Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

Já Sei Mentir Melhor

Fazia um grande esforço para não chorar. Entoava um mantra em silêncio, ecoado na cabeça, para me impedir de chorar. Ficava no meu canto em silêncio. Silêncio que toda a gente interpretava como arrogância. Eu era o tipo que não dava cavaco a ninguém. Estava na minha inacessível torre de arrogância e má-disposição e não falava com ninguém. Na verdade estava cheio de medo, metido no meu canto, à espera que tudo passasse, que tudo passasse e eu pudesse regressar ao meu quarto, à minha cama, ao meu mundo onde não tinha que ser forte nem querer da vida o mesmo que todos os outros e que era o que toda a gente deveria querer e quem não quisesse tinha um qualquer problema dos quais a arrogância era o mais inócuo, não fazia mal a ninguém, só afastava ainda mais as pessoas de mim mas era coisa que também não me importava pois o que eu queria era que não me chateassem, mas tinha amigos de infância que me conheciam antes de todos estes medos e que achavam que eu merecia bem mais do que aquilo que estava disposto a agarrar por, sei lá, desleixe, desinteresse ou falta de empatia.
Hoje sei mentir. E sei mentir bem. Não sou o rei da festa, longe disso. Mas já consigo estar ao pé das pessoas. Beber com elas. Dançar com elas. Desejar coisas que não desejo com elas. Receber desejos com um sorriso e desejar o mesmo ou similar e parecer mesmo que desejo. Bom, é claro que desejo. Desejo toda a sorte e fortuna às pessoas que me são próximas. É a mim que me custa sentir qualquer desejo, principalmente quando sei da impossibilidade de conseguir concretizar esse desejo. Como sair-me o euromilhões, por exemplo. Ou ganhar o Nobel da Literatura. Ou a Palma de Ouro de Cannes. Ou o Grammy Latino. São impossibilidades efectivas. Não sou escritor, nem cineasta, nem músico. Sou só um tipo que tenta sobreviver aos dias, vivendo um dia depois do outro, mesmo que na maior parte das vezes não me apeteça sair da cama nem sobreviver aos dias que nascem nas manhãs seguintes.
Acho que a minha grande ambição na vida é não acordar na manhã seguinte.
Mas não se pode dizer isso. Não se pode dizer isso alto. Não se pode fazer chegar esses desejos aos ouvidos de ninguém. Porque a vida é sagrada. E não aceitar a sagração da vida é de uma grande ingratidão. E eu sou um ingrato. Mas eles não sabem. Ninguém sabe. Porque agora sei mentir. Sei mentir bem. Agora sou uma pessoa feliz e cheia de empatia com toda a gente.
Quando regresso a casa, regresso sozinho. Regresso ao quarto. Regresso à cama. Liberto-me de todas as normas. Deixo a mentira lá fora. Fora da porta da rua da minha casa. E posso voltar a ser o que sou quando estou sozinho. Um tipo sem perspectiva de futuro que se vai arrastando nas vontades dos outros, enquanto se arrasta pelos corredores frios e vazios de uma casa solitária e triste.
Vou à varanda fumar um cigarro e acabo sempre a pensar que a minha casa devia ser mais dois ou três andares acima do que é.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/01]

Sol de Inverno

O dia acordou bem disposto. O sol lá no alto, brilhante, mentia-me sobre estar em Dezembro, a caminho do Natal, numa altura em que, à minha frente, se devia estender um tapete de neve. Mas não. Não havia neve. Estava um sol quente pendurado num céu azul de meter inveja a Agosto. Não fosse o frio dentro de casa, desta casa, e podia jurar que tinha viajado no tempo, não era o nascimento do Cristo, era o meu.
Depois de almoço, depois de ter comido um abacate, esmagado com o garfo, em cima de uma fatia de pão alentejano torrado, com um ovo estrelado e polvilhado com colorau e um pouco de pimenta moída, que acompanhei com um copo de vinho de um garrafão de palhinha, sem rótulo, que um amigo com produção própria me ofereceu, uma zurrapa que me deixou a garganta e o estômago a arder mas só preciso de insistir um pouco, e logo bebo mais um copo ou dois e resolve-se, vim sentar-me aqui na soleira da porta da cozinha.
Dois dos gatos vieram logo encostar-se às minhas pernas.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos e deixo-me banhar pelos raios de sol. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer que tenho de acabar um trabalho para entregar antes do final do dia. Está muito bom, aqui. Quente. Confortável.
É só um bocadinho. Só um bocadinho de sol a bater-me na cabeça. Na cara. No corpo. Sentir-me bem.
Ouço os camiões a passarem na estrada, mas parece que a estrada fugiu para muito longe de mim. Está agora muito distante. Mas ainda ouço os camiões a passar. É um embalo. O roncar daqueles motores é um embalo que me leva, suave, dia fora, até…
Que dia é hoje?
Tenho alguma coisa para fazer?
Foda-se! como se está bem aqui onde estou.
Gosto do Verão. Do sol. Da praia. Do mar. De comer umas amêijoas pretas na companhia de umas imperiais fresquinhas. Das miúdas em biquíni… Em monoquíni… Sem quini…
Sorrio. Sorrio da minha parvoíce. Às vezes sou um pouco parvo. Gosto de pequenas parvoíces. Das minhas pequenas parvoíces. O que é um homem sem parvoíces? Como é que se pode ser homem sem parvoíces? Um homem perfeito? Um chato do caralho, obviamente. Gosto dos meus erros. Das minhas falhas.
Ouço uma música. Está distante, a música. Que música será esta? Parece-me conhecida. Parece-me que a conheço. E acho que até gosto dela. Que música é? De onde é que ela vem? Olha, olha, aproxima-se. O som está mais alto. Parece que vem daqui. Daqui, ao pé de mim. Daqui do meu lado.
Abro os olhos.
Foda-se!
É quase de noite. Foi-se o sol. Está frio. Estou gelado. Tenho um arrepio.
O telemóvel está a tocar. Agarro-o. Olho para o visor, leio o nome de quem me está a ligar e digo, assustado, Que porra! O trabalho!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/06]

O Falhado

Sou um falhado.
Nunca consegui fazer nada que se visse da minha vida. A única coisa que um falhado faz bem é reconhecer outro falhado.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e as cabeças a acenar que sim, como a cabeça daqueles cães-bonecos que se abanavam nas traseiras dos carros de antigamente quando a auto-estrada começava no Carregado e antes de lá haver Campera e de podermos comprar roupas de marca a preço de saldo, num ritual sem sentido nenhum. Um ritual falso. Um ritual que é só mesmo isso, um ritual oco e mentiroso que se cumpre porque sim. Um automatismo. Na verdade nem eu nem ele queríamos estar ali. Mas estávamos. É o que acontece aos falhados. Estão lá. Estão sempre lá.
E então, dois falhados entram no café.
O que é que faz de mim um falhado? Talvez o nunca ter feito nada de jeito da minha vida. Pelo menos nada que seja traduzível em euros, honrarias e reconhecimentos.
Acabei um curso superior que não me levou para lado nenhum.
Fui abandonado por todas as mulheres que amei.
Fui despedido de todos os empregos onde trabalhei.
Perdi todos os amigos que fiz ao longo da vida.
Não estive presente na morte dos meus pais.
Não estive presente no nascimento dos meus filhos.
Todos os convites que tenho é para fazer algo à borla. Quando há orçamento não é a mim que chamam.
Tenho uma única conta no banco e, invariavelmente, está a zeros.
O meu cão mordeu-me.
O meu gato arranhou-me.
O preservativo estava roto.
Os números da minha chave para o euromilhões são sempre ao lado. Literalmente ao lado. Um número acima ou um número abaixo dos números vencedores.
Nunca ganhei nenhum prémio. Nunca ganhei nenhum concurso.
Nunca recebi nenhum subsídio.
Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi nenhum livro.
Escrevi poemas de merda adolescentes sobre problemas existenciais.
Antigamente era a mim que saía a fava no Bolo-Rei. O brinde, quando me calhava em sorte, ficava preso na garganta e engasgava-me. Ainda bem que os Bolos-Rei deixaram de trazer favas e brindes. De qualquer forma, não gosto de Bolo-Rei. Nunca gostei.
Aposto sempre no cavalo errado.
Todas as empresas que tentei erguer nunca saíram do chão.
Se o Benfica estiver a perder, num jogo que esteja a ver, é só deixar de ver para dar a volta ao marcador.
A canção que mais gosto na Eurovisão nunca ganha.
Nunca consegui comprar um carro e uma casa com uma cerca branca e uma casota para o cão que agora dorme na varanda.
Não tenho onde cair morto.
Sou mesmo um perdedor. Um falhado.
Mas reconheço os que são como eu. Os falhados.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e reconheci-me nele. Ele era eu antes de eu ser o que sou. Na altura ainda não sabia que era um falhado. Como ele ainda não sabe. Mas virá a saber. Porque vai aprender. Porque lhe vão dizer. Várias vezes. Alguns até lhe vão cuspir na cara És a merda de um falhado! como se fosse uma gripe e um tipo tivesse culpa de ter gripe.
E então, dois falhados entram no café.
Ele foi beber a sua bica. Eu acabei por voltar para trás e ficar na rua a fumar um cigarro e a pensar como a vida nos trucida. Rimos uns para os outros mas sentimos, cá dentro, o azedume que nos consome. Mentimos para que não nos julguem falhados. Rimos. Está tudo bem! Despenteamos o cabelo. Desalinhamos a roupa. Não fazemos a barba. Fumamos um cigarro. Bebemos um copo de vinho tinto. Está sempre tudo bem! Mesmo que estejamos a morrer de fome, com os bolsos cheios de comprimidos e uma navalha afiada.
Eu sou um falhado porque não consigo ser outra coisa. Eu sou um falhado porque não consigo ser um filho-da-puta.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/15]

Chicote

Saí do bar com ela. Cruzámos-nos ao balcão. Eu na cerveja. Ela no gin. E ficámos por lá até nos porem na rua. Ela falou-me dela. Eu falei pouco de mim. Ouvi-a. Mas não percebi que podia ser tudo mentira. Acredito nas pessoas. No melhor das pessoas. Que o maquiavelismo só nas novelas ou nas folhas de O Príncipe. Na verdade não a estava a ouvir. Estava a fingir dar-lhe atenção para que se sentisse atraída por mim e pela atenção que lhe dava. Que mais é que eu tinha para lhe dar para além da minha atenção e de um cirrose galopante?
Estávamos ao balcão a beber. A conversar. De dez em dez minutos vínhamos à rua fumar um cigarro. Ninguém nos roubava os lugares. Estava pouca gente. Eu e ela e mais uns poucos de bêbados caídos sobre as mesas.
Ela nem sequer era interessante. Fisicamente, digo. Porque a conversa, não a ouvi. Ela era um pouco vulgar. O cabelo despenteado. Um ligeiro buço aloirado. Já um pouco flácida. Quer dizer, eu também. Também ando sempre despenteado. Às vezes não lavo o cabelo durante dois ou três dias e fico com a testa brilhante. E também tenho o corpo flácido. A barriga tombada sobre a cintura. Os músculo descaídos pelo braços, pelas pernas, pelo peito abaixo.
Na verdade somos como somos e, quando saio à noite, não sou esquisito. Sei o que também sou. O álcool ajuda. E potencia. E como se costuma dizer, à noite todos os gatos são pardos. E sob as luzes coloridas das psicadélicas todos somos desejáveis. E à luz-negra todos os dentes são brancos. E com o strobe todos sabemos fazer o moonwalk.
Ela deu-me conversa. E eu fui na conversa dela. Sou fácil, é verdade. Ainda estávamos no início da nossa noite, ainda nenhum de nós estava bêbado, já eu me imaginava a apalpar-lhe as mamas. Eram grandes, as mamas. Pelo menos pareciam à luz suave e embriagada do bar quase vazio.
E então continuámos por ali fora. Fingimos interesses comuns. Bebemos. Acabámos os dois a ir para o whiskey à espera que batesse mais e mais depressa. Acho que precisávamos de uma desculpa para sair dali. E nunca chegou, durante toda a noite, a desculpa. E ela continuou a falar e eu continuei a ouvir.
O clique só se deu quando o bar fechou. Quando nos despejaram na rua. E agora? perguntei eu já com uma incontrolável vontade de a agarrar. Agora vamos para minha casa, disse ela, assim em jeito de afirmação.
E fomos. Fomos a pé que a casa dela não era longe. Também não era perto. Ainda tivemos de caminhar durante algum tempo. Pelo menos o tempo de fumar três cigarros. Até que chegámos a casa dela.
Abriu a porta. Fez-me entrar em casa. Levou-me para a sala e disse Senta-te! indicando uma poltrona. E eu sentei-me. Gostei daquela versão mandona. Ela manda e eu obedeço.
Ela saiu. E voltou. Trazia dois copos. Whiskey, disse. Tchin-tchin disse eu. Batemos os copos. Vi-a sorrir. Um sorriso cínico, parece-me agora. Na altura foi só um sorriso e o início de uma noite de sexo. Bebemos. Eu bebi. Queria despachar a parte da bebida.
Ela sentou-se no braço da poltrona. Abraçou-me. Beijou-me o pescoço. Senti um calafrio pela espinha. Bom. E depois… Depois comecei a ver tudo desfocado, como se precisasse dos meus óculos de ler para a ver. Para a ver a ela, que estava ali à minha frente. E, de repente, ela já não estava ali ao pé de mim, mas afastava-se como que o espaço entre nós dilatasse. Senti-me enjoado. A cabeça a andar à roda. Senti-me a desmaiar.
Ainda tentei dizer alguma coisa, mas não consegui. A língua parecia maior que a boca e não se movia. O lábios também não. E estavam secos. Os olhos pareciam querer fugir de órbita. A cabeça rodopiou e eu senti-me ir.
E devo ter ido.
Não me lembro do que se passou a seguir.
Acordei aqui. Aqui que não sei onde é. Está tudo escuro. Acho que estou deitado numa cama. Mas não estou em cima de um colchão. Pareço estar em cima de uma cama de grades. Ouço algum barulho metálico quando me mexo. E sinto uns vergões no corpo. A fazer pressão. Tenho as mãos e os pés atados. Tenho as pernas afastadas. E os braços esticados. Sinto-me exposto. Mas não me vejo. Não vejo nada. Está tudo escuro. Estou nu. Tenho a boca seca. As mãos húmidas. Sinto medo.
E então abre-se uma porta. Entra um feixe de luz quente. Alguém está à entrada da porta, em contra-luz. Tento focar mas isto é o melhor que consigo. E não consigo perceber quem é. Talvez seja ela. Tem uma coisa na mão. Lança essa coisa que tem na mão e ouço o barulho que faz ao estalar no chão. É um chicote.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/18]

A Celebrar o Equinócio de Outono

Estava toda a gente contente e triste ao mesmo tempo.
Estavam contentes porque celebravam o equinócio de Outono e, ao mesmo tempo, tristes por dizerem adeus ao Verão, às férias, ao calor e à vitamina D.
Mas estavam enganados.
O Verão não estava a acabar. Agosto já tinha partido, sim, era verdade. Setembro estava a chegar ao seu fim. O equinócio de Outono dizia-nos que estávamos a mudar de estação mas, na verdade, e eu sentia-o nos ossos, o frio ainda vinha longe e a praia ainda tinha muito para me dar.
Tenho ido todos os dias à praia. Ainda não é tempo das marés-vivas. Tenho mergulhado no mar. Todos os dias. Deito-me na areia e deixo-me lamber pelo sol.
Ainda ando de calções. T-shirt. Uso o cabelo curto. Às vezes boné para proteger a cabeça dos excessos de raios solares, principalmente nas horas mais quentes.
Mas já ninguém mais vem à praia. Pelo menos a esta aqui, onde estou agora, nu, com ela em cima de mim, a saltar em cima de mim a celebrar o equinócio. Com doçura. Com violência. Arranhou-me o peito. Fez sangue.
Celebra, miúda. Celebra comigo.
O mar está tranquilo. A água está fria, mas é o Atlântico, não é de se esperar outra coisa.
Estou deitado de costas na areia. Ela está sentada em cima de mim. Pula devagar. Por vezes mais depressa. Ginga as ancas com mestria. Eu olho o cimo das arribas e penso se ainda andarão por lá os mirones de Agosto. Se alguém está lá ainda a masturbar-se com a visão da performance sexual dela ou se está a gravar a nossa história para fazer um filme e colocá-lo no PornHub.
Estamos, também, a celebrar o equinócio à nossa maneira. Mais ela que eu. Eu estou mais concentrado em listar a equipa do Benfica que jogou no Sábado passado e não me vir depressa demais e deixá-la frustrada e furiosa com os seus desejos não cumpridos.
As cidades voltaram a encher-se de carros. Os transportes públicos voltaram a encher. Os estudantes ocupam as ruas com as suas manifestações pelo clima. Os partidos políticos, alheados do presente, mantêm as suas campanhas velhas e com cheiro a mofo, em arruadas, festas e debates onde não se fala de nada que interesse às gerações mais novas mas a mesma lenga-lenga de sempre, a esquerda, a direita, a maioria absoluta, os funcionários públicos, os professores, os enfermeiros, a tourada, a carne de vaca, a social-democracia na boca de todos e todos a jurar, a pés-juntos, que só eles conseguem estancar o aumento da pobreza e a falta de perspectivas de trabalho digno para o grosso da população que não tem as valências necessárias para as exigências do futuro.
Ela grita agora um pouco, embora tente abafar o grito, e eu penso que o salário mínimo são seiscentos euros. Seiscentos euros.
E acabo por me esquecer da equipa do Benfica e do valor do salário mínimo nacional e deixo-me ir com ela, para dentro dela e sinto-a tombar sobre mim e não sei se é verdade ou mentira, se ela chegou onde queria chegar ou só não quer que eu me sinta diminuído na minha evidente fragilidade sexual perante ela.
Enfim.
Ela levanta-se. Dá-me a mão. Ajuda-me a levantar. Vamos os dois de mãos dadas ao mar. Mergulhamos no Atlântico. Gritamos com o frio da água, mas rimos de estarmos ali assim, sozinhos, a viver o nosso Verão dentro do Outono e a pensar que Agosto é quando queremos e nós queremos Agosto agora, em plena celebração de um equinócio que também nós vivemos.
Aproveitamos uma onda para sair do mar e voltamos para as toalhas para aproveitar mais um pouco de vitamina D.
Mais tarde sairemos daqui. Subiremos à arriba. Iremos beber um copo de vinho branco. Petiscar uns camarõezinhos da Figueira. Olhar um para o outro. E iremos rir como parvos.
Como gostamos de ser parvos! E iremos rir de novo. E eu irei pensar se, um dia, irei encontrar a minha cara no PornoHub. Mas não estarei preocupado. Nem triste.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/23]

Caído no Chão sem Me Conseguir Mexer

Estou caído no chão da cozinha e ouço os cães a ladrar lá ao fundo.
Não me consigo mexer. Estou caído no chão da cozinha e não me consigo mexer. Vejo o fumo que o cigarro que tinha na mão ainda deita. Vejo-o subir pelo ar e desaparecer. Apetecia-me ter fumado aquele cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro.
Não sei o que me aconteceu. Estava a fumar um cigarro aqui, à janela, e, de repente, fiquei paralisado, comecei a transpirar muito, senti muito calor, senti todas as gotas de suor que começaram a descer por mim abaixo, senti as pernas a tremer, a fraquejar, perdi a força nas mãos, deixei de sentir os dedos, o cigarro caiu para o chão e a seguir caí eu. Caí no chão.
Não consigo falar. Nem gritar. Não consigo mexer nada. Não, mentira, consigo mexer os olhos. É a única coisa que consigo mexer. Os olhos. E posso olhar em vários sítios, os sítios onde os olhos podem alcançar dentro das órbitas.
Não perdi os sentidos. Estou consciente. Assustado, mas consciente.
Agora começo a ouvir os carros na rua. É estranho como só ouvia os cães a ladrar e, agora, o barulho dos carros a passar na rua está a fazer-me deixar de ouvir os cães.
Já não vejo o fumo do cigarro a subir para o tecto. Já deve ter-se apagado. E eu não o fumei.
Queria fumar um cigarro.
Queria não estar aqui assim, caído no chão sem me conseguir mexer.
Queria não estar sozinho em casa para ser socorrido.
Queria estar à janela a fumar um cigarro e a olhar para as pessoas que entram e saem da pastelaria da rua.
Queria ir à Lua. Queria ir a Marte. Queria ir à Terra do Fogo.
Queria ter escrito o Space Oddity.
Queria ter escrito A Mancha Humana.
Queria ter pintado o No.301.
Queria ter dançado o Lago dos Cisnes.
Devia sentir as costas frias e húmidas da transpiração e do chão da cozinha. Mas não sinto nada. Continuo sem sentir nada. Continuo sem conseguir mexer-me. Pareço morto. Um morto consciente.
Não virá ninguém cá a casa.
Vão passar as horas.
Se calhar, os dias.
Vou sentir fome. E sede. E uma vontade diabólica de fumar um cigarro.
E eu vou estar aqui assim, caído, paralisado, consciente.
A luz mudou. A luz lá de fora mudou e alterou a luz aqui de dentro. Já é noite.
Agora ouço o som de conversas. As conversas sobrepõem-se ao barulho dos carros. A ruas devem estar cheias de gente a passear. A passear a pé.
As horas estão a passar. Gostava de me passear também pelas ruas da cidade. Gostava de me passear debaixo das luzes de néon da cidade. E fumar um cigarro.
Mas continuo aqui. Não sinto o meu corpo. Não sinto nada. Não… Sinto medo.
O que é que eu posso fazer?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/19]