A Boneca Insuflável

Comprei uma boneca insuflável. Não era para ter sexo. Era só mesmo pela companhia.
Tento não ligar muito ao que vejo nas redes sociais e nos programas vespertinos de televisão onde ancoro tantas vezes depois de almoço entre o café expresso que deixo arrefecer por esquecimento e um trabalho de merda que não consigo desengatar. Sentado no sofá, às vezes sentado à mesa frente ao computador ligado e uma folha do Word em branco à espera que os dedos descortinem letras que, em conjunto e sequencialmente me resolvam o problema de coisas para dizer que não saem nem à lei da bala, olho para os programas feitos a pensar em donas-de-casa e velhos sem amigos com quem jogar à sueca, sinto que estou nos dois grupos, e tento inspirar-me sabendo, desde logo, que nunca há ali realmente nada para mim.
Mas insisto.
Neste últimos dias tenho levado com uma massiva campanha comercial do Dia dos Namorados. Quem não tem namorado namorada mulher esposo consorte amante amigo-colorido é um pária que não merece viver debaixo do mesmo céu azul-brilhante que todas aquelas pessoas belas e bonitas inteligentes e bem-parecidas, frequentadoras de ginásios e atletas de jogging diário, de manhã preferencialmente, antes de ir trabalhar para aparecerem no estúdio bem tonificadas, e sexualmente bem resolvidas na vida, que me querem enfiar opiniões pela goela abaixo. Eu tenho trocado todas essas escolhas atléticas por garrafas de vinho tinto e cigarros sem filtro que me fazem a voz sexy mas sem companhia matinal para a apreciar. Mas tanto os ouvi falar que deixei que me enfiassem o enorme prazer da companhia que quer um só dia no ano para se fazer existir que, derrotado, acabei por me deixar entrar na onda, dei por mim ansioso por não ter namorada, cocei os braços como um caruncho à espera da próxima dose e a tentar descobrir onde ir buscar o papel para o cavalo, que peguei no carro, desci à cidade, a cidade de Leiria, ali mesmo em baixo, entrei numa sex-shop e comprei uma boneca insuflável. Ufa! Ao pagar percebi que convidar uma mulher de carne-e-osso, talvez mesmo daquelas que percorrem o Marachão, nas margens do Liz, para-trás-e-para-a-frente a olharem-me nos olhos, me teria saído mais em conta mas, ao mesmo tempo, pensei que, assim, não tinha de manter conversa e podia ser que esta relação durasse para além do dia 15 de Fevereiro ou, pelo menos, até se romper que, cá por casa, quando era mais novo, as bóias não duravam mais que a primeira semana de férias, e isto em anos bons.
Foi durante a noite que as coisas começaram a ficar mais esquisitas.
Para me habituar à companhia, e como ainda faltavam dois dias para o Dia dos Namorados, convidei-a a dormir comigo.
Na penumbra do quarto, iluminado por vezes pelos faróis dos carros que passavam no exterior e invadiam a minha privacidade, olhava para o lado esquerdo da cama e via uma boca aberta, parecia estar mesmo à minha espera.
O desejo é uma coisa muito esquisita. Esquisita e estranha. E mais estranha fica, à medida que lhe vamos dando lastro.
Malditos programas vespertinos de televisão. Maldito Dia dos Namorados.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/12]

Depois

Depois do divórcio, depois de ter saído de casa e porque estava desempregado (o divórcio tinha sido também uma consequência do ter sido despedido), passei um período bastante complicado.
Durante alguns dias andei a dormir na rua. Não custou muito, era Verão. Depois consegui trabalho por uns tempos no McDonalds e arrendei um quarto. Um quarto numas águas-furtadas que não tinha janela, tinha uma clarabóia por onde eu podia enfiar a cabeça e ver os telhados das casas adjacentes. Estas águas-furtadas tinha vários quartos, e estavam todos alugados a homens. A senhoria, que vivia no apartamento por baixo, deixava-nos alguma privacidade, mas não nos deixava levar para lá mulheres. Era a única objecção. Não queria lá mulheres, fossem elas as nossas mães ou irmãs, companhias ou meras amigas. Não há amizade entre homens e mulheres, dizia, só interesse.
Havia uma pequena cozinha que podíamos utilizar e que ninguém utilizava. Normalmente quase toda a gente comia frango assado e pizza ou ia à carrinha da Igreja Evangélica que passava uma vez por semana na avenida lá perto de casa.
Também havia uma casa-de-banho que tinha de servir para toda a gente e que, de manhã, em certos dias, eu utilizava ainda de noite para evitar o congestionamento matinal. Toda a gente queria a casa-de-banho à mesma hora. Eu evitava isso.
Cheguei a dever dois e três meses de renda do quarto, mas a senhoria era compreensiva. Sabia que, mais dia menos dia haveríamos de encontrar trabalho e aí regularizávamos as contas. E eu assim fazia. Quando tinha trabalho, regularizava as contas da casa. Mesmo que me obrigasse a passar fome. Mas precisava de um quarto. O Inverno na rua devia ser terrível e não queria passar pela prova. Já me chegara aqueles dias iniciais, no Verão, quando a minha mulher, a minha ex-mulher, me pediu para sair de casa, da vida dela, da vida de toda a gente que conhecíamos que os amigos eram dos dois e passaram a ser só dela. E eu saí.
Depois do McDonalds passei por vários outros sítios. Sítios assim, de salário curto. Já fui jardineiro. Andei a varrer as ruas da cidade. Também andei nos camiões de recolha do lixo, mas não aguentei por muito tempo aquele cheiro. Não sou um tipo esquisito, mas aquele cheiro deixava-me com umas terríveis dores-de-cabeça que me levaram várias vezes ao médico de família no Centro de Saúde. Também andei ao dia, a dar serventia a pedreiros, mas não aguentei. A minha bronquite limitava-me os esforços físicos. Ao fim de uma semana desisti.
No McDonalds tive sempre como colegas miúdos do Politécnico. Alguns também do Secundário. Fui uma espécie de pai deles todos. No fim do dia eles iam para as suas casas aquecidas, ter com os pais, com os namorados, para casas partilhadas, e eu regressava ao meu quarto, abria a clarabóia e fumava um cigarro com a cabeça de fora. Por vezes eles olhavam para mim e tinham medo de se verem a eles próprios. Eu era licenciado. Pré-Bolonha. Cinco anos de Licenciatura. E estava ali, com eles.
Após alguns trabalhos temporários, quase sempre para poder comer e pagar o quarto, estou, finalmente, há cerca de seis meses, no mesmo trabalho, numa quinta de eventos onde me dedico à limpeza das pequenas casas para alugar, uma espécie de bangalós. Faço as limpezas maiores. Aspiro. Lavo. Limpo o pó. Uma miúda passa depois de mim e faz as camas de lavado, muda as toalhas, enche a fruteira, uma garrafa de água no pequeno frigorífico e deixa tudo preparado para receber os hóspedes seguintes. Também faço pequenos arranjos. Um parafuso solto. Um vaso tombado que se partiu. Um estrado que se quebrou.
Como sou a primeira pessoa a passar pelas casas depois da partida dos hóspedes, para recolher a roupa suja e a levar à lavandaria, também deparo com alguns restos que ficam nas casas. Alguns esquecidos. Outros perdidos. Outros ainda simplesmente para serem deitados fora. Se bem que a quinta tenha regras bem definidas para tudo o que seja encontrado nas casas, tudo é guardado numa espécie de Perdidos & Achados durante um ano, ao fim do qual as peças são distribuídas pelos empregados, se as quiserem, senão, são oferecidos a centros de dia da zona, eu costumo ficar com as comidas e bebidas. Primeiro eram os chocolates e os pacotes de batatas fritas ainda por encetar. Mas depressa comecei a guardar as garrafas de vinho, mesmo que só tivesse um pequeno resto. Os restos de comida. Se no início eram só as coisas que me parecessem intactas, agora já levava tudo. Restos de hambúrgueres. De frango assado. Fatias de pizza. Queijos. Alguns com bolor mas que bastava raspar e ficavam bons. Rodelas de enchidos perdidas no pequeno frigorífico. Garrafas de cerveja. Normalmente minis. Aprendi a aproveitar tudo. A dar valor a coisas insignificantes. A nunca desperdiçar nada.
A minha vida nunca mais se endireitou, no sentido de retomar um trajecto que já tive e que parecia levar-me para algum lado. Que não levou. Mas nestes últimos tempos pareço ter ganho algumas raízes aqui onde já estou há seis meses. Ganho o salário mínimo, o que não me dá para economizar ou sonhar com o futuro nem ter grandes ideias sobre o que hei-de fazer à minha vida. Mas vou tendo que comer. Deito-me numa cama quente e seca. Consigo tomar banho de água quente todos os dias. Lavo o cabelo duas vezes por semana. Sinto falta de uma mulher. Não uma mulher para ir para a cama. Às vezes vou ali ao Marachão e dou dez euros a uma rapariga. Mas uma mulher com quem partilhar o dia-a-dia. Com quem falar. Perguntar Como foi o teu dia? Alguém a quem me queixar das dores-de-cabeça. Alguém que se preocupasse comigo, alguém que me perguntasse Queres uma canja de galinha? Um Brufen? Um Antigripine? Mas não tenho vida suficiente para ter vida nela. Só consigo ganhar o suficiente para a minha solidão. E assim vou seguindo em frente. A ver até onde consigo chegar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/25]

O Banco de Jardim

A primeira vez que tivemos relações sexuais foi num banco de jardim, junto ao rio, no Marachão, depois de uma festa dos anos ’80 a que acabámos por não ir.
Foi a única vez que fizemos sexo, um com o outro, na rua. Foi também a melhor e mais intensa noite de sexo que alguma vez tivemos juntos. A partir daí, e enquanto durou a relação, foi sempre a descer. Mais para cumprir calendário que por desejo.
Não sei se ela se equivocou comigo ou se aquela noite foi só o resultado de uma bebedeira. A verdade é que estávamos os dois ardentes e cheios de vontade um do outro. A verdade é que, naquele frio, junto ao rio, ardemos.
Tínhamos estado num bar. Foi aí que metemos conversa um com o outro. Amigos comuns. Uma gargalhada. Uma resposta mais irónica. Um sorriso nos lábios. Um pouco de arrogância. Algumas opiniões avulsas sobre a vida e a morte, e o desejo acabou por fazer o resto. Perdemos os amigos comuns que se evaporaram na noite. Ficámos a beber. Eu e ela. Primeiro andámos pela cerveja, mas depressa migrámos para o gin. Acho que queríamos acelerar a noite. Eu pelo menos sim, queria acelerar a noite e ir longe com ela.
Hora de fechar. Fomos postos na rua. Havia uma festa dos anos ’80 na cidade. Lancei a ideia. Foi aceite. Cruzámos a cidade na conversa. Eu a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Eram os nervos. Ela não fumava. Nem falava. Eu falava. Eu falava e fumava. Ela ouvia. Ouvia-me.
Chegámos aos anos ’80. Eu estava um bocado maldisposto. Tinha perdido a conta aos gins. Ela disse para darmos uma volta. Para eu arejar. Acabámos por não entrar pelos anos ’80. Ela nem era assim tão fã de festas, muito menos dos anos ’80, disse. Assim Não faço grande questão em entrar. Nem gostei muito dos anos ’80. Vamos dar uma volta. E fomos. Fomos passear junto ao rio. Pelo circuito da Polis. Seriam, o quê?, três, quatro da manhã. Já me tinha passado a má disposição. Acendi um cigarro. Ela sentou-se num banco de jardim. Sentei-me lá ao lado dela. Depois, mão-na-mão. Boca-na-boca. Mão numa mama. A língua solta. Esperar a reacção. Quando dei por mim já estava com as calças ao fundo das pernas. Ela também. Foi tudo assim muito rápido, muito intenso, muito desejo.
Ficámos lá sentados por muito tempo, no depois, sentados no banco de jardim. Em silêncio. De mãos dadas. A sentir a água a correr no rio que não víamos porque estava escuro. Eu fumei outro cigarro. E depois ela disse Está frio. E estava. Estava frio. Dei-lhe o meu casaco. Fiquei de t-shirt a berrar frio. Senti um arrepio. E ela disse É melhor ir para casa. E eu acompanhei-a.
À porta de casa disse que era melhor eu não subir. Era tarde. E era cedo.
Foi a primeira e a única vez que não subi. Na semana seguinte estava a viver com ela.
Eu continuei a beber. Passei da cerveja e do gin para o vinho tinto. Ela passou para o chá. Desencontrei-me dela. Ela perdeu-me. Depois já éramos só a lembrança de uma noite.
Um dia ela disse Já não vale a pena. É melhor ires embora. E eu fui.
Nunca mais a vi.
Sempre que passo no Marachão, junto ao banco de jardim onde estive com ela, lembro-me dela. E do que aconteceu.
Hoje passei ao pé do banco. Estava vazio. O rio cheirava mal. Estava sujo. E corria uma aragem desagradável.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/18]

Não Dou Beijos

Tenho os dedos das mãos inchados. Não os consigo dobrar. Devem ser frieiras. Este tempo, entre o frio e o calor extremos, mexe com o meu corpo. A minha carne. Com as articulações.
Os dedos das mãos parecem chouriços a querer romper para fora da pele que encarcera a carne no interior. A pele parece que vai estalar.
Dói.
Não consigo acender o isqueiro. Tenho de levar o cigarro ao fogão para o acender.
E penso quando ela me disse Não dou beijos.
Tinha arranjado uma miúda no Marachão. Convidei-a para vir a minha casa. Declinou o convite. Propôs uma pensão barata. Lá ao pé. Ao pé do Marachão.
Ainda não tinha os dedos das mãos assim, inchados. Ainda não me provocavam comichão. Ainda não os coçava. Ainda não doíam. Mas as costas já estavam quase em sangue. Este tempo frio provoca-me um ligeiro prurido do corpo. Nas partes do corpo que roça na roupa. As costas. As pernas. O rabo. Os sovacos. E coço. Às vezes violentamente. Costumo encostar-me às esquinas e esfregar-me nelas.
Entrei na pensão com a miúda. Cheirava a creolina. Senti-me enjoado. Agarrei-a. Tentei beijá-la. Ela disse Não dou beijos. Despiu-se. Era bonita. Muito branquinha. Seios pequenos. Um rabo teso. Umas nódoas negras nas pernas. Nos braços. Eu não me queria despir. Ela insistiu. Eu não me mexi. Ela desapertou-me o cinto. Quando me tirou a camisa não conseguiu disfarçar a aversão. O meu corpo estava arranhado. Coçado. Com riscos de sangue. A principiar uma chaga.
Fiquei nervoso. Ela também.
Voltei a vestir a camisa. O casaco. Apertei o cinto. Olhei para ela. Vi a cara de nojo. Ouvi-a dizer Não dou beijos.
Larguei duas notas de vinte euros na cama da pensão e saí do quarto. Da casa. Do prédio.
Precisava de ar.
Desci as escadas a correr. Saí da pensão a correr. Entrei na rua e cruzei a estrada sem olhar, a correr. E continuei por ali fora, a correr, a correr, até chegar às margens e ser parado pelo frio que vinha lá debaixo, da água gelada do leito do rio.
Parei. Ofegante. Faltava-me o ar. Respirei fundo. Tentei recuperar o fôlego.
Mas estava nervoso. Sentia o corpo a tremer.
Via-a a olhar para mim. Para o meu corpo. Para a bestialidade do meu corpo.
Ouvia-a dizer Não dou beijos.
Procurei os cigarros. Tentei tirar um. Não consegui. Os dedos estavam inchados. Deixei cair o maço de cigarros no chão. Dobrei-me. Apanhei o maço. Mas desisti de tentar agarrar um cigarro. Os meus dedos não eram meus. Estavam gordos. Enormes. Uma caricatura. Um desenho animado de dimensões desproporcionadas. Os dedos ardiam-me. Não conseguia dobrá-los. Cocei-os.
Coloquei o maço no bolso do casaco e fui para casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/12]

Zangado

 

Estive ausente uma semana, duas semanas, sem escrever um conto no Facebook.
Estava zangado, zangado com tudo. Especialmente comigo. Estava zangando com quem estava zangado comigo. Estava zangado com quem me zurzia aos ouvidos. Estava zangado com quem tem certezas e razões e sabe tudo. Estava zangando com quem me obriga a fazer o que não quero fazer.
Passei noites sentado à secretária com um envelope aberto com 40 valium 10 e 9 valium 5. A olhar para eles. E dizia Não, não é para mim, eu gosto de viver, eu gosto de ir o cinema, ao teatro, ao futebol, de namorar, de passear no Marachão, fazer piqueniques na Ervedeira. Eu gosto de comprar pevides em São Pedro de Moel. De olhar do alto a falésia do Vale Furado. De beber café no Mad. De fazer amor na rua e sentir o frio a bater-me na costas. Gosto de ver os bunker horríveis da Praia da Vieira. Gosto de ver as construções feias da praia do Pedrogão e das suas festas de sardinha, e das suas festas Tecno à beira-mar (ainda existem?), dos chocos fritos de Setúbal, da melhor imperial do mundo no Lebrinha, em Serpa, da sopa de Cação no Lado de Lá que não sei se anda existe. Gosto dos filhos, das mulheres, ex-mulheres, amantes, namoradas, amigos, que ainda os há e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, das memórias que, mesmo no mais horrível, sabem bem.
Volto vezes sem conta a sentar-me à secretaria com o envelope aberto. A olhar os valium. Mas as memórias não deixam fazer asneira. Já é tarde. É sempre tarde. Mas desisto.
Até um dia.

Chove lá fora. Estou sozinho. É de noite. Sei que tenho quem goste de mim. Mas não chega. A liberdade não existe sem dinheiro. Dinheiro para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, para poder comer um pão com manteiga, sustentar os filhos… Porra!, viver.
Peguei numa mão cheia de valiuns e meti-os na boca. Empurrei-os com água. Tenho pena de não ter vodka. Aceleraria o processo. Repeti o gesto três vezes até acabar com os valiuns.
Não senti nada, Não senti nada de diferente.
Levantei-me e imediatamente caí inerte no chão. Senti bater com o nariz nalgum sitio anguloso. Senti parti-lo.
E, então, apaguei.

[2018/04/02]

Não Fui Feito para Correr

Hoje voltei a correr.
Vesti fato de treino e calcei sapatilhas, passei pelo café ao pé de casa, bebi uma bica e comi uma filhós e fui para as margens do rio.
Primeiro dei uns pulinhos, estiquei as pernas, girei o tronco, tentei ir com as mãos ao chão e levantei as pernas até ao muro do Marachão para aquecer e, depois, comecei a correr ao longo do rio.
No início tinha frio, mas depois já transpirava. Mas não consegui ir a correr durante muito tempo. Cansei-me. A respiração tornou-se pesada. Passei a andar, depressa, é certo, mas a andar. Um tempo depois voltei a correr, mas mais devagar, sem pressas. Fui ultrapassado por vários outros corredores, veteranos, claro, gajos que fazem isto todos os dias. Eu estava a começar. Tarde, mas a começar. E não estava ali para demonstrar nada, para justificar nada, para provar nada. Estava ali a correr porque me apetecia estar ali a correr. Mas voltei a parar a corrida e continuei a andar. Fiz um desvio e fui beber um café. E acompanhei com uma Aldeia Velha. Na televisão estava a dar um programa com o Hernâni Carvalho onde ele falava dos dramas criminais dos portugueses. O café estava em silêncio a ouvi-lo. Cravei um cigarro a um homem que estava à minha direita ao balcão, atento à televisão. Fumei o cigarro, saí do café e voltei à corrida. Voltei a correr. E desta vez aguentei muito pouco tempo. Não sei se foi do cigarro se da Aldeia Velha.
Decidi voltar para casa, mas fiz o caminho todo a andar. Vi atletas a fazer alongamentos. Eu não os fiz. Queria mesmo regressar a casa.
Cheguei a casa e deixei-me cair em cima do sofá…
…acordei no meio do escuro. A casa estava na escuridão. Do exterior entravam, pelas janelas, as luzes das outras casas, dos candeeiros públicos, da vida que havia lá fora.
Estava tão cansado que adormeci. Fui ver as horas e era tardíssimo. Estava cheio de fome, mas tinha de ir para a cama. Resolvi fazer umas torradas e um chá antes de dormir.
Acabei por comer as torradas acompanhadas por duas minis. E fui comer as torradas em frente à televisão a ver uma série da moda. Já não tinha sono. Já não queria ir para a cama. Fui buscar mais uma mini e uns cajus.
Acho que não fui feito para correr.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/19]

Ir à Foz do Rio Através das Ruas da Cidade

Olho-me ao espelho. Descubro as olheiras. A barba já grande e cheia de brancas. Mas estou mais magro. Bem mais magro. E não estou careca.
São três da manhã e não consigo dormir. Na casa-de-banho, tento decidir o que fazer. Visto-me e saio de casa.
Gosto de passear pelas ruas vazias da cidade à noite. Entra-se num outro mundo que obriga à disponibilidade de outros sentidos.
Vou pela zona do Marachão, junto ao rio. Está escuro. Junto a umas árvores vejo dois homens, de barba, a trocar carícias. Acelero o passo. Ao pé da Rodoviária, desço as escadas e vou pelo que resta do Jardim Camões. Uma mulher está lá sentada num dos bancos e lança-me um apelo, Tens vinte euros? Eu finjo que não ouço nem vejo, e penso que já ali namorei, naqueles bancos, naquele jardim, há muitos anos.
Chego à Fonte Luminosa, e contorno-a pela esquerda. Passo pelo Feio e levo comigo o cheiro das bifanas. Mas não me apetece comer. Estou enjoado.
Subo a Fonte das Três Bicas até à Escola Branca, e descubro que alguém está a pintar palavras de ordem nas suas paredes. Continuo até à Escola Amarela, que continua da mesma cor e, na Avenida Marquês de Pombal, viro à direita, para subir até ao Hotel Euro-Sol. Mas a meio ouço uma grande explosão. Alguém está a tentar assaltar a caixa multibanco. Não me sinto herói e arrepio caminho. Começo a descer a Avenida, um pouco mais depressa, enquanto que atrás de mim os barulhos aumentam, tornam-se mais confusos, mas ainda distingo as persianas a serem abertas pelos moradores para ver o que se está a passar.
Quase no fim da Avenida Marquês de Pombal viro à direita para a Avenida Nossa Senhora de Fátima, que me leva até à Rotunda do McDonald’s que tem uns azulejos no meio que sempre pensei que fossem os pastorinhos de Fátima, mas que afinal parece que são os aldeões que vinham vender os seus produtos ao mercado de Leiria. Não tenho certeza disto. Acho que foi o que ouvi dizer. Aí, na rotunda, vou à Estação de Serviço da Galp comprar cigarros. Saio da estação e desço até ao Skate Park, vazio, em silêncio, com uma iluminação expressionista que o torna um pouco assustador até.
Sento-me num banco e fumo um cigarro. E descanso.
Demorei uma hora desde que saí de casa. E continuo na mesma. Sem sono. Sem saber o que fazer. Sem me apetecer nada.
Aos poucos começo a distinguir o barulho da água do rio que passa por ali. E decido. Finalmente tomo uma decisão. Quero ir ver a foz do Liz à Vieira.
Deixo-me cair no rio e espero que ele me leve até lá, à foz do Rio Liz, na Praia da Vieira.

[2017/09/28]