Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]

Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

O Mundo a Fazer uma Barrela

Olhei para o céu e vi passar os aviões cheios de munições. Mais tarde haveria de os ver regressar bem mais leves, vazios de munições, depois de não-sei-quantos curdos mortos no norte da Síria.
Estava no alpendre. Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro.
Na casa do outro lado da estrada havia festa. Uma festa popular. Muito popular. Muita gente a dançar ao som de música popular. Havia vinho. Cerveja. Espumante. Umas jovens em biquínis diminutos mergulhavam numa piscina. Nas varandas, nas várias varandas da casa, apareceram várias pessoas, uma em cada varanda. A música foi desligada. As pessoas pararam de dançar. Pararam de beber. Ficaram paradas com os copos nas mãos. As raparigas pararam de nadar na piscina e toda a gente prestou atenção. Todos olharam para as varandas. Em silêncio. Atentos. Cada um olhava para a sua mas toda a gente parecia estar a olhar para todas as varandas ao mesmo tempo. Numa varanda estava Jair Bolsonaro. Na outra, ao lado, Donald Trump. Na outra a seguir estava Nicolás Maduro. Depois Viktor Orbán. E Recep Erdogan. Ao lado, Vladimir Putin. A seguir estava Boris Johnson. Logo depois Mohammad bin Salman. Colado estava Xi Jinping. Depois outras personagens que não identifiquei logo. E lá no canto, na última varanda, que afinal não era uma varanda mas uma janela, estava André Ventura. Que raio é isto? Como é que a casa em frente tem tantas varandas? E janelas? E toda esta gente? Quem é esta gente toda? E o que está aqui a fazer à frente de minha casa?
Os homens nas varandas, e o que estava à janela, começaram a discursar. Todos a uma voz como se fossem um só. Em todas as línguas do mundo que eram uma só. E toda a gente atenta a ouvir. Os homens que discursavam estavam com os olhos vermelhos, injectados de sangue, escorria-lhes uma baba verde, ácida, pelos cantos da boca e cuspiam perdigotos sobre as pessoas enquanto falavam com elas, enquanto lhes cuspiam palavras de ódio. As pessoas pareciam hipnotizadas. Batiam palmas. Uivavam. Anuíam. Concordavam. E começaram também elas a babar. Babar ódio. O terreno em frente começou a ficar inundado de tanta baba. Depois os discursos pararam. Apareceram uma moças quase despidas, de seios proeminentes, a erguer umas placas sobre a cabeça com alguns dizeres: Eu Primeiro; Eu à Frente; Eu De Novo em Primeiro; Ordem e Progresso; Acima de Todos Eu, Acima de Mim Deus.
Achei tudo muito interessante. Mas estava com sede. Levantei-me e fui buscar um copo de vinho. Regressei ao alpendre. Acendi novo cigarro.
Ao fundo, vi as montanhas a abanar, como se fossem de gelatina. Tremiam como varas verdes. As vacas que sobreviveram deixaram de ter leite e passaram a dar manteiga. As ovelhas perderam os caracóis e ficaram com o pêlo liso e escorrido. Depois um furação passou por cima das montanhas e levou as turbinas eólicas pelos ares. Deixou umas nuvens escuras, carregadas de água, que largaram tudo sobre as pedreiras que devastavam as montanhas e inundaram os vales, arrastaram casas e carros e os camiões de transporte de pedras das pedreiras e devastaram as quintas e quintais como as pedreiras tinham devastado as montanhas.
A água veio pela montanha abaixo, o rio e o ribeiro galgaram as margens, houve inundação em todo o lado e acabou por terminar com a festa na casa em frente, do outro lado da rua. As varandas foram destruídas e as pessoas que lá estavam foram arrastadas pelas águas furiosas e zangadas. Ainda vi a cabeça do André Ventura a tentar manter-se à tona da água que corria violenta.
Não chegou cá acima, felizmente.
Deu-me uma certa agonia. Cuspi para o chão do alpendre. Pensei que eu vivia num cantinho do céu guardado por Deus. Via todas as desgraças a acontecerem lá longe. Do outro lado da estrada. Longe do meu alpendre.
Depois senti um trovão a ribombar sobre mim, sobre a minha cabeça, e pensei Falei cedo demais, porra!
Foi então que me levantei da cadeira do alpendre e resolvi entrar em casa. Nesse momento voltavam os aviões turcos, mais leves, depois de terem despejado toda a munição sobre os curdos que, coitados, andaram a salvar-nos do Daesh e agora estavam a ser dizimados.
Ainda antes de entrar em casa senti um aperto no coração. Virei-me para trás e percebi. Ao ver a enxurrada levar toda a gente na fúria das águas, percebi. Alguns amigos de infância estavam naquela embrulhada. Eram levados. Eram levados para longe. Alguns morriam. Morriam cheios de ódio. E senti-me triste. Triste por eles. Depois pensei que isto era o mundo a dar uma barrela.
Entrei em casa e fechei a porta nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/13]

Esgotado em Menos de Uma Hora

Estava há uma semana no Rio. Uma semana para cima e para baixo. A subir e a descer os morros. A percorrer a Avenida Atlântica a bater os chinelos nos pés. Ia à praia. Mergulhava. Deixava-me tostar um pouco naquele sol de Inverno. Sobrevivia aos camelôs da praia que me queriam vender de tudo. Regressava a casa para almoço. Antes de subir no elevador, tinha de limpar todos os grãos de areia presos no corpo, nas pernas, nos pés. Dormia a sesta. Depois voltava a sair. Percorria a Zona Sul toda a pé e debitava, de cor, entre dentes, a Puta de Rogério Skylab

Você vai ao samba.
Uma cabrocha: só no sapatinho.
Gostosa!
No final das contas vocês vão pro motel.
Transam a noite inteirinha.
Trinta dias depois ela volta. Grávida.
E quer ter o filho.
Conclusão: você vai pagar pensão pro resto da sua vida.
Ela te ama? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Mas você insiste.
Não entrega os pontos.
Vai ao shopping.
Quer comprar uma calça Lee.
Uma vendedora vem ao seu encontro.
E te trata pelo nome, como se fossem íntimos.
Gostosa!
E sensual! Provocante!…
Você não enxerga mais nada.
Compra calça, cueca, meia, sapato.
Conclusão: ela é uma vendedora? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Cidade do Rio de Janeiro.
Zona Sul.
Garota de Ipanema.
Gostosa!
Você quer morar lá.
Tem money? Não!
Então, não pode não.
Conclusão: essa cidade te ama? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Calma! Que é isso?
Você tá tão revoltado!, disse a psicanalista diante do meu delírio.
É que todas as coisas que eu via – criança, fábrica, escola… –, todas elas pareciam putas.
Trinta minutos depois, eu paguei a consulta.
E voltei sozinho pra casa.
Com aquela sensação:
Puta! É puta!

Parava nos botecos e bebia um chope. Comia um pastel. Frito. Enorme. Sentia o estômago crescer. Inchar. Uma gravidez psicológica. Então caminhava mais e mais. Caminhava até ao fundo da Zona Sul. Eu e Rogério Skylab. Até Ipanema. Até ao Leblon. Regressava. Um cigarro na mão. O olhar ao longo daquela enorme praia invernal, como se fosse um Verão na costa atlântica portuguesa.
Na Sexta-feira passei na Bienal do Livro. Comprei alguns. Romances. Ensaios. Poesia. Banda-desenhada.
E então, vi-os chegar. Uma trupe entroncada. Armada. As botas cardadas a pisar as havaianas. Os corpos musculados a fazer tremer os corpos lingrinhas e frágeis. A brigada dos bons costumes a passar sermão à multidão de costumes liberais. A Bíblia numa mão. O cassetete na outra. A vistoria aos sacos de plástico. Não pelo plástico. Pelos livros. Pela subversão. Pelo descaramento. O olhar fulminante. O olhar que mata. A mão nervosa a apertar o cassetete. A vontade. A vontade. A vontade de bater pau no miserável impróprio.
Eu não abri a boca. Agarrei os meus livros contra o peito. São meus. Circulei à volta das bancas. E vi. Vi gente a comprar livros. Livros impróprios. Um olho no burro e outro no cigano. Também quero! E é o quê? Um beijo! Um rapaz que beija outro. Um desenho de um rapaz a beijar outro rapaz. As editoras a vender. A despachar livros atrás de livros. Os bons, os maus e os impróprios. Venderam-se milhões de livros. Tudo servia para mostrar a falta de medo perante um poder que se sente estremecer nos seus alicerces.
Em casa vi o material impróprio. Um beijo. Dois rapazes, super-heróis da Marvel, trocam um beijo. Um simples beijo. E não são ungidos em nome de Satã. São só dois rapazes apaixonados que trocam um beijo. Uma boca de encontro à outra. Dois lábios que se tocam. Duas línguas que talvez se toquem. Um desejo que talvez desperte. Esgotou em menos de uma hora.
Puta! É puta!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/09]

Queria Voltar para a Cama

Senti-me sacudir. Abri os olhos. Era ela. Estava com a mão no meu ombro. Tinha acabado de me sacudir suavemente. Viu-me abrir os olhos e disse Acorda!
Eu acordei. Ela ajudou-me a sentar na cama. Abriu as cortinas das janelas e libertou a luz do sol que me cegou momentaneamente.
Há quanto tempo não via a luz do sol?
Ela aproximou-se de mim e disse Vamos sair. Não sei como é que a minha cara expressou o meu desapontamento, mas ela sorriu e disse E não há discussões!
Ajudou-me a levantar da cama. Primeiro uma perna. Depois a outra. Os pés enfiados nos chinelos. Depois o corpo. Upa! E foi comigo até à casa-de-banho. Eu conseguia caminhar, arrastando um pouco os pés, é claro, mas conseguia caminhar. E levava a mão sobre o ombro dela para me equilibrar.
Mas eu queria era voltar para a cama.
Despiu-me o pijama. Ajudou-me a entrar dentro da banheira. Eu esperei, encostado à parede, enquanto ela colocou o banco dentro da banheira, em cima do tapete. Eu sentei-me. Ela ajudou-me. Ligou a mangueira do duche. Temperou a água. Deu-me o chuveiro para as mãos e saiu da casa-de-banho. Deixou-me sozinho para me conseguir lavar à minha maneira e não me sentir pior do que já sentia.
Quando sentiu o esquentador a desligar, veio buscar-me. Ajudou-me a sair da banheira. Secou-me o corpo com uma toalha de algodão já usada (não gosto de toalhas novas, não aderem). Amparou-me no regresso ao quarto. Perguntou-me o que eu queria vestir. Foi buscar as roupas e ajudou-me a vesti-las.
Depois saímos. Saímos de casa. E eu queria era voltar para a cama.
Entrei no carro com a ajuda dela. Depois entrou ela. Pôs o cinto. Ligou o carro. Perguntou Tens fome? E eu acenei a cabeça, na esperança que ela não notasse a minha concordância. Ligou a rádio e arrancou.
Sorri quando vi os arcos dourados. Já nem me lembrava da última vez que tive o prazer de comer um hambúrguer com as mãos, e os molhos a caírem pelos cantos da boca e o gás da Coca-Cola a fazer-me arrotar. Olhei para a escadaria e pensei que não ia conseguir subir aquilo. Mas ela foi directa ao McDrive. Para mim um McRoyal Cheese. Para ela um McBacon. Batatas fritas com ketchup para os dois. Coca-Cola para os dois também. Ela arrancou o carro mas parou logo ali, no parque de estacionamento, de frente para a estrada. Eu via os carros a passar à minha frente. Sentia-me num Drive In. A estrada era o ecran.
Estava calor. Abrimos os vidros do carro. Passava uma pequena aragem. O cheiro das batatas fritas ia embora. Trincava com prazer o hambúrguer. Lambia os molhos dos dedos. Sorvia a Coca-Cola. Ia olhando para ela. O prazer não era o mesmo que o meu. Mas notava-lhe a alegria de me ver assim, com este ar de satisfação. Quando acabei de comer, amarrotei tudo dentro do saco de papel. Ela também. Saiu do carro e foi depositar os sacos no lixo. Eu estava contente de ter saído de casa. Mas, agora, agora eu queria era voltar para a cama.
Ela arrancou com o carro. Meteu-se na auto-estrada e levou-me até à Nazaré. Fizemos a marginal de carro. Eu ia olhando tudo aquilo que já não via há tanto tempo. Subimos ao Sítio. Depois continuou para norte da Praia do Norte. Parou numa pequena arriba solitária. Não havia lá mais nenhum carro. Abrimos de novo os vidros do carro. Deixei-me inebriar pela maresia. Aquele cheiro da Nazaré é único.
Ela fumou um cigarro. Deixou-me dar uma passa. Depois sorriu para mim e disse Está calor! e sorriu. Saiu do carro, sempre a olhar para mim e a sorrir. Depois começou a correr e a descer a arriba. Deixei de a ver. Endireitei-me no banco para a procurar. Descobri-a já lá ao fundo, na praia, a acenar um adeus, e a despir-se enquanto corria, às vezes de frente, a despir-se, às vezes às arrecuas a dizer-me adeus. As peças de roupa iam ficando lá para trás, no caminho. As calças. A t-shirt. As meias. Não via as sapatilhas. Talvez tenham ficado fora do meu campo de visão. O soutien. As cuecas. Quando tirou as cuecas fê-las rodopiar por cima da cabeça e mandou-as para longe. Virou-se para mim, nua, abriu os braços e riu muito. Depois virou-me costas, foi a correr até ao mar e mergulhou na primeira onda que encontrou.
Vi-a a nadar por momentos, em frente.
Depois pensei E se ela não volta?
Eu queria voltar para a cama.
Não, não queria. Queria vê-la, ali assim, ao pé de mim. Nua. Molhada. Salgada pelo mar. Desejável. Não, eu já não queria voltar para a cama. Mas ainda tinha um longo caminho a percorrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/16]

Um Mergulho na Piscina

A miúda chegou. Foi ter com os outros miúdos. Mandou os chinelos a voar. Tirou logo as calças. A blusa. Largou tudo no chão. Depois fez pose para mostrar o fato-de-banho novo. Reduzido. Fluorescente.
Eu estava no meu canto. Sentado na cadeira. À sombra de um chapéu-de-sol. Quantos anos teria a miúda?, pensei. Dezasseis? Dezassete? Não, definitivamente não. Dezoito anos. Decidi que tinha dezoito anos para não ser atormentado pela culpa. E continuei a olhar para a miúda à beira da piscina, em pose para o grupo de amigos, a mostrar o corpo, o fato-de-banho, aquele conjunto que tapa-e-revela.
E, no fim de tudo, eu ainda gostava de olhar para as miúdas.
Ela virou costas ao grupo e mandou um salto para a piscina, e mergulhou, com as mãos à frente do corpo.
Eu senti um tremor. Imaginei que senti um tremor quando a vi mergulhar na água da piscina. Mantive o olhar ansioso sobre as águas. Sentia umas gotas de transpiração a escorrer-me pelas frontes.
Vi-me há trinta anos atrás. Vi-me assim, num estúpido ritual de acasalamento qualquer. Numa brincadeira animalesca para gáudio dos meus amigos. Para brilhar aos olhos das miúdas. Corri. Corri ao longo da relva da piscina, uma correria elegante, o corpo direito, os braços a cortarem o ar, os cabelos a esvoaçarem sobre os olhos, cheguei à zona das lajes, senti um ligeiro escorregar dos pés, mas percebi-os suficientemente seguros para ganhar impulso, saltar para o ar, sobrevoar a água cheia de cloro, sentir-me o super-herói da piscina, as miúdas de boca aberta, espantadas com a elegância do meu salto, o mergulho na água como uma agulha, a escapar ao atrito, a furar o espelho de água como se fosse uma vara e ir fundo dentro da piscina e esqueci-me que ali, daquele lado, a piscina era baixa, e já ia tarde quando me lembrei, e foi nesse preciso momento em que me lembrei que senti a cabeça a bater no fundo da piscina e senti a dor, um choque eléctrico, e desapareci de mim, deixei de me recordar do que quer que fosse, que já não era eu, pelo menos não era eu acordado, consciente, e só voltei a tomar-me por conta numa cama de lençóis brancos e impecavelmente esticados, e algumas pessoas ao meu lado, reconheci nelas a minha mãe, o meu pai e vi-os a chorar e percebi o que lembrava de ter percebido logo no momento imediatamente antes de apagar e ficar tudo negro Estou fodido! E estava. Estava fodido. E o mundo acabou ali. Naquela cama de hospital.
Nunca chorei.
Passaram muitos anos. E agora estava ansioso por causa do mergulho da miúda. Não devia ter vindo aqui, à piscina.
Revirei os olhos para o lado e disse à rapariga que estava sentada, não muito longe de mim, a ler um livro, não consegui ver a capa, não sei que livro era, e disse-lhe Leva-me daqui. Ela pousou o livro no chão. Vestiu-se. Arrumou as suas coisas e colocou as mãos sobre a cadeira, destravou-a e começou a girá-la . Eu ainda tive tempo de ver a miúda a subir as escadas para sair da piscina e ir, molhada, ter com o grupo de amigos que a esperava deitado sobre a relva.
Eu suspirei aliviado. Mas ainda sentia umas gotas de transpiração a correrem-me pelo pescoço abaixo. A rapariga, baixou-se enquanto empurrava a cadeira e disse-me Foi uma boa manhã. Temos de cá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/05]