Foda-se! Caralho!

E de repente fez-se silêncio. Meu e do outro lado do telefone. Percebi que disse qualquer coisa que não devia ter dito. Busquei, na minha memória imediata, o que tinha acabado de dizer. E entendi.
Do outro lado do telefone o breve silêncio. Depois o suspiro de enfado. O nojo da conversa. E a voz da mulher, a voz fria da mulher sem paciência do outro lado do espectro telefónico diz que vai desligar. E eu fico assustado. Não quero que ela desligue. Não quero que ela se vá embora. Ela diz que aquela linguagem não é linguagem apropriada. Eu disse Foda-se!, mas não a mandei foder. Disse só Foda-se! Uma interjeição. Um grito. Uma forma de sublinhar o meu desespero. O desespero que lhe tinha afirmado mas que percebi que tinha caído em saco roto. Ninguém quer saber dos dramas alheios.
Aquela gente não é gente. Aquela gente tem bits e bytes no lugar do coração. Aquela gente não sente. Não se sente. A lei é regra, mesmo quando injusta. Não há atenuantes. Não interessa a história. Nem o enquadramento. É assim, é assim ponto final, parágrafo.
Porque é que não lidamos directamente com máquinas? Poupávamos nos salários desta gente que não é gente.
Peço desculpa pela minha linguagem, disse. Não queria dizer o que disse, voltei a dizer. Estava, estou, desesperado. Triste. Zangado. Não vislumbro saída. Sinto-me acossado e então, saiu-me Foda-se! Tive sorte não me ter saído um Foda-se! Caralho! que era o mais apropriado quando me sinto encurralado, sem saída e sem fazer puto de ideia de como resolver o problema quando, do outro lado, a voz, aquela voz, monocórdica, gelada, imperturbável, se rege rigidamente pelos mandamentos das regras, da lei, da filha-da-puta da lei que é entendida à letra e feita cumprir à letra a não ser que se possa pagar um advogado, um bom advogado, daqueles que interpreta a lei que, afinal, só é à letra para quem não pode pagar o advogado com dotes interpretativos.
Senti umas lágrimas assomarem aos olhos. A voz a embargar, a ficar retida na garganta. Desculpa! Peço desculpa. Uma e outra vez enquanto ela, a voz, me avisa que vai desligar, que assim não se pode falar e eu vergo tanto as costas a pedir desculpa pela minha linguagem, português, foi português que eu usei! que a voz lá acede a dispensar-me mais uns segundos de caridade à minha pedinchice que eu já sabia que não iria dar em nada. Como não deu.
Depois de desligar o telefone e estar quase na mesma como estava antes do telefonema pensei Estou mesmo fodido! E estou! Estou fodido e não sei como arrepiar caminho.
Há dias em que não me apetece levantar a cabeça da almofada. Há dias em que me apetece ficar na cama, debaixo do edredão, a imaginar mundos de sonho que não são os meus. Há dias em que só um Foda-se! Caralho! me dá alento para continuar vivo, nem sei bem porquê. Nem para quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/14]

A Minha Casa Tem um Buraco por Onde Me Foge Tudo

Às vezes penso que há um buraco temporal em minha casa.
Há coisas a desaparecerem.
Por vezes vou à procura de um livro que sei que tenho e dou com o sítio mas não com o livro. Percorro todas as prateleiras à procura dele, como se fosse possível eu colocá-lo fora de ordem. Procuro nas pilhas de livros a aguardarem vez de leitura ou vez para serem armazenados por ordem alfabética nas prateleiras. Procuro onde não devem estar. Mesmo na casa-de-banho. Mesmo no frigorífico. Já procurei no congelador. Em vão.
Não vem ninguém a minha casa. Há muitos anos que ninguém franqueia as portas de entrada. Agora nem mesmo a senhora que me vinha fazer a limpeza da casa. Mandei-a não vir mais que não tinha dinheiro para lhe pagar. Passei eu a aspirar a casa uma vez por semana. Uma vez por semana mudo os lençóis da cama e as toalhas da casa-de-banho e faço duas máquinas de roupa. De mês a mês sacudo os tapetes. No início da Primavera, lavo os tapetes no quintal, mando-lhes com uma mangueirada para cima, despejo-lhes um bocado de detergente e esfrego-os com uma escova. Todos os dias arejo a casa. Abro as janelas. Pus mosquiteiros para evitar a entrada de moscas e outras bichezas. Mas não impede a entrada do pó. Às vezes quando caminho descalço por casa, vejo o pó que se me agarra à planta dos pés. Fico com os pés pretos. É então que dou uso ao bidé. Cá em casa serve para lavar os pés.
A casa não é rota.
Por onde fogem os livros?
No outro dia andei à procura de uma tostadeira. Queria fazer uma tosta. Uma tosta-mista. Não encontrei a tostadeira em lado nenhum. Só a torradeira que está em cima da bancada da cozinha e ligada com o cabo de alimentação à ficha de electricidade. Mas eu juro que tenho uma tostadeira. Ou tinha. Pelo menos, acho que tinha. Já começo a pôr tudo em dúvida. Vejo-me a fazer uma tosta-mista, com aquela tostadeira, aqui, na cozinha cá de casa. E se é tudo mentira? Uma efabulação? E se fui eu que criei essa memória para justificar ter uma tostadeira que, afinal, nunca tive?
E os livros? Poderá ser o mesmo princípio? Será que nunca tive os livros que penso ter? Que tinha? Que até os via ali, arrumados nas prateleiras das estantes, uns ao lado dos outros?
Tive uma namorada. Acho que aqui já nesta casa. Ela também desapareceu.
Posso estar enganado e afinal a namorada não ser minha e estar a confundir tudo com algum filme francês visto nas noites da RTP2, mas acho que não. Acho que era mesmo minha namorada. Tenho uma vaga ideia de a ver caminhar descalça aqui pela cozinha, abrir a porta do alpendre e ir fumar um cigarro lá para fora. E eu estar aqui na cozinha, sentado nesta mesa, nesta mesma mesa onde estou agora, frente ao computador, e olhá-la em contraluz, no alpendre, com as montanhas lá ao fundo, a fumar um cigarro. Mas também posso estar enganado.
É provável que exista um buraco do tempo aqui em casa. Um buraco que me rouba livros, dinheiro e, pelo menos, uma namorada. E posso estar a esquecer-me de outras coisas, que já me baralho muito.
Por vezes ouço a voz de uma rapariga, vou corredor fora à procura dela e não a encontro. Talvez haja no meu corredor um portal para outras dimensões. A minha casa pode estar num meio de coordenadas cabalísticas. Ou o que o valha.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/24]

Livros

Hoje chegaram uns caixotes cá a casa. Depois de terem andado a passear por meio mundo, os caixotes com os meus livros, ou pelo menos com uma parte deles, uma parte mais recente dos meus livros, chegou finalmente cá a casa.
Parecia Natal antecipado.
Com o canivete-suíço na mão, cortei a fita-adesiva que fechava as abas dos caixotes. Cortei as fitas dos caixotes, um a um. Fita-a-fita. Caixote-a-caixote. Depois comecei a retirar os livros. Aquela massa de livros, alguns deles que já nem sabia que os tinha – a minha memória tende a esquecer-se de algumas coisas. Não lhe descortino a lógica. E tenho horror a que esqueça as coisas boas. Os livros são parte das coisas boas. Mas também não deixou de ser um momento feliz, esse, ao descobrir que, afinal, também tinha este livro, e aquele e aqueloutro.
Comecei a fazer montinhos no chão. Montinhos com ordem alfabética. Dou prioridade ao primeiro nome. Sim, sei que não devia ser assim, mas aqui em casa é assim que sou: A – Alberto Pimenta; B – Bret Easton Ellis; C – Charles Bukowski, e por ai fora.
Foi com especial delícia que voltei a folhear os livros do Julio Cortázar, do Philip Roth, do Cormac McCarthy. Alguns, alguns muito poucos, já tinha comprado outra vez. Alguns com os quais não conseguia mesmo passar sem eles. Agora tenho-os repetidos. Alguns tenho-os repetidos várias vezes se pensar nos outros caixotes que andam por aí, perdidos de casa-em-casa, há mais de vinte anos, e ainda não encontraram o caminho certo.
Gostaria de falar no cheiro. Mas desta vez não havia cheiro. Nem bom, nem mau. Já não tinham aquele cheiro da novidade quando se adquire novo numa livraria, mas também ainda não tinham aquele cheiro a tabaco frio, às vezes ao doce enjoativo do tabaco de cachimbo, do manuseado, dos livros usados, em segunda-mão, dos alfarrabistas. Não, desta vez, e estranhamente, os livros vinham sem cheiro. Alguns caixotes traziam bichinhos da prata, aqueles bichinhos pequeninos que gostam de se alimentar do papel dos livros, esmaguei três desses bichinhos com o polegar, vi-os desfazerem-se em papa sob o meu polegar, verifiquei os livros, todos, um-a-um, e não vi nenhum trincado pelos bichos. Talvez tenham dado mordidinhas microscópicas e eu não as tenha visto.
Alguns destes livros não os tinha lido. Alguns nunca os irei ler. Mas gosto de os ter ali, à mão, ao olhar, para pegar e roubar uma frase ou outra ao acaso, em períodos de necessidade, quando o calor é demais, o frio aperta, a fome esgana ou o apocalipse se aproxima. Para petiscar quando me apetece.
Sinto-me em boa companhia na companhia dos livros. Mesmo dos maus. Também tenho livros maus. Alguns mesmo muito maus. Alguns que me ofereceram, deram, outros que fui eu que comprei. Já nem sei porquê. Talvez o meu percurso de vida os justifique. Não sei. Mas continuam a ser livros, meus livros e vão para as estantes como os outros.
Quando já tinha os livros todos empilhados por ordem alfabética, fui abrir uma garrafa de vinho. Enchi um copo. Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá a olhar para os montinhos de livros pela ordem alfabética e disse Um dia destes vou arrumar-vos nas prateleiras que ainda hei-de arranjar. Por agora ficam por aí. A fazerem-me companhia.
Liguei a televisão e estavam, de novo, a contabilizar o número de infectados pelo novo coronavírus.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/10]

Regressar a Casa, parte 04

[continuação]

E então, o cheiro. O cheiro dos refogados da minha mãe. A cebola a aloirar no azeite, na companhia do alho picado, a abrir caminho para as amêijoas de Sábado, compradas no Mercado da cidade, o Sábado era sempre dia de peixe fresco, sardinhas, carapau, peixe-espada, às vezes uma posta de safio, às vezes berbigão ou amêijoa, o que eu gostava mais, que a minha mãe fazia com pedacinhos de toucinho para dar Um gostinho, como ele dizia, e um pouco de vinho branco para embebedar as amêijoas, e eu sentado na cama a ler uma banda-desenhada e já depois de ter despachado uma fatia de pão saloio torrado, barrado com manteiga, sentia chegar-me os odores do meu almoço predilecto de Sábado, e então, de banho tomado de véspera, levantava-me da cama, vestia-me e ia perguntar se a minha mãe precisava de alguma coisa e já sabia a resposta, Não, meu querido, obrigada, e eu afinal queria era rasgar um bocado de pão para ir ao molho que se formava no tacho enquanto se transformava aquelas conchas sem jeito nenhum num manjar dos deuses se os deuses tivessem uma cozinheira como a minha mãe, não era mãe?
Não abro os armários da cozinha mas imagino a colecção de pratos e de copos desirmanados que para lá deve haver que a minha mãe guardava tudo e nunca deitava nada fora e o que estivesse bom era guardado e por isso manteve alguns pratos que já desapareceram do imaginário de toda a gente, mas eu, quando vejo conjuntos de pratos e copos de vidro verde ou castanho (se calhar é vermelho, mas não vou abrir a porta do armário para confirmar) onde quer que seja sinto uma enorme empatia porque ter aqueles pratos e aqueles copos é uma referencia de época e apetece-me dizer Sobrevivemos, apesar de tudo.
Passo pela mesa da cozinha, deixo o meu dedo percorrer a mesa onde comi, estudei, escrevi, onde ouvi os sermões da minha mãe e do meu pai, a mesa onde disse à minha mãe que tinha entrado na universidade e ia sair de casa, e vejo o risco que o dedo deixa ao limpar uma linha de pó que tem tombado sobre a mesa depois que os meus tombaram na vida.
Antes de sair ainda reparo na máquina de lavar louça e penso que me daria jeito que a minha está avariada e mandar reparar é quase tão caro quanto comprar uma nova e agora não é boa altura para estas despesas, e por mais que goste de lavar a louça à mão, às vezes é melhor não gastar tanta água e detergente e pôr a louça na máquina (é o que me dizem: Gastas muita água gás e detergente para lavar meia-dúzia de pratos).
Regresso ao corredor. Olho para o fundo, onde ficam os quartos, e onde reina a escuridão, tenho de ir abrir as janelas, e vejo-me vir lá do fundo, pequenito, bola de cautchu nas mãos, de calções e sapatilhas, gritar um Ciao, mãe! para o ar, à espera que ela estivesse atenta e ouvisse que eu ia para o terraço jogar à bola com os amigos da rua, jogávamos Benfica-Sporting, às vezes outra coisa qualquer porque não havia paridade nas equipas, e depois chegava a casa com os joelhos esfacelados, os calções rasgados, as sapatilhas rotas, e o meu pai a ralhar comigo porque estive a jogar à bola à chuva Olha a bronquite! E eu passo por mim e não me ligo. Um de nós não está ali, é só um fantasma, uma memória que se atravessa à frente e me faz pensar se não gostaria de voltar lá atrás e refazer tudo outra vez?
Suponho que não.
Caminho pelo corredor. Entro no primeiro quarto, o quarto à direita, o quarto dos meus pais, e volto a abrir a janela, as cortinas, as persianas e os vidros e deixo entrar o ar fresco da rua naquela quarto abafado e cheio de humidade, e vejo a colcha de renda, uma colcha que a minha mãe fez, uma colcha pesada, uma vez peguei-a ao colo para levá-la à lavandaria e senti-lhe o peso, mas o quarto dos meus pais é a divisão de que tenho menos memórias aqui de casa. Recordo a época em que aguardava que o meu pai saísse de casa, sentia a porta da rua a bater, e vinha deitar-me ao lado da minha mãe. Gostava de sentir o cheiro do sono da minha mãe. A cabeça enterrada na almofada do meu pai. Não sei quando é que isso aconteceu mas é uma das poucas memórias que o quarto me traz, não era costume entrar aqui, talvez quando vinha à procura de moedas ou notas perdidas nos bolsos dos casacos e das calças do meu pai, abria a porta do guarda-fatos e enfiava as mãos nos bolsos e às vezes tinha sorte, um ano foi assim que alimentei as minhas idas aos carrinhos-de-choque na Feira de Maio.
À porta do quarto ainda olho para trás, ainda vejo a senhorinha cor-de-rosa da minha mãe mas nunca a vi lá sentada, nunca lá vi roupa caída (aliás, nunca vi roupa caída em lado nenhum, cá em casa, a não ser no meu quarto, aí havia às vezes calças caídas pelo chão, sapatilhas cada uma no seu canto, meias perdidas atrás da cama…).
Estou no corredor e avanço uns passos. Estou à frente da porta do meu quarto. Deito a mão à maçaneta.
Há quantos anos não entro na minha vida de adolescente?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/22]

A Minha Madalena

Cada um tem as suas madalenas. As minhas chegaram em forma de mensagem. Uma mensagem. Uma mensagem foi quanto bastou. A mensagem tornada máquina do tempo. E lá estava eu. Vinte anos mais novo. Alguns quilos a menos. Ou seriam a mais? E um sorriso idiota plantado na cara.
Vi-a surgir do nada. Como num gesto de prestidigitação. Primeiro o vazio, depois tudo. Como uma bomba nuclear a prometer um big bang. O início de tudo. O princípio do infinito. O nascimento da razão. E fez-se vida. Plim.
E, afinal, nada mais era que uma banalidade. A vida é uma banalidade. Encontra-se em qualquer esquina, dentro de uma loja dos CTT, numa igreja em hora de missa, ao balcão de uma pastelaria a destruir uma bola de berlim cheia de creme e de pequenas pedrinhas de açúcar que tombam sobre o prato, o guardanapo, a barba. A vida é, aqui na Terra, uma banalidade. E, no entanto, tão extraordinária era ela para me deixar assim, de sorriso parvo na cara a olhar para uma banalidade que era minha. Minha.
A banalidade depois foi à sua vida. Claro que sim. Que as vidas são únicas e autónomas. Ganham uma dimensão que são só delas. Mas há momentos que são só nossos. A banalidade ainda não era autónoma. E aquele momento, aquele momento ali, aquele momento preciso é só meu. Aquele momento em que o vazio se encheu de vida e eu vi o nascimento, vi o truque de prestidigitação feito à minha frente, o nada tornado tudo, aquele momento é só meu porque o vi, porque o vivi. Porque existiu só para mim.
E é por isso que vinte anos depois, a minha madalena abre as portas da memória e me faz recordar quando o mundo prometia mundos e eu era o mais feliz dos homens.
Nada mais importa, lembro-me de ter pensado naquele exacto momento. Nada mais importa. Depois de ter olhado e me ter apaixonado pensei que, naquele momento, depois de ter visto o meu big bang, podia morrer. Morrer feliz e cheio. Porque nada mais importava. E é verdade ainda hoje. Nada mais importa.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/28]

Para um Diário da Quarentena (Nono Andamento)

Estou quase a fazer um mês de confinamento em casa. Mais dois dias e faço um mês. Um mês fechado aqui em casa. Sozinho.
A ideia de um diário deste confinamento ficou-se pelas promessas. A inércia tomou conta de mim. Os dias repetem-se. Uns a seguir aos outros. Sempre iguais. As noites como os dias. Já os confundo. Durmo quando calha. Como quando tenho fome. Tenho sempre fome. Engordei. Engordei bastante. Não sei quanto que tenho medo da balança. Fujo-lhe.
Perdi as rotinas antigas e ganhei outras. Nem sei se são rotinas. São uma ausência de actividade. Perdi a vontade. Perdi a vontade de tudo. Não quero ler mais nenhum livro. Não quero ver mais nenhum filme. Não quero acompanhar mais nenhuma série. Estou farto da música. Ainda me lembro das festas unipessoais que fiz na sala, ao início. Eu a dançar feito louco ao som dos Chemical Brothers até cair, derreado, no fundo do sofá. Agora não me apetece dançar nem ouvir música.
A televisão está sempre ligada, dia e noite, para me fazer companhia e me manter na ilusão de que não estou só.
Mas almoço sozinho. Janto sozinho. Durmo sozinho. Bebo café de manhã sozinho e, o primeiro cigarro do dia, é fumado sozinho. Dantes ainda fumava o cigarro à janela. A olhar a rua. A olhar a vida que ainda existia na rua. Agora fumo na cama. E já não é o primeiro cigarro do dia porque já não tenho dia. Os dias e as noites são já só a mesma coisa, sempre a mesma coisa, nunca acabam nem nunca começam. Só continuam, imparáveis.
Deixei de acompanhar as conferências da DGS. Agora só ouço o número de mortos. Depois, desligo. As vozes continuam a debitar números, informação, mas eu já não ouço. Tenho os ouvido e o cérebro programados para o dia em que alguém disser Terminou.
Mas ainda ninguém disse.
O número de mortos continua a somar.
Eu ainda estou vivo.
Pergunto-me para o que é que me estou a preservar. Ainda haverá mundo depois do Covid-19?
A cama tem sido o meu útero. Deito-me e tapo-me com o edredão. Tapo a cabeça. Respiro debaixo de edredão. Acabo por adormecer. Já não como há… Há quanto tempo? Não tenho fome. Não tenho vontade de comer. Bebo água. E bebo água porque às vezes fico com a boca seca e pastosa. Já nem vinho bebo. Acabou-se o vinho. Ainda tenho alguns cigarros. Vou fumando na cama. Tenho o cinzeiro cheio. Esqueço-me de o despejar quando me levanto. E só me lembro quando já estou de regresso à cama. Não volto a levantar-me. E volto a esquecer-me. A minha memória já não é a mesma. Acho que tudo isto me está a afectar. Não estou com o Covid-19, pelo menos acho que não estou contaminado, mas estou a sofrer de problemas colaterais.
Estar em casa está a matar-me. Eu gosto de estar em casa mas por opção. Obrigado, começo a odiar. Odiar tudo. E no cimo de tudo, odiar a vida. Odiar a vida e tudo o que fizemos dela.
Estou na cama. Vou continuar na cama. Espreito por cima do edredão e vejo, através da janela, um céu esbranquiçado. Anémico. Um dia morto.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/11]

Não Tenho Medo de Morrer

Não tenho medo de morrer.
Tenho medo da doença, da deficiência, da incapacidade. Tenho medo da consciência da morte. Tenho medo de ficar ainda mais dependente, do que já sou, dos outros.
Não tenho medo de morrer.
Tenho medo do medo das pessoas que me são queridas. Tenho medo de filho e de pai. Tenho medo de amante e de amado. Tenho medo de amigos, alguns, os que trago aqui no peito, os que não são sangue mas são alma.
Mas não tenho medo de morrer.
A minha vida já vai longa. Acho que vivi uma boa vida. Pode não ter sido a melhor das vidas, mas foi a vida que consegui viver da forma que quis e me foi possível. E tenho gostado da vida que fui vivendo. Se pudesse voltar atrás acho que poderia repetir quase tudo. Quase tudo. E quase tudo diz muito sobre a vida que vivi.
Por isso não tenho medo de morrer.
O que se está a passar agora no mundo assusta-me, mas não me faz temer a morte. Faz-me ter medo pelos outros, os que ainda têm tanto para viver, os que ainda não puderam viver o que eu já vivi. Os que ainda acalentam planos para o futuro e têm esperança.
Eu não tenho medo de morrer.
Tenho mais medo dos caminhos que escolhemos e que nos trouxeram até aqui. Não todos os caminhos, mas muitos deles. Alguns caminhos que fomos percorrendo nestes últimos tempos são caminhos de cabras em direcção a sítio nenhum que não o lucro pessoal de meia-dúzia de gente egoísta.
Temo pela falta de memória e desconhecimento da História. Temo pela verdade escondida e pela mentira gritada alto para se fazer ouvir como a única verdade. Temo pela mentirosa falta de alternativas. Temo pela falta de líderes capazes e pela glorificação de bestas inúteis e mesquinhas. Temo pela ignorância geral. Pela falta de lucidez. Pelo não querer saber. Pelo fechar de olhos.
Eu não tenho medo de morrer.
Acho que está na hora de mudarmos de vida. Chegámos do nada a isto. Ainda temos de ir de isto ao futuro. A História não chegou ao fim e este neo-liberalismo canibal não pode ser, não é, o único caminho. O Homem tem de ser o centro da vida, como o está, parece, a ser agora. Ou quase.
O que a vida me ensinou é que há sempre alternativa. Há sempre outro caminho. Mesmo quando achamos que não. Mesmo quando todos nos gritam que não existe. Porque existe. E a História tem demonstrado que há sempre outra escolha.
Eu vejo-os já a fazer contas. E estarão certas as contas, com toda a certeza. Eles são economistas, gestores, matemáticos, professores. As contas estão certas. Nem ponho em causa os seus resultados. Os elementos da equação é que talvez sejam os errados. Os elementos da equação é que talvez sejam outros. Talvez devam ser outros.
Penso sempre numa prova de 100m, cujo recorde está constantemente a ser quebrado nos Jogos Olímpicos ou em cada novo campeonato do mundo. É a superação pessoal e humana de corrida para corrida. E imagino que mantendo esta progressão de quebra de recordes, chegaria o dia em que o atleta cruzaria a meta no momento da partida. Ora, isso não é possível. Há um espaço a percorrer que não admite a ausência do tempo. O mesmo se passa com o capitalismo como o conhecemos. É uma bizarria pensar que haverá sempre um crescimento constante. Há-de chegar uma altura em que o crescimento não é mais possível porque se chegou ao limite do espaço-tempo como na prova de 100m.
Para que se encontrem novos caminhos é necessário mudar os elementos da equação. Se calhar o Homem, e não o dinheiro ou o trabalho, tem de passar a estar no centro da economia. Um Homem vale muito mais que todo o trabalho físico que conseguir produzir. Porque um Homem também é muito mais que os braços e as pernas e os turnos numa fábrica a fazer rolhas. Contar estórias ajuda a prevenir o caos, a afastar a loucura. Olhem à volta. Olhem o que está a acontecer. Reparem na importância das coisas. Vejam o valor de uma simples carcaça feita nestas condições, por quem a faz, e o que é necessário ultrapassar para a adquirir. Reparem na importância da música, do cinema, da literatura, nestes dias que correm mais devagar. Reparem na importância que, neste momento, se descobriu na calma, no lazer, no tempo. Reparem na relevância de médicos, enfermeiros, cientistas, motoristas, padeiros, merceeiros… Qual a contabilização destes factores numa equação?
Ao ver o que se passa hoje no mundo, tenho esperança que as coisas mudem. Porque no meio do caos e do terror que estamos a viver, há um humanismo e uma civilidade de que duvidava.
Claro que há bolsas de gente má, gente malformada, gente mesquinha e gananciosa, gente boçal que continua a querer colocar o pé em cima da cabeça alheia para chegar mais alto que os outros. Mas os bons, os de coração puro, os bem-intencionados e amigos dos amigos e de gente que nunca viu em lado nenhum estão em franca maioria. Não sei se é o medo da morte. Não sei se é o medo da perda de um modo de vida. Mas há vida nestes dias e nestas gentes.
Eu não tenho medo de morrer.
E estou num grupo de risco. Tenho problemas respiratórios e já estou a entrar na idade da velhice. Se for infectado pelo Covid-19, há fortes possibilidades de não conseguir sobreviver. Mas não tenho medo de morrer. Tenho pena de deixar a ausência aos meus amores. Tenho pena de deixar a solidão a quem me ama. Mas fico descansado porque acho que, talvez, talvez alguém tenha aprendido alguma coisa com estes dias e a nossa civilização possa arrepiar caminho e criar um novo paradigma mais de acordo com as esperanças da maioria. Talvez.
Eu não tenho medo de morrer. E se tal acontecer, vou de coração cheio pelo que tenho visto nos últimos dias. Dias de morte, mas também dias de enorme coragem e humanismo.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/19]

A Resposta

Desde que fiquei sem trabalho tenho vindo até à Nazaré.
Gosto de caminhar ao longo da marginal. É o calçadão do Oeste.
Caminho debaixo da chuva e do sol. Em dias de frio e de calor. Cheiro a maresia. Encho o peito e os meus dias.
Às vezes vou até à beira-mar. Às vezes molhos os pés. Às vezes caminho ao longo da rebentação. Vou a ouvir aquele rebentar das ondas ao meu lado, quase hipnótico, sedativo. O mar atrai-me. Gosto dele. Tenho-lhe medo.
Às vezes saio lá de baixo encharcado dos pingos das ondas furiosas. Às vezes é só mesmo da água da chuva que ignoro e esqueço que cai.
Às vezes fico ali parado na marginal, perto da antiga lota que hoje é uma outra coisa qualquer cultural, acho que nunca lá entrei dentro, fico ali a olhar para os barcos parados como um museu vivo. Ali vejo as cascas de noz com que os homens corajosos da Nazaré se lançavam ao mar, onde muitos deles morreram e por quem muitas mulheres, mães, filhos gritaram as dores da ausência. Agora são uma memória.
Às vezes, quando tenho algum dinheiro, compro uns carapaus secos nas peixeiras de rua para turista. Mas os carapaus são bons na mesma. Trago-os para casa. Junto-lhes azeite e alho e acompanho com um copo de vinho tinto. Às vezes também os vou comendo assim, simples, enquanto caminho pela marginal, e vou cuspindo as espinhas para o chão.
Às vezes sento-me na calçada, com as pernas caídas para a areia, e fico ali a olhar o mar lá ao fundo, às vezes ali perto de mim que, em dias furiosos o mar ainda chega à estrada e assusta os comerciantes e os turistas que fogem da morte que o Atlântico promete.
Às vezes também fico por ali a escrever. Às vezes vendo contos no calçadão da Nazaré. Escrevo estórias a pedido. Pequenas estórias que cabem numa folha A4. Pergunto por um facto ou outro, uma pessoa ou duas e invento ali uma estória qualquer, geralmente triste, geralmente sem esperança, em troca de algumas moedas que me pagam uma sardinha na nova Batel ou um gelado na Conchanata. Mas é raro ir à praça. Não gosto de ir à praça. É talvez o único local que não gosto na Nazaré. As marquises invadiram a calçada. Já não há praça. Há uma ideia de praça comida pelo acrílico e o alumínio das barracas que servem de esplanadas fechadas como prisões que afastam as pessoas do ar fresco da praia.
Às vezes cruzo a praça em passo acelerado e passeio-me pela zona velha ali ao lado, debaixo das enormes pedras do Sítio. Gosto daquelas ruas pequenas e esconsas. Ruas onde quase que me perco no seu labirinto. Gosto dos cheiros dos restaurantes que nasceram por lá. Gosto de ver as pessoas que andam à cata da fotografia certa para o Instagram. Gosto de me sentir longe da praça, embora tão perto.
Regresso à marginal. Recomeço a andar no calçadão do Oeste.
Às vezes conheço pessoas.
Ontem conheci uma.
Ela estava sentada na marginal a vender bijuteria que ela própria fazia. Fazia lá mesmo em directo, à frente das pessoas. Anéis, pulseiras, colares, brincos, tudo em ligas metálicas que ela manobrava, dobrava, soldava, construía.
Eu sentei-me ao pé dela. A vê-la trabalhar com as mãos. Depois pus-me a escrever contos. Ainda vendi alguns. Ainda escrevi alguns ali em directo. Perto dela.
Acabámos por ir beber uns copos.
Subimos a pé ao Sítio.
Eu cheguei lá acima de rastos. Ela estava pronta para outra. É mais nova que eu.
Fomos até ao forte.
Comprámos tremoços e pevides e estivemos a ver alguns surfistas a cavalgar as ondas. Não havia muitos surfistas. Nem havia grandes ondas. Mas deu para passarmos um bocado.
Afastei-me para ir mijar numa arriba e contei o dinheiro que tinha. O dia não tinha sido mau para mim. Os contos renderam algum dinheiro.
Voltei para ao pé dela. Convidei-a para jantar uma caldeirada. Aceitou.
Descemos de novo à Nazaré.
Fomos jantar uma caldeirada num pequeno restaurante que esqueci o nome. Bebemos vinho de jarro. Passeámos pela marginal à noite. Ficou frio. Ela levou-me para o quarto que tinha alugado numa pensão perto da praia.
A meio da noite convidou-me para ir com ela para o Algarve. Com passagem pela costa alentejana.
Passou a noite. Já vejo a luz do dia a entrar pelas frinchas das portadas da janela. Ainda não lhe respondi. Acho que ela está acordada. Acho que está acordada à espera da minha resposta.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/28]

Dia de Greve na Função Pública

Levantei-me cedo. Tinha uma consulta no hospital. Uma consulta muito cedo. Tinha de apanhar a carreira mais cedo ainda. Estes poucos mais de vinte e cinco quilómetros que me distanciam da cidade e do hospital são na verdade muito mais que os quilómetros que as placas à beira da estrada anunciam. Os horários curtos. As inúmeras paragens. As voltas pelas redondezas numa viagem pelo que é o país profundo, consomem as voltas dos ponteiros do relógio que giram rápido a olho nu. Quase que tenho de sair de véspera se quero chegar a tempo às minhas obrigações, mesmo que sejam de saúde, esse bem precioso que me custa os olhos da cara mesmo que seja barato ao olhos sempre financeiramente aguçados dos economistas de serviço.
Levantei-me de noite. Antes do galo. Fui cantar à janela para o acordar e mostrar-lhe como é terrível ter que o aturar todas as manhãs. Gostas de estar do outro lado, cabrão? Estava a chover.
Tomei um duche com todos os cuidados do mundo. Não posso cair. Ando com vertigens. Tenho de tomar cuidado com os passos que dou. Com as voltas do corpo. Agarro-me. Às vezes esqueço-me. Às vezes ainda penso que sou um jovem adolescente na flor da idade e de perna ligeira. Já quase caí. Mas ainda não aconteceu.
Vesti-me no quarto. Em silêncio. A tentar esquecer o frio que estava.
Fiz café para beber antes de sair de casa. Liguei a televisão pequena, a televisão a preto e branco da cozinha, a televisão que muda os canais com um rotor que preciso de rodar sempre para a direita para mudar de canal. Às vezes é preciso força. Deixei no canal que estava. Notícias. Ainda bem que liguei a televisão.
Era dia de greve na função pública.
Primeiro nem percebi muito bem o que estava a ouvir. Sabia que era algo que me interessava. Que me afectava, de algum modo. Mas nem percebi logo. Depois, o clique. Greve. A greve. A greve da função pública.
Pus café numa caneca. Acendi um cigarro. Fui pôr-me à janela da cozinha. A olhar para fora, para a rua. Mas via-me a mim, não via a rua. Via o meu reflexo. Lá fora estava escuro. O dia ainda era noite. Só via o meu reflexo na janela. O meu reflexo de caneca numa mão e cigarro na outra.
Imaginei o cabrão do galo a rir-se de mim.
Ainda não via o contorno das montanhas lá ao fundo. Ainda era de noite. A manhã ainda vinha longe. A carreira devia estar a passar lá ao fundo. Ao fundo da estrada. E continuava a chover.
Apaguei o resto do cigarro no resto do café que já não conseguia beber.
Comecei a despir-me ali, na cozinha. Tirei a camisola. As botas. As calças. A t-shirt. Os boxers. As meias. Fiquei nu. Vi-me nu na janela da cozinha. No meu reflexo iluminado no vidro da janela contra o escuro da rua. Senti um arrepio de frio.
Para que é que ia à consulta? perguntei-me. E já não me lembrava ao que ia.
Tentei forçar a memória. O porquê da consulta. E então só me vinha à memória a Suzi Quatro. Porquê a Suzi Quatro? Vi-a de calças de cabedal pretas e camisola de alças branca, justa, os peitos volumosos, uma guitarra nas mãos a cantar 48 Crash.
Virei costas ao meu reflexo. Percorri a casa nu, na companhia da Suzi Quatro, e voltei para a cama. Ouvia a chuva a cair lá fora.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/31]

05:38′

05:38’
Ando às voltas na cama. Estou com calor. Ponho os braços fora da cama para endireitar a dobra do lençol sobre o edredão e sinto o frio. Pareço um profiterole invertido.
Ando às voltas na cama. Estou com sede. Queria levantar-me e beber água. Mas não consigo. Está muito frio fora do edredão. Aqui debaixo estou quentinho.
Ouço um zumbido nos ouvidos. Como um rádio antigo, daqueles de válvulas, a funcionar. A minha mãe tinha um rádio desses. Não sei onde foi parar. Quem é que ficou com ele?
05:39’
Mais uma volta. O tempo parece que não anda. Os números no relógio digital, pousado na mesa-de-cabeceira, são sempre os mesmos. E quando se alteram parece que se passou uma eternidade e eu ainda aqui à voltas, cheio de calor. Estou muito desperto. Quando tiver que me levantar, vou querer dormir.
Passam-me muitas ideias pela cabeça. Estas ideias vêm acompanhadas do zumbido. Algumas destas ideias, nem parecem minhas. É estranho pensar nelas. E quanto mais alto o zumbido, mais estranho me é a ideia que passa, galopante, pela minha cabeça. Costumo ser bastante racional. Costumo ter pensamentos racionais.
05:40’
Sinto vontade de me levantar e ir escrever tudo o que me está a passar pela cabeça. Mas sinto preguiça. Digo que vou escrever quando me levantar, mas já sei que não vou me lembrar em que é que estou a pensar. A minha memória já não funciona muito bem. E percebo que afinal estou a conversar comigo como se fosse dois e discuto duas posições. Penso novamente na hipótese disto, disto tudo, da vida, ser um jogo, e tento perceber se a morte, a morte física das personagens, é uma mudança de nível ou um game over. E não consigo perceber onde quero chegar com esta conversa. Sinto abater-se sobre mim uma ligeira angústia.
Preciso de dormir. Deixar de pensar em coisas assim.
05:38’
Como são cinco e trinta e oito? Ainda agora eram cinco e quarenta. Ou não eram? Voltei atrás no tempo? Estou a ficar maluco? Ou estou a dormir? O jogo terá algum defeito? Será que vou hibernado a caminho de um qualquer destino a milhões de anos-luz e estas merdas foi o que a minha cabeça encontrou para me entreter durante a viagem? Sou eu a personagem principal desta história? E isto é tudo o que tenho para contar? Que raio de história é esta? Onde está o princípio? E o fim? Onde está o problema que a história tem de resolver? Ou nunca há problemas para resolver que a IA resolve-os todos?
05:38’
Oh, porra…
[acabei por ir beber água, tenho a boca e a garganta molhadas, mas não me lembro de me ter levantado da cama]

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]