Despedida de Solteiro

O tipo era um fantasma. Estava branco. Tão branco que parecia translúcido. Eu via-lhe os riscos azuis das veias a cruzarem-lhe a cara. Sentia-lhe as jugulares a pulsar. A transpiração. As gotas de suor a escorrerem da cabeça para baixo. O cabelo brilhava. Era transpiração ou gel? O respirar pesado. Seria tudo nervos?
Ela estava bonita. Bonita como as noivas ficam. Estava bonita e radiante no seu vestido branco.
Estávamos todos à espera que ele dissesse o sim. Mas ele não parecia estar ali. Ele parecia estar a morrer. Estava à espera do momento em que ele vomitava para cima dela e do padre e dos padrinhos e de toda a gente que esperava ansiosa pelo Sim.
Ao meu lado, toda a gente se ria. Só homens. Os miúdos do meu passado, agora crescidos. Homens. E riam-se do noivo. Um deles baixou-se e segredou-me ao ouvido A despedida de solteiro foi ontem! e passou-me alguma coisa para as mãos. Um telemóvel.
E eu pensei no porquê das pessoas fazerem festas de despedida de solteiro. Principalmente na véspera. Qual a razão?
Olhei para o telemóvel que o tipo me tinha passado para as mãos. E vi o noivo. Vi o noivo perdido no meio de pernas e braços e mamas de mamilos pequenos e grandes e rosados e rabos rijos e flácidos e vaginas rapadas e peludas e com desenhos e lábios carnudos vermelhos vermelhos vermelhos que o engoliam todo e lhe iam deixando beijos por todo o corpo. Literalmente por todo o corpo. Em troca do que lhe iam comendo. E comeram-no todo. Logo ali eu vi uma boca a chupar-lhe o dedo grande do pé. E o resto… O resto…
Eu queria deixar de ver o pequeno filme daquele telemóvel. Mas não conseguia não ver. Estava fascinado com aquele happening em despedida de solteiro. Vi coisas que não julgava serem possíveis. E eu não sou propriamente casto.
E depois de todas as impossibilidades físicas e de corpos contorcionistas que não julgava possível existirem, ainda o vi vomitar-se todo para cima dele próprio e de toda a gente que partilhava com ele aquela cama king-size como se fosse só mais uma etapa de um trajecto de luxúria e desejo.
Fiquei mal-disposto.
Porque é que está a casar?
E antes de dar o sim, vejo-o, no altar, vomitar para cima da noiva do padre dos padrinhos das damas de honor e de toda a gente que estava mais próximo para testemunhar aquela união que, percebia agora, não iria realizar-se tão cedo, com certeza, depois de acontecer o que estava a acontecer e depois de toda a gente ir ver o vídeo porque, tinha a certeza, o filme não iria ficar confinado àquele telemóvel que eu tive nas mãos porque os homens não conseguem não ser sacanas e filhos-da-puta uns com os outros, não por maldade mas tão só porque sim.
Devolvi o telemóvel ao dono e sai da igreja. Deixei atrás de mim toda aquela gente em polvorosa, Coitado do noivo a vomitar, terá comido alguma coisa estragada?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/08]

Tempos Estranhos, estes!

Tempos estranhos, estes.
São tempos de moeda. Finança. Quem não tem jeito para vender está posto de lado. Deixado para trás. Crê-se num crescimento desmedido e infinito. Como se o futuro não chegasse nunca. Mas ele é já hoje! Agora! Não crescer é morrer. Estamos já todos mortos à espera de vez.
O deus do homem é o cartão de crédito.
Festeja-se o nascimento de um refugiado e fecham-se as portas e erguem-se muros contra esses mesmos refugiados. Porque não se pode albergar toda a gente. Sim, é verdade. Então é preciso criar condições de vida para além dos nossos muros. Deixar de roubar o que não é nosso. Em nome do progresso. Em nome do consumo. Não se festeja o refugiado. Festeja-se o bacalhau. O polvo. As filhoses e as rabanadas. O vinho e o espumante. E os presentes. As milhares de caixinhas de Ferrero-Rocher que andam de casa em casa. Passa-ao-outro-e-não-ao-mesmo.
Finanças. Progresso. Moral.
É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. Era assim que eu ouvia contar quando era criança. Onde isto já vai!
In God We Trust!, they say.
São tempos estranhos, estes. Têm-se mais medo de uma mulher nua que de um homem morto. Há um politicamente correcto que cortou tudo a direito e massacra-nos a cabeça com a moral. Os bons-costumes. A pureza. Temos de ser assépticos. Esconder os mamilos.
Houve tempos em que mulheres nuas vendiam perfumes, carros, jóias. Hoje não se pode mostrar um mamilo. Um rabo. Uma vagina. A não ser que seja A Origem do Mundo.
No meu mundo, no meu mundo de portas fechadas à razão, não visto a moral. No meu mundo os homens têm pilas. As mulheres têm mamas e vaginas. Todos, mas todos, homens e mulheres e outros géneros têm sexo. Porque querem. Se não quiserem não têm. O que eles não têm, mesmo, é a porra de uma pistola na mão. O que eles não têm é um dedo no gatilho. O que eles não têm é um estômago de ferro para os impedir de vomitar ao ver a fome que grassa para além dos muros. E mesmo aquém.
São tempos estranhos, estes. É Inverno. Estamos em Dezembro. Às portas do Natal. Eu estou de t-shirt sentado no alpendre. Olho a montanha verde lá ao fundo. O céu está azul. Ouço os pássaros a chilrear. Fumo um cigarro.
Ela chega do interior de casa. Está nua. Descalça. Aproxima-se do varandim. Traz uma caneca de café a fumegar nas mãos. Beberica. Mas o que me chama a atenção são as mamas dela. Estão um pouco descaídas. Mas são redondinhas. Belas. Como duas lágrimas enormes prontas a tombar mas que, afinal, ficam por lá, a olhar para mim. Os mamilos eriçados, talvez por causa de algum vento frio que não descortino. Ela vira-se. Sem pudor algum. Encosta-se ao varandim. Dá as costas à montanha. Descobre-se para mim. Uma pequena penugem sobre o sexo a garantir que já não é uma criança. Eu largo o cigarro no chão e levanto-me. Aproximo-me dela. Tiro-lhe a caneca de café das mãos. Encosto-me.
In God We Trust!
Nem moeda, nem finança, nem venda, nem deus, nem nada…
Há lá coisa melhor que uma mulher?
São tempos estranhos, estes, em que há gente que o esquece.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/23]