James Dean em Times Square

Hoje cruzei-me com uma fotografia icónica de Dennis Stock. Uma fotografia que já conhecia mas que há muito tempo não tinha a oportunidade de a olhar. É uma fotografia que serviu de base para muitas outras fotografias, imagens, criação de ambientes e estados de espírito. Talvez o mais bem conseguido tenha sido a recriação de Rick Deckard por Harrison Ford ao caminhar nas ruas sombrias e chuvosas de uma Los Angeles futurista, muito neo-tóquio pós-apocalíptico, sob o olhar competente de Ridley Scott em Blade Runner.
A fotografia, esta fotografia, retrata James Dean a caminhar por Times Square, em Nova Iorque. Está a chover. James Dean está enfiado no seu sobretudo comprido e as mãos enfiadas nos bolsos. Ao canto da boca, um cigarro. Talvez um Chesterfield. O cabelo, levantado e desgrenhado, dá-lhe um ar blasé. O olhar foge-lhe para a esquerda, para a direita da câmara, e não sabemos para onde está a olhar. Talvez uma troca de olhares cúmplices, uma troca de olhares com alguém que sabe porque é que ele está ali a fazer uma sessão de fotografias para a revista Life e logo naquele dia cinzento e chuvoso. Há uma espécie de sorriso que retira, por momentos, a indiferença daquela cara. É por isso que falo em cumplicidade. Cumplicidade com alguém, fora de campo, talvez alguém com um guarda-chuva que espera o final da sessão de fotografias para resguardar, finalmente, aquele que era a estrela do cinema americano do futuro, ao qual acabaria por não chegar. Mas talvez seja só um olhar ao espelho de uma montra e a resposta ao seu reflexo. Será a criatura vaidosa? Talvez, não sei. Mas é um quase-sorriso quase-final. Ele ainda não sabe, mas sabemos nós, que James Dean está a meses de morrer, ao volante do seu Porsche 550 Spyder Little Bastard, depois de bater contra um Ford Tudor e ter voado pela estrada fora e ter ficado dentro do carro, encarcerado, até morrer, diz-se de morte rápida, talvez instantânea, mas morte terrível e desfigurada.
Aqui, nesta fotografia, meses antes da sua morte, James Dean caminha à chuva por Times Square e a sua sombra, a sombra de uma estrela, antecipa-o. À sua volta as pequenas circunferências dos pingos de chuva. O tempo cinzento. As marcas da cultura, da arte, do capitalismo americano dos anos cinquenta. No cinema Astor passava a versão de Richard Fleischer das Vinte Mil Léguas Submarinas em cinemascope, que também acabaria por passar em Portugal no mesmo ano de 1955. Pouco tempo depois, seria aqui, neste mesmo cinema, que estrearia o filme Fúria de Viver de Nicholas Ray, estrelado precisamente por este mesmo James Dean que, até à sua morte, faria, ao todo, três filmes. Atrás, como pano de fundo, Chesterfield, já não só no canto da boca mas em letras garrafais de néon, a Budweiser, as televisões Admiral e outras placas, enorme quantidade de placas, que já não consigo ler, é o desfoque da objectiva e a idade da minha vista, já cansada, mesmo suportada pelo óculos de apoio.
Entusiasmado, larguei a fotografia, o livro onde contemplei a fotografia de Dennis Stock, agarrei na minha câmara, no tripé e saí de casa. Fiz a pé os quase cinco quilómetros que me separam do adro da igreja. Instalei o tripé. Coloquei-lhe a câmara. Espreitei. Fiz o enquadramento do espaço, A igreja, a torre sineira e, ao fundo, o coreto a servir de pano de fundo, o adro estendido à minha frente, resolvi esperar. Alguém haveria de entrar. Ou sair. O padre. Alguma beata. Talvez alguma bela moça da terra, carregada de melancolia no rosto ou uma velha friorenta a puxar as abas do casaquinho de malha sobre o peito, púdica, e eu poderia click fazer o meu instantâneo click e tornar o adro da igreja da aldeia que me acolheu click no meu Time Square possível click onde poderia ter a sorte click de encontrar o meu James Dean click não se desse o caso de eu não ser click nenhum Dennis Stock click.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/11]

O Poço

Há lá fora, no quintal, um poço que está tapado por uma tampa redonda de madeira forte e pesada mas que eu conseguiria abrir se se desse o caso de o querer abrir. Às vezes tenho vontade de lá colocar a cabeça para arrefecer, esquecer ou a fazer adormecer.
Estes tempos não têm sido propícios às minhas divagações mentais. Ponho-me a pensar no que a vida nos está a fazer e, quando dou por mim, estou no quintal a caminho do poço. Sento-me sobre a tampa, cruzo as pernas e acendo um cigarro. Às vezes penso que queria que a tampa cedesse ao meu peso.
Nestes últimos dias em que o tempo tem andado numa roda-viva, de manhã Verão e à tarde Inverno, sem que nunca, em momento algum, haja um cheirinho, por suave que seja, a uma pequena Primavera ou um pequeno Outono, os saltos são assim de gigante como se jogasse à Mamã Dá Licença? com o universo, sinto a asma ganhar dimensão dentro de mim, o corpo verga-se ao peso da respiração pesada e forçada, só estou bem em pé, e conto os minutos até conseguir voltar a fumar um cigarro e limpar a cabeça.
Em dias como os de hoje sinto crescer uma certa melancolia que, nestes últimos tempos me faz vir até ao poço. Tem piada que o poço já cá estava quando para cá vim morar, já estava tapado, até tinha uns vasos com plantas lá por cima, mas eu nunca lhe liguei nenhuma.
Surgiu assim, como num estalar de dedos, estava eu no sofá a ver a contabilização do número de mortos no mundo por causa do Covid-19, quando vi projectado na minha cabeça a imagem do poço e senti formar-se em mim a consciencialização do poço, um poço fundo, não sabia de quantos metros de profundidade, nem se tinha água ou não e se a água era boa para beber. Senti-me atraído pelo poço. Foi essa a primeira vez que fui ao poço. Levantei-me do sofá. Deixei a televisão ligada. Saí de casa. Estava aquele lusco-fusco cinzentão e já tinha chovido durante a tarde. Fui até ao poço. Olhei-o. Senti-o a olhar para mim. Senti-o a convidar-me para me sentar lá em cima, em cima dele. E eu sentei-me. Sentei-me em cima dele. Senti logo o rabo molhado que a tampa do poço estava ainda molhada da chuva da tarde. Cruzei as pernas. Respirei fundo. Depois acendi um cigarro e fiquei ali, em cima do poço a fumar o cigarro.
Enquanto fumava o cigarro pensava que o poço era um portal, uma porta dimensional, que bastava eu deixar-me cair lá dentro e viajava para o passado, viajava para o futuro, viajava para o outro lado do mundo, entrava numa outra dimensão em que havia mais cores do que alguma vez tinha imaginado. E quando acabava o cigarro, como que despertava de um sonho e regressava à minha vida de todos os dias, uma vida tridimensional, cheia de dramas, problemas e, agora, também morte.
Ultimamente tenho-me sentido impelido muitas vezes a ir sentar-me em cima da tampa do poço. Sinto-me convidado a fumar um cigarro. E parece-me que estou a ser levado pela atracção do fundo do poço. Não são poucas as vezes em que imagino cair lá dentro. E vejo-me nessa queda bizarra, em que as paredes do poço passam por mim em câmara lenta e como se fossem um filme preto como o da Marguerite Duras ou colorido como a queda de Alice pelo Walt Disney, mas sem nunca chegar ao fundo.
Agora, neste momento, vim até ao poço para me sentar em cima da tampa e fumar um cigarro e descobri que já retirei a tampa. Não me lembro de o ter feito, mas fi-lo. Descobri uma farpa num dedo e não consigo tirá-la. Olho para o fundo do poço. Meto a cabeça lá dentro e olho. Não vejo nada. Acendo um cigarro. Encosto-me à beira do poço. E volto a meter a cabeça. Olho lá para dentro e desejo que o poço me adormeça.
Sinto-me fascinado e, ao mesmo tempo, um pouco melancólico.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/07]

Uma Gota de Transpiração

Este tempo bipolar tomou conta da minha vida. Todos os dias espreito pela janela para saber se posso ir mijar nu ou se tenho de vestir qualquer coisa. Entre o calor de Verão e o frio do Inverno têm passado vinte e quatro horas. Começo a pensar que o verdadeiro problema não é o Covid-19 mas estas misturas temporais que nos empurram para a praia e acabamos a fazer ski na neve, duna abaixo em direcção a um mar gelado vindo directamente da escrita de um argumentista de série B.
Ontem estava calor. O céu azul belenenses. Levantei-me nu da cama e foi assim que fui mijar à casa-de-banho depois de ter espreitado pela janela do quarto para a rua.
Enquanto esperava pelo café, fui tomar um banho de mangueira ao quintal. Os gatos fugiram. O cão andou a ladrar à minha volta mas acho que era para a água que saía da mangueira.
Dei duas voltas a correr à volta da casa para secar. A pila dançava para cima e para baixo. Ainda a consigo ver. Não engordei assim tanto. Fiquei com os pés sujos. Voltei a lavar os pés e calcei umas havaianas de imitação velhas que andam sempre perdidas pelo quintal, às vezes os gatos mijam-lhes em cima, às vezes o cão deita-se a roê-las, ficam ao vento e à chuva, mas dão sempre jeito. Como ontem.
Depois de beber o café e de fumar um cigarro no alpendre, a melhor parte da casa, vesti uns calções e uma t-shirt e fui dar uma volta pela aldeia. Estava deserta. Demasiado calor para os velhos andarem na rua. Demasiado cedo para os mais novos saírem da cama. Optaram todos pelo confinamento. Pelo menos ontem. Ontem de manhã. Tudo em casa. Tudo? Tudo não, que uma moça da aldeia, filha dos donos do Minimercado, estava num terreno que têm para os lados do ribeiro a cavar terra para plantar batata-doce. É o tempo dela. Da batata-doce. Estava de camisa aberta, transpirada, a saia rodada presa à cintura cruzada por baixo das pernas tornada calções. Vi a transpiração a escorrer pelo decote aberto no peito. Ela viu-me. Parou de cavar. Aproveitou para descansar daquele calor e apoiou-se no cabo do sacho, a olhar para mim. E depois levantou o braço numa saudação. Eu também a saudei. Levantei o braço e gritei-lhe Bom-dia! que não deve ter ouvido porque me engasguei e a voz saiu fininha. E pensei Se não fosse o distanciamento social…
Hoje já está frio. O céu cinzento, daquele cinzento urbano-depressivo que me fazia as delícias quando tinha dezasseis anos. Mas já não tenho mais dezasseis anos. Chove. Chove uma pequena e irritante chuva tocada a vento. Visto umas calças de fato-de-treino e uma sweat antes de ir mijar. Mijo. Faço café. Fumo um cigarro na cozinha enquanto leio as últimas notícias sobre os milhares de mortos que continuam a acontecer por todo o lado e aos quais já parecemos imunes.
Com o tempo que está e as notícias matinais que leio chega-me a melancolia de Domingo, mesmo que seja ainda só Sábado.
Largo a chávena vazia na mesa da cozinha e volto para o quarto. Volto para a cama. Tapo-me com o edredão e desejo voltar a adormecer e só voltar a acordar quando o tempo regressar em bom. Quando o tempo regressar em formato de Verão, com sol forte e quente e umas nuvens à Simpsons. Desejo adormecer e sonhar com a gota de transpiração a percorrer o peito branco da filha dos donos do Minimercado.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/04]

Para um Diário da Quarentena (Terceiro Andamento)

Hoje foi um dia bizarro. Tudo o que não fiz ontem, fiz hoje.
Levantei-me cedo, seduzido pelo sol matinal. Lancei logo o edredão para os pés da cama. Saí de um salto, vesti uma t-shirt e fui à cozinha pôr o café a fazer. Liguei o iPod à coluna e deixei em modo aleatório. Arrancou com PJ Harvey. Uh Huh Her. Acendi um cigarro e fui fumá-lo para o alpendre. Os gatos vieram roçar-se nos meus pés descalços, dengosos, a ronronar.
Lancei o cigarro para o meio do quintal e entrei em casa para ir tomar um duche.
Sentia-me bem-disposto.
Pensei se eu seria mesmo eu.
Tomei o duche. Vesti-me. Bebi café. Comi uma banana. Lavei os dentes e peguei na chave do carro. Desliguei o iPod antes de sair de casa.
Hoje tinha de sair. Por motivos de trabalho, tinha de sair do meu refúgio. Largar as minhas rotinas. Tinha de ir longe. Não ia estar com muita gente. Nem ia demorar muito tempo. Mas era longe. Tinha de ir encher o depósito do carro. Ia aproveitar para registar o Euromilhões. Comprar pão fresco. Umas garrafas de vinho, que andam a esvaziar-se muito depressa.
Tinha umas máscaras e umas luvas no carro caso precisasse. Algumas moedas. O multibanco. Um lápis com borracha para marcar o código do cartão e fazer os pagamentos. E um frasco aspersor com álcool.
Fui.
Fiz o que tinha a fazer.
E regressei.
Entrei em casa. Despi-me ainda na cozinha. Pus a roupa na máquina e lavei-a a quarenta graus. Depois lavei-me a mim e vesti um fato-de-treino.
Abri uma garrafa de Adega de Pias, das mais baratas. Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador e comecei a escrever. E escrevi bastante e durante bastante tempo. Tanto tempo que tive tempo de despejar a garrafa de vinho. Só então parei e acendi um cigarro. E reparei que já era de noite.
Este foi um bom dia, pá! pensei.
Lembrei-me que havia o Festival Eu Fico em Casa e liguei o Instagram. E deixei a tocar. Nem sei quem era que estava a tocar. Acho que nem conhecia. Deixei na coluna.
Abri outra garrafa de Adega de Pias. Cortei uns legumes. Desfiei um resto de frango assado que tinha no frigorífico. Salteei tudo no wok. Depois misturei uns bocados de sementes de sésamo e uma azeitonas.
Desliguei o festival e liguei a televisão. Hora do noticiário. Jantei os legumes salteados com o resto de frango desfiado na companhia do vinho tinto a tomar atenção às novidades do Covid-19, aos infectados e aos mortos. Afinal estávamos em emergência, ou não?
As coisas estavam cada vez pior.
Mas eu continuava bem disposto.
Quem seria eu, afinal?
Desliguei a televisão da cozinha. Baixei a tampa do computador. Arrumei a louça suja na máquina. Agarrei num copo e despejei-lhe dois dedos de Bushmills. Sem gelo. Fui para a sala. Liguei a televisão. Ao fim de algum tempo de permanência nos canais de notícias, comecei com o zapping.
Comecei a sentir a melancolia a instalar-se.
Relaxei.
Afina, eu era eu. Sou eu. E aqui estou, de rabo enfiado no fundo do sofá, a ganhar coragem para ir à cozinha buscar mais um bocado de whiskey e trazer para aqui o cinzeiro. Mas não me consigo levantar. Apetece-me, mas não me apetece. Tenho qualquer coisa a tremer dentro de mim.
Sorrio, mas não sei de quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/17]

Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

Elliott Smith

Acordei bem disposto. Acordei beijado pelo sol que entrava sorrateiro por entre as cortinas mal fechadas da janela. Abri um olho. O outro. Sorri ao sol. Senti o apelo do Verão e pensei É hoje que vou à praia.
Durou pouco esta sensação.
Primeiro porque mal tinha saído do banho, o sol já se tinha escondido atrás de uma nuvem escura como breu a prometer chuva.
Depois porque as redes sociais me recordaram Elliott Smith. Recordaram-me a morte de Elliott Smith pelo seu nascimento. Nasceu a seis de Agosto. Seis de Agosto de Mil Novecentos e Sessenta e Nove. Faria hoje cinquenta anos. Que não chegou a fazer. Já lá vão dezasseis anos. Dezasseis anos de ausência. Morreu em dois mil e três. Em Outubro. Num mês melancólico como convém a quem é melancólico.
Conheci-o com Figure 8. Afinal, o seu último trabalho lançado em vida. Conheci-o no fim. Só depois andei às arrecuas. E fui conhecer o resto. E depois, já depois da morte, conheci o From a Basement on the Hill, o disco em que andava a trabalhar quando morreu. Saiu algum tempo depois. Não sei o que dizer do disco. Claro que gostei. Um disco triste? Melancólico? Ele era sempre melancólico, mesmo quando a música apelava a bater o pé, com ritmo e entusiasmo. Descobrir ali a morte? Algum apelo? Não sei.
Conheci Elliott Smith tarde mas foi logo amor à primeira audição. Ouvi-o por acaso. Acho que gostei da capa do disco. Gostei da figura dele lá na capa. A figura de alguém que estava ali por acaso, porque alguém lhe disse para ficar. Mas sempre vi aquela personagem a querer ir embora para algum buraco com a guitarra na mão. Não o conhecia. Ouvi. Apaixonei-me. Quero mais, pensei.
Fui pôr o CD a tocar. Gosto muito deste disco, o Figure 8. Ainda hoje. Claro que há muito tempo que não o ouvia. Tanta coisa para ouvir nos dias de hoje que acabo por esquecer algumas das melhores coisas que fui colhendo ao longo do tempo.
Fiquei a pensar nisto tudo enquanto ouvia o disco. Fui para a varanda fumar um cigarro quando começou a chover. Não vinha tocada a vento e não me molhou. Estava-se bem na varanda. O som das colunas ainda lá chegava e lutava com o barulho furioso da cidade pela minha atenção. Mas os dois sons foram servindo de embalo. Misturaram-se um no outro. Criaram uma massa de som que servia de banda-sonora ao que não conseguia afastar da cabeça.
O sol incipiente. A chuva no Verão. A música. O prazer da música. O Elliott Smith. O Figure 8. A depressão. A morte.
Eles são sempre assim. Pessoas geniais. Pessoas magníficas. Pessoas capazes de transmitir sol em dias de chuva. Capazes de nos fazer chorar de alegria. Obrigar-nos a guerrear por um pedaço da sua genialidade. Às vezes nem os percebemos. Às vezes não queremos perceber. Às vezes mijamos para cima deles quando os sentimos frágeis. Lembro-me de Amy Winehouse no Rock in Rio Lisboa. A chacota. O riso. O gozo. O prazer de malhar quem está no chão. Eu sei porque também eu fiz o mesmo. E hoje tenho raiva de mim por isso. Por não ter percebido. Porque nunca percebemos. E quando percebemos, geralmente é tarde demais e depois só nos resta lamentar. Que é uma coisa que fazemos muito bem, principalmente em frente dos outros. Olha com eu sofro por ele! Por eles!
Este Verão está uma neura. Eu fui fumando cigarro atrás de cigarro à varanda. A tentar a chuva. Mas a chuva não me chegou a molhar. Mas molhei a cara. A morte é terrível, mas também é um fascínio. O fascínio do abismo.
Depois parou de chover. As nuvens escuras dissiparam-se e o sol regressou. Não tardou muito para estar calor. Mas para mim já era tarde. Entrei para dentro de casa e sentei-me no sofá.
Ainda estou sentado no sofá. Não me apetece ligar a televisão. O disco já chegou ao fim. A casa está em silêncio. Mas a minha cabeça não. Aqui vai uma grande confusão. Uma gritaria. Discussões. Muitos de mim a quererem dar ordens. E eu a perder o controle.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/06]

Não Saber o que Fazer a Seguir

Saí de casa depois de almoço.
Pus os pés na estrada e fui por ali fora. O sol a dar na cabeça. Os carros a passarem rente a mim. Naquela zona não há passeio. Entre o asfalto e o campo de terra lavrada há uma vala para deixar correr as águas em dias de chuva. O que é feito desses dias?
Não sei onde é que ia. Ia, só.
Os Domingos são dias de uma certa melancolia. E quando não há bola, fico sem saber o que fazer. É que não posso ficar em casa o tempo todo. Não posso ficar dentro da cama o tempo todo. Não posso ficar debaixo dos lençóis o tempo todo.
Preciso livrar-me desta força que me prende. Faço um esforço. Às vezes penso que é um esforço inglório. Acabo sempre por voltar para lá. Sim, acabo sempre por voltar para lá, mas enquanto ando aqui por fora sinto-me bem. Relativamente bem.
Saí de casa e fui por ali fora.
O sol estava forte. Batia-me com força na cabeça. Eu caminhava pelo asfalto e, quando vinha um carro, afastava-me para a vala. A vala estava seca, mas era difícil caminhar na vala. O caminho não era direito e entortava-me os pés. Deformava-me as sapatilhas. Magoava-me os joelhos. Houve uma altura em que eram muitos os carros e tive de ir para o campo lavrado. Entre a vala de inclinada e os torrões de terra seca do campo lavrado não sabia qual o melhor caminho. Mas optei pelo campo de terra lavrada. Sujei as sapatilhas. Pensei que, mais tarde, teria de as lavar. Não consigo andar com as sapatilhas sujas. Não, não me incomodam as sapatilhas sujas. Tenho umas All Star todas porcas. A minha mãe até tem vergonha de sair comigo se eu usar as All Star tal o seu estado de sujidade. Mas não estas. Estas, umas New Balance 996 são muito boas para caminhar, mas não podem ficar sujas. Não ficam bem sujas. E isso incomoda-me. Mas anotei. Passei por cima da vontade e decidi que as limpava quando chegasse a casa. Logo que chegasse a casa.
O sol estava quente. Encontrei uma árvore no caminho. Não sei que árvore era. Não percebo nada de árvores. Mas tinha uma boa ramagem. Um tronco grosso. Sentei-me lá debaixo, à sombra. As costas contra o tronco. Puxei de um cigarro. Acendi-o.
E, depois de fumar ali sentado, o que é que iria fazer?
Essa era a pergunta que eu fazia ali sentado. Na verdade não conseguia descansar. Na verdade, nem conseguia saborear o cigarro. A minha preocupação era sempre o que é que iria fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem onde estou porque estou sempre a pensar onde vou a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a fazer o que faço porque estou sempre a pensar o que fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a gostar de ninguém porque estou sempre a pensar em quem vou gostar a seguir.
Por vezes sinto-me enlouquecer. É por isso que gosto de me enfiar na cama. Tapar-me com os lençóis. Não ver nada. Não ouvir nada. Deixar passar o Domingo. E os outros dias da semana todos, uns atrás dos outros. Depressa. O tempo a passar rápido.
Acabei o cigarro. Apaguei a beata na terra. Levantei-me.
Não sabia o que fazer.
Não sabia para onde ir.
Não sabia o que queria.
E estava ali assim, naquela imobilidade, quando chegou o carro.
O carro parou. Abriu-se uma janela. Ela olhou para mim a sorrir e perguntou Queres vir? E eu disse Sim, mãe. Ela abriu a porta do outro lado e eu entrei.
Enquanto ela engatava a primeira e o carro arrancava, ainda me disse Fiz um Bolo Veludo de Framboesa. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/24]

Um Domingo de Chuva

Acordei com a chuva a bater nos vidros da janela. Já estava a habituar-me a esta Primavera antecipada quando a chuva decidiu regressar. Mas não veio sozinha. Trouxe uma ligeira subida de temperatura. Levantei-me nu da cama e não tive frio. Foi assim que fui mijar. Foi assim que fui ligar a máquina do café. Foi assim que fui olhar, através da janela da cozinha, a casota vazia do cão.
O cão morreu ontem. Atropelado.
Fiquei triste. Deixei mesmo cair umas lágrimas. Afinal, o cão foi a minha companhia nestes últimos dois anos. Ia comigo para todo o lado. Ouvia-me quando eu falava alto para perceber que ainda tinha voz. Lambeu, vezes sem conta, os copos de vinho tinto que deixei cair no chão depois de já não conseguir erguer seguro o copo em direcção aos lábios.
Bebi o café.
Porque raio é que o deixei sair daqui? Ele gostava de visitar os amigos, é certo mas… Que merda!
Olhei ao longe as montanhas atrás da camada de chuva que as tornavam quase sumidas. Mal se viam. Devia estar bonito, lá em cima. Pensei que era um bom dia para ir para as montanhas fotografar.
Hum.
Acabei de beber o café e fui pôr a chávena na máquina de lavar. Olhei para o maço de cigarros em cima da mesa da cozinha. Pensei que podia sentar-me à mesa, frente ao computador, a fumar um cigarro e a escrever o que achava sobre o Aliança, o novo partido de Pedro Santana Lopes, o enfant terrible da Kapital e da revista Olá. A revista Olá? Estou velho. Eu e o Pedro. Estamos velhos.
Bocejei. Cocei o rabo. Lembrei-me que estava nu. Voltei ao quarto.
Olhei para o livro na mesa-de-cabeceira à espera de ser relido mais de vinte anos depois de o ter lido pela primeira vez: De que Falamos Quando Falamos de Amor do Raymond Carver. Mas não lhe peguei. Não. Ainda não era o dia. Cocei o rabo. Cocei o peito. Afaguei o pescoço. Cofiei a barba. Pensei Apetecia-me ter aqui uma mulher. Precisava de uma tarde de sexo para afastar esta melancolia.
Deitei-me na cama e puxei o edredão sobre mim.

Acordei e estava escuro. A noite tinha caído. Era Domingo e eu mal tinha visto a luz do dia. Não fizera nada. Rigorosamente nada. Tinha dormido e gasto um dia inteirinho sem ter produzido o que quer que fosse.
Chegou-me a neura.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/10]

Helena

Helena.
É um bonito nome para uma senhora. Talvez com os seus, já quase, cinquenta anos. Mãe de dois filhos. Talvez um casalinho. Mas já crescidos. Ele a acabar a Faculdade. Ela grávida da sua primeira criancinha e prestes a tornar a mãe em avó. Mas uma mãe, ou avó, elegante. Bonita. O tempo passa lento por ela. Ainda ouve piropos na rua. Não liga. Nunca liga. É uma senhora. E sabe o quanto é bonita. E inteligente.
Agora, como nome de depressão, não o consigo percepcionar. Isto lá é nome para uma depressão? Para uma depressão atmosférica? Chuva a rodos. Ventania infernal. Nuvens escuras, cinzentas e pretas. Frio. Geada. Tempo de Inverno. De melancolia. De tristeza. De chá quente e pieira nos pulmões. Porra! Helena?
Uma vez conheci uma Helena.
Estava no Parque de Campismo do Pedrogão. Ela era irlandesa. Da República da Irlanda. Tínhamos a mesma idade. Mas ela era bonita. Simpática. Culta. Falava muito bem inglês. Não sei o que viu em mim.
Eu estava a jogar futebol de salão. No ringue ao ar-livre do Parque de Campismo. Eu estava na equipa sem camisolas. Naquela altura não tinha esta barriga de anos a beber cerveja. Talvez fosse isso. Ausência de fermentação.
Houve uma pausa no jogo. Fui fumar um cigarro. Ela aproximou-se. Pediu-me um. Ofereci-lho. Agradeceu. Sorriu. E depois ficou por ali. Fumou-me o resto dos cigarros enquanto eu jogava à bola. Mais tarde, depois do jogo, depois do banho, depois de ter passado uma hora a experimentar qual a t-shirt certa para aquela noite, depois do jantar, encontrei-a na esplanada do café do Parque. Convidei-a para sair. E ela saiu. E foi uma bela semana. Uma semana em que andámos juntos todo o tempo. De dia e de noite. E no fim chorámos a despedida.
Não! Não, porra!
Essa não era a Helena. Essa era a Karen.
A Helena era na verdade Helen e era alemã. Também falava inglês melhor que eu. Um pouco mais velha. Também era bonita. Usava umas sandálias de couro e umas calças do cocó. Às vezes não tomava banho. Essa não fumava os meus cigarros porque fumava tabaco de enrolar. Andava a passear de mochila às costas com outra amiga cujo nome esqueci. Também chorámos na despedida. Eu e a Helen.
Esse foi um ano de muito choro bom.
As Helenas são sempre boas raparigas. Com excepção das depressões. Essas não são grande merda. Mas as Helenas, as verdadeiras Helenas, mesmo que se chamem Karen ou Helen, essas são sempre maravilhosas.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/01]

Chega a Noite e Fecho-me em Casa

O tempo salta ao pé coxinho. Num dia com chuva. No outro com sol. Agora já não sei. Escureceu. Aproxima-se a noite.
Fechei a casa. As janelas. As portas. Já não saio para o alpendre durante a noite. Tenho medo. Fecho-me em casa.
Há uma semana que ouço passos à volta da casa. O cão a ladrar. Os gatos desaparecem. Já saí várias vezes, à rua, na escuridão da noite, cheio de coragem, com uma moca de Rio Maior e a luz ténue do telemóvel. Não vejo ninguém. Mas sinto. Sinto uma presença.
Tenho medo.
Chega a noite e fecho-me em casa. Tranco as portas e as janelas. Verifico de cinco em cinco minutos se tenho rede wi-fi. Se tenho rede telefónica. Se estou em contacto com o mundo se precisar.
Sento-me no sofá. As pernas cruzadas debaixo do rabo. A televisão ligada, mas sem som. O ouvido atento ao exterior. A dar fé de tudo o que se passa lá fora.
Ouço os cães da vizinhança. Ao longe. Uns ladram à Lua. Outros aos foguetes. Ladram quando ouvem algo fora do normal. Do seu normal. Do meu normal. Ladram aos barulhos que se escondem no escuro.
Ouço o vento a deslizar pelas folhas das árvores. A chocalhar as persianas. Ouço o vento a assobiar canções que não são de embalar.
E eu sentado no sofá. Com as pernas cruzadas debaixo do rabo. Não posso adormecer. Estou atento. Alerta.
Ouço o ribeiro a correr lá ao fundo. Nas traseiras da casa. Não ouço sempre. Só às vezes. Em dias muito frios. Silenciosos. Agora não estou a ouvir. Acho que não chove. Também não faz calor. Mas ainda não percebi em que estação estamos. Demasiado frio para Verão. Demasiado quente para Inverno. Demasiado chuvoso para Outono. Demasiado melancólico para Primavera.
Em casa não há estações do ano. Estou de camisa. Sentado no sofá. Com as pernas cruzadas debaixo do rabo. Em silêncio. Não tenho frio. Nem calor. Estou bem. Com um pouco de medo, contudo. Atento aos ruídos do exterior. Algo se passa lá fora durante a noite.
Ouço o sino da igreja. Quantas badaladas? Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete… Sete. Sete horas. Sete horas da tarde. Da noite. Já é de noite. Podia ser mais tarde. Parece mais tarde. Não ouço barulhos da vida. Da vida a acontecer. Ouço ruídos. Alguns ruídos. Ruídos na escuridão.
Ouço a minha respiração. Estou ofegante. Chio. A minha bronquite é ruidosa. Acendo um cigarro. Cago na minha bronquite. Fumo. Fumo um cigarro. Invado os pulmões. E acalma-me a respiração.
Ouço um helicóptero. As hélices de um helicóptero a girar. O que é que se passa? Não é normal os helicópteros voarem à noite. O helicóptero aproxima-se. Parece estar aqui mesmo em cima. O barulho cresce. É ensurdecedor. Tapo os ouvidos com as mãos. Mas o som do helicóptero fura tudo. As mãos. Os ouvidos. A cabeça. Está em cima de mim. Dentro da minha cabeça. Viro a cara para a porta da rua e vejo a maçaneta a girar. Como as hélices do helicóptero. Flap, flap, flap…
Está alguém à porta. Não ouço nada. Só as pás do helicóptero. E agora o The End dos Doors. Porra. Isto não é o Apocalypse Now!
Alguém está mesmo lá fora. Não consigo ouvir nada. Só barulho. Está lá gente. Ali. Na porta. Tenho de me esconder. Levo a moca de Rio Maior comigo. Largo o cigarro no chão da sala. Em cima do tapete da sala. Fujo. Escondo-me. Escondo-me no escuro.
Tenho medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/25]