os gatos beberem. Enquanto bebem, molham-se uns aos outros a lamberem-se e a abanar os bigodes. São uns pequenos javardos. Mas são engraçados. Passam o tempo a brincar uns com os outros.
Desde que os gatos entraram cá em casa, não tenho tido necessidade de estar com pessoas. Os gatos são uma boa companhia. Andam por onde querem. Às vezes invadem a casa dos vizinhos. Já me trouxeram maços de cigarros e um pacote com erva. Caçam coelhos, ratos e pássaros. Já apanharam uma toupeira. Fez-me reler O Covil do Kafka que tinha para aí, perdido, numa edição da Europa-América. Dei conta que ainda tinha algumas edições da Europa-América. As coisas que se descobrem por casa.
Os gatos dormem bastante. Não me chateiam. Só quando estão com fome é que vêm para aqui todos miar que até parecem uma banda sinfónica. Dez mil anos depois entre Vénus e Marte.
Os gatos são também uns excelentes ouvintes. Leio em voz alta coisas que escrevo e eles ouvem. Às vezes de olhos fechados para intuírem melhor o que eu digo. Nunca dizem mal. Não refilam. Não se chateiam com a música que eu ouço. Nem se incomodam por eu não ter tomado banho nem lavado o cabelo todos os dias. Às vezes lambem-me os dedos dos pés. A rir, pergunto-me porquê.
Comecei por lhes dar nomes. Mas perdi-me. Esquecia-me. Eram demasiados. Passaram a ser todos Gato. Mesmo as gatas. E funciona.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/01]

O Silêncio

Reina o silêncio cá dentro de casa.
Páro no corredor. Vou a caminhar, descalço, pelo soalho de madeira e páro. Escuto o silêncio que está em casa. Não ouço nada.
Aos poucos começo a descobrir que este silêncio é mentiroso. Aos poucos começo a descobrir pequenos sons que matam o silêncio.
O primeiro som em que reparo é o da minha respiração. Tento respirar em silêncio, mas não consigo. Tenho uma respiração pesada. Respiro pela boca. Tenho o nariz entupido. Respiro pela boca e a boca fica seca. Ouço a respiração. Não é ofegante. Mas é sonora. E não consigo que não seja.
Depois percebo uma mosca ao fundo na sala. Ou se calhar não. Se calhar é aqui mais perto de mim. Não tenho uma audição tão boa. Não me é possível ouvir uma mosca a voar ao fundo, na sala. Ou é?
Com atenção, ainda percebo um ping-ping de umas gotas que caem no depósito de água da sanita.
Ouço uns estalos nos ossos do meu corpo. Primeiro nos joelhos. Talvez pelo esforço de estar aqui assim, em pé, parado, no meio do corredor. Depois as costas. Faço força para me endireitar e os ossos das costas estalam e parece que o corredor amplia o som dos ossos a estalar como uma caixa de ressonância.
Não ouço mais nada.
Retomo o caminho. Ouço-me a caminhar. Ouço os pés nus a colarem-se e descolarem-se do soalho de madeira. Vou até à sala. E ouço uma folha do jornal a esvoaçar. Mas é impossível. Não há janelas abertas. Não há corrente-de-ar. Não se produz vento. Como é que a folha do jornal esvoaça?
Vou até à janela. Olho lá para fora. Está lá o gato, sentado num muro. O gato olha para mim e abre a boca. E eu ouço o gato miar. Eu ouço o gato miar do outro lado de uma janela com vidros duplos e a uma distância de, talvez, cinco metros.
Uma águia a planar sobre a casa chama-me a atenção. Levanto o olhar. Observo-a. E ouço o som das asas a cortar o ar fffffffffffff. Vejo-a a cair sobre a terra. Desaparece atrás de umas árvores. Logo depois volta a subir. E leva algo nas garras.
E então começo a ouvir uma música como se fosse uma banda sonora. Uma banda sonora do filme da minha vida. E isto soa-me ao que John Barry fez para o Out of Africa.
E eu penso que devo estar a sonhar. Belisco-me. Dói-me. Magoo-me. Dou um berro. Acabo com o silêncio. E não percebo o que se passa comigo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/20]

As Notícias do Dia Incomodam-me

Vim para o alpendre. Parou de chover. Descobriu o sol. O tempo está quente. Peguei na Catedral de Raymond Carver, que ando a reler, e sentei-me aqui fora. No alpendre.
Ao fundo as montanhas limitam-me o horizonte. Por cima, no céu azul, umas nuvens brancas como algodão doce.
Acendi um cigarro. Estou a fumar. Ainda não abri o livro. Ainda não recomecei a ler. Estou a pensar nas notícias que me acordaram hoje de manhã e que têm andado por aqui a calcar a cabeça. Não sei bem o que é que tudo isto quer dizer, mas não é nada bom, tenho a certeza.
Aquela história no Brasil assusta. A obscuridade. Os estudantes têm de limitar a sua rebeldia. Os estudantes, numa idade de revolta, de busca por identidade, de procura do conhecimento, de experiências e experimentação, têm de se comportar com juizinho. As raparigas e os rapazes não podem usar piercings e, os rapazes, nem brinco, que isso é coisa de maricas e maricas não, senhor! As calças não podem andar arregaçadas. Nenhum deles pode usar boné, boina, chapéu. Agora há militares armados nas instalações escolares a garantir a execução das novas normas de conduta. A filosofia vai desaparecer. A sociologia também. Todas as ciências sociais vão deixar de existir no currículo académico. Todas as disciplinas que possam ajudar a desenvolver a capacidade de raciocínio e ajudar a pensar, vão deixar de ser leccionadas. O Brasil quer ser um enorme curso técnico-profissional. Os alunos vão aprender ofícios que possam ajudar a erguer o novo país alicerçado no Boi, na Igreja Evangélica, na pistola na ponta da mão e na destruição da Amazónia. Amén.
Estou com azia.
Acabo o cigarro. Olho para a capa da Catedral que ainda não abri e pouso o livro na mesa de apoio. Olho para as montanhas lá em frente.
O Presidente americano, que se gaba de ser um excelentíssimo negociador e um notável homem de negócios, acabou por não conseguir levar a bom termo nenhuma das negociações a que se propôs, nomeadamente com a Coreia do Norte de Kim Jong-un. O Irão é o que se sabe. Israel, ainda está para se ver. O New York Times descobriu, por sua vez, que durante anos, Donald Trump não pagou impostos por ter perdido, em poucos anos, mais de mil milhões de euros. Um homem ancorado em mentiras sobre mentiras. Um arrogante construtor de mentiras que lhe abriram o caminho à presidência, a criar um novo género da fazer política. O que nos faz pensar na educação que (não) se dá ao povo. Um certo tipo de povo. Arredado do conhecimento. Da cultura do pensamento. Do raciocínio. Um voto na mão a eleger quem desdenha desse mesmo voto.
Sinto a garganta seca. Um nó no estômago. Uma certa angústia. As notícias deixam-me deprimido. É para isto que aqui chegámos?
Acendo outro cigarro.
Penso nos banqueiros. Penso nos banqueiros que não acham justo que não se paguem os movimentos no Multibanco. Penso nas caixas Multibanco que andam a ser substituídas por caixas ATM. Estas a pagar. E penso que não é justo que o dinheiro que não é deles tenha de lhe passar pelas mãos. Não é justo que os meus poucos euros dêem várias vezes a volta ao mundo a multiplicar os lucros dos banqueiros e eu não veja sequer a cor dele. Não há retorno. Nunca há retorno. Penso que não é justo os banqueiros utilizarem o meu dinheiro e não me pagarem nada por ele e obrigarem-me a pagar por toda e qualquer acção que eu faça com o meu dinheiro. Penso como não é mesmo nada justo que os seus lucros sejam distribuídos pelos accionistas e os seus deficits sejam cobrados aos contribuintes que não têm nada a ver com aquilo. Não, não é mesmo nada justo. Quero deixar de utilizar os bancos. Ou seja…
Ou seja, não! Odeio esta expressão. Repetir as mesmas coisas por outras palavras. Admitir que não me exprimi bem da primeira vez. Não! Que porra!
Sinto-me enterrar na cadeira. Fumo o cigarro. Sinto-me pequeno. Cada vez mais pequeno e enterrado na cadeira. As montanhas continuam lá à frente. Verdes. Um verde-azeitona. O céu azul. Umas nuvens largadas um pouco à sorte sobre o céu, como açúcar largado por cima de uma arrufada.
Os gatos e o cão pressentem a minha tristeza. O caminho aberto à depressão. Os gatos roçam-se nas minhas pernas. Miam. Não sei o que é que querem. Talvez darem-me mimo. O cão lambe-me a mão. Passa a língua pelo cigarro. Queima a língua. Gane. Deita-me o cigarro ao chão. O cigarro apaga-se inundado de saliva. Eu digo, baixinho, És mesmo bruto, pá!
Ela aparece com dois copos de vinho tinto. Dá-me um.
Ficamos ali os dois, mais os gatos e o cão, a olhar as montanhas lá à frente e a pensar no tempo que nos resta. E que tipo de tempo é que nos resta.
Acendo outro cigarro. E penso há quanto tempo é que não vejo o Óscar. O sardão cá de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/08]

Cães e Gatos e uma Moca de Rio Maior

A gata teve uma ninhada. Quatro crias. Duas amarelo-creme, daquele amarelo-creme dos labradores. Um branco-persa. Um preto-ninja. Três gatos e uma gata. A gata é um dos amarelo-creme labrador. Pelo menos é o que me parece. Posso estar enganado quanto ao sexo. Mas o sexo também já não é o que era. Afinal, podem ser outra coisa qualquer. As cores são aquelas. Mas também podem mudar com a idade. A sujidade. A comida. O tempo. O sangue dos coelhos, ratos e pássaros que irão caçar. O sangue das feridas infligidas pelos cães da vizinhança.
A gata teve a ninhada num caixote de cartão que eu coloquei no telheiro nas traseiras da casa. Enfiei lá dentro uma camisola antiga minha. Uma camisola de algodão, daquelas com capuz, marca de street wear, que eu usava quando ainda achava que era jovem. Desde que eles nasceram que a gata tem estado dentro do caixote com as crias. Sai para ir miar para a porta da cozinha, logo de manhãzinha, para me dizer que tem fome e precisa de leite. Não pára de miar enquanto não lhe fôr dar um pires com leite meio-gordo. Depois regressa ao caixote. As crias atacam-lhe logo as tetas. Esfomeadas. Às vezes até parecem engasgarem-se, tal a sofreguidão.
Embora seja muito protectora das crias, e estar sempre a afugentar os outros gatos, mostra-lhes os dentes, faz Ffffff, e fica com o pêlo eriçado, a mim deixa-me aproximar. Já mexi nas crias para ver o sexo. Ela não me disse nada. Andou só por ali, à minha volta, a roçar-se nas minhas pernas, atenta ao que eu estava a fazer.
Ontem à noite, no entanto, houve um acontecimento que perturbou a gata. E a mim.
O cão conseguiu furar a rede do quintal da frente da casa e entrar para as traseiras. As traseiras onde está o telheiro, o caixote, a gata e as crias.
Eu acordei com o cão a ganir à beira da janela do meu quarto. Fui acordado. Fui acordado com o cão a ganir. Eram quatro da manhã. Parecia mesmo que estava ali, à beira da minha cabeceira. A ladrar-me dentro da cabeça.
Primeiro ainda pensei que andava alguém lá fora a querer assaltar a casa. Levantei-me da cama. Agarrei na moca de Rio Maior que tenho ali ao pé da cama e fui nu para a rua, pronto para o que desse e viesse. Acendi a luz do quintal. Abri a porta. Pus os pés na rua e vi o cão. O cão que não devia estar ali, mas estava. E estava preso. Tinha entalado uma pata entre as lajes que circundam a casa. Um pouco mais à frente estava a gata, corpo encolhido numa curva ascendente, com o pêlo eriçado, a mostrar os dentes ao cão e a fazer Ffffff para o avisar que estava ali para proteger as crias e que ele não se aproximasse e que voltasse para o seu lado da casa. Como se ela, antes das crias, também não andasse sempre a azucrinar a vida ao cão. Mais ao longe, os outros gatos estavam sentados em cima do pequeno muro a assistir a todo este teatro. E depois cheguei eu. Nu. Descalço. De moca de Rio Maior na mão. Com cara de sono. A refilar com todos eles.
Consegui retirar a pata do cão presa nas lajes. Não estava ferida. Mas o cabrão do cão, contente, fartou-se de pular à minha volta e para cima de mim e acabou por me arranhar e sujar todo. Depois olhou para o gato e percebeu que não devia estar ali. Pôs o rabo entre as pernas, deu meia-volta e voltou para a frente da casa. E eu vi por onde é que passou. Pensei que no dia seguinte tinha de arranjar aquela rede. Ainda não arranjei. A gata miou-me, a refilar comigo, como se eu tivesse alguma culpa, e acabou por regressar, mais descansada, para o caixote e para o pé das suas crias. Os outros gatos continuaram em cima do pequeno muro a ver tudo. A olhar para mim, ali, nu, com a pila a abanar e uma moca de Rio Maior na mão. Antes de entrar em casa ainda vi, em cima da relva, um melro morto. Algumas penas a voar. Olhei para os gatos. Eles fingiram que não tinham nada a ver com aquilo. Mas eu não acreditei.
Entrei em casa. Fui tomar um duche. Voltei a deitar-me. Vi passar as cinco. As seis. As sete horas. E eu sem voltar a pregar olho. Cabrão do cão. Cabrões do gatos. Todos os gatos. E o melro, também. Não dormi nada. Depois comecei a rir. A rir que nem um desalmado. E disse alto O melhor é levantar-me! Cabrões!
E fui para a cozinha fazer café fresco. E ainda ia a rir. A pensar na noite anterior. E a rir.

[escrito directamente do facebook em 2019/05/07]

De Regresso

Regresso da minha ausência.
Os gatos correm para mim a refilar. Não param de miar. Parecem dizer-me Oh meu cabrão! Por onde é que andaste? Onde está o jantar?
O cão também se manifesta. Mas está contente. Abana o rabo e salta à minha volta. Lambe-me as mãos. Eu tento afastá-lo mas ele insiste. Os gatos zangam-se com ele. Os gatos zangam-se com toda a gente. Mas dura pouco. Não tarda ignoram-me. A mim e ao cão. Voltam para o alpendre e deitam-se sobre o muro a dormitar.
Ainda há um resto de luz do dia. Muitas nuvens. Nuvens coloridas. Em tons de cinza rosados. Ou tons de rosa acinzentado. Parece um céu roubado ao quadro de algum anónimo renascentista encontrado à venda nas feiras de rua.
Entro em casa. Sinto o cheiro a mofo da casa fechada. Mas gosto de sentir o cheiro da casa no meio do mofo. Gosto de regressar. Vou olhar as prateleiras onde estão os livros. Confirmo que estão cá todos. Que nenhum deles fugiu.
Abro as janelas. Não as vou ter abertas por muito tempo porque o dia está a cair. Mas vai ser o suficiente para arejar a casa e fazer desaparecer a maior parte do cheiro da humidade que paira por aqui.
Dou comida aos gatos para se entreterem e não entrarem em casa pelas janelas abertas. Tenho de fazer redes mosquiteiras para as janelas. Para mantê-las abertas e deixar os gatos, o sardão e toda aquela população alada do lado de fora. Há três anos que me prometo o mesmo. Fazer as redes mosquiteiras. Não me levo muito a sério. Mas um dia destes…
Gosto do silêncio que recupero. Por aqui não há muito barulho. Vou para ligar o leitor de cd’s e desisto. Ligo a televisão. Num canal noticioso. Quero ouvir as notícias. Anda tudo em polvorosa. Parece que se fotografou um Buraco Negro pela primeira vez na vida. Ouço dizer que esta fotografia vem comprovar a Teoria da Relatividade da Einstein. Não entendo como. Nem porquê. Quero tomar atenção ao noticiário para ver se percebo. Acabo a ouvir sobre a nova vitória eleitoral de Benjamin Netanyahu em Israel. Penso que as pessoas continuam a ser o elo mais fraco da democracia. Penso que as pessoas não pensam, são dirigidas por quem lhes diz o que acham que querem ouvir. Penso que as pessoas são um desastre à mercê delas próprias. Penso que os mesmos que conseguem fotografar um Buraco Negro à distância de milhões de anos-luz são também os mesmos que escolhem ser dirigidos por gente menor. Penso que as pessoas procuram sempre um paizinho-idiota que lhes pague as bebedeiras em Benidorm e se ocupe das questões que não querem compreender.
Ainda agora cheguei a casa e já sinto crescer uma pequena depressão.
Mas gosto de estar em casa.
Desligo a televisão. Desligo-me do noticiário.
Abro uma garrafa de vinho. Volto ao alentejano. Tinto.
Sirvo-me de um copo e vou para o alpendre. Acendo um cigarro e sento-me a olhar as montanhas lá ao fundo à espera que a noite caia.
E penso Depois deste copo tenho de ir fechar as janelas. Está a arrefecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/10]

Foto-Sinto-Me

Está frio.
O sol chama-me lá para fora. Saio. Saio de casa. Passo o alpendre. Vou até ao quintal. Desço a ladeira até à estrada de terra batida.
O sol está quente. A rua é mais quente que a casa. A casa é fria.
Não há carros.
Ouço, ao longe, um cão a ladrar.
Vejo, lá em cima no céu, o chemtrail de um avião. Para onde irá?
Do outro lado da estrada, um casal de velhos está a podar as oliveiras. Lembro-me de os ter visto a apanhar a azeitona. Agora podam as oliveiras. Ouço a velha Vê lá se me cortas o dedo, Velho! Sorrio.
Abro os braços. Deixo o corpo espreguiçar-se. Todo eu tremo. É bom sentir o corpo a espreguiçar-se. Pareço crescer.
O sol está quente. Gosto do sol quente no Inverno. Não gosto do Inverno.
Quero regressar ao Verão.
Quero chegar ao Verão. Mergulhar no mar. No mar da Nazaré. Rever o nevoeiro matinal de São Pedro de Moel. Comer um arroz de marisco no Coelho, na Vieira. Umas navalheiras no Tonico, em Paredes de Vitória. Beber umas imperiais no Casino, no Pedrogão. A ver o Atlântico. Sempre a ver o Atlântico.
O gato veio ter comigo à estrada de terra batida. Roça-se na minha perna. Sobe a uma oliveira. Olha para o casal de velhos. Depois vira-se para mim e mia. Quer leite.
Subo a ladeira. Gosto de sentir o sol a bater-me nas costas. Na cabeça. Sinto-me retemperado.
Entro em casa. Regressa o frio. A casa é fria, já tinha dito. Tremo. Visto um casaco. Um casaco de lã. Abro o frigorífico. Agarro o pacote de leite e vou ao alpendre despejar um pouco num pires para o gato.
Largo o pacote de leite no murete do alpendre. Desço as escadas. Volto ao sol. É aqui que estou bem. É aqui que sinto. Que me sinto. Foto-sinto-me.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos. Fumo o cigarro, debaixo do sol, de olhos fechados. A vida às vezes é simples. Bem simples.
Hoje joga o Benfica.
Que me interessa o estado do mundo quando posso estar assim.

Um dia visitei as cataratas de Iguazú. Confluem lá três países. Argentina. Brasil. Paraguai. Eu estava no lado argentino. E via os outros dois lados. Mas o que vi realmente foi o poder de toda aquela água a cair. A fúria. O voo. O som. O princípio e o fim. O princípio e o fim de tudo. Vi a água levar-me. Lavar-me. Abençoar-me. E achei que podia morrer. Depois de ver Iguazú, podia morrer. Feliz.

Abro os braços. Capto o sol. Recebo todo o calor que consigo. Guardo todo o conforto que me dá.
E, depois disto, posso morrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/11]

Chateei-me com a Cidade

Chateei-me com a cidade. Com as gentes da cidade. Com as manias da cidade. Com a arrogância da cidade.
Peguei numa mochila e saí. Fui passar uns dias ao campo. Fui para passar uns dias e ainda estou por cá. Respiro calma. Tenho tempo. Larguei os comprimidos. Bebo mais vinho. Garrafas sem rótulo. Directo do produtor para o meu prazer. Às vezes é muito agressivo. Às vezes arranha. Às vezes preciso de um Kompensan para matar a acidez que me inflama a garganta.
Tenho por companhia uns gatos sem nome. A gata-mãe. Os gatos filhos da gata-mãe. Um é preto. Outro amarelo. O outro é malhado. Se calhar são gatas, não sei. Chamo-lhes gatos, genericamente. Também tenho a companhia do piruças. O piruças é um cão e está preso a uma casota. A casa não tem muro e ele não pode andar por aí à solta. Os gatos andam soltos e não saem daqui. O cão, liberto-o de vez em quando. Ele sai disparado, está ausente por um bocado, visita os amigos da vizinhança, e depois regressa. Há por aqui, também, o Óscar. Mas não sei por onde anda. Deve estar hibernado. Já não o vejo desde o fim do Verão. O Óscar é um sardão, verde, bonito, arisco. Mas não liga nada a ninguém. É um solitário.
Quando vim da cidade trouxe poucos livros. Não esperava ficar cá muito tempo. Mas fiquei. Já li tudo o que trouxe. Mais que uma vez. Pus-me a vasculhar as gavetas aqui de casa. Encontrei umas edições das Selecções do Reader’s Digest. Umas revistas de banda-desenhada de cowboys, antigas, a preto e branco. E um livro do Raymond Carver. Catedral. Numa tradução do João Tordo. Uma edição relativamente recente, portanto. Fiquei admirado, mas foi assim como um raio de luz a entrar cá dentro. Cá dentro da alma. Iria ser um prazer relê-lo.
É Domingo.
Levantei-me cedo. Fui à missa. Aqui, às vezes vou à missa. É uma das minhas acções sociais. Depois passei pelo café da aldeia e bebi um Martini branco, com gelo e um bocado de gin. O gin era Bosford, o que não me trazia boas recordações. O fígado retraiu-se. Mas não havia outro. Não podia ser mariquinhas! Bebi aquele Martini e pedi outro. O fígado há-de habituar-se.
Regressei a casa e almocei galinha guisada. Com grelos. A vizinha que mora no início da rua, ao saber que um homem morava sozinho nesta casa, vem cá de vez em quando saber se preciso de alguma coisa. Traz-me sopa. Guisados. Fruta. Legumes. Uma ou outra garrafa de vinho do marido. São produtores para consumo próprio. Têm uma pequena vinha. O vinho é mau. Mas mata a bicharada que tenho dentro de mim. Às vezes também me lava a roupa. Mas tenho sempre pouca para lavar. Mudo menos de roupa, por aqui. Às vezes nem tomo banho. Ajuda com o frio. Ando dias inteiros sem me aproximar da banheira. Os dentes sim. Lavo-os três vezes por dia. Às vezes quatro.
Hoje dava o Benfica. Ia ver o jogo ao café. Mas era só ao final da tarde.
Aproveitei este tempo, entre o almoço e o jogo, para começar a ler a Catedral. E comecei:
“O marido de Sandy tinha estado sentado no sofá desde que fora despedido, três meses antes. Naquele dia, há três meses, chegou a casa pálido e assustado e com as suas coisas do trabalho dentro de uma caixa.”
Este cabrão do Carver! Tenho sempre a sensação que está a falar de mim. A expor a minha vida. A tecer considerações sobre as minhas opções. Sobre os vazios da minha vida. Sobre os meus erros. Que porra!
Ou então sou eu que ando a transformar-me numa personagem do Raymond Carver.
Fui buscar uma garrafa de vinho daquele meu vizinho que produz para consumo próprio. Um maço de cigarros. Sentei-me à lareira. Continuei a ler. A beber. A fumar. E esqueci o mundo.
Era já noite quando parei de ler. Tinha esquecido o jogo do Benfica. Os gatos miavam aqui à porta. O cão ladrava na casota. Queriam comer. Fui levar-lhes ração, que era o que tinha. Havia uns restos de ossos da galinha, mas ia dá-los ao cão só amanhã.
Gosto de estar por aqui. Ainda não fiz as pazes com a cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/06]