Um Corpo a Boiar no Rio

Vi o corpo a boiar no rio. Uma massa disforme. Estava preso nuns ramos mais baixos das árvores. Uns ramos que roçavam o leito do rio. Parecia-me o corpo de uma mulher, mas não tinha a certeza. Não conseguia aproximar-me mais do corpo. Só se entrasse dentro de água. Mas não quis molhar-me.
Caminhava ao longo das margens do rio quando vi o corpo a boiar. Parei. Espreitei. Aproximei-me o mais que pude, o que não era muito, e confirmei que era um corpo. Um corpo a boiar no rio Liz.
Telefonei para o Cento e Doze.
Chegou a polícia. Os bombeiros. O INEM. Mais tarde a equipa forense da polícia judiciária.
Eu mantive-me lá por perto. A observar tudo. Disse aos primeiros polícias a chegar que tinha sido eu a lançar o alerta sobre o corpo. Os polícias esperaram os bombeiros para puxarem o corpo para a margem.
Acendi um cigarro. Os bombeiros puxaram o corpo. O INEM confirmou a morte. Alguém da equipa forense mandou-me sair dali e apagar o cigarro. A polícia estendeu uma fita de plástico a demarcar área. A equipa forense montou uma tenda de plástico na margem desnivelada a cobrir o corpo.
Juntou-se gente. Curiosos.
Mas já não se via nada de interessante. Só gente a acotovelar-se junto à fita de plástico demarcadora. Polícias de olhar acutilante. Os bombeiros foram-se embora. O INEM também. Agora tudo pertencia à equipa forense.
Tudo o que interessava estava a acontecer dentro da tenda em desnível na margem. Fora dos olhares curiosos.
Olhei em volta. Não se passava nada. Não se passava mesmo nada.
Fui embora. Fui até aos Jardins do Liz beber um café. Já eram oito e meia da manhã. A cidade já estava acordada e a funcionar.
Pedi uma bica curta e percebi que, entre os empregados, havia algum desagrado. Tinha faltado uma empregada. A empregada que devia ter aberto a pastelaria. E que não abriu. Não apareceu. Não atendia o telemóvel. Ninguém sabia onde estava.
Eu sabia.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/28]

Não, Não Estou Doente!

Emagreci bastante nos últimos tempos. Perdi um pouco da barriga. Os olhos ficaram um pouco encovados. A cara chupada, com os ossos um pouco salientes. As calças caiem-me pelo rabo abaixo, mesmo com o furo a mais que fiz no cinto.
Mas não estou doente. Acho.
Não sou muito de ir a médicos. Não tenho nada contra eles. Mas evito-os. Tenho aquela ideia de que acabam sempre por encontrar o que não devem. Vamos lá por uma coisa, e acabamos de sair de lá com outra. Mas não tenho medo deles. Só lá vou mesmo quando já não há mais nada a fazer.
Normalmente, as minhas mazelas acabam por se resolver por elas próprias e um ou outro comprimido, apanhado numa conversa aqui ou ali, ou a ver o Dr. House.
No últimos tempos também tenho tido mais cuidado com a comida. Como de tudo, mas menos. E mais em casa, ou seja, menos fritos. Bebo menos cerveja. Mais vinho. Muita fruta. Passeio muito a pé, principalmente junto ao rio, galopando as suas margens, para cima e para baixo. Quando chove, obriga-me a correr um pouco, pelo menos até um abrigo próximo. Deixei de fumar. Não tenho chocolates cá por casa.
Por isso, estou um bocado magro, mas não estou doente.
Ela, quando me vê, a primeira coisa que me pergunta é Estás doente? Não é Olá, Bom-dia, Estás bom?, Como Vais? Queres ir beber um café? Um gin? Uma imperial? Queres ir foder?, não, a primeira frase que me dirige é Estás doente?
E esteja doente ou não, naquele preciso momento adoeço, fico fora de mim e só me apetece estalar-lhe a mão na cara. Não que eu não compreenda a preocupação das pessoas, especialmente dela, pelos outros, em especial por mim. Mas é aquela fobia de procurar doenças, não para as curar, não é médica, mas para satisfazer qualquer paranóia mórbida que não consegue largar.
Claro que não deseja que eu esteja doente. Mas se eu estiver, e ela não, significa que é uma sobrevivente, que consegue ultrapassar isto e aquilo, resistir à suas muitas mazelas, que são sempre terríveis e muitas vezes terminais, e sobreviver às pessoas que conhece. Não por mal às pessoas, mas por salvação própria.
Não, não estou doente!, acabo por lhe mandar, assim de passagem, sem parar ao pé dela nem a cumprimentar, sem sequer lhe dirigir o olhar. Sigo em frente, sigo o meu caminho, sem me voltar para trás, mas sentindo, nas minhas costas, ela lá parada, ao fundo, a olhar para mim e sem compreender.
Se ele não está doente, porque é que está tão magro? porque é que não falou comigo? já não gosta de mim? será que estou com mau aspecto? será que pareço doente? estou doente?

[escrito directamente no facebook em 2018/01/16]

Como É que Chegámos Aqui?

Ela mandou-me um estalo. Com força. Desequilibrei-me. Mas aguentei.
Tínhamos estado a discutir. Coisa normal nestes últimos tempos. Qualquer coisa servia para nos agredirmos. Para nos odiarmos. Para nos fazermos mal.
Tínhamos estado a discutir. E eu mandei-a à merda. E ela bateu-me com a mão na cara. Um estalo dado com força. Parecia uma cena de um filme francês. Desequilibrei-me momentaneamente, levantei a mão e estive quase quase a responder com um estalo, também. Mas não o fiz.
Virei costas, agarrei no casaco e saí de casa.
Fui dar uma volta até às margens do rio.
Estava frio. Tinha estado a chover, mas depois saiu, lá detrás das nuvens, um solzinho muito amarelo que não aquecia nada, mas trazia luz e fazia brilhar a água do rio.
Sentei-me num banco daqueles públicos, de madeira, com ripas, a olhar o rio a correr lá em baixo. Acendi um cigarro. Reparei que o banco estava molhado. Ainda havia gotas da chuva agarradas à madeira. Mas não sentia o rabo molhado.
O cigarro estava a acalmar-me.
Não sabia como lidar com aquela situação.
Mas a maneira mais fácil era sair dela. Acabar de vez. Aquilo já era doentio. As discussões eram diárias. O sexo perdia-se lá para trás, no tempo. A intimidade já não existia. As novas conversas terminavam sempre em discussão. E, ultimamente, ela a dar-me um estalo. E estava a aprimorar o gesto. Cada vez me doía mais.
Era a saída mais lógica, mas não estava preparado para ela. Não queria deitar a toalha ao chão. Admitir mais um fracasso. Achava que ainda havia salvação.
Achava mesmo? Estava convencido disso?
O telemóvel tocou. Olhei-o. Era ela. Não atendi.
O cigarro terminou e acendi outro. Dar cabo dos pulmões libertava-me a cabeça.
Ouvi o sinal de mensagem. Abri-a. Era dela. A chamar-me nomes por não ter atendido o telefone. A refilar pela discussão. A mandar-me à merda. E, no fim, a pedir desculpa por tudo e que ainda gostava de mim.
Como raio é que chegámos aqui?
Somos todos tão inteligentes e cultos e urbanos e adultos e, de repente, nas relações, retrocedemos à infância e não passamos de umas crianças mimadas.
Fiquei ali sentado no banco a fumar o cigarro e a olhar a água do rio a passar.
Começou a chover. Poucochinho, mas a chover.
Fiquei ainda um bocado sob a chuva e depois resolvi ir embora. Mas não fui para casa.
Pus-me a pensar qual dos meus amigos tinha o sofá mais fixe. E qual deles tinha paciência para me aturar.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/13]