Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]

Convite para Jantar

Todos os dias eu saía e ia fumar um cigarro à rua enquanto esperava que ela viesse almoçar a casa. Eu fumava o cigarro. Ela chegava. Entrávamos em casa e almoçávamos. Normalmente ela fazia o almoço de véspera. Depois aquecíamos no micro-ondas. Às vezes eu fazia o almoço no próprio dia, em dias de mercado.
E foi sempre assim, durante muitos dias, até ao dia em que ela não veio almoçar.
Depois desse dia, eu nunca mais fui à rua fumar um cigarro enquanto esperava por ela. Ela já não vinha. Passei a fumar à janela.
Foi também depois desse dia em que ela já não veio que me afastei ainda mais do mundo exterior. Isso já tinha acontecido por causa dela. Tinha deixado de sair à noite. Tinha deixado de estar com os meus amigos. Bebia copos em casa com ela. Conversava com ela. Petiscava com ela. Discutia com ela. Fazia amor com ela. Vivia para ela.
Quando ela deixou de existir cá em casa, eu não soube bem o que fazer. Mas já não conseguia voltar no tempo. Já não conseguia voltar aos amigos que tinha deixado em determinada altura da minha vida.
Passei a ficar em casa. Sozinho. A beber sozinho em casa. A comer sozinho em casa. Às vezes falava alto para comigo para ouvir a minha voz. Para ouvir uma voz. Para ouvir uma voz em casa. Às vezes até me zangava comigo.
E passou muito tempo, e eu passei muito tempo assim. Passaram mesmo alguns anos. E habituei-me a estar sozinho. Gostava de estar sozinho.
Por isso foi com estranheza que recebi aquela mensagem no telemóvel.
Estava à mesa da cozinha, a escrever no computador, na companhia de um copo de vinho tinto e um cigarro aceso que os pulmões estavam a fumar, quando ouvi o sinal sonoro de chegada de mensagem ao telemóvel. Olhei em volta à procura dele. Vi a luz acesa em cima da bancada. Levantei-me. Agarrei o telemóvel, abri a mensagem e li Vamos jantar no Sábado ao sítio do costume. Temos saudades tuas. Aparece. Assim, três pequenas frases com pontuação.
Larguei o telemóvel de novo na bancada. Apaguei o cigarro na água da torneira do lava-louças. Fui até à mesa e bebi um gole de vinho.
O que é que aquela mensagem quer dizer? perguntei-me.
Fui até à janela. Olhei para a rua. A cidade continuava a viver indiferente à minha ausência.
Porquê agora, ao fim de tanto tempo? continuei a perguntar-me.
Agarrei no telemóvel e respondi Está bem.
No Sábado seguinte tomei um banho de imersão. Fiz a barba. Rapei mesmo os pêlos. Com lâmina. No fim nem me reconhecia. Vesti roupa lavada. Meias que não estavam rotas. Uma camisa passada a ferro. Um casaco sem nódoas e sem vincos.
Ao início da noite saí de casa.
Estava a chover.
Levei chapéu-de-chuva e fui andando pela cidade, debaixo dos beirais, até ao restaurante. Quando vi a entrada, do outro lado da estrada, parei e acendi um cigarro. E fiquei ali à chuva, debaixo do chapéu, a fumar o cigarro. Vi gente a entrar. Não sei se conhecia alguém. Estava demasiado longe da porta para perceber quem seriam as pessoas que vi entrar. Estava demasiado nervoso. Acabei o cigarro e arranquei até ao restaurante. Cruzei a estrada. Olhei para um lado. Para o outro. E passei. Levei a mão à porta para abri-la e parei. Olhei lá para dentro. Para dentro do restaurante. Vi uma mesa que eram várias. Uma mesa comprida para muita gente. Muita gente que estava lá em pé, a socializar, de copo de imperial na mão, na conversa. Na conversa uns com os outros. E eu não reconheci ninguém. Mesmo os que conhecia, não reconhecia. Quem eram aquelas pessoas? Para onde é que eu estava a ir? Com quem é que ia ter?
Ouvi um Desculpe! Com licença!, e cheguei-me para o lado e, um casal, um homem e uma mulher, entraram dentro do restaurante e vi-os irem ter com as outras pessoas que já lá estavam e cumprimentarem-se. Estavam contentes. Viam-se alguns sorrisos.
Afastei-me do restaurante. Caminhei por algum tempo pelo meio da estrada. Não havia trânsito. Mas chovia. Chovia bastante.
E depois disse, baixo, mas alto o suficiente para me ouvir Vou passar pelo Pingo Doce e comprar uma coxa de frango assada.
Acendi um cigarro e pus-me a fazer o mesmo caminho que tinha acabado de fazer, mas no sentido contrário. Ia regressar a casa. Com um desvio pelo Pingo Doce. E ainda pensei Que pena não haver outro supermercado na cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/20]

O Dia Acordou Cinzento

O dia acordou cinzento. Não o dia, propriamente. Mas o que o dia me trouxe quando eu acordei.
Estava uma manhã clara. Não havia sol. Mas o dia estava luminoso.
Não consegui levantar-me logo da cama. Acordei assim, sem grandes vontades de abraçar o dia. A cara fechada. Como se alguma coisa não muito boa estivesse à minha espera. Como se estivesse alguma coisa para acontecer. Uma angústia que precede um pressentimento. Virei-me para um lado. Virei-me para o outro. Mas já estava desperto. Não consegui voltar a adormecer. Não me apetecia levantar. Queria adiar a manhã. O dia. Queria adiar o dia até ele ser outro. Amanhã.
Lá acabei por me levantar. A contragosto.
Sentei-me na cama. Sentei-me nu na cama a ouvir o silêncio. Não me trazia nada. Escutei-o. E era só silêncio. Não era dali que vinha.
Levantei-me. Os passos arrastados pelo chão. Entrei no duche e deixei-me cozer em água quente. Não via nada à minha volta. Só vapor de água. E, no entanto, sentia que havia qualquer coisa. Não ali. Não ali na casa-de-banho. Não ali no duche. No duche só havia vapor de água que me entrava nos pulmões e voltava a sair. Abri a janela da rua e vi o vapor de água fugir em golfadas de nuvens e deixar-me ali assim, sozinho, eu a minha pouca-disposição para a vida.
Voltei ao quarto. Umas cuecas. Umas calças. Uma sweat. Sentado na cama entre o vestir de cada peça. Como se não quisesse sair dali. Do quarto. Da cama. Vesti as cuecas e sentei-me. Pensei no que se seguia e percebi que era melhor vestir as calças. Peguei umas calças de ganga caídas sobre uma pequena poltrona ao canto do quarto. Sentei-me de novo. Meias. Calcei meias pretas. Calcei as sapatilhas da véspera que estavam caídas ao lado da pequena poltrona. Deixei-me cair para trás, na cama, e olhei para o tecto. Vi uma cagadela de mosca. Pensei que tinha de lá ir com lixívia. Mas noutra altura.
Senti um aperto no coração. Nos pulmões. Tive de puxar o corpo para cima para conseguir respirar.
Olhei os dedos das mãos. As unhas. Pensei que tinha de as cortar. Mas não me apetecia.
Levantei-me da cama. Escolhi uma sweat-shirt e enfiei-a pela cabeça.
Virei a cabeça. Virei a cabeça à volta. Estava à procura de qualquer coisa. Estava vestido. Ia sair do quarto. Talvez beber um café. Talvez fumar um cigarro. Ia sair do quarto mas faltava qualquer coisa.
E, então, vi-o. Vi o telemóvel. É o telemóvel. Mas parei. Parei onde estava. Parei a olhar para o telemóvel e disse Foda-se!
Vi o telemóvel pousado em cima da mesa-de-cabeceira. Mas não o agarrei. Fiquei parado. Parado a olhar para ele. E antecipei. E disse Foda-se! e percebi que alguma coisa ia acontecer. Que ele ia ganhar vida. E eu não ia gostar. Era um pressentimento. E fiquei parado por instantes. Uns micro-instantes que me pareceram uma eternidade. E então…
O som de chegada de mensagem.
Como que despertei. Movi-me em direcção ao telemóvel. Agarrei-o. Sentei-me na cama. Sentei-me, outra vez, na cama. E abri a mensagem. E li-a.
Fiquei ali sentado na cama a olhar para o telemóvel. Já tinha lido a mensagem. Já tinha lido a mensagem várias vezes. Até parar de lê-la mas a continuar a olhar para o telemóvel. Por fim larguei-o em cima da cama e saí do quarto.
Saí para a rua. Bati com a porta nas minhas costas. Acendi um cigarro. Estava nervoso. Tinha dificuldades em acender o cigarro.
O telemóvel ficou em cima da cama. Com a mensagem no visor. Depois o telemóvel desligou-se. Apagou o visor. A mensagem desapareceu e o telemóvel pareceu morrer.
Eu estava na rua e pensei que preferia ter ficado na cama. Em dias que acordam cinzentos gosto de ficar na cama.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/05]

Os Cinco

Peguei no Lovely de Frank Ronan. Andava com vontade de o reler. Gostava muito do Frank Ronan. Li os livros todos. E, de repente, desapareceu. Já andei à procura dele pela internet, mas parece que não existe. Evaporou-se. Deve ter cometido suicídio literário. Tenho pena. Gostava dele. Gostava muito, mesmo. Desde Evelyn Cotton. Até à imitação de Marc Bolan.
Peguei no Lovely de Frank Ronan. Sentei-me no sofá. Mas não cheguei a ler a primeira linha. Do interior do livro caiu uma fotografia. E o meu olhar caiu com a fotografia. O que é que aquela fotografia estava a fazer dentro do Lovely? A quem é que eu emprestei o livro? Eu que nem gosto de emprestar livros? Quem é que o leu? Quem é que pegou nele à minha revelia?
Peguei no Lovely de Frank Ronan mas larguei-o logo em cima do sofá, ali ao meu lado. Baixei-me e peguei na fotografia. Lembrava-me daquela fotografia. Lembrava-me de quando a tirámos. A fotografia da nossa última viagem. Quando ainda andávamos juntos. Quando ainda éramos amigos. Companheiros. Ou se calhar já não. Provavelmente já nos estávamos a afastar. A sermos corroídos por dentro. Por dentro da amizade. Sim, porque éramos amigos.
Peguei na fotografia e vi. Cinco personagens abraçadas. Quatro rapazes e uma rapariga. Eu, mais três rapazes e a rapariga. Estávamos em Santiago de Compostela. Atrás de nós, na fotografia, a Catedral. Tínhamos acabado de fazer a Via Láctea, que me tinha fascinado depois de ver o filme de Luis Buñuel. Mas não fomos lá em peregrinação. Foi a nossa rota de fuga. E funcionou. Deu resultado. Mas tudo terminou aqui. Em Santiago. E tudo por causa dela. Como é que a fotografia veio parar aqui?
Peguei na fotografia e vi o grupo. Três deles já não andavam por cá. Três deles já tinham morrido. Morrido em condições no mínimo estranhas. Estranhas para mim. A polícia não achou nada de estranho. As autópsias também não revelaram nada de estranho. Mas havia algo de estranho. Logo para começar a coincidência das mortes. A semelhança dos acidentes.
Ela sobreviveu. Ela e eu. Mas ela desapareceu logo. Sei que andou uns anos pela América Latina. Mas nunca mais tivemos contacto. Nem apareceu nos funerais dos outros três. Eu… Eu mantive-me por aqui. Decidido a portar-me bem. A andar na linha.
Peguei na fotografia e olhei para ela. E ela tinha sido a nossa sorte. E tinha sido o nosso azar. Foi ela que nos juntou, mas também foi ela que nos separou.
Peguei na fotografia e lembrei-me do tempo em éramos só dois. Só nós dois. Sem os outros três. Antes do outros três. Antes de cada um dos outros três depois de mim. Ela jogava bem connosco.
Peguei na fotografia e pensei no resto do dinheiro que nunca tinha aparecido. O dinheiro correspondente aos outros três. Nunca saiu nada na comunicação social. Ou a polícia ficou com o dinheiro, ou ele nunca apareceu. Alguém pode ter ficado com ele. Sempre pensei nessa possibilidade. Talvez ela. Mas nunca quis verdadeiramente acreditar que tivesse sido ela. Ou já sabia?
E então, um sinal sonoro de chegada de mensagem no telemóvel.
Pousei a fotografia em cima do livro. Peguei no telemóvel que estava na mesa de apoio, à minha frente, e li Olá. De regresso. Quero ver-te. Na esplanada do argentino. Ao lusco-fusco ☺ Assim. Com a merda de um emoji a sorrir.
Deixei o livro e a fotografia no sofá e fui ao quarto. Ao roupeiro. Ao fundo do roupeiro. Agarrei na caixa. Levei-a para a sala. Sentei-me na mesa de jantar. Abri a caixa. Tirei o revólver e limpei-o.
Já estou aqui sentado, na esplanada do argentino, à mais de meia-hora. Vim antes de tempo. Ainda falta algum tempo para o lusco-fusco. Mas eu gosto de chegar antes da hora. Gosto de observar tudo. Ver tudo. Gosto de me sentir preparado. Mesmo que seja para a morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/04]

Os Cães Pressentem Sempre

Encostei-me ao beiral da janela a fumar um cigarro e a ver a chuva a cair.
Estava a chover tanto que já não via as montanhas. Mesmo as oliveiras do terreno em frente eram uns fantasmas a surgir por trás da forte queda de água.
Era Domingo e não sabia o que fazer.
Não havia internet. Sempre que chovia um bocadinho, a rede tremia. Com uma chuvada forte, desaparecia. Ficava isolado. Isolado não que o telemóvel tinha rede. Mas não me apetecia falar com ninguém. Portanto, acho que ficava isolado, sim.
Na televisão teimavam as canções pimba em programas populares feitos num país profundo que descubro feio através da televisão. Mas não é, que eu conheço-o. O país não é feio. A televisão é que tende a desfigurar tudo. É uma coleccionadora de erros, enganos e logros. O playback na aparelhagem, os bailarinos de pasodoble travestidos em techno-regional e umas apresentadoras perdidas na multidão a querer saber as impressões do povo.
No canal ao lado passavam filmes de família, dizia o locutor, que já não é da continuidade, mas que informa, para quem não sabe, as maravilhas que o esperam se continuar sentado por ali, num Domingo de chuva que convida ao sofá. Filmes requentados já vistos mil-e-uma vez.
Eu fui para a janela fumar um cigarro e olhar para a rua. Procurava alguma coisa com que entreter o olhar. Não havia luz suficiente para ler um livro. E era ainda cedo para acender as luzes. A conta ao final do mês não o permite.
Recebi uma mensagem no telemóvel. O antigo presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, tinha sido detido. Não sei porque me mandaram a mensagem. Nem sou do Sporting.
Apetecia-me umas filhoses. Uns coscorões. Umas fatias douradas. Uns sonhos. Porra! Não conseguia pensar em mais nada que em comida?
Não tinha almoçado. Nem tinha lanchado. Tinha comido uma torrada de manhãzinha. Ia comer outra mais logo, à noite. Tinha de aguentar.
Lá fora continuava a chover. Mas conseguia ouvir o latir dos cães da vizinhança por cima do barulho da chuva. Pressentiam qualquer coisa. Talvez um tremor-de-terra. Talvez trovoada. Uma enchente. Há um ribeiro aqui perto.
Lá em baixo na estrada nem um carro. Nem uma motorizada. Ninguém.
Mandei o cigarro para a rua. Vi a água violenta a desfazê-lo.
Pensei no sardão. Há muito tempo que não o via. Onde andaria? Estaria ainda vivo? Voltaria cá?
E então, os cães calaram-se. Por trás da chuva, o silêncio. O céu escureceu ainda mais. Não havia nuvens. Era tudo uma massa cinzenta escura a mandar chuva cá para baixo. E vi um risco de luz muito brilhante a cruzar o céu até à Terra. O silêncio mantinha-se. Eu não via as montanhas que deviam estar lá à frente. Já nem via as oliveiras fantasma. Só uma névoa de chuva. E, depois, o estrondoso trovão gutural, e prolongado, saído das entranhas de Thor. Assustou-me, aquela porra. E o estar sozinho, ampliou aquele susto.
Fui acender outro cigarro para acalmar. Voltei para a janela para continuar a ver a chuva a cair. Copiosamente.
E então tremi. Tremi como gelatina. Os meus pés abanaram. Senti a casa a mexer-se. Os pratos a caírem. Os copos a caírem. O barulho de coisas a cair e a partirem-se. A casa abanava. E começou também ela a partir-se. A desfazer-se. A deixar cair pedaços enquanto eu parecia ver tudo desfocado.
Larguei o cigarro e corri para o vão da porta da rua. E a casa veio abaixo. Veio abaixo sobre mim. Mas eu resisti. Resisti debaixo do vão da porta da rua enquanto a casa tombava, como um baralho de cartas, sobre mim.
Continua a chover. Eu ainda estou debaixo do vão da porta da rua. Estou preso. Não consigo sair daqui. E não vejo nada. É de noite. Não há luzes. Está tudo escuro. Não ouço barulhos a não ser o som da chuva que ainda não parou. Sinto os pés molhados. As pernas húmidas. Não sei o que me vai acontecer. Mas estou com medo. Estou com medo e com fome. Só comi uma torrada de manhãzinha.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/11]

Há Dias que Chegam de Rompante

Há dias que chegam assim. De rompante. Não é que não estivesse à espera deles. Mas quando chegam são sempre mais intensos do que estava à espera. Geralmente acabo arrasado. A dificuldade está, sempre, em conseguir recuperar o que o dia destrói. Quando se recupera.
Estava sentado frente ao computador. Uma página em branco aberta no Word. Um cigarro a queimar entre os dedos. E eu sem saber o que escrever.
Pelo canto do olho vi o relógio mudar os números. A hora. O dia. Era meia-noite.
00:00:00. 00:00:01. 00:00:02. 00:00:03…
O segundos avançavam pelo novo dia. E eu com eles. A página continuava em branco. E eu sem ideias. E, de repente, lembrei-me. Lembrei-me que era uma data importante. Daquelas que nunca esqueço. Mas que tenho de lembrar porque é doloroso passar por estas datas. São datas que magoam. Que me deixam destruído. Incapaz. Sim, essa era a palavra. Incapaz. É assim que eu fico nesta data. Incapaz. Mas não é a única que me deixa assim. Digamos que é uma das que me deixa mais assim.
Levantei-me e fui fumar o resto do cigarro para a janela da cozinha. Chovia, que Deus a dava. Nos prédios em frente, algumas janelas iluminadas. As varandas vazias. Lá em baixo, na rua, só as gotas da chuva na calçada. De resto, ninguém. Nem uma alma.
Ouvi o som de uma mensagem do e-mail.
Lancei a beata para o meio da rua. Sentei-me frente ao computador. Abri o mail. Abri a mensagem. Li. Nem li tudo. Parei logo ali. O coração aos saltos. Ansioso. Não precisei de ler tudo. Logo no início estava A sua proposta não se enquadra no que procuramos…
Para quê ler o resto?
Ainda não era meia-noite e dez. O dia ainda não tinha realmente começado. Mas já tinha começado a dar tareia.
Desliguei o mail e reparei que tinha lá outro. Daqueles que não se anunciam sonoramente. O extracto bancário. Até me ri quando vi o mail. Nunca o abro. Abri-o. E estava como era suposto estar. A zeros. Não há milagres.
Tocou o telemóvel. Atendi. Era o director da revista para a qual devia estar a escrever o texto que não surgia e me mantinha, teimosamente, a página em branco. Nem falei. Só ouvi. E percebi que já não precisava de escrever o texto.
Desliguei o telemóvel. Fechei a tampa do computador.
Desliguei as luzes. Fui às escuras para o quarto. Despi-me. Enfiei-me na cama. Ainda vi nos números brilhantes do relógio digital na mesa-de-cabeceira. 00:20. Ainda não era meia-noite e meia. Ainda não tinha começado bem o dia. Ainda não tinha passado uma hora, sequer. O sol ainda era uma miragem de amanhã. Se nascesse, claro, que lá fora, a chuva embalava-me.
Enfiei-me na cama. Tapei-me com os cobertores. E decidi não sair da cama enquanto aquele dia não se fosse embora. Não me iria levantar nem para mijar.
Há dias assim. Dias de merda. Que nos quebram.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/07]

Queria Não Ser Assim como Era

Hoje chorei.
Acordei de manhã, com um fiozinho de sol a bater-me nos olhos. Ergui-me um pouco na cama, encostei-me à parede, mas não consegui levantar-me. Tinha vontade de urinar, mas não consegui sair da cama. Puxei os cobertores para cima de mim, para me tapar, só deixei de fora os olhos que viam o fiozinho de sol a dançar no interior do quarto. E comecei a chorar.
Fiquei encostado à parede, com os cobertores sobre mim, a chorar. Chorei muito. Parecia ter em mim uma dor enorme, não tangível, mas que me angustiava e me fazia chorar. Abri muito a boca para conseguir respirar, os olhos ficaram mais pequenos, mas a enxurrada de lágrimas era cada vez mais caudalosa.
Depois solucei. E parei de chorar.
Deixei-me escorregar para dentro da cama, para debaixo dos cobertores. Estava quente.
O choro tinha-me aliviado o corpo, e sentia-me mais leve. Respirava melhor. Parecia que tinha crescido. Mas por pouco tempo.
Ouvi a campainha da porta da rua. Não me levantei. Continuei deitado. Enfiado na cama. Alheio a tudo. De olhos fechados a pensar que o mundo era aquilo ali, a minha cama quente e acolhedora, o meu quarto, dentro da minha casa, e não tinha necessidade de mais.
Tive fome. E sede. Mas não me levantei. Não conseguia. Continuava deitado. Nem me mexia. Não me virava. Continuava como estava.
O telemóvel tocou. Uma vez. Duas vezes. Não o fui atender. Depois ouvi o sinal de chegada de mensagem. E isso não me despertou qualquer vontade. Sentia-me apático. Sem vontade. Morto.
Despertei com vontade de vomitar.
Levantei-me o mais rápido que consegui e fui para a casa-de-banho. Baixei-me para a sanita e vomitei, uma espuma amarela esverdeada. Tive vários solavancos no corpo que me fizeram expelir uma data de espuma. No fim só saía um fiozinho.
Sentei-me na retrete. E deixei-me estar ali algum tempo. Comecei a arrefecer. Senti o corpo a ficar dormente. A cabeça fugia-me e queria levar-me com ela. Para a cama. Senti-me a cair. Levantei-me a custo. Puxei o autoclismo e regressei à cama. Enfiei-me debaixo dos cobertores e tapei-me todo. Nem os olhos viam a luz do quarto.
Quando voltei a abrir os olhos, não via nada.
Levantei a cabeça para fora dos cobertores, mas continuei sem ver. Fiquei assim um bocado, a tentar perceber o que se passava. Os olhos habituaram-se à escuridão e comecei a distinguir sombras. Sombras familiares. Percebi onde estava.
Sentia-me angustiado. Estava com fome. E sede. Mas não conseguia levantar-me. O telefone voltou a tocar. E eu voltei a enfiar-me debaixo dos cobertores e cobri-me todo.
Não queria ouvir o telefone. Queria não estar ali. Queria não ser eu. Queria ser uma simulação de computador. Queria morrer. Queria desnascer. Queria voltar atrás e não ser assim como era.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/19]