Cidade Fantasma

É Verão. Chove, faz sol, frio e calor. Por vezes sopra uma aragem que se torna ventania.
Domingo. Oito da tarde. A cidade está fantasma. As pessoas foram para a praia aproveitar o sol e a água do mar. Ganhar bronze. Relaxar. Outras estão já em casa a jantar. Não há futebol. As camionetas levam mais pessoas que as que trazem. As ruas tendem para o deserto. Há silêncio.
A excepção são as rulotes das bifanas e da maminha grelhada que estão com clientela.
Na estrada passa alguém de bicicleta e começa a gritar muito. E muito alto. Palavras sem sentido, sem nexo, mas alto. Muito alto. Assusta.
Parece que os loucos começam a chegar à cidade.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/09]

O Segurança do Pingo Doce

Hoje passei ao pé do Pingo Doce e estava lá uma pequena multidão à frente da porta de entrada. Um jovem de etnia cigana dava pulinhos e mandava a cabeça para a frente, assim como se fosse cabecear a bola dentro da grande área. Tinha a cabeça partida e deitava sangue que já se espalhava pelo peito nu. O segurança estava parado, de mãos nos bolsos, acompanhando os pulinhos do outro com o olhar. Algumas pessoas riam. Outras não.
O segurança tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. Esticou o maço para o jovem aos pulinhos que parou os saltos e aceitou um cigarro com a mão cheia de sangue. Acendeu o cigarro, virou costas e foi-se embora. As pessoas dispersaram. O segurança mandou o resto do cigarro que não fumou para o meio da estrada. Depois, entrou dentro do supermercado.
Eu esqueci-me do que ia fazer e fiquei ali a olhar o cigarro a fumegar no meio do asfalto.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/05]

Os Cães Ladravam

Os cães ladravam por detrás dos portões dos quintais. Eu caminhava pelo meio da estrada com medo que algum deles saltasse o muro e me quisesse morder.
Ao virar a esquina tropecei e caí de cara no chão. Rachei a testa. Alguns arranhões na cara. A mão ficou com sangue ao tentar perceber como estava.
Foda-se!, pensei. Os cães continuavam a ladrar. Mas tinha sido o asfalto que me mordera.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/03]