Queria Voltar para a Cama

Senti-me sacudir. Abri os olhos. Era ela. Estava com a mão no meu ombro. Tinha acabado de me sacudir suavemente. Viu-me abrir os olhos e disse Acorda!
Eu acordei. Ela ajudou-me a sentar na cama. Abriu as cortinas das janelas e libertou a luz do sol que me cegou momentaneamente.
Há quanto tempo não via a luz do sol?
Ela aproximou-se de mim e disse Vamos sair. Não sei como é que a minha cara expressou o meu desapontamento, mas ela sorriu e disse E não há discussões!
Ajudou-me a levantar da cama. Primeiro uma perna. Depois a outra. Os pés enfiados nos chinelos. Depois o corpo. Upa! E foi comigo até à casa-de-banho. Eu conseguia caminhar, arrastando um pouco os pés, é claro, mas conseguia caminhar. E levava a mão sobre o ombro dela para me equilibrar.
Mas eu queria era voltar para a cama.
Despiu-me o pijama. Ajudou-me a entrar dentro da banheira. Eu esperei, encostado à parede, enquanto ela colocou o banco dentro da banheira, em cima do tapete. Eu sentei-me. Ela ajudou-me. Ligou a mangueira do duche. Temperou a água. Deu-me o chuveiro para as mãos e saiu da casa-de-banho. Deixou-me sozinho para me conseguir lavar à minha maneira e não me sentir pior do que já sentia.
Quando sentiu o esquentador a desligar, veio buscar-me. Ajudou-me a sair da banheira. Secou-me o corpo com uma toalha de algodão já usada (não gosto de toalhas novas, não aderem). Amparou-me no regresso ao quarto. Perguntou-me o que eu queria vestir. Foi buscar as roupas e ajudou-me a vesti-las.
Depois saímos. Saímos de casa. E eu queria era voltar para a cama.
Entrei no carro com a ajuda dela. Depois entrou ela. Pôs o cinto. Ligou o carro. Perguntou Tens fome? E eu acenei a cabeça, na esperança que ela não notasse a minha concordância. Ligou a rádio e arrancou.
Sorri quando vi os arcos dourados. Já nem me lembrava da última vez que tive o prazer de comer um hambúrguer com as mãos, e os molhos a caírem pelos cantos da boca e o gás da Coca-Cola a fazer-me arrotar. Olhei para a escadaria e pensei que não ia conseguir subir aquilo. Mas ela foi directa ao McDrive. Para mim um McRoyal Cheese. Para ela um McBacon. Batatas fritas com ketchup para os dois. Coca-Cola para os dois também. Ela arrancou o carro mas parou logo ali, no parque de estacionamento, de frente para a estrada. Eu via os carros a passar à minha frente. Sentia-me num Drive In. A estrada era o ecran.
Estava calor. Abrimos os vidros do carro. Passava uma pequena aragem. O cheiro das batatas fritas ia embora. Trincava com prazer o hambúrguer. Lambia os molhos dos dedos. Sorvia a Coca-Cola. Ia olhando para ela. O prazer não era o mesmo que o meu. Mas notava-lhe a alegria de me ver assim, com este ar de satisfação. Quando acabei de comer, amarrotei tudo dentro do saco de papel. Ela também. Saiu do carro e foi depositar os sacos no lixo. Eu estava contente de ter saído de casa. Mas, agora, agora eu queria era voltar para a cama.
Ela arrancou com o carro. Meteu-se na auto-estrada e levou-me até à Nazaré. Fizemos a marginal de carro. Eu ia olhando tudo aquilo que já não via há tanto tempo. Subimos ao Sítio. Depois continuou para norte da Praia do Norte. Parou numa pequena arriba solitária. Não havia lá mais nenhum carro. Abrimos de novo os vidros do carro. Deixei-me inebriar pela maresia. Aquele cheiro da Nazaré é único.
Ela fumou um cigarro. Deixou-me dar uma passa. Depois sorriu para mim e disse Está calor! e sorriu. Saiu do carro, sempre a olhar para mim e a sorrir. Depois começou a correr e a descer a arriba. Deixei de a ver. Endireitei-me no banco para a procurar. Descobri-a já lá ao fundo, na praia, a acenar um adeus, e a despir-se enquanto corria, às vezes de frente, a despir-se, às vezes às arrecuas a dizer-me adeus. As peças de roupa iam ficando lá para trás, no caminho. As calças. A t-shirt. As meias. Não via as sapatilhas. Talvez tenham ficado fora do meu campo de visão. O soutien. As cuecas. Quando tirou as cuecas fê-las rodopiar por cima da cabeça e mandou-as para longe. Virou-se para mim, nua, abriu os braços e riu muito. Depois virou-me costas, foi a correr até ao mar e mergulhou na primeira onda que encontrou.
Vi-a a nadar por momentos, em frente.
Depois pensei E se ela não volta?
Eu queria voltar para a cama.
Não, não queria. Queria vê-la, ali assim, ao pé de mim. Nua. Molhada. Salgada pelo mar. Desejável. Não, eu já não queria voltar para a cama. Mas ainda tinha um longo caminho a percorrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/16]

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Como Vim Parar Aqui

Estou no passeio. Na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Espero o semáforo verde para colocar o pé em baixo. Na passadeira que me vai levar ao outro lado. E quando passa a verde, quando o semáforo passa a verde e me liberta, o meu pé não se mexe. Já não sei se quero ir para o outro lado. Já não sei se quero ficar aqui. Já não sei nada e isso dá-me uma grande dor de cabeça.
Estou indeciso.
E digo indeciso para não ter que dizer que estou inerte. Não quero voltar a pensar em mim assim, dessa maneira.
Não estou inerte.
Levantei-me da cama, hoje de manhã. Tomei banho. Calcei os chinelos para tomar banho numa casa-de-banho pública. E isso foi uma grande decisão. Tomei banho. Vesti-me. Saí de casa. Cruzei-me com pessoas. Ouvi os carros a correr no asfalto. Ouvi as buzinas dos impacientes. Cheirei os vapores dos combustíveis. Senti o embate de um possível acidente.
E aqui estou eu.
Na rua. Com o pé suspenso e sem conseguir pensar o que é que quero fazer.
Apetece-me dizer que não me apetece nada a não ser ir a correr para casa, fechar a porta à chave, sentar-me no sofá munido de um volume de cigarros, um pacote de cinco litros de vinho tinto e uma vontade enorme de não fazer nada.
Mas não posso dizer. Na verdade não posso dizer porque, realmente, não sei o que quero fazer.
O pé está suspenso no vácuo entre as pedras do passeio e o asfalto da estrada. E não tomo a decisão final. O pé não cai. E eu nem sei se quero que o pé caia.
Lá está. Não sei o que quero fazer, o que deva fazer, o que pretendem que eu faça.
Todos estes anos que levo por aqui só para terminar assim, de pé no ar sem saber o que fazer?
O que me trouxe para aqui?
Estou sentado numa mesa do McDonald’s. Como um McRoyal Cheese e sinto o corpo a aumentar a cada dentada. Sinto o peso do hambúrguer a cair no estômago. O hambúrguer é pesado. Empurro batatas fritas pela boca aberta. Bebo uma cerveja de lata morna, vertida para um copo de plástico onde, em letras garrafais, diz que é Reciclável. Trinco o hambúrguer enquanto olho. Um grupo de jovens atletas. Rapazes. São uns dez ou quinze. Adolescentes. Cada um leva quatro hambúrgueres, batatas fritas e uma bebida grande que não descortino o que é. Devoram tudo num instante. Eu ainda estou de volta do meu e já eles terminaram. Deixam os tabuleiros nas mesas. Há uns homens mais velhos, de fato-de-treino, que não lhes ensinam a levarem os tabuleiros para os carros-depósito e libertarem as mesas para os outros. Duas raparigas partilham uma salada. Há um rapaz que devora um Sunday, enquanto uma rapariga o olha a comer. Um miúdo brinca com um boneco-brinde. Depois larga-o. Agarra num tablet. Tem um pequeno pacote de Nuggets, batatas fritas e um sumo de laranja e ainda não tocou em nada. Os pais, suponho que sejam os pais, comem cada um o seu hambúrguer em silêncio. Toda a gente come em silêncio. Não se partilham palavras. Mas alguém conversa. Não sei onde, mas alguém conversa. Não há picos de som. Há um bruá constante. Como um ruído. Que me embala. Acabo de comer o hambúrguer. E as batatas fritas. A cerveja despejo-a de uma só vez. No fim arroto. Sinto o estômago pesado. E penso Porque raio vim comer aqui? E penso que é porque estou sozinho. Sozinho no meio de gente sozinha. Famílias sozinhas. Namorados sozinhos. Há pouca comunicação. Cada um está fechado no seu mundo. Estou sozinho mas acompanhado. Uma triste alegria que vamos cimentando nos dias que correm. É o progresso!, dizem-me.
E saio do restaurante. Caminho pela cidade. Sem saber para onde vou. Para onde quero ir. Estou sem destino. Sem vontade. Sinto-me personagem de um filme de Antonioni, mas sem a Monica Viti. Estou sem rumo. Morto-vivo. Caminho. Calcorreio ruas, estradas. Passo de um passeio a outro. Subo ladeiras. Volto a descê-las. Vou ver uma montra mas perco o interesse. Entro numa pastelaria e percebo que acabei de comer um hambúrguer. Volto a sair. O que é que vim aqui fazer? Rodo sobre mim. Onde estou?
Estou na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Mal coloco o pé na passadeira. Passa um carro. Passa um carro a grande velocidade e bate-me na perna. Com força. Com tanta força que me leva o pé e me deixa a dançar entre o passeio e a passadeira e, enquanto caio, vejo o meu pé voar por cima das pessoas que olham assustadas para mim e para o meu pé voador.
Caio. Vejo, à frente, as luzes vermelhas de travão de um carro. Um carro parado. E vejo o carro a arrancar. Ouço ainda os pneus a chiarem no asfalto. As luzes vermelhas desaparecem. Sinto alguém aproximar-se de mim. Ouço alguém dizer Não lhe toquem! Mas não sei de quem falam. Sinto-me cansado. Acho que estou todo fodido mas não tenho a certeza. Não sei nada. Mas não estou inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/01]

Doença Ruim

A Doença Ruim é talvez a mais democrática das doenças. Doença terrível. Doença terminal. Na maior parte dos casos, sem cura. Algum paliativo.
Às vezes há quem escape. Porque é benigno. Ou, pelo menos, não é maligno. Ou porque a estirpe não é mortal. Ou porque sim. Às vezes assim, por acaso. Consegue-se explicar? Talvez. Talvez porque detectada cedo. Talvez porque atacada com ferocidade. Talvez por milagre.
Mas é democrática. Não escolhe sexo. Embora morram mais homens que mulheres. E mais no Mundo Ocidental que no Oriental. E mais no Hemisfério Norte que no Sul, embora a Austrália baralhe um pouco esta estatística. E com maior incidência nos pulmões que noutras partes do corpo. Por isso se diaboliza tanto o tabaco. Mas não está sozinho neste caminho. Acompanham-no o álcool. O excesso de peso. A inactividade física.
Não consta que seja uma doença hereditária. Mas há maior probabilidade de a contrair por quem tem historial familiar.
O meu pai morreu da Doença Ruim. A minha mãe também. A probabilidade de eu a contrair é, assim, bastante elevada.
Estou sentado na varanda. Está um pouco de frio. Nada de mais. Acho que dantes, há alguns anos, esta altura do ano, início de Dezembro, era mais fria. Hoje está frio. Mas não muito. Um bocadinho. Nada que me impeça de vir para a varanda. Gosto de estar cá em cima a olhar a vida a correr lá em baixo.
Quantas destas pessoas levam consigo a Doença Ruim? E quais as que não sabem? Nem sonham? Que preferem nem saber?
Estou sentado na varanda. Ao meu lado uma garrafa de vinho tinto. Sem rótulo. Uma garrafa sobrevivente da colecção do meu pai. Vinho do produtor. A maior parte não vale uma merda. Mas às vezes, encontram-se algumas preciosidades. Este que estou a beber é mesmo carrascão. Mas marcha. Não desperdiço. Nunca desperdiço. E no fundo ajuda-me a fugir mais depressa. Bebo um copo de uma só vez. Volto a enchê-lo.
Abro a caixinha do McDonald’s. Agarro na embalagem do McRoyal Cheese. Abro-a. Coloco-a em cima dos joelhos. Não me preocupo com a gordura nas calças. Hei!, quero lá saber! Despejo as batatas fritas na parte vazia. Espalho ketchup por cima delas. Agarro no hambúrguer e começo a comer. Gosto disto. Gosto mesmo disto, de vez em quando. Hoje estava-me mesmo a apetecer. Como as batatas sofregamente. Estão estaladiças. Lambo o sal e o ketchup dos dedos. Engulo o último pedaço do hambúrguer. Parece que tenho uma bola no estômago. Mas soube-me bem. Bebo mais um gole de vinho. Amarga. Sorrio.
Acendo um cigarro. Encosto-me na cadeira. Olho a rua. Ouço o barulho das pessoas. Há uma certa agitação no ar. São as festividades.
E volto a pensar na Doença Ruim. Penso na grande possibilidade de a ter. Por exemplo, nos pulmões. E olho o cigarro entre os meus dedos. O cigarro a fumegar entre os meus dedos. E dou mais uma passa.
Por exemplo, nos testículos. Olho à volta e encontro o canivete-suíço. Baixo as calças. Agarro os testículos e corto-os. Lanço-os para a rua. Ouço um grito lá em baixo.
Não estou a sentir-me bem.
Sento-me.
Vejo o sangue a espalhar-se à minha volta na cadeira, nas pernas, nos pés, nas calças presas lá em baixo, sobre as sapatilhas a tingir.
Começo a sentir tonturas. Bebo mais um gole de vinho. Olho para o copo e bebo tudo o que lá está. Acendo outro cigarro. Agora tenho dois cigarros na mão. Sinto-me desfalecer. Mas não será da Doença Ruim. Fode-te, pá!, em mim não há democracia. Em mim mando eu! Comia outro McRoyal Cheese!

[escrito directamente no facebook em 2018/12/01]