O Poço

Há lá fora, no quintal, um poço que está tapado por uma tampa redonda de madeira forte e pesada mas que eu conseguiria abrir se se desse o caso de o querer abrir. Às vezes tenho vontade de lá colocar a cabeça para arrefecer, esquecer ou a fazer adormecer.
Estes tempos não têm sido propícios às minhas divagações mentais. Ponho-me a pensar no que a vida nos está a fazer e, quando dou por mim, estou no quintal a caminho do poço. Sento-me sobre a tampa, cruzo as pernas e acendo um cigarro. Às vezes penso que queria que a tampa cedesse ao meu peso.
Nestes últimos dias em que o tempo tem andado numa roda-viva, de manhã Verão e à tarde Inverno, sem que nunca, em momento algum, haja um cheirinho, por suave que seja, a uma pequena Primavera ou um pequeno Outono, os saltos são assim de gigante como se jogasse à Mamã Dá Licença? com o universo, sinto a asma ganhar dimensão dentro de mim, o corpo verga-se ao peso da respiração pesada e forçada, só estou bem em pé, e conto os minutos até conseguir voltar a fumar um cigarro e limpar a cabeça.
Em dias como os de hoje sinto crescer uma certa melancolia que, nestes últimos tempos me faz vir até ao poço. Tem piada que o poço já cá estava quando para cá vim morar, já estava tapado, até tinha uns vasos com plantas lá por cima, mas eu nunca lhe liguei nenhuma.
Surgiu assim, como num estalar de dedos, estava eu no sofá a ver a contabilização do número de mortos no mundo por causa do Covid-19, quando vi projectado na minha cabeça a imagem do poço e senti formar-se em mim a consciencialização do poço, um poço fundo, não sabia de quantos metros de profundidade, nem se tinha água ou não e se a água era boa para beber. Senti-me atraído pelo poço. Foi essa a primeira vez que fui ao poço. Levantei-me do sofá. Deixei a televisão ligada. Saí de casa. Estava aquele lusco-fusco cinzentão e já tinha chovido durante a tarde. Fui até ao poço. Olhei-o. Senti-o a olhar para mim. Senti-o a convidar-me para me sentar lá em cima, em cima dele. E eu sentei-me. Sentei-me em cima dele. Senti logo o rabo molhado que a tampa do poço estava ainda molhada da chuva da tarde. Cruzei as pernas. Respirei fundo. Depois acendi um cigarro e fiquei ali, em cima do poço a fumar o cigarro.
Enquanto fumava o cigarro pensava que o poço era um portal, uma porta dimensional, que bastava eu deixar-me cair lá dentro e viajava para o passado, viajava para o futuro, viajava para o outro lado do mundo, entrava numa outra dimensão em que havia mais cores do que alguma vez tinha imaginado. E quando acabava o cigarro, como que despertava de um sonho e regressava à minha vida de todos os dias, uma vida tridimensional, cheia de dramas, problemas e, agora, também morte.
Ultimamente tenho-me sentido impelido muitas vezes a ir sentar-me em cima da tampa do poço. Sinto-me convidado a fumar um cigarro. E parece-me que estou a ser levado pela atracção do fundo do poço. Não são poucas as vezes em que imagino cair lá dentro. E vejo-me nessa queda bizarra, em que as paredes do poço passam por mim em câmara lenta e como se fossem um filme preto como o da Marguerite Duras ou colorido como a queda de Alice pelo Walt Disney, mas sem nunca chegar ao fundo.
Agora, neste momento, vim até ao poço para me sentar em cima da tampa e fumar um cigarro e descobri que já retirei a tampa. Não me lembro de o ter feito, mas fi-lo. Descobri uma farpa num dedo e não consigo tirá-la. Olho para o fundo do poço. Meto a cabeça lá dentro e olho. Não vejo nada. Acendo um cigarro. Encosto-me à beira do poço. E volto a meter a cabeça. Olho lá para dentro e desejo que o poço me adormeça.
Sinto-me fascinado e, ao mesmo tempo, um pouco melancólico.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/07]

Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]