Um Tempo que Me Falha

Os dias passam vorazes por mim. Perco-me no tempo. Mal acordo e me levanto, já é noite, hora de jantar e ir para a cama. Não sei para onde vão os dias, as horas, os minutos. Não sei como fazer o que tenho para fazer no pouco tempo que os dias têm.
Penso que há menos tempo no tempo dos dias de hoje do que havia nos dias de ontem. Não é só uma sensação. É factual. As coisas que eu conseguia fazer ao longo do dia eram muito mais do que consigo fazer hoje. Os dias de antigamente eram enormes faixas de tempo onde cabiam inúmeros mundos. Hoje, essa faixa de tempo é uma ausência. Espirro e termina. Esvai-se num estalar de dedos.
Lembro-me dos dias de Verão da minha infância. As férias grandes, grandes porque eram de facto grandes, enormes. Quando chegávamos a Setembro tínhamos saudades da escola, dos amigos da escola, do cheiro dos livros novos, das folhas imaculadas dos cadernos novos, as novas canetas e as várias versões coloridas, azul, preto, vermelho e verde, eram Bic laranja e cristal. Naqueles Verões havia tempo para viver muitas vidas. Eu vivi muitas vidas. Muitas vidas num só dia. Acordava de manhã. Pequeno-almoço de uma fatia de pão saloio torrado e um copo de leite com Ovomaltine enquanto lia uma banda-desenhada da colecção Falcão ou alguma revista de cowboys da colecção Histórias do Faroeste ou do Buffalo Bill. Vestia-me e ia para a rua. Encontrava outros como eu. Íamos para o pinhal procurar os nossos Rochedos do Demónio em terra firme. Ou para um prédio em construção dar saltos do primeiro andar, ou do segundo, para o monte de areia que às vezes era rija e mais parecia rocha. Subíamos às nespereiras e às figueiras, as árvores mais imponentes da rua, para navegar em alto mar e encher o bandulho de fruta fresca nascida espontânea e sem químicos. Às vezes ia mesmo verde. Às vezes entrávamos dentro dos mares de silvas para apanhar as amoras. Eram pretas. Eram vermelhas. Eram agridoces e muito boas. Regressava a casa para almoçar. Era obrigatório dormir a sesta. E era o que fazíamos. Dormíamos a sesta. Eu deitava-me em cima da cama a ler uma banda-desenhada e deixava-me adormecer. Transpirava porque fazia sempre muito calor. Acordava e lanchava. Não podia sair de casa sem lanchar. E depois ia jogar à bola num dos pátios da rua. Ou um jogo de tabuleiro, normalmente o Monopólio, na garagem de algum de nós, ou íamos brincar para o pequeno riacho que lá passava perto, que não dava para mergulhar nem nadar mas dava para andar na brincadeira, molharmo-nos todos e chegarmos a casa e levarmos uma palmada ou um puxão de orelhas. A infância daquele tempo vinha com alguns castigos físicos, mas que compensavam a maluquice daqueles dias que nunca mais acabavam. E não! Não acabavam. Eram enormes. E ainda havia tempo para fazer asneiras como ir roubar na mercearia da rua ou entrar em casa de alguém que deixara a porta no trinco para roubar pacotes de batatas fritas Dora-Dora ou pacote de bolacha Maria torrada que barrávamos às mãos-cheias de manteiga Primor.
Agora sento-me em frente ao computador, depois de me levantar de manhã e beber uma caneca de café, e quando dou por mim tenho a página do Word em branco, não fiz nada, e a noite já cai lá fora.
Que porra de tempo este que me falha cada vez mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/16]

A Última Vez que Andei de Skate

Começava logo de manhãzinha, no meio da rua, a chamá-lo. Aos berros. Para se ouvir bem lá em cima, no terceiro andar onde ele vivia com os pais. Mas não o chamava pelo nome que os pais lhe tinham dado à nascença. Chamava-o pelo nome de rua. Era assim que ele era conhecido, era assim que o conhecíamos, e evitávamos que aos primeiros berros cá de baixo, do meio da estrada, os pais fossem logo à janela para ver quem eram os amigos malcomportados do filho. Eu não era malcomportado. E os pais dele conheciam-me. Até eram amigos dos meus pais. Nós chegámos a ir de férias um com o outro quando éramos mais miúdos. Agora já não íamos de férias juntos com os pais de um ou de outro. Agora já éramos demasiado crescidos e, bem vistas as coisas, demasiado insuportáveis. Mas nas férias, eu ia ali ao prédio dele chamá-lo, aos berros, e depois, pouco tempo depois, lá aparecia ele, a cruzar a porta de vidro de entrada do prédio, com o skate na mão e íamos por ali fora, a voar pelo asfalto, às vezes a descer até à cidade. Mas voltávamos sempre à hora do almoço. Íamos sempre almoçar a casa. Cada um almoçava na sua. Durante a semana não podíamos almoçar em casa dos outros porque os pais não tinham tempo para nos aturar. Só ao fim-de-semana. E não todos. E então, quando estávamos na cidade, regressávamos agarrados aos pára-choques dos autocarros urbanos e subíamos até casa. Às vezes a polícia passava e tínhamos de andar a fugir. Era sempre uma chatice porque corríamos o risco de chegar atrasados ao almoço e isso tinha sempre consequências. O confisco do skate. E da bicicleta. Às vezes uma multa pecuniária que se resolvia numa diminuição da mesada.
A última vez que descemos à cidade foi num dia assim como o de hoje. Um dia de Agosto. Quase meio do mês. Eu e ele estávamos a gastar os últimos cartuchos. Depois tínhamos quinze dias de martírio com os nossos pais no Algarve. Cada um no seu lado do Algarve. Ele em Lagos. Eu em Tavira. Ele numa casa que o pai tinha comprado há muitos anos em time-sharing. Eu a acampar na ilha de Tavira. Os meus pais eram assim um pouco freaks e gostavam da natureza. Eu não gostava muito. O chão fazia doer-me as costas, mas não tinha outro remédio. O que me causava maior confusão era ir à casa-de-banho onde ia toda a gente e onde havia sempre muita gente e onde se ouvia os barulhos de toda a gente. Um horror.
Era então um dia assim, um dia chocho de Agosto. Ameaçava chuva e acho que até acabou por chuviscar um pouco.
Nesse dia fui chamá-lo como chamava normalmente, cá de baixo da rua, chamando-o pelo nome de rua, e pouco depois ele apareceu, cruzou a porta de vidro do prédio com o skate debaixo do braço. Fomos andar pelas ruas do bairro, como fazíamos normalmente. Depois ele disse Bute até à cidade? E eu respondi Yeah! e fomos até à cidade, a descer em alta velocidade a estrada de asfalto que ligava o bairro ao centro da cidade. Depois passeámos pela zona histórica. Roubámos umas laranjas numa mercearia e fomos comê-las para a praça. Andámos de skate na zona nas praças de pedra lisa. Competimos com outros miúdos de outros bairros da cidade. Íamos andando ao estalo, mas não chegámos a tanto. À hora do almoço decidimos ir embora. Corremos até à paragem do autocarro e esperámos. Quando o autocarro chegou, engoliu as pessoas e partiu. Nós partimos com ele.
A meio da viagem, um carro da polícia apareceu por trás do autocarro, por trás de nós, e ligou a sirene. Eu, que estava junto ao passeio, larguei o pára-choques e fugi logo pelas ruas adjacentes. Ele tentou fazer o mesmo mas, estava no meio da estrada, tentou correr para o passeio do outro lado e, ao cruzar a estrada, com o skate debaixo do braço, foi abalroado por uma camioneta de distribuição de cigarros. Eu ainda me virei para trás e vi-o voar. Mas não parei. Não parei de correr. Não parei de correr até chegar a casa, ir à casa-de-banho lavar as mãos e a cara e olhar para mim no espelho da casa-de-banho e fazer-me acalmar, acalmar o meu coração que parecia querer saltar fora do corpo. Depois fui sentar-me à mesa da cozinha e almocei com os meus pais e a minha irmã. Acho que foi aí que vi que estava a chover. Mas não tenho a certeza.
Nessa tarde a minha mãe veio dizer-me que ele tinha morrido. Tinha sido atropelado e tinha morrido ainda na rua, antes de chegar a ambulância. Eu não disse a ninguém que estava com ele e que o vi ser atropelado. Dois dias depois fui para o Algarve com os meus pais. No regresso, arrumei o skate no meio das tralhas da garagem. Nunca mais andei de skate. Nesse ano, depois do começo das aulas, conheci a minha primeira namorada. Às vezes ainda penso nele. Mas já não me recordo do som da sua voz. Já não me recordo da sua cara. Já não recordo do seu nome de rua.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/16]

Westworld

Tinha acabado de ver o Westworld. Tinha acabado de ver o último episódio da temporada. O oitavo episódio da terceira temporada. O genérico passou. A televisão ficou a transmitir uma imagem qualquer, uma imagem parada, à espera que eu desse seguimento à coisa. Um play qualquer. Um return. Uma escolha de menu. Mas, no momento, nem me apercebi. Não estava ali. Estava ali, no sofá, de cu enterrado no buraco do sofá a precisar de ser estofado, de cigarro consumido na mão, a cinza do tamanho do cigarro à espera de cair, à espera que eu a depositasse no cinzeiro antes de tombar livremente sobre o tapete da sala já de si bem sujo e a precisar, não já só de uma aspiradela, mas de uma limpeza a fundo, de escova e água com detergente, como a minha mãe me pagava para eu fazer, e foi assim que fui comprando os discos mais caros da minha vida, quando os discos eram em vinil, caros, de capas bonitas, e os ao vivo e duplos, coisa rara, e só raramente bons, esses raros mereciam todo o esforço que fizéssemos, como esfregar os tapetes de casa à mãe, assim, de cu para o ar, a esforçar os músculos ainda adolescentes, mas cheios de vontade de fazer a vontade e poder ter mais um disco fabuloso. Foi assim que consegui o Still. O Alchemy. Mas não estava lá. Estava ainda no interior daquela guerra entre humanos e androides, entre máquinas do destino e um qualquer ditador de algoritmos e razões de ser antes de verdadeiramente o ser. Quem é quem?
Despertei para a vida ao notar uma pequena baba a escorrer pela boca aberta. Estava de boca aberta de espanto. Não estava à espera da volta que Westworld viria a dar depois daquela primeira temporada tão sensaborona a fazer lembrar o Jurassic Park com mais dinheiro, melhores efeitos especiais e uma mais imaginativa equipa de argumentistas, com J.J. Abrams a segurar os fios para que tudo não se estilhaçasse. E, no entanto, aqui estamos.
Foda-se! foi o que me saiu sonoro. Foda-se!
Estava aterrado pelas possibilidades.
E se tudo fosse verdade? E se tudo é verdade?
Esqueci a cinza do cigarro e o cigarro e vi-os caírem sobre o sofá, não fizeram um buraco porque já estava frio, mas fizeram uma enorme mancha cinzenta, que tentei limpar com a mão e que acabei por espalhar ainda mais e tornar aquela mancha de sujidade numa mancha ainda maior. Levantei-me do sofá e fui até à mesa da cozinha onde tinha o computador e comecei a escrever o que me ia na cabeça assim, de jorro, sem ler nem reler o que estava a escrever, embora, ao escrever, tudo fizesse sentido e, no fim, publiquei-o no Facebook, sem ler nem reler, coisa que se pode confirmar, nem sei já o que é que lá está, nem as gralhas que possa ter, mas foi o que precisou de sair de mim naquele momento, naquele preciso momento, em que estava possuído pelo espírito da estória e pelo espírito digital de Dolores.
Depois parei. Respirei fundo. Tinha um resto de Herdade dos Grous que estava na bancada ao fundo a olhar para mim e servi-me de um copo. Acendi um cigarro, na esperança de me poder dedicar a espreitar os jornais online para bisbilhotar as notícias do dia quando dei por mim, de novo, ou talvez sem ter saído de lá afinal, naquele mundo de possibilidades.
Elon Musk já tinha avançado com a possibilidade de vivermos uma simulação. E se, mais que uma simulação, não passássemos de androides de última geração? Um mundo fabricado? Com 0s e 1s? E se o útero de uma mulher não for mais que uma impressora 3d que imprime crianças? Que a informação para essas crianças e para a sua impressão vai no esperma do homem?
Foda-se!
E toda esta guerra de informação, de dados pessoais, conquistados através de aplicações aparentemente tão inocentes como o FaceApp, não estarão a construir uma enorme base de dados que irá criar uma máquina tão potente e perversa como a Rehoboam, uma máquina transformada em deus, e se a máquina pode ser deus, porque é que nós não podemos ser máquinas? E já agora?… Não!…
Tinha acabado o copo de vinho. Tinha acabado o cigarro. Estava a enrolar um anel de cabelo nos dedos da mão direita.
Estava nervoso. Ansioso. Já não tinha mais vinho. Nem cigarros. Nem a porra de um Xanax.
Levantei-me da mesa e saí de casa. Precisava de mais vinho e cigarros para continuar a organizar as minhas ideias. Organizar as ideias antes que elas me abandonassem.
E foi nesse entretanto, entre o ir à mercearia e o regressar, que toda a estrutura da ideia que estava a construir se esboroou. O início estava cá. Tanto estava cá que consegui regressar a ele. Mas já não sabia para onde é que estaria a dirigir-me, para onde é que estava a ir. Ou a querer ir. Como se um algoritmo tivesse aproveitado esta pausa para me colocar no caminho de outra coisa qualquer. Uma coisa qualquer que não interessava para nada. Uma coisa inócua. Mas que deveria desviar-me do caminho que levava anteriormente.
E foi então que me lembrei que hoje era Domingo. Embora agora os jogos de futebol se prolonguem por toda a semana, e não haja um só dia sem futebol, a verdadeira forma de manter a adicção, hoje era o dia do Trio de Ataque, onde se fala de futebol por quem não o joga, mas por quem o analisa. Sim, hoje tenho de ver o Trio de Ataque. Beber aquela sapiência futebolística. Perceber o que se passa com o Benfica. Não é isso que importa na vida? Não?…
Há, no entanto, qualquer coisa cá dentro de mim que está a tentar esgravatar. Está a querer sair. Está a tentar dizer-me coisas. Como se o Trio de Ataque não fosse importante. Algoritmo. Desejo. Androide. Philip K. Dick. Westworld. Máquina. Deus. Porra. Porra. De repente tenho uma sopa de letras a formar-me palavras na cabeça.
Foda-se! Foda-se! Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/21]

Para um Diário da Quarentena (Sétimo Andamento)

Não estava a fazer conta sair de casa. Levantei-me a meio da manhã, vesti umas calças de fato-de-treino, uma t-shirt, calcei os chinelos e fui para a cozinha espremer laranjas para um sumo. Fui para o alpendre beber o sumo e ler as notícias nos jornais online.
Nada de muito substancialmente diferente, nas notícias. As mesmas coisas mas com os números a aumentar constantemente.
Enquanto lia os números assustadores de mortos, e lia esses números com uma indiferença que já me era transmitida pelos jornais e pelos responsáveis que todos os dias actualizam os números em conferência de imprensa, carregando nos números para aliviar as pessoas, deixando que as pessoas se tornem números e, dessa forma, perderem um pouco da carga emocional que transportam, pensei que podia guisar o coelho que a vizinha, que mora duas casas mais abaixo, veio cá oferecer.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Olá, mãe!, disse. E ela começou Vens cá logo? Preciso de ovos e de sumos de manga para o pequeno-almoço. Já não tenho nenhuns. E sacos do lixo… Ah, e antes que me esqueça, preciso de álcool que já não tenho nada cá em casa. E eu respondi Oh mãe!, mas eu não posso ir ao supermercado dia sim, dia não, e senti-a em silêncio lá do outro lado. E continuei Está bem. Vou aí depois de almoço. E damos um passeio à volta do quarteirão. E alegre, ela respondeu Está bem.
E onde é que vou arranjar álcool? pensei.
Troquei os chinelos por umas sapatilhas. Vesti uma camisola. Fui a uma vizinha na aldeia e comprei uma dúzia de ovos. Passei na farmácia, mas não havia álcool. Passei na mercearia mas não havia sumos de manga. Voltei a casa para ir buscar o carro. Já não ia cozinhar o coelho. Levei-o para a minha mãe. Ela até gosta mais de coelho que eu.
Saí com o carro. Ainda tinha combustível. Passei no Pingo Doce. Estava fechado. Só abria mais tarde. Fui ao Lidl. Uma fila enorme. Mais à frente o Modelo-Continente. Aberto. Sem fila. Comprei dois packs de quatro garrafas pequenas de sumo de manga. Um rolo de sacos do lixo de trinta litros. Procurei álcool. Não havia. Lembrei-me do sabão azul e branco. Também não. Procurei luvas e máscaras. Nada.
Fui até casa da minha mãe. Antes de subir fui à pastelaria comprar-lhe pão fresco. Estava fechada. Novo horário. Este será o maior problema destes tempos. O conhecimento dos horários de funcionamento de lojas onde precisamos de ir porque cada uma funciona com o seu próprio horário.
É uma porra, é o que é!
Subi a casa dela. Estava na sala. Larguei as coisas na cozinha. Aspirei a casa. Depois passei uma esfregona molhada na cozinha e na casa-de-banho. Pedi-lhe para ir para a cozinha arrumar as coisas que já íamos sair e aspirei a sala.
Ficou muito contente com o coelho. Ficou triste pela falta de álcool.
Saímos. Descemos no mesmo elevador. Mas ela ia ao fundo. Eu mais próximo da porta. Eu é que ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto e fechado. Na rua começamos a andar ao longo do passeio. Não havia vivalma. Ela sentiu-se triste. E disse-me Eu sei que as pessoas estão em casa mas ver a cidade assim é diferente. Mesmo visto da varanda é diferente. É uma cidade muito triste.
Sim, era uma cidade muito triste. A cidade quase deserta. Quase vazia. Quase silenciosa. Irreal. Mais à frente vimos algumas pessoas. Ela conhecia algumas delas. Sorriu-lhes e cumprimentou alguns conhecidos à distância de um aceno com a mão, ou com um adeus. Andámos à velocidade dela. Distantes um do outro mas próximos o suficiente para ele conversar. Ela é que fazia a maior parte da despesa da conversa. Estava há muito tempo fechada. Precisa de ser ouvida. Ela falava. Eu ouvia. E respondia. Às vezes parava a ver uma montra. Eu dizia-lhe para ter cuidado e não se encostar. Demos a volta ao quarteirão e regressámos a casa dela. Levei-a a casa. Eu ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto ou fechado. Dissemos adeus. Pedi-lhe de novo, e a saber que não valia de nada pedir, para me ir dizendo o que precisava com antecedência para eu anotar tudo e tratar das coisas todas de uma vez. Ela disse que sim, claro. Como diz sempre. Mas acho que já nem se lembra com o que é que está a concordar. Levei o lixo dela para baixo.
Fui embora.
Ao despejar o saco de lixo no caixote, na rua, reparei que haviam luvas e máscaras espalhadas pelo chão. Perguntei-me de onde vinha aquilo. E porque raio estava espalhado pelo chão em vez de estar dentro de sacos dentro do caixote.
No carro, ainda parado, pensei que não tinha luvas, nem máscaras, muito pouco álcool e só um pequeno pedaço de sabão azul e branco. Não conseguia arranjar em lado nenhum. Também não ia de propósito à procura das coisas mas, em todo o lado que ia para comprar outras coisas, procurava e nunca havia. Via muita gente com estes produtos na rua. Se calhar açambarcaram logo no início. Se calhar têm tido sorte em apanhar as novas remessas. Eu não gosto de açambarcar coisas. Não encho jerricãs de combustível. Limitei-me a ter o depósito cheio. E só o enchi uma vez. Não comprei papel-higiénico. Não mais do que o que compro normalmente. Não comprei conservas para além das habituais. Não comprei álcool porque tinha uma garrafa em casa, e é com essa garrafa que me tenho desinfectado antes de entrar em casa da minha mãe e no regresso à minha. Quando tentei comprar máscaras e luvas, percebi que já era tarde. Não havia nem para os profissionais de saúde que estavam na linha da frente do combate e eles precisam mesmo destas protecções, haveria para mim? Mas via muitas pessoas na rua com máscaras.
Depois de chegar a casa, fui lavar as mãos. Despi-me. Tomei banho. Lavei a roupa que tinha utilizado. Depois cortei umas peças de fruta, uma laranja, uma maçã, uma pêra e um kiwi, era o que tinha em casa, despejei um iogurte numa tigela e coloquei a fruta em pedaços à volta. E fui para o alpendre comer. Hoje não via as montanhas. Não estava sol. O cão estava a dormir enrolado nele próprio e nem me ligou. Os gatos olharam-me à distância mas nenhum me veio incomodar. Comi sozinho no alpendre.
Chegaram umas mensagens ao telemóvel que não quis ler.
Deixei-me adormecer.
Acordei com frio e com um arrepio nas costas. O cão continuava no mesmo sítio. Agora também lá estavam os gatos. O telemóvel voltou a acusar a recepção de uma mensagem. Pus o telemóvel no bolso e entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/26]

Moro num T1+1

Moro num rés-do-chão baixo, ao nível da rua. É um T1+1, o que quer dizer que tem um quarto, uma sala e um pequeno buraco que fazia parte da sala mas que foi separado por um tabique para quarto de empregada, ou de arrumação e fazer o apartamento subir um nível no valor do arrendamento. Fiz desse buraco uma espécie de escritório com uma mesa mais pequena que fui comprar ao Vassoureiro e os livros aguentam-se empilhados uns nos outros à espera de melhores condições de vida (minha) que lhes garantam outra dignidade (uma estantes seguras) num apartamento de divisões um pouco maiores e com vista para qualquer lado que não os ouvidos putrefactos da vizinhança.
A minha casa é pequena, mas é suficiente para mim. Tenho um quarto, uma sala, uma cozinha, uma casa-de-banho com uma pequena janela de vidro que abre e deixa entrar ar fresco e o buraco que me serve de escritório. Um pequeno corredor vai da sala à cozinha fazendo a distribuição das outras divisões.
A sala fica paredes meias com a rua. Quando vou à janela fumar um cigarro, fico à altura das pessoas que passam por lá. O pequeno buraco que me serve de escritório também. Também fica paredes meias com a rua. E também tem uma janela. Às vezes deito-me no chão do escritório, arredo a cadeira e deito-me no chão do escritório, entre as pilhas de livros, para endireitar as costas, e sinto as pessoas a passarem por mim, quase como se me tocassem na cabeça. Às vezes alguns miúdos da rua encostam-se à minha parede a fumar uma ganza e ouço-lhes as conversas. Conversas de merda, na maior parte das vezes. Mas já me ri desgraçadamente.
O quarto e a cozinha têm uma janela para um pátio nas traseiras dos prédios. Quando vim para esta casa, às vezes ia até lá, fumava um cigarro a passear entre as couves e as batatas que os porteiros dos prédios que formam aquele pátio interior lá iam plantando. Saltava a janela da cozinha e passeava por lá. Mais tarde cimentaram todo o pátio e os porteiros deixaram de ter sítio onde plantar hortaliças. Depois começaram a descer os vizinhos dos vários andares, desciam pelas escadas de incêndio e juntavam-se no cimento a jogar o Monopólio, à bola, a beber cerveja e a fumar umas ganzas. Eu deixei de frequentar o pátio. E é raro fumar à janela da cozinha para não dar com os vizinhos a fazer o mesmo que eu e a dar fé das vidas dos outros. Fumo no interior da cozinha com a janela aberta. Ou fumo no escritório também com a janela aberta. Mas é raro fumar no escritório porque é raro abrir a janela. O barulho é quase sempre ensurdecedor. O passeio tem dois metros de largura e depois há uma estrada de duas faixas em sentido único e os carros aceleram por ali. Às vezes há vizinhos que param os carros em segunda fila, com os quatro piscas ligados, às vezes nem isso, e provocam engarrafamentos e buzinadelas. O som é insuportável.
Era. Já não é. Era.
O meu T1+1 que me servia na perfeição, tornou-se, de repente, enorme e minúsculo. Os dois contrários ao mesmo tempo. Mesmo tempo, mesmo tempo, não. Em tempos diferentes.
Quando me deito no chão do escritório, que agora faço com muito mais assiduidade, já não escuto as conversas dos miúdos na rua, nem os carros a galgar asfalto, nem há carros a buzinar a outros carros parados em segunda fila. Agora já não há pessoas, nem carros, nem barulho. Agora só há silêncio. Por vezes estou na sala a ler um livro e fico admirado por o barulho da história ser maior que o barulho da minha vida.
Mas quando estou há mais de duas semanas em casa, fechado como agora, e só saio para ir ao pão ou para comprar alguns mantimentos à mercearia que fica cinquenta metros acima na rua, a casa parece minúscula, demasiado acanhada para a enormidade da minha neura, uma neura criada na obrigatoriedade de ficar em casa, coisa que eu até gosto de fazer. Mas não obrigado. Não por decreto. Não porque me mandam. Agora até a rua me parece pequena. As duas pastelarias fechadas. A oficina a trabalhar a meio-gás (estão de porta fechada mas ouço o barulho no interior). As escadas que levam à C+S lá mais acima, desertas. A casa dos tecidos encerrada. O restaurante onde ia por vezes comer uma alheira de caça, encerrada. Tudo fechado. Ou quase tudo. Tudo em silêncio. E eu. Eu aqui, fechado em casa. Não estou de quarentena. Estou só em isolamento. Estou recluso. Em fuga ao vírus.
Agora trocava o meu T1+1 por uma casa velha com um quintal mal amanhado e uma casota para um cão e um galinheiro para umas galinhas e uma vista sobre árvores e montanhas e um riacho e o barulho das cigarras e dos grilos e dos pássaros e até do raio das corujas que não se calam durante a noite inteira mas que me adormeceriam e me fariam ser mais bem-disposto. E há quanto tempo não chove?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/23]

Para um Diário da Quarentena (Primeiro Andamento)

No segundo dia de quarentena e não noto diferença no ritmo da minha vida. Continuo fechado em casa, com vários passeios pelo quintal a olhar as montanhas ao fundo, a beber copos de vinho tinto e a fumar cigarros no alpendre. Nada que já não faça nos outros dias da minha vida desde que resolvi virar costas à cidade que me estava a tratar mal.
Normalmente dou uns passeios pela aldeia. Bebo um café e um bagaço no café central, ao lado da igreja, e abasteço-me de pequenos produtos alimentares, frescos e pão, na mercearia. Ontem e hoje não saí daqui. Amanhã talvez vá comprar pão fresco. Se a mercearia estiver aberta.
Hoje o dia começou com sol. Não estava frio mas estava vento. Fumei um cigarro no alpendre, em pé, com um dos gatos a roçar-se nas pernas despidas. Depois voltei para casa e por cá tenho ficado.
Devia ir levar comida ao cão e aos gatos, mas estou com preguiça. Hoje não comem ração. Talvez cacem um rato ou um coelho. Os gatos costumam caçar coelhos e partilham-nos com o cão. Dão-se bem e não estão muito dependentes de mim. Mas eu prefiro dar-lhes ração para não andarem para ai restos de animais mortos e bolas de pêlos a voar. Sou alérgico aos pêlos dos animais.
Hoje não tomei banho. Já não lavo o cabelo há três dias. E está muito grande. Devia cortá-lo, mas não há-de ser agora. Não irei à cidade durante os próximos tempos.
Desde que me levantei que tenho andado nu cá por casa. A casa é quente e confortável. Tenho andado indeciso sobre o que fazer e ainda não vesti nada porque estou sempre a ponderar voltar para a cama e ir dormir.
Hoje não me apetece trabalhar. Comecei a ver uma série nova, The Outsider, e estava com vontade de terminar a temporada de uma vez mas, deu-me a fome e acabei por parar no terceiro episódio para ir grelhar um hambúrguer. Comi-o dentro de um pão da avó que torrei. Juntei-lhe uma fatia de queijo Limiano e um pouco de ketchup Heinz. Acompanhei com um resto de uma garrafa de vinho sobrevivente. Já tinha um pouco de pé. Ainda bem que o acabei. Amanhã tenho mesmo de ir à mercearia. Ou procurar alguém que tenha uns garrafões para vender.
Enquanto estava a comer o hambúrguer apanhei o Primeiro-Ministro na televisão a explicar as novas medidas de emergência. Não consegui concentrar-me no que ele disse. Sinto-me um pouco tonto. Tenho vertigens quando me falam de coisas que não quero ouvir. Mas acabo por perceber o geral da conversa. E percebi. Vou continuar fechado cá por casa. Nada a que não esteja habituado. Vou continuar a trabalhar em casa. O que já faço. Não vou a concentrações de pessoas. E não vou mesmo. Mesmo quando posso. Ou podia.
Passo na casa-de-banho para mijar. Lavo os dentes depois de ter comido o hambúrguer.
Páro no corredor. Sinto falta dos jogos de futebol. Tento perceber o que vou fazer. Tento perceber o que é que me apetece fazer. E percebo que não me apetece fazer nada. Acabo por rumar à cama. Deito-me. Tapo-me com o edredão por cima da cabeça.
Espero que os dias passem todos muito depressa, eu envelheça e mude de opinião. Às vezes gostava de voltar ao convívio das outras pessoas. Depois passa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/15]

Conversas à Varanda

Despertei sozinho na cama. Virei-me para o outro lado, estiquei os braços e as pernas para a outra metade da cama e senti o frio. Ela já devia ter-se levantado há algum tempo. Ao fim-de-semana levanta-se cedo. Acorda cedo. Dá umas voltas na cama. Não consegue voltar a adormecer e levanta-se. Vai pôr roupa a lavar. Aproveita o bom tempo para estender a roupa ao sol. Limpa a casota do cão. Trata do canteiro das especiarias. Às vezes começa a preparar o almoço. Não consegue parar um segundo. É raro encontrá-la sentada no sofá a ler um livro. Não que não goste de ler, não consegue é estar quieta por muito tempo.
Eu levantei-me. Vesti uns boxers. Fui até à cozinha. Tinha um copo com sumo de laranja natural na mesa à minha espera. Peguei no copo. Ouvi vozes vindas do exterior. Aproximei-me da janela da cozinha. Ela estava no alpendre, encostada à um pilar, a fumar um cigarro e a conversar com a vizinha, por cima do muro que dividia as duas casas, enquanto esta lavava a casota do cão. Não percebia o que estavam a dizer. As janelas estavam fechadas. Mas fiquei ali a olhar para elas, uma de cada lado do muro, cada uma delas no seu quintal, a conversar sobre não-sei-o-quê, trivialidades da vida talvez. Gosto de ver esta relação entre vizinhos. Gosto de ver a utilização dos alpendres e das varandas. Gosto de ver vida fora das casas.
Lembro-me da minha mãe que conversava de janela para janela com as vizinhas do prédio. Às vezes trocavam necessidades em pequenos cestos descidos em cordas, como elevadores entre janelas. Às vezes chamava-me quando eu andava na brincadeira com os meus amigos, para ir à mercearia buscar açúcar ou ovos que precisava para fazer um bolo, fazia descer o pequeno cesto por uma corda com o dinheiro e depois, quando eu regressava com o que tinha comprado na mercearia, punha as coisas no cesto e ela voltava a puxá-lo para cima.
No Verão também era normal eu estar a jogar à bola no quintal, com os vizinhos do prédio, e os pais estavam nas varandas a fumar cigarros. Pareciam pirilampos a acender aqui e ali, como um jogo de luzes psicadélicas.
Hoje em dia vejo as varandas vazias. A maior parte delas nem um vaso com flores. Ninguém à varanda. São prédios fantasma. Bairros mortos. Impessoais. Os vizinhos não comunicam. As pessoas não vêm à rua respirar ar fresco, fumar um cigarro, olhar as pessoas a passar, os namorados agarradinhos, os casais apressados, o rapaz que já vai atrasado, a criança que pedala na sua bicicleta com rodinhas de apoio.
Em casa dos meus pais, quando era Verão, ele colocava uma mesa pequena na varanda e comíamos lá. Comíamos nós na nossa varanda e os nossos vizinhos nas varandas deles. Às vezes ainda conversavam de varanda para varanda. Ainda me lembro dos jogos da UEFA ouvidos pela rádio à janela, e as discussões de janela para janela. Uma vez um vizinho despejou um jarro de água sobre a cabeça do vizinho de baixo. Mas continuaram amigos.
Acabo da beber o copo de sumo de laranja natural. Ela entra em casa. Vem a sorrir. Traz um saco de plástico na mão. Dá-me um beijo. Eu digo Hoje almoçamos no alpendre. E ela diz Boa. A vizinha deu-me dois robalos. Podes ir assá-los, e estendeu-me o saco de plástico com os robalos lá dentro.
Fui fazer as brasas. Ela depois apareceu lá com os dois robalos limpos e alguns pimentos. Levou-me uma cerveja e umas azeitonas. Ficou lá, por momentos, a fumar um cigarro e a olhar para mim a assar o peixe que depois iríamos comer no alpendre. Às vezes sinto-me o meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/07]

Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

O Futuro Homem da Casa

Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Ainda frequentava o liceu. Não me recordo em que ano estava mas, sei que ainda estava no liceu. Estava numa aula. Não sei de quê, mas estava numa aula. Estava lá dentro mas andava lá por fora. O corpo respondia presente à chamada, mas esquecia a lição no momento do sumário. Para onde ia? Não sei. Perdi essas memórias. Desse tempo há coisas que guardei e outras que perdi. É uma época volátil. O tempo consumia-se de maneiras diferentes conforme fosse manhã, tarde ou noite. Conforme estivesse numa sala de aulas ou em casa de uma namorada. Conforme fizesse um teste a uma disciplina ou uma partida de futebol com os amigos da rua. Algumas coisas permaneceram na memória, viraram estórias que contei aos filhos e aos netos. Outras apaguei-as. Apagaram-se. Esqueci.
Naquele dia, tinha eu então dezasseis ou dezassete anos, talvez menos, estava na sala de aula mas não estava atento à matéria que a professora estava a tentar ensinar. Foi quando vi entrar a directora do liceu na sala e, antes que elas as duas olhassem na minha direcção, desci de lá de onde estava e disse para mim próprio Pronto!…
Percebi o que tinha acontecido. Antes de me dizerem o que quer que fosse, eu percebi. Vi os olhares das duas sobre mim. Um olhar piedoso. Mesmo triste. A directora veio na minha direcção, disse-me para arrumar as minhas coisas e segui-la. Eu arrumei as minhas coisas dentro da mochila. Pus a mochila às costas e saí da sala de aula atrás da directora. Senti os olhos de todos os meus colegas nas minhas costas. Senti o olhar piedoso de todos eles. E queria ter-lhes dito Não olhem assim para mim. Cantem. Dancem. Antes que seja tarde para todos nós… Mas não disse nada. Saí da sala. Senti o silêncio da sala nas minhas costas. Senti a porta a bater quando saí. Ouvi o burburinho que se formou depois de ter saído. E segui a directora até ao gabinete dela.
Depois não me recordo nada do que aconteceu nos momentos seguintes. Talvez tenha entrado no gabinete da directora. Talvez ela tenha tido alguma conversa séria comigo. Talvez ela me tenha oferecido um chá de camomila ou metade de um Xanax (talvez não me tenha oferecido a metade de um Xanax, mas gosto de pensar que, eventualmente, tal podia ter sido possível acontecer).
Desperto já a caminho de casa. Saí da sala de aula e estou a caminho de casa. Há uma elipse temporal que é, na verdade, um buraco negro. Não sei o que aconteceu. Mas vou a subir a rua. A pé. A mochila às costas. Os carros a acelerarem na estrada. Uma estrada longa, larga, arejada, boa para carregar o pé no acelerador. Ouço-os a passar ao meu lado, a espremerem o motor. Acho que vou a chorar. Sim. Acho que vou na rua, a subir a rua e vou a chorar. Não sei o que se passou entre ter saído da sala de aula e descobrir-me ali, na rua, mas sei o que é que aconteceu nesse dia. Sei porque é que a directora do liceu me foi chamar à sala de aula. Sei porque é que saí mais cedo do liceu. E porque é que ia a pé para casa. E ia devagar. Portanto, talvez fosse a chorar. Mesmo que não tivesse chorado na altura. Agora, a esta distância, penso que que tal podia ter muito bem acontecido. Eu ia a chorar enquanto subia a rua até casa.
Cheguei a casa. Parei no passeio para cruzar a estrada para o outro lado. Lembro-me de ter parado para deixar passar o autocarro. O autocarro que ia dar a volta ao outro lado da cidade e, num dia normal, seria o autocarro que eu apanharia no regresso da escola para ir a casa almoçar se não tivesse de ir a pé mais cedo como fui.
O autocarro passou e cruzei a estrada. Mas agora que estava a chegar a casa os pés não me queriam obedecer. Parecia que não me queriam levar para casa. Mais, parecia que eu não queria ir para casa. Protelei a passagem. O outro lado tornou-se a outra margem de uma estrada como um rio caudaloso como um mar. Cheguei ao outro lado. Sentei-me no muro da casa vizinha. A casa vizinha era a casa dos meus vizinhos. Não estaria ninguém em casa. Só os cães que andavam lá de um lado para o outro a ladrar a quem passava do outro lado do muro, do lado de onde eu estava. Sentei-me no muro e acendi um cigarro. Já era tempo de parar de esconder que fumava. Um dos cães chegou-se a mim. Esticou-se até ao cimo do muro para que lhe fizesse uma festa. E eu fiz. Sempre gostei de cães. Dos de marca e dos rafeiros. Mesmo com aqueles que teimam em me arreganhar os dentes ao início, tento sempre dar-lhes a volta com algumas meiguices e umas palmadas no lombo.
Olhei para casa. As persianas estavam corridas. As janelas não estavam fechadas, mas as persianas estavam corridas para baixo, talvez a manter a luz baixa em casa.
Acabei o cigarro. Não havia ninguém na rua. Lembro-me porque achei estranho. Embora fosse uma rua residencial, durante o dia havia sempre gente a passar, a ir à padaria, à mercearia, a ir a casa uns-dos-outros, principalmente as mães, as mães que não trabalhavam fora, as mães domésticas que cuidavam dos filhos e da casa. Mas naquele dia, a rua estava deserta. Não havia ninguém nos passeios, nos jardins, nas varandas das casas. Só os carros continuavam a passar pela rua em direcção ao seus destinos.
As persianas da minha casa estavam corridas. Respirei fundo e fui em direcção a casa.
Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Naquele dia iria crescer. Naquele dia iria tornar-me no homem da casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/07]

Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]