Desconfinamento

Ia a meio do percurso quando percebi que estava sozinho. Onde é que se teriam metido? Voltei para trás à procura deles. Andei durante algum tempo no sentido inverso, a refazer o caminho, mas não via ninguém. Depois tive de parar. Havia bifurcações e eu já não sabia de onde é que tinha vindo. Os caminhos pareciam-me todos iguais. As árvores eram iguais. Os movimentos sinuosos dos caminhos também me pareciam todos iguais. Tudo parecia a mesma coisa, mas não o podia ser. Por momentos tive medo de me perder. Estava sozinho no meio do mato. Sentia-me perdido mas, ao mesmo tempo, ainda não tinha saído do caminho que começara a fazer com todos eles.
Recomecei a caminhar em frente. Haveria de ir dar a algum lado. Talvez ao sítio onde queríamos ir quando começamos a caminhada, lá atrás.
O horizonte não tinha mais que cinco, dez metros de cada vez. Sempre na próxima árvore. Sempre na próxima curva. A vista nunca estava desafogada. Estava no meio do mato. Um mato quase-cerrado. E eu continuava a palmilhar terreno à espera de chegar onde devia chegar e, com um pouco de sorte, talvez encontrar quem tinha perdido.
Era preciso não desmotivar.
Continuei sempre em frente. Sempre a caminhar sem parar. Sempre à espera de chegar a algum lado. Porque a algum lado deveria ir dar.
Até que cheguei. Finalmente! pensei.
A luz estava a cair. Ali à minha frente, o mar. A areia. A praia. A festa. A festa estava a acontecer. íamos para uma festa, afinal? Já não me lembrava. Teria chegado a tempo? A tempo da festa?
E eles? Onde é que eles estavam?
E pus-me às voltas pela areia à procura deles. A circular pelo meio dos outros, os que já lá estavam.
Enquanto circulava, ia percebendo que a festa já tinha acontecido. Garrafas vazias caídas pela areia. Embalagens de alumínio com pequenos ossos e restos mastigados de frango assado. Caixas gordurosas de pizzas, com restos de massa roída. Rodas de fogueiras a morrerem e a serem atiçadas ao mesmo tempo que a noite se fazia adulta e eu começava a ter mais dificuldade em perceber quem era quem no meio daquelas pessoas. Havia grupos de gente reunida à volta de tocadores de djambés e de guitarras. Havia grupos de gente à volta de fogueiras a partilhar charros, pequenas conversas, adivinhas, anedotas. Havia quem lesse a mão, as linhas-da-mão. Havia quem divagasse acerca da astrologia e do valor dos signos. Havia grupos de gente a dançar à volta de pequenas e potentes colunas que cuspiam metros de música colorida. Havia gente solitária parada a olhar para o mar; para as ondas do mar; para as fogueiras a arder; para os corpos entrelaçados e caídos na areia. Havia gente a mergulhar no mar. Havia gente a cantar. Havia gente a foder.
Não reconhecia ninguém.
Afastei-me para um canto e sentei-me numa pequena duna, encostado a uma árvore. Não sei que árvore era. Era uma árvore. Puxei de um cigarro e, quando o ia a meter na boca, entre os lábios, percebi que estava de máscara, de máscara social. Lembrei-me do vírus. Lembrei-me que estávamos a desconfinar, mas que devíamos manter distância. O vírus estava activo. Não havia vacina. Ainda nos infectávamos. Estávamos a desconfinar, mas devíamos ter cuidado. Muito cuidado. E então lembrei-me que não vira nenhuma máscara entre toda aquela gente que estava ali na festa, uns em cima do outros, uns encostados aos outros, uns dentro dos outros.
Ouvi uma sirene. Vi umas luzes azuis e vermelhas a varrerem o ar. A noite já tinha ganho o espaço. Vi a chegada do que me parecia ser a polícia. As pessoas começavam a desmobilizar. Sem grandes dramas. Levantavam-se e iam embora. Saíam do mar, molhados, e continuavam pelo mato dentro. Talvez em direcção aos carros. À estrada. Alguns iam abraçados. Outros iam amparados. A polícia ficara para trás a apanhar os que estavam tombados na areia. Os que estavam a dormir. Os que estavam em êxtase. Os que estavam mortos.
Eu fiquei ali mais um pouco. Ninguém deu por mim. Fiquei a fumar um cigarro atrás do outro. A perguntar-me Onde raio é que eles se enfiaram? e sem conseguir resposta.
Então, estava sozinho na praia. Já não havia festeiros nem polícia. Já não havia ninguém. As fogueiras já tinham morrido ou sido apagadas pela polícia. O que restava era o lixo da festa. Uma festa a que cheguei tarde e não encontrei ninguém conhecido e acabei por não estar com ninguém que não conhecesse.
Dois dias mais tarde soube que o número de infectados pelo coronavírus tinha aumentado drasticamente por causa daquela festa. Semanas mais tarde houve gente a morrer. Gente que nem tinha estado na festa.
As pessoas com quem tinha ido, nunca mais as vi. Não sei se estão vivas ou mortas. Nem sei já quem eram.
Hoje pergunto-me se realmente tinha ido com alguém ou se tinha ido sozinho. Já não me recordo de nenhum deles. De um nome. De uma cara. De qualquer relação. De uma pequena estória. Nada. Não lembro de nada nem de ninguém. Só me lembro de mim, sozinho, a caminho de uma festa onde cheguei tarde e que foi o melhor que me podia ter acontecido.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/22]

Exame de Geografia

Acho que ainda não era Verão. Era uma Primavera quente, bastante quente. Saí da casa de calções e t-shirt e sapatilhas All Star pretas nos pés. Ia leve mas ia nervoso. Afinal, não era todos os dias que fazia exames. E, naquele dia, tinha o exame de Geografia do nono ano para fazer. Era de manhã, tinha acabado de tomar o pequeno-almoço, umas torradas com manteiga e um copo de leite frio com uma colher de Nesquick. Ou talvez fosse de tarde, e eu tivesse acabado de almoçar rissóis de peixe com arroz de cenoura. Não estou seguro. De certeza é que era dia de exame de Geografia e eu saí de casa de calções, nervoso com o exame mas confiante no estudo feito e preparado para me sair bem.
O exame era no colégio perto de casa. O mesmo colégio onde estudava. Não era bem perto de casa, mas suficientemente próximo para ir a pé. Sozinho e a pé.
À entrada do colégio fui barrado por uma freira que me perguntou ao que ia. Ao exame, irmã. Ao exame de Geografia, respondi. Não assim, disse-me. Não assim, de calções. Isso não é maneira de vires para um exame.
Fiquei parado a olhar para ela. Ela ficou parada à minha frente. A barrar-me a entrada. Senti a cara a ficar vermelha. As mãos a fecharem-se em punhos. A garganta a apertar, a prender-me a respiração. Eu a querer falar, a querer perguntar o que fazer, mas a voz, estrangulada, a não sair. Estava a sentir os olhos a ficarem húmidos. Estava prestes a chorar. Até que a freira me disse Vai num instante a casa, vá! Despacha-te! Vai vestir umas calças.
E eu estive ali uns segundos como minutos-horas parado em frente à freira a processar o que ela tinha acabado de dizer e então percebi e voltei para trás a correr. E foi a correr que fiz o caminho inverso e regressei a casa onde os meus pais já não estavam, tinham ido trabalhar. Procurei a chave de casa debaixo do vaso à entrada e entrei. No quarto, vesti umas calças de ganga e senti o calor daquela Primavera quente, daquela manhã de calor, talvez fosse uma tarde de calor, já não sei.
Despachei-me. Saí de casa. Fechei a porta e deixei a chave debaixo do vaso.
Recomecei a correr de regresso ao colégio e, a meio, não era bem a meio do caminho porque já não me lembro onde era exactamente o meio do caminho mas, ao longo do caminho e da minha correria, cruzei-me com um cão, um cão a ladrar, abrandei o passo de corrida com medo, o cão virou-se para mim a ladrar, eu acabei por parar, com receio do cão, mas o cão não se mexeu, não estava a ladrar para mim, estava a ladrar para alguma coisa à frente dele, no meio do mato daquele terreno baldio, e olhava para mim para me avisar, para me chamar atenção e, depois de passar o medo inicial, avancei, cauteloso, pelo meio do mato, com o cão a aproximar-se de mim, mas não estava a aproximar-se de mim, estava a ir comigo de encontro ao que ele queria que eu visse, e eu vi, um ninho de pássaro com três passarinhos, um deles fora do ninho, tombado no chão, no meio do matagal.
Agarrei no passarinho que tinha caído para fora do ninho e coloquei-o lá dentro. E fiquei ali durante algum tempo a olhar os passarinhos no ninho a chilrear, se calhar com fome, se calhar com saudades da mãe, se calhar com frio, se calhar assustados com a queda que tinham dado e eu ainda olhei em volta, em volta para o céu à procura de uma possível mãe e não encontrei ninguém até que resolvi subir à árvore e colocar o ninho entre duas braças.
Desci e fiquei ali, com o cão, agora calado e de rabo a abanar, a olhar para o ninho. Depois sentei-me no lancil do passeio. O cão sentou-se ao meu lado. Estivemos à espera que regressasse a mãe dos passarinhos.
O cão não tinha trela. Eu ainda não fumava. Não passou mais ninguém por ali e, finalmente, um pássaro apareceu a voar e entrou pela árvore dentro e foi até ao ninho. Os passarinhos num alvoroço devem ter começado a contar a sua desgraça, uma desgraça que só não tinha sido maior porque O cão e o rapaz ajudaram-nos, mãe.
Satisfeito com o desenlace da história, levantei-me do lancil, o cão também se levantou, dei-lhe duas palmadas no lombo, à laia de despedida, coloquei as mão nos bolsos das calças e tomei o caminho de casa…
…quando, de repente, me lembrei que tinha um exame para fazer e tirei as mãos dos bolsos das calças, virei costas, recomecei a correr em direcção ao colégio, corria tanto que batia com os pés no rabo e, quando finalmente cheguei ao portão do colégio, a freira, a mesma freira, não me deixou entrar porque o exame estava a terminar. Eu deixara passar o tempo e o tempo fugiu-me e já não tive tempo para fazer o exame de Geografia.
E nessa manhã, que pode ter sido nessa tarde, ficou decidido que eu teria de repetir o nono ano. Por causa da minha ausência ao exame de Geografia.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/10]

Um Passeio pelo Mato em Dia de Quarentena

Estava bom tempo. Fui dar uma volta pelo mato. Saí de casa, direcção a sul. A pé. De sapatilhas e calças de ganga. Era um passeio, não uma corrida nem jogging. Dois ou três quilómetros depois, saí da estrada e entrei pelo mato dentro. Havia um caminho. Os sulcos de um tractor.
Nos últimos dias tem chovido e, logo no início do caminho, duas enormes poças de água que me obrigaram a subir pelo meio dos fetos para passar adiante. Continuei em frente.
O mato é pobre em variedade. O arvoredo é composto exclusivamente por pinheiros bravos e eucaliptos. Entre eles muitos fetos e silvas.
Esta é uma zona de muito barro. Há muitos buracos onde outrora se tirou o barro e ficaram uns pequenos charcos que agora estão invadidos por rãs. Ouço-as a coaxar. Fazem uma orquestra à minha passagem. Por momentos torna-se insuportável. Depois deixo os charcos para trás e o coaxar vai ficando esquecido e abafado pelo som dos pássaros. Não sei que pássaros são. Não percebo nada de pássaros. Já vi umas rolas e uns melros, mas pela barulheira que fazem devem ser outros, devem haver outros.
Não deixa de ser engraçado que mesmo no meio de toda aquela cacofonia em stereo, percebia-se o silêncio humano. Não se ouvia barulho de carros. Não havia motores nem buzinas. Não havia gritos de pessoas nem o seu eterno bruá feito de conversas que nunca terminam. Ouvia os meus passos a pisar a caruma seca, a pisar pequenas poças de água e quando eram maiores, a evitá-las pisando os terrenos encharcados adjacentes e a fazer chap-chap. Ouvia bastante a minha respiração. Uma respiração tranquila mas pesada. Afinal ia a subir. O caminho levava-me de subida por entre os pinheiros e um ou outro eucalipto descamisado, mas com as cascas caídas aos pés das árvores. Aqueles eucaliptos não eram de plantação. Aqueles eucaliptos não eram para alimentar as celuloses. Estavam para ali. Perdidos, provavelmente.
Lembrei-me de quando a minha mãe ia ao mato perto de casa buscar folhas verdes de eucalipto para cozer com água numa panela e me fazer respirar o vapor do eucalipto por causa da minha bronquite. Parece que fazia bem. Acho que a mim nunca fez bem nem mal. Continuei com bronquite, mas gosto de cheiro do eucalipto. Lembro-me do cheiro que ficava lá por casa durante o resto do dia, e que era bastante agradável.
Continuei pelo caminho do mato, ainda caminhava bastante mais para o interior, mas lá mais à frente havia um corte que me iria levar à estrada, cinco quilómetros a norte de minha casa.
Apanhei um campo de malmequeres amarelos. Parecia um verdadeiro jardim. Não havia charco. Deitei-me no meio deles e tentei tirar uma fotografia minha deitado no meio dos malmequeres amarelos, ainda pensei em despir-me e fotografar-me no meio da natureza como vim ao mundo e foi nesse momento, no momento mesmo antes de tirar a fotografia, que me lembrei que havia muitas cobras no mato. Levantei-me de um pulo e voltei ao caminho. Enfiei as perneiras das calças nas meias para evitar que alguma coisa subisse pelo interior das calças acima.
Parei um bocado. Fiquei em pé. Estava numa clareira. Olhei em volta. Fiz trezentos e sessenta graus. Teria de virar à direita. Quis fumar um cigarro. Era altura da pausa para o cigarro. Já não tinha o maço. Devia ter caído no campo de malmequeres amarelos. Que merda!
Cortei à direita. Continuei em frente. Não deixava de pensar nos cigarros. Acelerei o passo. Nem pensei que naquela clareira costumavam encontrar-se as bruxas da zona. Já tinha ouvido histórias delas irem para ali, para aquela clareira, em noites de Lua cheia, dançarem nuas ao luar. Mas eu nunca vi. Só ouvi contar. Mas isso só pensei depois, quando voltei a pensar na minha volta pelo mato, que é o que estou a fazer agora porque, no momento, só pensei em fumar um cigarro e não tinha tabaco comigo.
De passo acelerado passei por um pomar. Filas e filas de macieiras em flor. Lá do outro lado havia um barracão que dava apoio ao pomar. As marcas do tractor que tenho visto deviam ir para lá. Mas já não via as marcas há algum tempo.
Passei por uma pequena ponte feita de pequenos troncos de árvores atadas umas às outras. Passei por cima de um pequeno riacho que mais parecia um charco. Havia alguns juncos. Uma ilha de canas. Voltei a ouvir o coaxar das rãs.
Os incêndios têm poupado o mato. Pergunto-me até quando?
Depois passei por uma zona de mato sem arvoredo. É um quadrado com cerca de cem metros de lado. O chão é de terra. Não há nada verde. Nem restos de folhas, nem fetos, nada. Parece um chão estéril. Ao cimo do quadrado, um conjunto de colmeias. Não sabia que havia algum apicultor por aqui. As coisas que se aprendem nas voltas da quarentena. Não vi nenhuma abelha. Se calhar não era altura de andarem por aí na galderice, de flor em flor, a comer todo e qualquer pólen.
Mais à frente a recuperei a estrada. Voltei ao asfalto. Não havia carros. Nem pessoas. Nem sequer os animais de que tanta gente fala. Só pássaros. E rãs. E mesmo assim, só lhes ouvi a cantoria. Nem os vi. É melhor assim. Não estou para ninguém. Também não vi nenhuma cobra.
O sol estava a cair. O tempo começou a arrefecer. Ainda tinha cinco quilómetros para fazer, mas ia pelo asfalto. Se tivesse frio, podia sempre correr um pouco. Afinal, estava de sapatilhas. E tinha cigarros em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/10]

Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

As Tardes Frias de Inverno

Então era assim que eu passava as tardes frias de Inverno até à noite, tarde da noite, altura em que, já bêbado de sono, me arrastava para a cama, num quarto frio, e me enfiava debaixo do edredão com uma botija de água quente da loja dos chineses a aquecer os lençóis e, talvez os pés.
Acordava todos os dias tarde para estar o máximo de tempo possível no quente da cama. Depois ia para a cozinha, comia uma papa Nestum com Mel, quando havia, ou aquelas papas de aveia, que os supermercados têm na zona dos integrais ou da vida saudável, por causa dos dentes, não podia mastigar comida sólida e as papas escorregavam pela garganta abaixo até ao estômago sem grandes trabalheiras. Mas não gostava de papas. Nunca tinha gostado. Era um martírio comê-las. Mas, ao almoço, era com elas que convivia.
Ia para a cozinha, acendia a salamandra e ficava por lá sentado à mesa a escrever no computador, a tarde e a noite, no quentinho, ainda calçava umas luvas sem dedos para poder trabalhar e, às vezes, em dias de maior frio, um barrete de lã que enfiava pela cabeça abaixo. Duas ou três vezes por semana saía de casa e ia procurar lenha perdida no mato perto de casa. Uns gravetos. Pinhocas. Ripas de pequenas construções abandonadas. Restos de madeira, qualquer tipo de madeira, às vezes até antigos móveis abandonados que partia em pedaços pequenos e levava para casa para alimentar a salamandra. Ainda encontrei duas cadeiras, tipo poltrona, de madeira, que estavam em condições, talvez um pouco velhas, essas não as parti em pedaços mais pequenos, lixei-as, dei-lhes tratamento, arranjei umas almofadas e ainda hoje tenho essas cadeiras.
Ao meu lado uma chávena de chá que estava sempre cheia. Então gostava muito de chá. Bebia bastante. Tinha, em cima do balcão da cozinha, uma chaleira onde estava sempre a aquecer água. Tinha sempre uma caneca fumegante ao lado. Às vezes acompanhava com um cigarro. Mas tinha de controlar os gastos com o tabaco. Não podia fumar mais de meio-maço por dia. Com o chá estava à vontade. Reciclava-o. Um pacote de chá dava para várias canecas, até perder o sabor.
Escrevia até cansar-me. Depois levantava-me, ia até à janela e olhava para fora, para a rua. Olhava as janelas da vizinhança. As pessoas que passavam lá em baixo, na rua. Enfiadas nos seus grossos casacos. Não conhecia ninguém. Às vezes estes olhares tornavam-se histórias e serviam-me de inspiração, outras vezes era só mesmo para desentorpecer as pernas e descansar do ecrã branco e das letras que se posicionavam como pulgas atrás umas das outras.
Ao início da noite olhava para o fogão e via lá a panela de sopa. Geralmente tinha sempre sopa que fazia numa panela grande e que durava alguns dias. Ia ao supermercado da rua, comprava batatas, às vezes chuchu, cenouras, nabos, alho francês. Triturava tudo. Deixava um ou outro pedaço maior para poder saborear. Depois mandava tudo para dentro da panela. Às vezes juntava alguns feijões de lata, já previamente cozidos, ou umas massas, tipo cotovelo, ou macarrão. Uma couve lombarda. Enfim, os legumes que conseguisse comprar. Ia tudo para dentro da panela. As minhas sopas eram sempre iguais e, ao mesmo tempo, sempre diferentes. Dependia do que arranjava. E conseguia comer aquilo, mesmo sem mastigar.
Em certos dias, dias com mais fome e saturado daquelas papas e da sopa, apetecia-me comprar carne moída para fazer um chili com carne. Sonhava com esse dia. O dia em que os dentes já não me doessem e eu conseguisse mastigar. Estava então sentado na mesa da cozinha a trabalhar, depois de ter comido o Nestum com Mel, quando olhava para o fogão e via a frigideira com o chili e sentia uma fome danada. Um desejo de fome. Mas não estava lá chili nenhum. Era só a minha vontade. Há muito tempo que não comia chili com carne nem outras comidas sólidas. Não gostava das papas, mas gostava bastante de sopa. E não me queixava.
Então, era raro o telefone tocar. A campainha da casa, nem sequer me lembro de a ouvir. Todos os trabalhos que queriam de mim, todos os trabalhos que me encomendavam, era pedidos por e-mail. Não tinham que me encarar. Nem de ouvir a minha voz. Não havia contacto.
Naquela altura passei bastante tempo em silêncio. Em casa e em silêncio. Às vezes nem reconhecia a minha voz.
Então, no calor da salamandra, desejava que chegasse o Verão.
Porque tudo passa. Ou não?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]

A Miúda que Estava Naquela Curva a Caminho de Pataias

Era naquela curva a caminho de Pataias, depois de passar a cimenteira, mesmo a meio da curva, por fora, no pinhal mas por fora da curva, estava lá uma poltrona onde a miúda se sentava. Estava lá sempre sentada, fizesse chuva ou sol, estivesse calor ou frio e, se não estivesse, é porque estava ocupada com algum cliente lá mais para trás, no meio do mato, atrás de uma moita, em cima de um velho colchão, sujo e fétido, na companhia das pulgas, a foder com algum camonista.
Aquela era a curva dela. Sempre a mesma desde que a vi a primeira vez que lá passei já faz uns bons anos. Chamo-lhe miúda porque foi assim que me pareceu da primeira vez que a vi. E me fez olhar para ela enquanto fazia a curva de carro a caminho da Nazaré. Estava sentada na poltrona, de perna traçada, uma boa perna, pareceu-me, a fumar um cigarro, e a olhar-me directamente nos olhos. Eu senti os olhos dela cravados nos meus e foi ai que a vi miúda. Claro que já não é uma miúda. Hoje já não é uma miúda. Nem sei se alguma vez o terá sido. Foram os anos que passaram por ela, mas também a vida dura que desempenhava ali, naquela curva a caminho de Pataias para quem vem de baixo, da cimenteira ou da Estação de Pataias-Gare.
Às vezes estava lá um carro parado ao pé da poltrona. Sempre o mesmo carro. Suponho que fosse o companheiro dela. O protector. Às vezes era ele que estava sentado na poltrona. Ela estava em pé, junto à estrada, de saia curta, camisa decotada. Ou sentada no capot do carro. Ou num tijolo. Estava sempre a fumar. Estavam sempre a fumar, os dois.
Quando não era aquele carro, eram carrinhas, camiões. Sempre lá vi carrinhas e camiões. Alguns parecidos. Talvez os mesmos. Talvez tivesse clientes certos. Que paravam sempre ao passar por lá. Um dia vi lá uma Lambreta. Tentei recordar-me de quem conhecia que tivesse uma Lambreta, mas não me lembrei de ninguém.
Não sei se, ela e os clientes, conversavam alguma coisa antes de caírem em cima do colchão. Não sei se ela se lavava. Se ela se lavava antes. Se ela se lavava depois. Se eles se lavavam. Os homens. Mas cheguei a ver garrafões de água de cinco litros. Talvez fosse para se lavarem, não sei. Também não sei se fodiam sempre todos em cima do colchão, ou em pé contra uma árvore, ou simplesmente em pé, com ela dobrada, ou se era só manual, bocal, anal. Não sei. Nem sei se fumavam algum cigarro depois. Não sei se trocavam algum beijo. Acho que não há beijos nestes contratos casuais. Acho que é demasiada intimidade. Talvez os beijos estivessem reservados para o namorado, para o companheiro, para o protector. Também não sei qual era o valor do serviço. Não devia ser muito, para o género de clientes que lá via parados. Mas que sei eu do salário dos camionistas?
A última vez que lá passei estava um casal de velhotes a apanhar restos de lenha e pinhocas, precisamente naquela curva, por fora da curva, a caminho de Pataias para quem vem da cimenteira. Não vi lá a poltrona. Não sei se os velhotes levaram a poltrona se a miúda mudou de poiso. Talvez tivesse adoecido. Talvez tivesse morrido. Pensei nisso, que talvez tivesse morrido. Talvez às mãos de um cliente. Talvez às mãos do protector.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/05]

O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

Abro uma Garrafa de Mouchão para Comemorar

Primeiro chegou-me o cheiro. Um cheiro a torradas. Abriu-me o apetite. Gosto de torradas. Depois pensei que fosse o vizinho a fazer brasas. Ao Sábado costuma assar sardinhas.
Foi então que ouvi a sirene dos bombeiros.
Fui ao alpendre. Nada em frente. Desci as escadas. Virei à direita e vi. Uma coluna de fumo escuro. O céu começava a estar pintado em tons de cinza. O mato estava a arder. Pinheiros e eucaliptos. Mas também havia uns olivais. E depois, vegetação rasteira, arbustos, silvas. Havia umas casas lá para aquele lado. E se continuasse em frente, chegava cá.
Vi uns camiões dos bombeiros a passar ao fundo da estrada. Iam a apitar.
Acendi um cigarro e fiquei ali a vê-los desaparecer na curva da estrada e ouvir as sirenes extinguirem-se.
Estava um dia quente. Talvez tenha sido combustão espontânea. Talvez tenha sido fogo posto. Há gente para tudo.
Conhecia alguém que tinha um pedaço de terreno lá para aqueles lados. Resolvi telefonar-lhe. Acabei primeiro o cigarro.
Telefonei. Ninguém atendeu.
Fui buscar uma mangueira. Liguei-a a uma torneira exterior e comecei a molhar a casa. As árvores. Os arbustos. Reguei as flores.
Fiquei com calor. Fui buscar uma cerveja e fiquei a olhar para a coluna de fumo que se elevava no horizonte. E pensei O que é que posso fazer? e não sabia o que mais podia fazer.
O telemóvel tocou. Sim? atendi. Do outro lado era o telefone da pessoa que eu conhecia, mas a voz não era dela. A voz disse Sou um bombeiro e encontrei este telemóvel no meio do mato. Aqui à volta está tudo a arder.
Desliguei.
Acendi um cigarro.
Fui sentar-me no alpendre. Não era propriamente amigo da pessoa. Mas já tínhamos bebido uns copos. Já tinha os partilhado uns caracóis. Um dia encontrei-o na Nazaré e fomos ao Santo comer uns berbigões.
Percebi que fora apanhado no fogo. Percebi que a vida era isto assim. Umas vezes estávamos ali, uns com os outros, a comer, a beber, a conversar, a namorar, a foder. E depois já não estávamos. Desaparecíamos da vida uns dos outros de um momento para o outro. E a dor ficava com quem ficava. Quem ficava é que sofria. E penso que também sofri um pouco, apesar de não ser propriamente amigo dele. É uma ausência que se instala. Uma falta.
O telemóvel voltou a tocar. O mesmo número. Atendi e disse Sim? E ouvi do outro lado Sou eu. Isto ardeu tudo. E eu ia indo com o mato. Consegui fugir a tempo. Um bombeiro encontrou o meu telemóvel e disse que tinha falado contigo.
Sorri. Sorri e disse Passa por aqui. Tenho uma garrafa de Mouchão que vou abrir. Vamos despejá-la.
E percebi que, lá do outro lado, ele estava a chorar. Acho que naquele momento senti que passei a ser amigo dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

A Mulher Desaparecida

Íamos a meio da subida da montanha, quando o sol que estava fugiu e o céu escureceu de repente a ameaçar chuva. Ela ia um pouco mais à frente. Eu mais atrás. Não tínhamos roupa para a chuva. Tínhamos trazido um casaco, cada um, porque nos avisaram que Faz frio no alto da montanha!, mas nada para a chuva. Aliás, é Verão, faz sol, calor, quem é que vai pensar na chuva?
Acelerei o passo para a apanhar e não ter de estar para ali a gritar.
Olha, vem aí chuva!, disse-lhe mal consegui colocar-me ao seu lado. Ela não disse nada. Continuou a andar. E eu ainda disse Temos de encontrar um abrigo! Mas ela não me deu resposta. Continuou na sua caminhada imparável.
E foi então que a chuva caiu. Não chegou! Caiu, mesmo. Assim de repente. Com uma força doida.
Olhei em volta à procura de abrigo. Pareceu-me ver uma pequena cabana de pastores ou caçadores, não sei para quem servem estes abrigos. Se calhar a todos eles. Toquei nela a avisá-la. Apontei para o que me parecia uma cabana. Mas ela ignorou-me. A mim e à cabana. E continuou a andar. Eu fui ver se a cabana era mesmo uma cabana ou uma mera ilusão de óptica.
E era mesmo uma cabana. A porta estava aberta. Entrei. Estava quase vazia. Mas tinha algumas coisas para situações de emergência. Uma mesa. Umas cadeiras. Um pequeno fogão ligado a uma pequena bilha de gás. Que tinha gás. Um frasco de café, com café. Uma torneira. Com água corrente, se calhar de algum poço ou de algum veio freático. Pacotes de bolachas de água e sal. Uma pequena edição de bolso do Moby Dick de Herman Melville. Voltei a sair. Fui à procura dela. Chovia que Deus-a-dava. Dei umas voltas. Não a conseguia encontrar. Ainda a chamei Hey! Hey! Mas nem eu próprio me ouvia com aquela chuva, e não conseguia ver quase nada. Voltei para trás, para a cabana. Podia ser que ela a tivesse visto. Ou se lembrasse do que eu tinha dito. Talvez fosse lá ter. Talvez.
Voltei à cabana. Tirei a mochila das costas. Ainda tinha uma sandes na mochila. Cheirei o café. Acendi o fogão. Fiz uma cafeteira de café. Comi a sandes. Bebi o café. Acendi um cigarro. Olhei para a rua pela janela pequena e suja. Continuava a chover muito. Agarrei no Moby Dick. Era uma edição Inglesa. Larguei-a onde estava. Apaguei a beata. Sentei-me à mesa. Pousei a cabeça sobre os braços descansados sobre a mesa.
E devo ter adormecido.
Quando acordei, a chuva já tinha parado. O sol já tinha recuperado o céu. Olhei lá para fora. Nem uma nuvem.
Peguei na mochila e saí da cabana.
Doíam-me as costas de ter estado debruçado sobre a mesa. Mas continuei para cima. Fui à procura dela.
Um pouco mais à frente, o caminho continuava por um penhasco sobre o mar. Espreitei para baixo. As rochas. As rochas e as ondas do mar a bater-lhes com violência. Era uma imagem terrivelmente bonita. Tirei a máquina fotográfica. Fiz umas fotos do penhasco. Das rochas. Das ondas. Do mato por onde eu iria continuar a caminhar para subir a montanha. Antes de voltar a arrancar, bebi um bocado de água. E, então, fui.
Ainda demorei umas boas duas horas a chegar ao cume. Estava deserto. Eu estava lá sozinho. Ninguém ousou subir ao cume naquele dia. Mas nem ela ali estava. Dei uma volta. Olhei todos os lados da ilha. Pensei que gostaria de viver ali. Naquela solidão. Com galinhas para matar a fome e uma garrafa de vinho que nunca ficasse vazia para me matar a sede.
Podia plantar erva. Ninguém iria descobrir. Mas não sabia se o clima era o apropriado para a erva. Na verdade não sei nada destas coisas. Mas podia saber. Era só olhar no Google. Espreitei o telemóvel. Mas não havia rede.
Fumei um cigarro. Bebi mais um bocado de água.
Voltei a dar mais uma volta em torno do cume. Para ver se via alguém. Para ver se a via a ela. Mas não vi. Nem a ela nem ninguém.
E comecei a descida.
Quando regressei ao hotel, a primeira coisa que fiz foi perguntar se ela já tinha chegado.
Depois pensei que devia ir alertar a polícia. Mas foi nessa altura que decidi que, primeiro precisava de tomar um banho. Um banho quente e retemperador. Beber um copo de vinho. Petiscar um queijinho. E só então, alertar a polícia.
E é o que estou aqui agora a fazer, senhor agente. Avisar a polícia que perdi a minha mulher há uns dias, na montanha, quando começou a chover. E que amanhã tenho de me ir embora que no dia seguinte entro ao trabalho.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/08]

Estação de Serviço

Não devia ter feito o que fiz. Mas estava ali, mesmo à minha frente. Peguei no envelope de cartão, meti-o no bolso e vim-me embora. Até me esqueci do que tinha ido lá fazer.
A freira tinha-me feito entrar na sala do padre. Ele vem já, disse-me. E eu sentei-me. E olhei à volta. Um escritório austero. Alguns livros. Poucos. Uma Bíblia em cima da mesa. Um terço em cima da Bíblia. Um quadro na parede. A única decoração. Não, a única não. Também havia um jarro com um molho de flores campestres em cima da mesa. Na mesma mesa onde estava um candeeiro, uma caneca com umas canetas, um bloco A5 e um computador portátil. Um cinzeiro. Com cinzas. O padre fuma. Será pecado, fumar?
Encostado ao computador estava um envelope de cartão. Como um maço. Cheio. Grosso. O que seria aquilo?
E a minha curiosidade.
Levantei-me e agarrei o envelope. Abri-o. Era dinheiro. Notas. Notas de cinquenta euros. Muitas. Um grosso maço de notas de cinquenta euros. Não pensei. Foi automático. Enfiei o envelope grosso no bolso do casaco. E fui-me embora. Saí da sala. Saí do edifício e evitei encontrar as freiras. Entrei no carro e vim embora.
Já nem me lembrava do que me tinha lá levado. E interessa isso, agora?
Agora preciso de gasolina. O combustível do carro está a entrar na reserva. Estou… Nem sei onde estou. Estou algures por aqui, no meio do que me parece ser um mato, uma floresta. Não vejo um carro há bastante tempo. Não vejo uma casa. Nada. Podia parar e ver quanto dinheiro está no envelope. Mas para quê? É muito. É simplesmente muito.
E ali à frente? Olha! Uma Estação de Serviço. Nem de propósito. Vem mesmo a calhar.
Paro ao lado de uma bomba. Saio do carro. Enfio a agulheta no depósito e ligo a mangueira. Encho o depósito. Olho à volta. A Estação de Serviço parece abandonada. Um pouco desleixada. Não deve cá passar muita gente. Está um pouco abandonada. Mas tem gasolina. Ouço o clique da agulheta a avisar o depósito atestado. Vou à loja pagar. Pago em dinheiro. Dinheiro do envelope.
Arranco com o carro. Vou sair da Estação de Serviço. Mas não saio. A estrada está mesmo ali, mas o ali mantém-se sempre lá. Eu conduzo em direcção à estrada mas parece que a estrada mantém sempre a mesma distância de mim, como se esse horizonte acompanhasse a minha viagem e não me deixasse aproximar. Olho para trás e vejo que continuo na Estação de Serviço. Não estou a conseguir sair. Que raio?!
Páro o caro. Saio. Caminho a pé até à estrada. E acontece o mesmo. A estrada vai-se afastando de mim. Não permite a minha aproximação. Eu começo a correr, mas tudo se mantém na mesma. A estrada afasta-se de mim. Não, não se afasta. Mantém é sempre a mesma distância. Como se eu não conseguisse aproximar-se dela.
Volto para trás. Volto a entrar dentro da loja. Não está ninguém. Dou uma volta aqui dentro. Mas não sei o que estou a fazer. Não há aqui ninguém. Volto para a rua. Volto a entrar dentro do carro. Arranco. Arranco mas não consigo sair de onde estou. Bato com a mão no volante. Desligo o carro. Acendo um cigarro. Não devia estar a fumar aqui, mas não consigo sair. Tenho de fumar.
Chega um carro. Finalmente um carro. Não via nenhum desde que entrei nesta estrada. Um casal. Ele fica a pôr gasolina no carro. Ela vai à loja. São um casalinho novo. Ainda devem estar apaixonados. Oh, que porra! O que é que isso interessa?
Olha, ela já lá vem. Traz uma garrafa de água. E o quê? Umas bolachas. Abraça-o. Dá-lhe um beijo. Entra para o carro. Ele arruma a agulheta e também entra no carro. Eu ponho o meu carro a trabalhar. Espero por eles. Ele arranca com o carro. Ela vai relaxada, com os pés no tablier. O carro chega à estrada e entra nela. Eu arranco imediatamente atrás do carro. Mas não o consigo alcançar. Eu fico para trás. Ele vai estrada fora. Desaparece de vista. E eu aqui. Na Estação de Serviço.
Volto a sair do carro.
Dou umas voltas a pé. Aqui à volta. Apago o resto do cigarro com o pé. Vou à casa-de-banho. Entro, mas não sei o que é que estou aqui a fazer. Não me apetece urinar. Abro a torneira. Molho a cara. Vejo-me ao espelho. As gotas de água escorrem pela cara abaixo. Penso no envelope de dinheiro. E penso que não devia ter feito o que fiz.
Saio da casa-de-banho.
Aproximo-me das bombas e vejo que está lá uma carrinha. A Estação de Serviço deve estar na hora de ponta. Há uma freira a encher o depósito da carrinha. Uma freira? Dentro da carrinha, várias crianças a cantar. Não sei o que estão a cantar. Mas estão a cantar. A freira que está a encher o depósito também trauteia qualquer coisa de vez em quando. Acaba de encher o depósito e vai à loja. Uma freira?
Eu olho em volta. As mãos na cintura para me ajudarem a pensar. Para me ajudarem a decidir. Vou ao carro. Agarro no envelope. Dirijo-me à carrinha da freira. Abro a porta do lado do condutor. Está outra freira sentada à frente. Canta com os miúdos. Meto a cabeça lá dentro e digo Boa-tarde, irmã!, e a freira e os miúdos param de cantar. Ela cumprimenta-me com um Boa-tarde! E eu replico Estudei num colégio de freiras em miúdo. Também cantávamos umas canções assim. Despertou-me uma nostalgia. Cantem, cantem! E a freira sorri e recomeça a cantar. Os miúdos vão atrás dela. Deixo-me estar ali um bocadinho. Deixo cair o envelope com o dinheiro no porta-luvas da carrinha. Sem ninguém dar por nada. Agradeço com a cabeça e com um enorme sorriso na cara. E faço gestos com as mãos para eles continuarem a cantar. E eles continuam. Eu fecho a porta da carrinha e vou para o meu carro. Entro. Sento-me ao volante. E espero.
A outra freira vem da loja. Entra na carrinha. A carrinha arranca e entra na estrada.
Eu estou agarrado ao volante. Respiro fundo. Dou à chave. O carro começa a trabalhar. Meto a primeira. O carro arranca. Meto a segunda quando me aproximo da estrada. Estou à espera que o horizonte acompanhe a velocidade do carro. Mas não. Entro na estrada. Acelero. Meto a terceira. A quarta. A quinta. A sexta. As árvores passam a grande velocidade por mim. Suspiro. Tenho o coração a bater muito depressa. Mas sinto-me aliviado. E vou estrada fora. Uma estrada no meio do mato. Preciso de uma cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/02]