O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

Que…

Estou à espera. Estou sempre à espera. Não sei bem de quê. De qualquer coisa. Acho que espero qualquer coisa que aconteça. Que chegue. Que se faça anunciar. Mas não acontece nada. Não se passa nada. Não chega nada. Nada de nada.
E eu continuo. Continuo à espera.
Não sei…
Que a minha mulher deixe de ter dores de cabeça.
Que a minha filha me telefone.
Que o meu filho não me ignore.
Que a minha mãe não morra.
Que o meu pai ressuscite.
Que eu tenha trabalho, dinheiro e saúde.
Que me saia o Euromilhões.
Que consiga escapar à Sida, à Hepatite e ao Cancro.
Que esta ferida no lábio não seja Herpes.
Que o Linic funcione e deu deixe de ter caspa.
Que o vinho nunca se me acabe.
Que a bronquite não me impeça de continuar a fumar.
Que eu não perca a capacidade de dançar.
Que eu não deixe nunca de gostar de música. Fazer filmes. Escrever estórias.
Que não perca nunca a capacidade de me surpreender e de me apaixonar.
Que o Benfica ganhe a Liga dos Campeões.
Que alguém, que não eu, chegue a Marte, não sem antes deixar a Terra em condições de funcionamento para os vindouros.
Que parem de usar combustíveis fósseis.
Que utilizem o calor do sol e a força das ondas.
Que a banana da Madeira continue saborosa.
Que nunca se acabe a Tosta de Galinha da Geliz.
Que Bolsonaro tenha chatos e Trump piolhos.
Que desapareçam as caixas de comentários.
Que tenham urticária todos aqueles que vão destilar ódio para as redes sociais.
Que ninguém gaste um tostão na Black Friday. Nem dê prendas no Natal.
Que toda a gente queira um abraço e toda a gente o consiga dar.
Que Amo-te signifique alguma coisa.
Que humanidade também.
Que os cães e os gatos sejam felizes uns com os outros.
Que acabem as mortes no Mediterrâneo. Que acabem os combates parvos e idiotas que só servem a gente mesquinha e gananciosa.
Que o Corto Maltese continue a ter grandes aventuras. E o Tintim também.
Que eu volte a ter paciência para ler Os Cinco e Os Sete.
Que haja sempre alternativa.
Que eu deixe de estar à espera do que nunca vai chegar, do que nunca vai acontecer.
Que eu seja tudo, a Noite e o Dia a Pergunta e a Resposta o Alfa e o Ómega a Vida e a Morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]

Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Mundo Binário

Tudo começou quando o mundo ficou de risco ao meio. De um lado ficaram uns. Do outro ficaram os outros. O mundo tornou-se uma espécie de claques de futebol. Um Benfica x Porto. Ou um Real Madrid x Barcelona. Ou os Manchesters. O United de um lado. O City do outro. Ou uns EUA x URSS dos bons e seguros velhos tempos da guerra fria. Velhos x Novos. Homens x Mulheres. Brancos x Pretos. Heterossexuais x Homossexuais. Analógicos x Digitais. Enfim, tudo começou quando o mundo se tornou binário. Os contra e os a favor.
As pessoas barricaram-se. As cidades dividiam-se em duas. Normalmente separadas por rios. O campo voltou ao arame-farpado. A polícia vivia acantonada nas cidades e só saía dos seu quartéis em situações muito particulares. Os militares patrulhavam o campo, mas agiam como milícias. As pessoas do campo passaram a andar armadas para se defenderem uns dos outros e dos militares. Era normal haver picos de mortes violentas aos fins-de-semana e, em especial, nos finais de mês quando era dia de receber e metade do mundo embebedava-se. E acabava ao tiro. A outra metade ficava escondida em casa. Com medo.
Metade do mundo seguia a teoria da evolução. A outra metade era criacionista.
Metade do mundo estudava as profecias de Nostradamus. A outra metade estudava a Bíblia.
Havia ainda outra metade que estudava os livros do Divino Marquês, mas não havia muitas certezas sobre isso porque metades só há duas e esta vinha desestabilizar tudo e, sobre o que cada um faz na sua cama, em privado, não há garantias, se bem que alguns governos tentassem regular a actividade sexual por causa do rendimento produtivo e a poupança de energia. Mas nunca foram bem sucedidos nas suas tentativas. As pessoas, quando querem, são esguias e escapam. Mas só quando querem muito. Quando fazem por isso. Havia ainda quem não quisesse saber de nada e andasse por aí, um dia após o outro, sem se chatear muito.
Metade do mundo só comia carne de vaca e ficou obesa. A outra metade só comia vegetais e andava anémica. Metade do mundo fumava haxixe. A outra metade chutava cavalo. Havia ainda quem lambesse ácidos, mas havia quem dissesse que era só um mito. Um mito urbano.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, já há muito que não voavam aviões, nem circulavam carros, carrinhas, camiões e motocicletas, e o homem movia-se de bicicleta, de skate e trotineta e só voavam alguns, poucos, aviões e só circulavam alguns, poucos, carros quando alguns dos dirigentes precisavam de se encontrar pessoalmente com outros e os telefones e a internet estava em baixo, coisa que acontecia com muita frequência porque a manutenção era muito difícil de executar num mundo sem mobilidade, onde o turista se extinguiu e só aparecia um ou outro viajante de vez em quando, de bicicleta, ou a pé, mas eram ignorados e já me perdi no raciocínio.
Ora, volto atrás e recomeço.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, decidiu-se que tinha de se deixar a Terra e partir. Ora, com o tempo restante, tinha, toda a gente, de trabalhar em benefício geral para que se pudessem fabricar naves suficientes para levar toda a gente daqui para fora ou, pelo menos, a maior parte das pessoas, pois haveria de haver gente que iria querer ficar na Terra, onde tinha nascido queria morrer, e ficar na Terra não iria significar logo a morte, pelo menos era o que se dizia. Mas nunca se chegou a um acordo. Propôs-se Marte como destino. Mas houve logo quem se opusesse e lançasse a Lua como a única possibilidade real. O mundo voltou a dividir-se de novo, num outro risco ao meio.
E estávamos assim, sem saber o que fazer. Como fazer. Para onde ir. Depois de cinco eleições mundiais as coisas mantinham-se na mesma. Não haviam acordos nem consensos quando, de repente, há seis meses, se descobriu um asteróide, com dois quilómetros de diâmetro, que vinha em trajectória de choque com a Terra.
Pânico!
Durante algum tempo ainda se pensou na hipótese de construir uns mísseis espaciais capazes de interceptar o asteróide mas, nunca se chegou a acordo sobre que tipo de misseis fabricar. Ou eram russos. Ou chineses. Ou americanos. Ou indianos. Mas os países nunca conseguiram entrar em conversas uns com os outros porque não queriam mostrar planos classificados uns aos outros. Tudo era segredo de Estado. E tudo se complicou quando se perguntou quem ia pagar a factura. Ninguém queria pagar.
Estamos, agora, a dois dias do impacto. Não se construiu nenhum míssil. Nem naves espaciais para levar as pessoas para outro lado. É verdade que saíram algumas naves privadas com meia dúzia dos mais ricos dos ricos mas, para onde é que vão? Em que condições?
Metade do mundo acredita que vamos morrer. Outra metade acredita que não. Muitos ainda dizem que Deus nos vai acudir. Outros dizem que Deus está farto de nos aturar.
Eu não sei em que acreditar. Escrevi estas palavras na esperança que me sobrevivam, se acaso eu morrer, e possam contar ao futuro este nosso passado.
Foi um prazer andar por aqui.
Talvez nos encontremos mais tarde se, por acaso, houver, afinal, renascimento como nos prometia a religião católica.
Adeus.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/26]

Caído no Chão sem Me Conseguir Mexer

Estou caído no chão da cozinha e ouço os cães a ladrar lá ao fundo.
Não me consigo mexer. Estou caído no chão da cozinha e não me consigo mexer. Vejo o fumo que o cigarro que tinha na mão ainda deita. Vejo-o subir pelo ar e desaparecer. Apetecia-me ter fumado aquele cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro.
Não sei o que me aconteceu. Estava a fumar um cigarro aqui, à janela, e, de repente, fiquei paralisado, comecei a transpirar muito, senti muito calor, senti todas as gotas de suor que começaram a descer por mim abaixo, senti as pernas a tremer, a fraquejar, perdi a força nas mãos, deixei de sentir os dedos, o cigarro caiu para o chão e a seguir caí eu. Caí no chão.
Não consigo falar. Nem gritar. Não consigo mexer nada. Não, mentira, consigo mexer os olhos. É a única coisa que consigo mexer. Os olhos. E posso olhar em vários sítios, os sítios onde os olhos podem alcançar dentro das órbitas.
Não perdi os sentidos. Estou consciente. Assustado, mas consciente.
Agora começo a ouvir os carros na rua. É estranho como só ouvia os cães a ladrar e, agora, o barulho dos carros a passar na rua está a fazer-me deixar de ouvir os cães.
Já não vejo o fumo do cigarro a subir para o tecto. Já deve ter-se apagado. E eu não o fumei.
Queria fumar um cigarro.
Queria não estar aqui assim, caído no chão sem me conseguir mexer.
Queria não estar sozinho em casa para ser socorrido.
Queria estar à janela a fumar um cigarro e a olhar para as pessoas que entram e saem da pastelaria da rua.
Queria ir à Lua. Queria ir a Marte. Queria ir à Terra do Fogo.
Queria ter escrito o Space Oddity.
Queria ter escrito A Mancha Humana.
Queria ter pintado o No.301.
Queria ter dançado o Lago dos Cisnes.
Devia sentir as costas frias e húmidas da transpiração e do chão da cozinha. Mas não sinto nada. Continuo sem sentir nada. Continuo sem conseguir mexer-me. Pareço morto. Um morto consciente.
Não virá ninguém cá a casa.
Vão passar as horas.
Se calhar, os dias.
Vou sentir fome. E sede. E uma vontade diabólica de fumar um cigarro.
E eu vou estar aqui assim, caído, paralisado, consciente.
A luz mudou. A luz lá de fora mudou e alterou a luz aqui de dentro. Já é noite.
Agora ouço o som de conversas. As conversas sobrepõem-se ao barulho dos carros. A ruas devem estar cheias de gente a passear. A passear a pé.
As horas estão a passar. Gostava de me passear também pelas ruas da cidade. Gostava de me passear debaixo das luzes de néon da cidade. E fumar um cigarro.
Mas continuo aqui. Não sinto o meu corpo. Não sinto nada. Não… Sinto medo.
O que é que eu posso fazer?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/19]

À Espera que Aconteça Alguma Coisa

São 15:15′.
Abro a porta da rua e saio.
O céu está azul. De um azul suave até um azul acinzentado. Há algumas nuvens. Nuvens branco-lixívia e branco-sujo. Há ainda um sol tímido que, por vezes, se esconde atrás de uma das nuvens. Pode ser que venha a chover. Mas não agora.
Caminho até ao pátio.
Preso por uma corrente, numa casota, o cão ladra para mim. Os gatos aproximam-se e roçam-se nas minhas pernas. Sinto que estão a largar-me pulgas.
Olho lá para cima. Olho para o céu. Estou à espera que aconteça alguma coisa. Li, na internet, que a sonda chegou a Marte e estava quase a pousar (a amartar?). Não sei que sonda é essa. A última de que tomei conhecimento entrou-me pelo ânus dentro para ver não-sei-o-quê.
Li que o Elon Musk queria ir até Marte e, provavelmente, ficar por lá. Também gostava de ir. De ir e ficar.
Estou no pátio a olhar para o céu à espera que aconteça alguma coisa.
Podia estar a trabalhar. Podia estar a foder. Podia estar a beber um bagaço. Podia estar a fazer mil-e-uma coisa. Mas não. Estou no pátio a olhar para o céu à espera que aconteça alguma coisa.
Já são 15:25′ e ainda não aconteceu nada.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/26]