Agir sem Pensar

O tipo chamou-me ao escritório. Não havia lay-off. Alguns iam ser despedidos. Aos outros teria de baixar o salário. Era a crise. A crise atinge-nos a todos, não é? Ele queria que eu ficasse. Com menos um terço de salário. A fazer o meu trabalho e o do tipo que ia mandar embora. Eu mandei-o para o caralho e vim-me embora.
Vim para casa.
Agora estou aqui em casa sem trabalho nem dinheiro e sem saber o que fazer.
Acendo um cigarro, olho para a ponta incandescente e pergunto o que é que seria da minha vida se não pudesse fumar? Se a minha bronquite se agravasse e eu não pudesse mais fumar? Quando o dinheiro se me acabar e não puder comprar mais tabaco?
Abro a porta da despensa. Olho para as prateleiras. Prateleiras vazias. Ou quase. Um quilo de arroz. Duas latas de conserva de atum com feijão frade. Uma lata de salsichas. Um pacote de pevides para a canja. Já está ali há anos. Há quantos anos não faço uma canja? Desde que a minha mãe deixou de me dar galinhas caseiras, que ela própria criava no quintal das traseiras de casa, da casa que era a casa dela e onde eu nasci e vivi até vir embora, a mesma casa que ela deixou quando o meu pai morreu e ela decidiu ir para a cidade, para não estar sozinha, para andar pelas ruas a ver montras e pessoas. Para ver pessoas! O que importam as pessoas? Por causa disso fiquei sem as galinhas dela, galinhas cheias de gordura com as quais fazia uma bela canja e, às vezes, uma cabidela, quando ela me guardava o sangue das galinhas degoladas no quintal das traseiras pelas suas mãos firmes e decididas. Eu nunca consegui degolar uma galinha.
Olho para a despensa e pergunto o que é que vou fazer com isto. Também há uma lata de feijão encarnado. E milho. Quem é que comprou milho? Eu nem gosto de milho. Milho em lata. Para fazer salada?
Sinto uma tontura.
Acho que reajo mais depressa do que penso. É o que se chama agir sem pensar. Talvez devesse pensar um pouco mais antes de fazer as merdas que faço. Ser mais pragmático. Um salário mais baixo é melhor que salário nenhum, não? Mas mais trabalho por menos salário?
Oh, foda-se!
Saio de casa rápido e deito fora o resto do cigarro. Saio a correr. Preciso de correr. Cansar-me. Impedir a cabeça de pensar no que não deve. Desço a alameda a correr. Para baixo todos os santos ajudam. Levanto bem os joelhos. Estico os braços. Saio o portão e viro à esquerda para a aldeia. Não sei se chego a fazer quinhentos metros. Não chego às portas da aldeia. Falta-me o ar. Páro. Encosto-me com uma mão a uma árvore. É difícil respirar. Sinto a pieira. A pieira na minha respiração. Preciso de um cigarro, mas é melhor não fumar agora. Descanso um pouco aqui em pé, encostado à árvore, e regresso a casa.
Oh, foda-se! E agora começa a chover!

[2020/08/18]

Persisto ou Desisto?

Persisto ou desisto?
Estou aqui no alto das escadas, acima da cidade. Ao fundo, na linha do horizonte, elevado e a roçar as nuvens que se atravessam neste céu azul de um Verão que está para durar, o castelo. Vista daqui, Leiria até é uma bonita cidade. O problema é quando nos aproximamos dela.
Acendo um cigarro. Sinto o fumo encher-me os pulmões.
Faço uma panorâmica sobre os telhados da cidade. Uma cidade envelhecida. Mesmo a sua modernidade é velha. Uma mancha verde que diminuiu. Assim, vista daqui, não parece uma cidade velha e triste.
Começo a descer as escadas de pedra. Degrau a degrau. Escavadas pelo anos. Pelos pés ao longo dos anos. Enquanto tento pensar. Enquanto tento tomar decisões. Temos sempre de tomar decisões.
O meu corpo chocalha enquanto desço. Pequenos saltinhos agitam o meu corpo já pouco musculado e com excesso de gordura. Cada passada abana-me a barriga, o peito, as peles dos braços. Muita comida de merda. Muito pão. Muitos fritos. Muita gordura. Muita comida barata. Comida para encher a barriga, não para alimentar o corpo.
Desisto?
Sinto um soluço bloquear-me a voz interior. Acaba-se o monólogo. Continuo a descer as escadas com a angústia a apertar-me a garganta e tento recuperar a calma, a lucidez. Não, não devo desistir. Não posso desistir.
Desço o último degrau. Coloco o pé na baixa da cidade. Entro pelas traseiras da esplanada do Liz Bar. Umas mesas por levantar. Há restos de marisco. Deixaram as cabeças do camarão. As pessoas não comem as cabeças do camarão. É a melhor parte. A mais saborosa. Onde todo o sabor se fixa.
Sento-me numa das mesas e começo a comer as cabeças dos camarões ali deixadas por quem não sabe apreciar. Bebo o resto da cerveja dos copos abandonados. Chupo as cabeças. Lambo os dedos sujos. Limpo as mãos às calças rotas e sujas. Limpo o nariz à toalha da mesa, à toalha de pano branca que está sobre a mesa, sob as taças com as cabeças de camarão que acabei por chupar e comer. Assoo-me. Há quantos anos não como uns camarões?
Vale a pena persistir?
Vindo lá de dentro, de camisa branca e calças pretas, a abanar um guardanapo branco, o empregado enxota-me. Se calhar tem medo que eu lhe roube a gorjeta. Mas não há dinheiro nas mesas. Nem notas nem moedas. Só as cabeças de camarão destruídas que eu já devorei.
Levanto-me da mesa e continuo pela cidade fora. Ou será pela cidade dentro?
Acendo outro cigarro. Soube-me bem, as cabeças dos camarões. Mas lembra-me outros tempos. Tempos em que eu também era outro. Em que eu podia pagar os camarões. E já nessa altura comia as cabeças. Sempre gostei das cabeças dos camarões.
Páro junto ao lancil do passeio. Há muitos carros a cruzarem a cidade. Passam depressa. Grandes carros. Boas marcas. Há dinheiro, em Leiria. Eu não tenho pressa. Mas pergunto-me se vale a pena. Desisto? Persisto? Tenho um pé em suspenso sobre a estrada. A estrada cheia de carros que voam com pressa para qualquer sítio. E eu? para onde é que quero ir?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/13]

Saio Cada Vez Menos de Casa

Saio cada vez menos de casa. As pessoas andam radicalizadas. Sem paciência. Explodem por qualquer coisa. Refilam por tudo e por nada. Optam por posições extremadas. Estão sempre uns contra os outros. Já não aceitam que os outros também possam ter razão. Ou que há mais verdades para além da verdade de cada um. Eu também. Eu também expludo com facilidade. Não é um acaso. Os últimos capítulos da minha vida, encaminharam-me para aí. Acho que as coisas estão a ser feitas para isso. Estamos a ser canalizado. Alguém quer pôr o mundo a arder. Eu sei que isto parece mais uma teoria da conspiração, mas a verdade é que há cada vez mais lógica na ilógica de tudo isto. É por isso que fico cada vez mais por casa. Para não fazer merda. Para não me meter por caminhos de onde não consiga sair. Para não ter de me arrepender. Para não ter de me arrepender tarde demais.
Hoje saí.
Fui à Nazaré beber café. Acabei a beber duas imperiais porque estava calor e fiquei cheio de sede. Sentei-me numa esplanada. Numa esplanada onde não havia espaço para as distâncias de segurança. As pessoas estavam ao monte. Fui também para o monte. Sentei-me. Percebi que tinha de ir ao balcão buscar o que queria. Não havia serviço de mesas, o que não deixa de ser uma contradição nos dias que correm. Entrei no café e percebi que só havia uma pessoa a trabalhar. É essa pessoa que atende os pedidos. Que coloca os pedidos em pequenas bandejas. Recebe o pagamento. Mais tarde também percebi que era essa mesma pessoa que depois ia levantar a louça usada que se acumulava nas mesas da esplanada e disparava um spray, provavelmente desinfectante, sobre as mesas e passava, rápido, um pano sobre as mesas desinfectadas e depressa regressava ao interior para atender mais gente. Há gente a ser despedida nestes dias. Há gente em lay-off nestes dias. E há gente a fazer um trabalho de cão, muitas vezes pelo preço de um salário mínimo. Há muita gente a sofrer nestes dias. Mas também há muita gente a aproveitar estes tempos para encher os bolsos à custa dos outros. A riqueza é criada quase sempre à custa dos outros.
Acho que é ver este tipo de situações que me deixa da maneira que ando.
As pessoas estão egoístas. Gananciosas. Más. As pessoas são filhas-da-puta e se se apanham com um bocado de poder, por mais pequeno que seja, são filhas-da-puta em todo o seu esplendor.
Estava já na segunda imperial quando me apercebi de um burburinho no outro lado da esplanada. Várias pessoas estavam em pé a olhar para o alto. Para o cimo do prédio onde ficava o café. Para as varandas estendidas sobre a esplanada.
Também olhei. Mas não vi nada. Só gente agitada. Vi pessoas a sacudirem-se. O bruá das vozes em crescendo. Alguém erguia um punho fechado, ameaçador, lá para cima. Depois, aos poucos, apanhando uma conversa aqui e outra ali, lá percebi. Alguém lá de cima despejou lixívia sobre as pessoas na esplanada. Havia gente a tirar as camisolas. Miúdos a chorar. Mulheres a gritar. Homens indignados. Eu próprio acabei por ver camisolas com pintas descoloridas. E depois, ouvi a pessoa que estava a trabalhar sozinha, parada à entrada do café a dizer, Já não é a primeira vez.
Um homem, um homem forte, com tatuagens a cobrir os braços e uma barba enorme que saía para fora da máscara social, disse Aí não? e levantou a cadeira de madeira onde estava sentado, mandou-a contra o chão, partiu-a em vários pedaços, pôs-se a escolher um pedaço e acabou por se decidir por uma perna, comprida e forte, arrancou em direcção à entrada do prédio, deu um pontapé na porta de vidro que se estilhaçou em mil-e-um pedaços e desapareceu dentro do prédio.
Na esplanada, e à minha volta, caiu um manto de silêncio. Sentia-se a ansiedade a bater nos corações de muitas daquelas pessoas. Outras continuavam a conversar como se não fosse nada com elas. Eu queria ir-me embora. Regressar ao sossego de casa. Mas, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo queria saber como é que aquilo iria terminar.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/05]

O Meu Irmão

Eu tive um irmão que não chegou a sê-lo. Se ele fosse, se calhar era eu que não era.
A minha mãe teve um filho nado-morto antes de mim.
Pergunto-me muitas vezes o que é que seria do mundo, deste mundo, se o meu irmão tivesse nascido vivo? Se ele existisse! Eu existiria? O mundo seria igual? Haveria mundo se eu não existisse para o conceber? Se eu próprio não tivesse sido concebido?
Perguntei várias vezes à minha mãe, no papel de filho único, se o meu irmão, aquele que eu não tenho, se ele tivesse nascido vivo, eu teria sido concebido?
A resposta da minha mãe nunca foi sonora. Ri-se. É sempre o que faz. Ri-se. Ela ri-se de mim. Um sorriso silencioso, mas rasgado. Não confirma nem desmente. Vejo-a de Cornetto de morango nas mãos, a sorrir para mim, sem me responder.
Aquele irmão que não chegou a ser, aconteceu cinco anos antes de mim. Eu, provavelmente já não deveria ter existido, tendo existido o meu irmão. Os meus pais já tinham uma idade avançada. Demasiado avançada para serem pais. Estavam quase na idade de serem avós. Avós novos, bastante novos, mas avós.
Penso sempre se eu nasceria de outra forma. Noutra família. Filho de outra mulher. De outro homem. Seria igual? Seria como sou? Viveria na mesma cidade? Teria os mesmos amigos? As mesmas namoradas? Teria os mesmo gostos? Os mesmo desejos? Faria as mesmas merdas que faço hoje? Que tenho feito ao longo da vida? E as desculpas? Poderia eu usar as mesmas desculpas que uso hoje? As mesmas mentiras? Seria uma vítima? ou um carrasco? Qual o poder dos meus possíveis outros pais sobre mim?
Uma coisa que me preocupa é se eu continuaria a gostar de fumar e de beber vinho tinto cerveja gin e vodka.
Há dias em que não consigo pensar noutra coisa. A minha vida esteve dependente de outro. A minha vida esteve, está, sempre dependente de outro. Primeiro o irmão que não tive. Depois os pais que me tiveram. Os amigos que fui tendo. Os patrões que me têm.
Quando é que eu posso ser eu, afinal?
Poderei afirmar que nasci porque tinha de nascer ou que fui só fruto das circunstâncias e, como tal, não tenho qualquer significado para o mundo?
Sempre que penso em todas estas questões que, por vezes, me atormentam, mas não hoje, há uma pergunta que nunca poderei ver respondida mas que é a pergunta que eu mais gostaria de conhecer a resposta Como é que é ser irmão? Ter um irmão?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/31]

Os Comprimidos Cor-de-Rosa Já Não Fazem Efeito

Já tomei dois comprimidos rosa, mas não ajudou muito. Agarrei numa garrafa de Vidigueira tinto e fi-la marchar à velocidade da luz.
Sinto-me entorpecido.
Caminho entre o quarto e a cozinha. Faço o corredor. Faço o corredor entre os pontos mais longínquos da casa, o meu quarto e a cozinha. Cada vez me parece mais comprido. Cada vez pareço demorar mais tempo. Cada vez me sinto mais enjoado.
A meio de uma das viagens, faço um desvio à casa-de-banho e acabo a vomitar o syrah, os comprimidos cor-de-rosa e as iscas de cebolada que comi ao almoço. Não devia ter comido as iscas de cebolada.
Quem é que trouxe as iscas de cebolada cá para casa?
Vomito tudo o que tenho dentro de mim. E cuspo. Cuspo na retrete. Cuspo até não ter mais saliva. Lavo os dentes. Bochecho.
Sinto-me tonto. Tenho a cabeça um pouco à roda. Já não tenho nada para deitar fora mas ainda se sinto tonto.
Olho-me ao espelho da casa-de-banho. Vejo as olheiras. Dois papos negros, enormes, tombados sob os olhos. A barba com manchas de pêlos brancos. Algumas peladas. Vejo o cabelo a rarear. Tenho umas entradas grandes. A testa também parece ter crescido. Saem pêlos das orelhas. Tenho os lábios cada vez mais finos. Vejo os dentes amarelados do tabaco. E a espuma da pasta dos dentes nos cantos da boca. Baixo a cabeça e lavo a boca. Bochecho. Lavo a cara. Molho o cabelo. Respiro fundo. Levanto a cabeça.
Vejo uma lágrima a cair pela cara abaixo. Pode ser uma gota de água. Sinto um arrepio no corpo e não é um arrepio de frio. Sinto a angústia chegar. Começo a chorar. Faço uma cara feia ao chorar. Os olhos fecham-se e ficam pequeninos. A boca descai. As maçãs do rosto ficam encarnadas. A cara está luzidia. As lágrimas entram-me na boca e da boca sai uma baba que escorre pelo queixo. O pescoço parece enterrado no meu corpo.
Viro-me de costas para o espelho. Deixo-me escorregar para o chão, encostado ao lavatório.
Encolho-me. As pernas dobradas encostam-se ao peito. Enfio a cara entre as pernas. Dou um berro.
Sinto-me a aliviar. Deito o ar fora, sonoramente, em golfadas. Acalma-me.
Levanto-me. Evito olhar para o espelho da casa-de-banho. Lavo a cara outra vez. Lavo a boca. Bochecho. Esfrego os olhos. Assoo-me e faço barulho ao espremer o nariz para fazer sair a merda que lá está estacionada. Limpo a cara.
Vou até à cozinha. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Não consigo ver como é que está o dia. Se é dia ou noite. Se está de chuva ou de sol. Não consigo ver lá para fora. As portadas da cozinha estão fechadas. Olho para a garrafa de vinho vazia. Não tenho mais nenhuma! penso.
Deixo cair o cigarro no chão da cozinha. Esmago-o com o pé descalço. Regresso ao quarto. Volto a fazer o corredor. Agarro em mais dois comprimidos rosa. Não tenho água. Não volto à cozinha. Não vou à casa-de-banho. Engulo-os assim, a seco. Sinto-os arranharem-me a garganta, mas descem por mim abaixo.
Entro na cama. Tapo-me com o edredão.
Espero que passe. Espero que tudo passe.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/29]

As Galerias

Estou em frente ao computador e aguardo. É preciso paciência. Tenho os cotovelos cravados na mesa da cozinha e o queixo suportado nas mãos entrelaçadas, à espera. É preciso muita paciência.
No ecrã do computador, uma bolinha colorida gira sobre si própria. E continua a girar a filha-da-mãe. O computador está como eu. Velho. Velho e lento. O tempo que o computador demora a processar as informações que lhe dou é como o tempo que eu demoro a processar as informações que vou recebendo. Cada vez demoro mais. Demoro mais a receber a informação e cada vez demoro mais a descodificar essa informação. É preciso uma enorme paciência.
Acendo um cigarro.
A minha cabeça foge. Afinal, não tenho grande paciência. Ou então, é a minha maneira de escapar a este processo que me consome, antes que me consuma mesmo.
Hoje fui à cidade. Passei junto a umas antigas galerias, coisa que já não existe em nenhuma cidade moderna do mundo, mas ainda existe aqui, nesta cidade, uma cidade onde partes dela parecem paradas no tempo, enquanto outras tentam entrar no futuro. Mais ou menos, não é? porque o futuro, o futuro será o que for.
As galerias existem mas também não existem. Podem ser as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não percebo nada de física quântica mas, neste caso, o mesmo corpo é e não é ao mesmo tempo e no mesmo espaço.
Quando passei naquela zona da cidade, reparei que as galerias ainda existiam, fisicamente, quero dizer. O edifício onde houve outrora umas galerias comerciais, ainda existe, ainda continua erguido, envergonhado, no meio da cidade. Está fechado. As janelas tapadas com papéis de jornal. Umas janelas estão partidas. Acumula-se lixo. E sujidade. As portas estão fechadas. Entaipadas. Todas? Bom, afinal, não todas. Hoje, e depois de tantos anos de engano, tantos anos a passar ali ao lado a pensar naquele cancro, uma ferida aberta, mas fechada, no meio da cidade, descobri que, afinal, uma porta está aberta e nos franqueia a entrada para um edifício moribundo que ainda alberga, no seu interior, um sapateiro que trabalha, ainda trabalha, ainda arranja meias-solas, cola tacões, vende palmilhas e atacadores e dá uso a umas máquinas que, estranhamente, fazem barulho e ainda funcionam.
Esta loja deve ser uma anomalia. Deve estar perdida no tempo. No tempo e no espaço. Que espaço é este? Existe este espaço? Não descortino como é que os clientes sabem da sua existência, como é que aqui vêm. Possivelmente velhos, velhos como o que vi atrás do balcão de atender o cliente, a colocar umas meias-solas nuns sapatos que ainda querem percorrer muitos quilómetros antes de serem trocados por uns sapatos comprados na loja dos chineses e que queimam os pés e os deixam a cheirar mal. Como é que os velhos sobem as escadas das galerias? As escadas das galerias fechadas, abandonadas e deprimentes. Como é que o velho, este velho, o velho que está ali de volta das meias-solas, sobe as escadas das galerias? Dormirá lá dentro? dentro da loja? Será esta a sua casa?
Acabo o cigarro. Bebia um copo, penso. Mas olho a garrafa vazia, esvaziada durante o almoço, e era a única. Não há mais vinho cá em casa. Tenho de ir ao Intermarché. Mas descobri que fechou por ter sido descoberto um surto de coronavírus no Intermarché aqui ao pé de casa.
Maldita sorte, a minha.
A bolinha colorida continua a girar no meio do ecrã, frente aos meus olhos. Se calhar, encravou, esta merda. Nunca mais pára. É como a vida nas galerias que julgava mortas. Afinal, não está. As baratas estão por todo o lado e são sobreviventes. Até dentro do meu computador. Até dentro da minha cabeça.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/19]

Crianças Birrentas

O velho andava lá no carreiro com a serra eléctrica a cortar os ramos das árvores e a desbastar o mato do terreno. Ele tinha lá umas oliveiras que davam umas azeitonas muito azedas, mas todos os anos as ia lá apanhar. Às vezes dava-me algumas. Azedas. Nem na sopa as conseguia comer.
Chegava a esta altura e punha-se a desbastar o terreno para evitar as cobras e fazer uma pequena limpeza.
Mas as aparas da árvores do outro lado do muro, mandava-as de volta para lá. Cortava os ramos das árvores que passavam o muro para o lado dele e depois mandava o que cortava para o outro lado. Devolvia à procedência.
Eu estava em pé no alpendre a fumar um cigarro e a apreciar. Sentado não conseguia ver o homem a desbastar o terreno. E já imaginava o que lá vinha. O vizinho, o sujeito do outro lado do muro, que até é cunhado do velho, há-de mandar as braças de volta cá para este lado. Eles não se dão bem e estão sempre em guerra um com o outro. Mas o velho é mesmo o diabo em pessoa.
O ano passado, resolveu queimar os ramos das árvores podadas numa enorme fogueira numa altura em que as fogueiras estavam proibidas. Mas ele é daqueles que acha que sabe e só faz o que acha que deve fazer e a ele ninguém dá ordens. Do piorio. A guarda foi lá ao terreno e levou-o preso. Esteve dois dias numa cela. Para aclarar as ideias, disseram os guardas. Mas não serviu de nada. O velho é teimoso como o diabo.
Há uns anos, o muro que separa os dois terrenos caiu ali numa zona mais acima e tombou para o lado de cá. O velho mandou os tijolos de burro tombados para o terreno do vizinho e levantou outro muro aproveitando para entrar alguns centímetros dentro do terreno do outro. O cunhado, quando se apercebeu, deitou o muro abaixo, levantou outro entrando meio-metro dentro do terreno do velho, deixou-lhe os tijolos velhos no terreno e esperou-o com a pressão-de-ar. Quando o velho chegou, disparou sobre ele. O velho também foi buscar a pressão-de-ar e passaram ali umas horas aos tiros um ao outro até que a guarda chegou e levou os dois. Estiveram uma semana na cadeia. Não lhes serviu de nada.
Por mais estranho que pareça, as mulheres deles dão-se bem uma com a outra, são amigas, sócias no mini-mercado da aldeia e às vezes até vão juntas à cidade para ver um concerto do Tony Carreira.
Amanhã o cunhado há-de chegar ao terreno, há-de ver os ramos largados lá do seu lado, há-de mandá-los de volta para o terreno do velho e há-de esperá-lo com a pressão-de-ar carregada. Hão-de andar aos tiros um ao outro e com um pouco de sorte não se irão atingir porque têm os dois uma pontaria de merda.
Larguei o velho na sua tarefa de cortar o mato e mandar os ramos para o outro lado do muro e fui-me sentar.
Gosto de me sentar no alpendre e olhar as montanhas lá em frente, sempre lá em frente, imutáveis, serenas, a garantirem-me que a vida é assim, sempre assim, por mais que pensemos que não.
E então ouvi um tiro. Outro. E novamente.
Percebi que tudo se precipitou. O cunhado veio mais cedo e apanhou o velho em flagrante.
Levantei-me da cadeira e cheguei-me à frente no alpendre. E vi pequenos focos de incêndio no terreno do velho. O cunhado lançava cocktails molotov que incendiavam os montes de ramos secos cortados. O velho é que trazia a pressão-de-ar nas mãos e tentava disparar sobre o cunhado.
E eu disse Oh, que caralho.
Peguei no telemóvel e telefonei para a guarda. E fiquei ali a vê-los guerrear. Como duas crianças birrentas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/27]

O Trabalho de Dois

Chego cansado a casa.
Entro pela cozinha e descubro o chão inundado. A electricidade foi cortada. O frigorífico descongelou e deixou sair a água cá para fora. As borrachas também estão nas últimas. Está tudo nas últimas. Não consigo fazer manutenção. Vou aguentando as coisas como estão, como posso. Até não poderem mais, até não poder mais.
Procuro nos bolsos da calças e dos casacos, debaixo das almofadas do sofá, na caixa das moedas, o dinheiro suficiente para ir pagar a conta da luz. Mas não vou já. Estou cansado.
Na fábrica, alguns continuam em lay-off, outros foram despedidos. Mas o trabalho mantém-se quase o mesmo. Quase o mesmo trabalho de sempre para menos gente a fazer o mesmo trabalho. Doem-me as costas. Estou todo o dia dobrado sobre a máquina. E, agora, a ajudar a carregar. Todos temos de nos ajudar uns aos outros, diz o tipo. O tipo que está lá com o seu chapéu de pvc e luvas limpas nas mãos. O tipo que não ajuda ninguém. Temos de nos ajudar uns aos outros. Diz. O tipo.
E quem me ajuda aqui em casa?
Olho o chão da cozinha. Tenho de limpar tudo, mas não consigo. Estou cansado. Tenho de ir pagar a conta da electricidade, mas preciso de me sentar um pouco, primeiro.
Arrasto-me até à sala e deixo-me cair no sofá. Sinto as madeiras a magoarem-me as nádegas. O sofá precisava de ser estofado. Está velho. Está como eu. Recosto-me e estendo os pés sobre a mesa de apoio. Olho para a televisão e noto a ausência da luz do stand-by. Não há electricidade. Não há stand-by. Não há nada.
Acendo um cigarro. A primeira passa faz-me tossir. Tusso. Tusso bastante. Sobe-me um vómito à boca, mas volta a descer. Por momentos falta-me o ar. Mas recomeço a fumar. Dou outra passa e sossego. Volto a recostar-me no sofá.
A cinza cai sobre o sofá e faz um buraco. Mais um. Mais um no meio de vários outros. O sofá parece um queijo suíço.
Acabo o cigarro. Molho os dedos na saliva e apago a beata que largo na mesa de apoio.
Estou cansado e, com o cansaço, chega a sonolência. Sinto as pálpebras tombarem sobre os olhos. Percebo que vou adormecer, mas não me contrario. Deixo-me adormecer. Penso na conta da electricidade. Que devia ir pagar. Para ter luz. Para ver se ainda consigo ter luz até ao final do dia. Para a noite. Penso na água no chão da cozinha. Na água que vai começar a infiltrar-se e estragar o chão. Penso na pouca comida que tenho no frigorífico e que já deve estar estragada. Penso no cheiro que virá quando abrir a porta do frigorífico.
Penso, mas não faço nada. Deixo-me levar pela lassidão, pelo cansaço, pela sonolência. Penso que amanhã vai ser outro dia. Penso que amanhã ainda vou poder pagar a conta da electricidade, limpar o chão da cozinha, esvaziar o frigorífico e regressar à merda de trabalho onde vou ter de fazer o trabalho do tipo que está em lay-off ou do que foi despedido e vou regressar a casa cansado, outra vez, e sem vontade de tratar de nada porque nada trata de mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/17]

Sair de Casa

Tínhamos saído de carro, eu e ela, para ir à cidade. Há três meses que não íamos à cidade. Há três meses que não passávamos do Pingo Doce para baixo. Saíamos de casa para ir ao Pingo Doce e voltávamos. Não chegávamos a ir à cidade. Então naquele dia, resolvemos ir à cidade.
Levámos as máscaras, os frascos com álcool, as luvas. Circulámos pela cidade de carro. De repente, a cidade parecia estar como a conhecíamos antes. Muita gente na rua. Muita gente a entrar e a sair de lojas. Muita gente com ar atarefado. Quase toda a gente com máscaras. Algumas esplanadas com gente. Não muita, mas alguma. Outras esplanadas fechadas.
Perguntei-lhe Vamos beber uma cerveja? e ela olhou para mim e não respondeu. Olhou só. Ficámos assim um bocado de tempo. Fomos despertados pela buzina de um automóvel atrás de nós na estrada. O semáforo estava verde. Arranquei. Arranquei devagar. A pensar no olhar dela, no olhar que ela me fez e na reposta que não me deu.
Dei uma guinada no volante, mudei de estrada, e disse-lhe Ok!
Ela descalçou as sapatilhas, levantou as pernas e colocou os pés em cima do tablier. Eu saí da cidade e apanhei a auto-estrada.
Havia movimento na auto-estrada. Não muito, mas algum. Estávamos na A1. Acelerei. Saí para apanhar a A13. Fizemos a A13 até apanharmos a A6. Na A6, acelerámos até ao fim da auto-estrada. Aqui acho que não ultrapassámos ninguém e não me lembro de nos termos cruzado com qualquer outro carro. O Alentejo estava deserto. A auto-estrada que cruza o Alentejo até Espanha estava vazia. Entrámos em Espanha e não parámos. Ainda pensei nos caramelos de Badajoz. Nas inúmeras vezes que tinha ido a Badajoz com os meus pais. No pão com calamares e na Coca-Cola que em Portugal não havia. Nos jogos que o meu pai me comprava. Na dificuldade em escolher qual o jogo a trazer de uma loja repleta de jogos até ao tecto. Houve um ano que trouxe umas bolas penduradas por uma corda, ligadas a uma argola que enfiava no dedo e fazia batê-las uma na outra, em cima e em baixo da mão. Fazia um barulho deliciosamente irritante. Desapareceram de casa de forma misteriosa. Sempre achei que fora a minha mãe a dar-lhes o sumiço em nome da sua sanidade.
Ela perguntou Onde vamos? e eu respondi Por aí!
Fomos comendo as placas que nos indicavam Madrid. Íamos ouvindo a música em shuffle da pen. Uma boa selecção (a selecção era minha). Mas havia por lá coisas que já não ouvia há muito tempo. Soube bem ouvir.
Parámos numa estação de serviço à beira da estrada. Colocámos as máscaras. Eu estiquei o corpo. Tinha as costas doridas. Entrámos na estação de serviço. Ia pedir um café mas lembrei-me que o café em Espanha era uma merda. Optei por uma Coca-Cola que partilhei com ela. Partilhámos também um bocadillo de lomo. Comprámos duas garrafas de água de litro e meio. Uma fresca e outra natural. A fresca para mim. A natural para ela. Assim, toda a gente fica contente. Pagámos. Saímos. Encostei-me ao carro a fumar um cigarro. A máscara pendurada no bolso de trás das calças. Ela encostou-se ao meu lado e roubou-me o cigarro das mãos. E disse-me A máscara está a limpar o pó ao carro. Eu encolhi os ombros, mas tirei a máscara do bolso, abri a porta do carro e coloquei-a no porta-luvas.
Ficámos ainda um bocado por ali mesmo já depois de termos acabado de fumar o cigarro.
E ela perguntou Vamos?
Eu entrei no carro. Ela também. E arrancámos.
Estávamos a chegar aos arredores de Madrid e eu perguntei Madrid? e ela virou-se para mim e abanou a cabeça. Continuámos estrada fora. Contornámos Madrid.
Quando o dia começou a cair pensei que o melhor seria parar para descansar o corpo e dormir um pouco. Apontei para Saragoça. Chegámos já noite. Procurámos um hotel a funcionar. Ficámos no primeiro que encontrámos. Entrámos e já não saímos. Não comemos nada. Estávamos cansados. Tomámos um duche e dormimos. Nem força tínhamos para foder.
No dia seguinte acordámos cedo. Saímos do hotel e fomos procurar um café para beber um americano e comer uma tostada com tomate. Depois de fumarmos um cigarro na rua, pegámos no carro e partimos de Saragoça.
Primeiro pensei em Barcelona, mas imaginei que haveria por lá gente a mais. Depois passou-me Andorra pela cabeça, para matar saudades do sítio de onde o meu pai me trouxe o meu primeiro walkman, mas pensei que se calhar havia alfandega para passar e achei melhor nem pensar nisso. Cruzar os Pirenéus, isso era certo. Mas por outro lado. Sem passar por Andorra. E seguir para Toulouse. Depois, talvez Montpellier. Marselha. Até Cannes. Sim, seria bom ir até Cannes. E depois? Depois haveríamos de continuar por ali fora enquanto tivéssemos dinheiro, com a pen a dar-nos uma boa selecção musical (a selecção era minha).
E depois? Quando o dinheiro se acabasse?
Quando o dinheiro se acabasse, vendíamos o carro e comprávamos dois bilhetes de autocarro ou comboio ou avião para regressar. Se regressássemos. Logo haveria de se ver.
Olhei para ela e sorri. Ela sorriu-me. Não precisava de a consultar a pedir opinião. Não queríamos voltar já para casa. Estávamos fartos de casa. E ela iria comigo até onde fôssemos. E foi.
E ao ver aquele sorriso só pensava que, nesse dia à noite, não iria estar cansado. Não podia estar cansado. Aquele sorriso matava-me. E ri-me satisfeito e contente enquanto cruzávamos a fronteira e entrávamos em França.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/15]

O Bar no Centro da Cidade Onde Me Sentava ao Balcão

Foi nos anos oitenta. Mais ou menos a meio dos anos oitenta. Apareceu um bar onde não existia nenhum. Onde não existia nada. Ou quase nada. Apareceu um bar num largo bem no meio da cidade. No centro da cidade. Era um bar com balcão. Uma balcão em U, com o bar no centro de uma das salas, a sala principal (o bar tinha mais que uma sala, o que constituía outra novidade).
Eu chegava cedo ao bar e sentava-me ao balcão. Primeiro bebia um café. Ainda o bar estava vazio. Havia alguma gente, gente sozinha, como eu, que bebia café ao balcão. Depois começava a chegar mais gente e eu começava a beber cerveja. No início bebia média. Depois, com o passar do tempo comecei a beber minis, que dava mais jeito para agarrar com a mão, mas isso foi quando larguei o balcão e comecei a encostar-me às paredes do bar. Mas no início, no início eu sentava-me ao balcão, sempre gostei muito de me sentar ao balcão, primeiro bebia um café e depois ia bebendo cervejas médias, Sagres, até ficar enjoado e passar para o gin tónico. Naquela altura o único gin que havia no bar era o Bosford. E, ao terceiro, quando conseguia chegar ao terceiro, acabava na rua, a vomitar as botas, às vezes a mijar-me pelas calças abaixo, quase sempre no chão, deitado no chão, encostado a uma parede à espera que o mundo parasse de girar ou alguém me levasse até casa. Às vezes havia quem me levasse a casa. Houve quem me levasse para a cama. Houve ainda quem se deitasse comigo. Mas nem me lembro dessas noites. Só sei que aconteceram. Porque me contaram.
Eu chegava cedo ao bar, bebia um café, lia um jornal qualquer que estava por lá, normalmente um jornal de véspera, folheava-o, às vezes lia um ou outro fanzine que algum puto largava por lá para mostrar às pessoas, roubei alguns deles que levei para casa, mas não sei o que lhes fiz, não sei deles, não sei que caminho levaram. Alguns eram muito bons. Com boas ilustrações. Textos interessantes sobre música. Pelo menos é a ideia que tenho. Pode não ter sido bem assim. Se calhar nem foi lá que vi os fanzines. Se calhar nem roubei nenhum. Se calhar nem sequer eram grande merda.
Nessa altura, depois de me sentar ao balcão e beber café e folhear os jornais dos dias anteriores, começava a beber cerveja. Às vezes ofereciam-me tremoços ou milho tufado. Depois apareciam algumas pessoas que conhecia. Sentavam-se lá ao lado. Tínhamos dois ou três dedos de conversa, bebíamos outra cerveja, e eles continuavam a ronda. Mudavam de cadeira, de sala ou iam embora, à procura de outras pessoas noutros lados.
Eu ficava sempre por lá. Ao balcão. Antes de me começar a encostar às paredes. Gosto de rotinas. Ficava sempre lá na mesma cadeira do balcão. Fumava cigarro atrás de cigarro. Às vezes aparecia lá alguém com um charro. Fumávamos mesmo ali, ao balcão. Por vezes o empregado chegava-se e dava umas baforadas no charro. E aquilo rodava. Às vezes deixavam-me lá uns selos. Chegaram-me a dar uns cogumelos. Há partes desse período no bar, nesse bar no largo no centro da cidade, que não recordo. Há noites que foram apagadas. Há noites que não existiram de todo.
Depois de enjoar a cerveja, depois de já estar cheio até ao esófago e a transbordar pela faringe, virava-me então para o gin horroroso que me fodia o fígado e me deixava de rastos, mas não havia outra solução. Não gostava de whiskey e o vodka era só para beber de penálti como se fosse um copo de três.
Quando chegava à fase do gin, geralmente perdia-me. Deixava de saber onde estava, com quem estava ou para que estava. Às vezes não tinha dinheiro para pagar o resto da despesa. Avisavam-me no dia seguinte mal lá punha o pé direito, o pé com que entrava todos os dias pelo bar adentro ao som do People Are People dos Depeche Mode.
Tudo terminou numa noite. Numa noite dessas em que já estava na rua, o bar já estava a fechar, eu não estava caído no chão mas estava encostado à parede, com uma perna flectida e uma mini na mão na conversa com uma miúda, lembro-me dessa miúda porque foi a última vez que a vi, assim como foi a última vez que entrei naquele bar, nesse fim de noite eu estava à conversa com a miúda, uma miúda lindíssima, assim a recordo, as luzes do bar já estavam desligadas, havia mais gente por ali, quando ouvi uns gritos, gritos de gente a correr, gente alarmada, gente em pânico a correr de um lado para o outro e a gritar, aos berros, e ouvi o aproximar de um carro, o som do motor de um carro, um motor em alta rotação, umas luzes muito fortes a encandearem-me e, de repente, uma explosão que me projectou dali para fora e acabei por despertar caído em cima de um banco de jardim, daqueles com ripas de madeira, cheio de dores nas costas e sangue na cara, com vários rasgos na cara e nas mãos. Acordei e olhei o caos instalado à minha volta. Acho que curei a bebedeira e a ressaca imediatamente.
Um carro tinha entrado ali pelo largo a acelerar, perdeu o controle e foi contra a parede do bar, que deitou abaixo, enquanto levava, à frente, a miúda com quem eu estava a conversar. A miúda foi desintegrada. Pouco restou dela. O bar, nunca mais reabriu. O prédio foi deitado abaixo e construíram outro, agora de habitações de luxo. Eu tive uma sorte dos diabos. O carro passou mesmo ao meu lado. Podia ter sido eu, na vez da miúda. Nunca mais bebi gin nem cerveja.
Agora só bebo vinho e, geralmente, em casa, o sítio onde estou mais vezes. Perdi a vontade de ir a bares. Mas continuo a gostar de balcões. Fiz um na cozinha de casa para matar saudades.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/14]