A Primeira Vez que o Vi Era Pequeno, Muito Pequeno

A primeira vez que o vi, peguei-lhe ao colo. Era pequeno. Muito pequeno. Tão pequeno que quase não o via enfiado que estava nuns panos que deviam ser cobertores mas que já não lembro porque tenho uma memória de merda ou são já tantos os anos arquivados na cabeça, demasiados, que a memória já demora mais tempo para recuperar os ficheiros arquivados, mesmo os que levam selo VIP como é o caso, mas quando não é possível não é possível, isto ainda é um Pentium, e por mais que esperneie, em birra, no chão do Centro Comercial, que parece que foi vendido a não-sei-quem e já há lojistas a sair de lá porque os novos donos querem recuperar já o investimento, em 100m sem barreiras, antes que o Natal chegue e a Popota fique com tudo naquela sua enorme bocarra e ancas roliças que se rebolam a dançar uma qualquer música da moda. E o Natal não é quando dizem que é. O Natal é móvel e segue as vontades de cada um e dos nascimentos que quiserem celebrar, com pinheiro ou macieira, uma laranjeira ou tão só a porra de uma rosa tão mal tratada e, afinal, serve perfeitamente para tudo que fica bem em qualquer lado e em qualquer lugar. E o Natal também é em Novembro. Sim. Hoje é véspera. Véspera do dia de Natal em Novembro.
Mas não era para aqui que eu queria ir. Regresso ao início.
A primeira vez que o vi, peguei-lhe ao colo. Era pequeno. Tão pequeno que mal o via.
Cresceu depressa. Depressa e muito. Tão depressa que deixei de o ver. Não me apercebi. Não vi. Ele era assim, pequenino, e depois já era assim, grande, tão grande quanto eu. Que digo? Quase já maior que eu. Tudo em ele bem mais que eu.
Na deserção, vivi de ecos. Os ecos que iam chegando. De façanhas. O pequeno que mal se via cresceu para um enorme tão grande, um grande de formas cósmicas que desapareceu para o mundo. O meu.
Há um eco que não desaparece. Não foi possível formatá-lo e arquivá-lo como os outros. Os restantes. Este ficou sempre por aqui, pelo desktop frontal. Deve ter vírus. Volta não volta abre-se no preview e ocupa todo o espaço. Todos os espaços. E vejo esse eco. As formas em voo. Uma corrida em voo, que ele não corre, ele voa. Os dois pés no ar, a voar, os braços recolhidos pelo movimento da corrida. A cara rosada do esforço. A camisola amarela transpirada. Um amarelo vivo. Chama o olhar. Não é possível não ver. Não é possível não olhar. Não é possível escapar ao voo que ele faz. Um voo rasante a imitar um predador a caçar a sua vítima, coitada, presa nas garras da vitória. Uma perna à frente da outra e os dois pés no ar. Como um mestre.
Mas não é o mestre de cerimónias que eu resgato.
De novo o regresso.
A primeira vez que o vi, peguei-lhe ao colo. Era pequeno. Muito pequeno. Tão pequeno que se desfez e entrou por mim dentro e por cá tem andado desde os primórdios dos tempos. Dos tempos dele.
Não parece mas está aqui. Aqui, oh! Aqui onde deve estar, mesmo quando parece que voa. Mesmo quando parece que voa de novo nas asas da distância e desaparece. Desaparece para o mundo. O meu mundo. Mas não é verdade. Porque está sempre aqui. Aqui onde deve estar. Aqui, oh!
A primeira vez que o vi, peguei-lhe ao colo. E isso nunca se esquece. Por mais que, por vezes, pareça.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/06]

Corto-me

Corto-me, não para libertar a dor, mas para me castigar.
Já cheguei ao final do mês. Do mês que agora começa. Recomeço. Outra vez. Olho a carteira. O fundo da carteira. O fundo vazio da carteira.
Não entendo as regras. A minha iliteracia é selectiva. Mas concreta. Real. Não entendo as regras. Os códigos. A linguagem.
Corto-me. Corto-me com o canivete-suíço. A lâmina cega. Preciso de forçar. Magoa mais. Castiga mais.
Tenho uma casa que não é minha. Um trabalho que não é pago. Um almoço que não é comido. Mas tudo o resto custa-me um olho. Custa-me uma mão. Custa-me a vida. Um café com açúcar. Um pão com manteiga. Um frango assado. Um disco. Um livro. A escola obrigatória. O hospital. Um concerto. Uma bicicleta. Um carro. Uma casa. Uma mulher. Um filho. Um nome.
Corto-me. Uma vez. E outra. Castigo-me.
Escondo-me. No fundo do armário. No fundo da cave. No prédio abandonado. Lá onde já mais ninguém vai. Só as agulhas. As putas. Os paneleiros. Onde ninguém vai. Vou eu. E os que não são ninguém. Não estão nas estatísticas. Mas estão lá. E nas estatísticas. Escondo-me no fundo do fundo, escuro e sujo. Tenho por companhia os ratos e as baratas. Que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me nos braços. Desfaço as unhas no chão de cimento à procura de uma fuga. Mas não saio daqui. Não sei para onde ir. Não tenho para onde ir.
A minha companhia são os ratos e as baratas que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me. Corto-me e espero nas sombras que me esqueçam. Que não me peçam o IMI, a Segurança Social, o IRS e o IVA. Que me enterrem numa vala comum e me deixem ser comido pelos bichos até deixar de ser memória.
Corto-me e deixo-me ficar assim. Quieto. Em silêncio. Ali. Onde ninguém vai.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/06]

Tenho uma Amante

Tenho uma amante.
Tenho uma amante que conheci na zona dos frescos do InterMarché. Estávamos ambos desesperados com a falta de frescura dos legumes e saladas, já era tarde, já estava tudo muito escolhido e mexido, quando ela disse Esta Couve Lombarda está mais engelhada que a minha. E parou a olhar para mim depois de perceber o que tinha dito e dito alto. Levou a mão à boca a censurar-se. Tarde demais. Eu parei a olhar para ela a tentar perceber se o que ela tinha dito foi o que tinha querido dizer. Achei que sim. E deu-me uma tesão louca. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim na zona dos frescos do InterMarché.
Quando dei por mim estávamos no Motel Caribe, ali a caminho da Maceira. Entrámos de carro directamente para uma garagem. Subimos da garagem ao quarto. Nem tivemos tempo para mais nada. Rasgámos as roupas e fodemos logo ali, à entrada do quarto alcatifado, lembro-me de que o quarto era alcatifado porque ela queimou as costas e eu os joelhos.
Foi só depois de tratarmos do desejo que nos apresentámos.
O meu nome. O nome dela. Ela era casada. Mas estava a passar por uma crise. Não estamos sempre todos? Depois disse que devia de ter ido buscar os filhos ao ATL, mas que o desejo que eu demonstrara por ela tinha sido mais forte e cagara nos filhos.
Foi ali que decidimos que éramos amantes.
Encontrava-me duas ou três vezes por semana com ela. No Íbis. No Motel Caribe. Assim em hotéis baratos. Sempre para foder. Não tínhamos mais nada em comum além de uma grande tesão. Podia tê-la trazido para casa. Sou um solitário. Vivo sozinho. Mas achei que a relação que tinha com ela era uma relação de hotéis. Eu nunca lhe disse que vivia sozinho. A única coisa que lhe disse foi o meu nome. E podia ter mentido que ela não iria duvidar.
Na semana passada encontrei-me com ela no Hotel Villa Batalha. Ia fazer seis meses que nos conhecíamos, achei que podíamos ter um upgrade de hotel.
Nem jantámos. Eu cheguei primeiro. Tomei um banho e esperei por ela. Ela chegou e eu não esperei que ela tomasse banho. Só foi tomar banho depois.
Enquanto ela tomava banho, abri a janela da rua e ouvi uns acordes e alguém a cantar Ela é amiga da minha mulher // Pois é pois é // Mas vive dando em cima de mim // Enfim enfim // Ainda por cima é uma tremenda gata // Pra piorar a minha situação // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Não pego, eu pego // Não pego, eu pego // Não pego não…
Acendi um cigarro e fiquei ali a ouvir Seu Jorge que dava um concerto no campo da bola ali perto. A minha sorte, não? Seu Jorge em Agosto na Batalha. Seu Jorge no meu querido mês de Agosto.
E pensei Tenho uma amante. E sorri. Sorri da amante. Do Seu Jorge. De estar ali assim, num hotel com uma mulher casada. De me sentir ainda apto à vida. E ela chegou. E perguntou-me Porque é que ris? E eu encolhi os ombros e disse Por nada.
E ela começou. Foda-se, ela tinha de começar. Enquanto estávamos ali à janela a ouvir o Seu Jorge, eu a fumar um cigarro, nu, a apreciar o fresco da noite, o cheiro fresco que ela trazia do banho, começou a contar-me o dia que tinha tido. As chatices com o chefe. A estafa com os filhos. O desinteresse do marido. As amigas que passam férias em Varadero. A vontade que chegasse a noite para estar comigo. O stress para arranjar alguém que ficasse com os miúdos. A mentira que teve de construir para o marido, para poder estar ali assim, comigo.
E eu comecei a ouvi-la a distanciar-se de mim. A distanciar-se cada vez mais. A ir para longe. Tão longe que deixei de a ouvir. Era já só uma memória de uma foda no Motel Caribe.
Eu tinha uma amante. Mas começava a achar que não tinha paciência.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/26]

Sonhos Pop

Estou sentado num banco de tábua corrida frente a uma mesa de madeira numa espécie de esplanada, improvisada, na aldeia de Cem Soldos. A aldeia está sitiada e, para cá entrar, é necessário uma pulseira neo-hippie a caminho do Senhor-do-Bonfim-da-Bahia com um chip a fazer de medalhão. É o chip que permite beber cerveja e comprar o pão com chouriço e caldo verde. Faz lembrar, ainda que vagamente, as famosas senhas comunistas que já estavam preparadas, ali para os lados de Alcobaça, durante o Verão Quente de ‘75 (é possível que a historia não seja assim, mas é assim que a minha memória se lembra destas histórias dos anos ‘70).
Aqui em Cem Soldos, o último reduto dos homens com rabo de cavalo – não sabia que havia ainda tanto resistente da moda mais pirosa dos anos ‘80 do século passado – o Festival não é um Festival. É um sítio de boa disposição e tranquilidade onde os concertos se sucedem mas as pessoas dirigem-se para eles tranquilamente sem o histerismo de querer correr para a barreira da frente para junto dos seus ídolos. Aqui ouve-se a música, os berros das criancinhas mais chatas e as conversas pueris de jovens adolescentes que se enganaram no Festival mas riem, à perdição, dos gajos com rabo de cavalo.
A faixa etária é muito heterogénea. Adolescentes e velhotes. Criancinhas ao colo dos pais e bebés em carrinho. Pais divorciados de fim-de-semana com os filhos. Adolescentes. Namorados. Amantes. Músicos. Emigrantes. Há de tudo, aqui.
Estou sentado a beber uma cerveja e a fumar um cigarro. Pego no livro que trouxe, Blow Up e Outras Histórias de Julio Cortázar, edição de bolso da Europa-America, mas não consigo chegar a ler uma linha. Pariu a galega mais a norte. Deve ter acabado algum concerto a que não fui e que acabou agora. Vem gente em magotes. As raparigas vêm vaporosas. De costas despidas e queimadas. Não nas praias do Oeste, com certeza, que o Verão ainda não chegou a estes lados. Os rapazes vêm de calções. Muita gente a fumar. Sinto-me acompanhado.
Começo a pensar o que aconteceria se começasse a chover. O tempo está instável. Sol mas com nuvens muito escuras. Vento forte. Se começasse a chover o que é que aconteceria? Para onde iria toda esta gente? Estamos longe de tudo o que seja cobertura. Aqui não há centros comerciais.
Penso em mim. Na minha bronquite. Nas dores de costas. Na dor de cabeça. Na minha má-disposição crónica. Não podia ficar à chuva. Para onde iria?
Já é tarde. O dia já se foi. A noite instalou-se. Já ocorreram vários concertos. Os Pop dell’Arte são agora já a seguir. Vim cá para isso. Vim cá para ver o João Peste e os Pop dell’Arte. Esqueço as miúdas giras e os rapazes com pinta e arranco para o concerto que fica lá em baixo, na vala. Não há Wi-Fi na vala. Vou ficar fora da vida. Não sei como vou suportar este afastamento digital.
Passa um puto com não mais de dezoito anos a fumar um charro. O cheiro entra-me pelas narinas. Viro-me para ele e digo Oh, pá! Dás-me uma passa? e o puto vira-se para mim, faz aquele ar de seca o-que-é-que-quer-o-velho?, mas passa-me o charro para a mão. Ponho as mãos em concha e o charro espetado nos dedos, para o puto não ficar com nojo de mim, e mando duas ou três baforadas bem fortes. Devolvo o charro. Agradeço com um sorriso enorme e sinto-me pronto para os meus Sonhos Pop.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/10]

Na Livraria

Houve uma época em que trabalhei numa livraria. Foi uma época de que gostei especialmente, não tanto pelo trabalho, mas por estar rodeado de livros.
Gostava de cheirá-los. Ler as contracapas, mesmo as dos livros que à partida não me interessavam. Folheá-lhos. Pegar neles e ser o primeiro a roubar-lhes a frescura da novidade.
Havia dias em que agarrava um livro, um livro qualquer, um livro que nem sabia o que era, mas que me agarrava, o livro agarrava-me a mim, e eu esquecia onde estava. Esquecia a loja, os outros livros, o trabalho, os clientes. Nem ouvia as pessoas entrar na loja e quando chegavam e me dirigiam a palavra, irritava-me com elas por me interromperem a leitura e chegava a mandá-las Para o caralho, pá! E depois pedia a um dos meus colegas que atendessem aquela, aquelas, pessoas, que eu estava num mundo de onde não podia ser arrancado assim, a frio, daquela maneira tão bruta e estúpida.
Ler era litúrgico.
Havia dias em que as noites eram passadas lá, na livraria. Saía à hora de sair. Jantava, normalmente um jantar leve. Comprava uma garrafa de vinho. Fumava logo dois ou três cigarros depois de jantar para não fumar na livraria, e regressava ao meu local de trabalho, com a garrafa de vinho, e lia o que apanhava à frente. Lia e bebia. Lia mais que bebia. Havia sempre mais que ler que beber. A garrafa era só uma. Normalmente despejava-se depressa. Mas os livros, os livros duravam a noite inteira. Intercalava-os. Misturava leituras. Romance. Banda-desenhada. Policiais. Poesia. Ensaios. Era assim que aguentava as noites sem adormecer. A saltar de um livro para outro. De uma história para outra.
Tinha muito cuidado com os livros que manuseava. No dia seguinte tinham de seguir intactos para as mãos dos novos donos que pensavam estar a adquirir um livro ainda virgem. Se soubessem… Se soubessem o que lhes acontecia durante as longas noites naquelas prateleiras onde navegavam mãos ávidas de agarrar estórias fantásticas escritas por mentes de deuses extraordinários…
Tudo isto terminou numa noite de Verão, está a fazer por esta altura uns bons anos, quando o dono da livraria, que não me conhecia, eu tinha sido contratado pelo gerente de loja, me encontrou, deitado no chão de um dos corredores da ficção internacional a ler o Aleph do Borges e, num acto heróico de uma novela da Corín Tellado, sacou de um canivete que usava para cortar os charutos, espetou-mo na barriga, abriu-me um rasgão que me fez verter sangue para cima da pilha de livros novos que tinha ali ao lado para ler, ainda me lembro que eram A Balada do Mar Salgado do Hugo Pratt, Todo-o-Mundo do Philip Roth, O Homem do Castelo Alto do Philip K. Dick, Histórias de Cronópios e de Famas do Julio Cortázar, Poemas Quotidianos do António Reis, Eliete da Dulce Maria Cardoso e o Homo Deus do israelita de quem esqueço sempre o nome, raios-me-partam a memória que já não é o que era, e sobre os quais acabei por cair, desmaiado, não pelo rasgão que não foi assim tão grande quanto isso, mas pelo sangue do qual nunca fui grande amigo e cada vez que o vejo fico agoniado, dá-me a volta ao estômago e à cabeça, normalmente vomito, naquela noite desmaiei.
O dono chamou a polícia. O INEM. Eu fui levado para o hospital. Guardado por um agente.
Fiquei dois dias internado. Sem nada para ler. Fiz o meu depoimento. O dono da livraria acabou por perceber que era meu patrão. Despediu-me logo de seguida. Nem direito a indemnização tive. Tens sorte que retire a queixa e não te faço pagar os livros que estragaste com o sangue, disse-me.
Quando saí do hospital, não sabia o que fazer. Estava sem trabalho, sem casa e sem dinheiro. E sem livros para ler.
Acabei por arranjar trabalho no Continente, como repositor de lineares. Mas evitava passar pela zona dos livros. Achava um crime a forma como os livros eram tratados no supermercado. Eram atirados para ali. Não havia ordem. Não havia amor. Estavam assim ao monte. Eram uma mera mercadoria. À espera de serem levados por gente que não ligava a livros. Gente que tinha prateleiras em casa para encher. O livro era um bibelot. E isso, isso eu não conseguia aguentar.
Depois disso deixei de ler livros. Nos últimos anos comecei a escrever e comecei a ler o que escrevo. Há dias, de noite, porque eu gosto muito de ler à noite, que me sinto Deus.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/23]

Uma Paisagem de Bilhete-Postal

O céu está escurecido. Riscado a grafite. As nuvens perderam as suas formas, a sua cor. O céu mudou de ambiente. Já não é o céu azul de mergulho livre nas águas quentes do rio. Agora é o céu de um filme de Hollywood em cenário pós-apocalíptico.
Cheira a queimado. Cheira a um misto de borracha queimada e churrasco em fim-de-semana grande e vizinhos convidados para o jardim onde os cães fogem dos gatos e as crianças chapinham em piscinas de borracha, de soprar na pipeta, e compradas na feira de Verão do Continente com desconto em cartão.
Verão que se prese não aparece de manhã em São Pedro de Moel e tem incêndios para alegrar o futuro. Da mesma forma que hoje as comunidades abrem as bocas desdentadas para mastigar o frango de aviário assado em brasas ecológicas nas manifestações de um idílico passado Medieval, também daqui a uns anos outras comunidades irão homenagear os mostrengos lusitanos que não descansaram enquanto não puxaram o Sahara cá para cima.
Primeiro destruíram a costa algarvia. Depois a alentejana. Aos poucos o resto do país.
Portugal haveria de se tornar o primeiro estado-nação da celulose. O país virou uma enorme fábrica. Toda a gente tinha emprego, valia-lhes isso. No único empregador do país. A enorme fábrica de celulose acima do vale do antigo rio Tejo, sulco preservado em memória colectiva do maior rio da Península Ibérica que os ibéricos acabariam por matar. Como em tudo onde puseram as mãos. Resta-lhes a memória. Mas não lhes tem servido de muito.
Sorte a minha que já cá não estava para assistir à destruição do país como ele era no tempo em que eu ainda tinha tempo. Acabaria por descobrir que, afinal, não era muito.
Mas lembro-me do ano do grande incêndio de Vila do Rei. Dois anos após o enorme incêndio de Pedrogão Grande. O país estava fadado aos grandes incêndios. Era o Euromilhões em que toda a gente acertava Este ano vai haver um grande incêndio numa grande, e ainda resistente, mancha verde. E havia. E toda a gente acertava. E toda a gente estaria rica se o conhecimento significasse milhões.
Nesse ano, dois meses antes, eu tinha andado por Vila do Rei quando subi o Tejo. Descobri um Zêzere a morrer antes de desaguar no Tejo. Descobri um Portugal abandonado. Triste. Perdido na sua distância das janelas do poder. De Lisboa não se conseguia ver para além do Campo Grande. Aquele era o país da paisagem em bilhete-postal, em fotografia de fim-de-semana na visita à terra dos avós e à casa na terra, herdada, que permanece fechada o ano inteiro à espera de ser vendida num bom negócio que favoreça a vida na capital.
Andei quilómetros sem ver vivalma. Quilómetros de verde. Seco. Aqueles dias em que subi o Tejo esteve um calor infernal. O país estava seco. Estalava. E a manutenção do país não saiu das boas intenções de decretos legislativos. E depois? Como aplicá-los? Com que gente? Com que dinheiro?
Recordo as casas perdidas nas manchas verdes. Recordo quem ainda resistia. Quem não queria partir. Quem ainda acreditava que um país não são só os passos do poder.
Recordo passar por aquelas manchas de verde, naquele país seco e abandonado, enquanto fumava um cigarro, e pensar Bastava só uma beata. Só uma beata.
Hoje o céu já não chora. Está só negro. Zangado. E quando chorar, já será tarde. Como tudo neste país de gabinetes insonorizados e ar condicionado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/22]

As Pessoas São Estúpidas

As pessoas são estúpidas.
Não uma pessoa em particular. As pessoas em geral. São estúpidas. E quanto maior o grupo, maior a tendência para aguçar essa estupidez. A estupidez é algo que vai bem em grupo. Um estúpido sente-se bem rodeado de outros estúpidos. Imagina que, assim, faz parte do grupo dos espertos. Mas os espertos são também, muitas vezes, estúpidos.
As pessoas elegem gente como Donald Trump e Jair Bolsonaro para lhes indicar o caminho. As pessoas aclamam gente como Hitler, Mussolini e Salazar, mesmo que depois venham a dizer que não. Quem tem cu, tem medo. Passou-se o mesmo com a França colaboracionista. Trabalharam para os alemães. Depois eram todos resistentes e foram, provavelmente, os mais aguerridos a cortar o cabelos às mulheres que se deitaram com o invasor, coitadas, elas que se limitaram a sobreviver.
As pessoas são estúpidas e têm dificuldade em perdoar. Ou algumas pessoas têm dificuldade em perdoar. Se calhar são as mesmas que colaboram. Não tenho certeza. Mas é o que parece. Às vezes há quem perdoe. Pode ser difícil, mas por vezes é o melhor que se pode fazer. Foi assim em Espanha. Foi assim na Argentina e no Uruguai. Mas em Espanha parece que esqueceram de tudo. Principalmente do que perdoaram, mas que não era para esquecer. Em Espanha parece que se esqueceram dos tempos do Caudilho. As pessoas tendem a esquecer. Tendem a não ter memória. Repito: As pessoas são estúpidas.
Dois anos depois da tragédia de Pedrogão Grande e da destruição do Pinhal do Rei, tudo está na mesma. E quando está na mesma está pior. Porque não se aprendeu nada. As pessoas são mesmo estúpidas. Aumenta a área de eucalipto porque quem tem terrenos precisa de os fazer render. E nada rende mais que o eucalipto. Percebe-se. Devia haver políticas de apoio a uma floresta diversificada. Mas não há. É cada um por si. E o Estado impõe regras que ele próprio não cumpre. Há que limpar os terrenos, mesmo que sejam no interior do país, naquele país onde não há gente, e a que há é velha, como é que vão limpar os terrenos? Com que gente? Com que dinheiro? E os terrenos do Estado, esses continuam como estavam, ao abandono.
As pessoas são estúpidas.
Um homem ameaça a mulher com uma moto-serra. Dorme na cama com a mulher e a moto-serra. Quase que sinto o cheiro a gasóleo. Quase que sinto o barulho da moto-serra ávida de cortar carne. O juiz manda o homem para casa com pena suspensa por quatro anos e meio. O que hei-de dizer?
Estou furioso.
As pessoas são estúpidas e não querem aprender.
Há uma cultura do ódio. Todos queremos alguém para odiar. Seja pelo futebol. Pela política. Por motivos passionais. Porque sim.
As redes sociais são um caminho minado de ódio. Sinto-o destilar em gente sentada no seu sofá, enquanto trinca uma fatia de pizza e bebe uma cerveja.
Há gente com vontade de iniciar uma guerra. Alguns por causa de negócios – desde miúdo que ouço dizer que a guerra é boa para a economia. Outros porque são fanfarrões. Falam alto e querem ser chefes. Outros ainda porque não sabem fazer outras coisas. Brinquem com as pilinhas, porra!
Sentado no seu gabinete de crise, Donald Trump mandou atacar o Irão. Até lhe imagino a salivar de tesão ao ver, à distância de meio-mundo, um drone atacar, matar gente e destruir uma qualquer peça de civilização do outro lado do mundo.
As pessoas são estúpidas.
Ontem vi uma fotografia do presidente brasileiro com uma T-shirt que dizia Marcha para Jesus, e a fazer aquele sinal idiota de pistola com os dedos, a metralhar alguém ou alguma coisa. As pessoas são estúpidas e correm atrás de estúpidos para não se sentirem sozinhas. Querem ser dirigidos por estúpidos para sentirem que têm razão. Razão em odiar os outros. Razão em odiar os diferentes. Razão em odiar quem pensa de maneira diferente.
Como é que os evangélicos podem pregar a palavra de Deus e, ao mesmo tempo, disparar tanto ódio?
Como é que as pessoas não vêm as incongruências?
Enfio o cano do revólver na boca. Estou a transpirar. Tremo. Estou com medo.
Eu também sou estúpido. Podia tentar fazer algo para combater o estado das coisas, mas quero é saltar fora, a meio do caminho.
Deixei-me contaminar.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/21]