A Vida É Difícil

Vim de carro à cidade. Tinha de tratar de uns papéis e vim de carro. Não compreendo isto. Cada vez mais tecnológicos e digitais e ainda temos de passar a vida com papéis e a comparecer ao vivo para provar que nós somos nós e não outros a fazerem-se passar por nós. E, no entanto, nós andamos por todo o lado, vendidos por toda a gente a toda a gente que nos queira comprar. Somos os novos escravos. Aqueles a quem prometeram a democracia e acabaram por levar com a tecnocracia.
Ia eu já de carro, numa estrada via-rápida, quando comecei a sentir um zumbido nos ouvidos. Não sei como surgiu. Nem se surgiu ali, naquele momento. Pode ter aparecido antes mas só ter dado conta ali, talvez por ser mais silencioso, talvez por ser uma zona de muitos cabos de alta-tensão, talvez por eu estar mais atento.
E pensei que, ultimamente, tenho ouvido muito zumbido nos ouvidos. E pensei mais ainda, se seria melhor ouvir zumbidos nos ouvidos ou vozes na cabeça?
Parecia-me que era melhor ouvir vozes. Seria dado como maluquinho e ninguém me levava a mal e perdoavam-me as parvoíces e descontavam-me as asneiras. Com um zumbido nos ouvidos, ninguém se preocupa nem muito menos quer saber.
O quê? o tipo dos zumbidos nos ouvidos? Esse gajo é parvo!
O quê? o tipo das vozes na cabeça? Esse gajo é tontinho, coitado, tens de dar um desconto.
A vida é difícil para quem sai da norma.
Tomo uns comprimidos. Para isto é para outras coisas. Mas às vezes esqueço-me. Não me lembro de tudo. Não consigo lembrar-me de tudo. De tudo, destas coisas, porque há coisas que não me esqueço. Por exemplo, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Em dois mil e dezanove, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Disto lembro-me. E quando me esqueço vou ao site da Pordata para confirmar. É sempre bom confirmar os factos. A história. As notícias. Não confio em ninguém que manda coisas assim, da boca para fora. Se nem eu sou de confiança para mim próprio…
Cheguei à cidade. Dei várias voltas para estacionar. Nem parece Agosto. Ou se calhar é por isso. É Agosto. Chego à repartição pública e assusto-me. A fila dá a volta ao quarteirão. São famílias inteiras. Algumas com cães. Muitas destas famílias estão em calções de banho e biquínis. Sinto-me na Praia da Vieira. Fala-se francês por todo o lado. Há algum inglês. Pouco. Um casal falava em alemão. Parecia-me.
Abri os braços para o céu. Dirigi o meu olhar para lá. Comecei a rezar um Pai Nosso em alta-voz, enquanto me aproximava do início da fila. Quando acabou o Pai Nosso, avancei com uma Avé Maria. Ao chegar ao início da fila abençoei as pessoas que lá estavam executei uma pregação sobre a vida dos escolhidos de Deus para governar a Terra e pus-me em primeiro lugar.
Já ninguém respeita ninguém. Começaram a refilar comigo. Chamaram-me herege e, perante a minha insistência em nome do Bom Jesus, deram-me uma carga de porrada que me deixaram estendido no chão.
Um funcionário público, lá do interior, viu o que estava a acontecer e chamou a polícia e o INEM. O INEM não apareceu, mas apareceram os bombeiros. Antes ainda da polícia. E levaram-me ao hospital.
Dou graças ao SNS. É a minha vingança. Os gajos que me mandaram para aqui são os gajos que estão a pagar o meu internamento. Sim, fiquei internado.
Continuo com o zumbido nos ouvidos. Agora também já ouço vozes na cabeça. Tomo vários comprimidos ao longo do dia que não sei para o que são. Ninguém me diz nada. Mas são às cores. Parecem saídos de uma embalagem de M&M’s. Eu acho que me dão inibidores sexuais para não saltar para cima das enfermeiras. São giras, as enfermeiras do SNS.
Mas agora, o que me preocupa é o carro. O ticket de estacionamento já passou do prazo há muito tempo. O que é que lhe vão fazer. O quê? Não, não levam nada para a sucata. Queres ir agora? Ah! Depois de almoço? Vamos os dois? Está bem, pá. Vamos os dois para a Praia da Vieira. Mas porquê a Praia da Vieira? Há lá enfermeiras do SNS?

[escrito directamente no facebook em 2019/08/09]

Matar Percevejos na Cama

Estou magro. Já fiz dois furos no cinto, mas as calças continuam a cair pelo rabo abaixo.
Não tenho fome. Não consigo comer. Nem dormir.
Esta noite passei-a a matar percevejos na cama. Eles passam assim, armados em espertos, a correr, rápidos, de um lado para o outro, mas eu vejo-os. Agarro-os e esmago-os entre as unhas dos dedos das mãos. De manhã tinha os dedos cheios de sangue dos percevejos.
Foi por isso que não fui abrir a porta da rua hoje de manhã, quando cá vieram o Suoer-Homem, o Batman, o Harry Potter e um que parecia o Mandrake, mas não deveria ser porque eles não sabem quem é o Mandrake, e outros que nem reconheço, para pedir bolinho. Não queria assustar os miúdos. E não tinha nada para lhes dar, nem chocolates, nem gomas, nem sequer moedas. Contudo, gostava de ter conversado com eles. Preciso de falar. Preciso de ouvir a minha voz. Ainda ensaio reproduzir os meus pensamentos em voz alta, como dizer alto o que estou agora a pensar sobre o meu dia, mas pareço um maluquinho como às vezes se vê na rua, e eu não sou maluco. Por isso não posso falar sozinho.
Só quando ela cá veio de tarde, e me mandou uma mensagem pelo telemóvel para eu abrir a porta da rua, para perguntar se eu precisava de alguma coisa, eu desatei a contar o filme de merda que vi ontem à noite na televisão. Só percebi que estava a ser chato quando ela bocejou três vezes de seguida. Pedi-lhe desculpa e disse-lhe que queria ir dormir, para que se fosse embora e não estar ali a aturar-me. Eram seis da tarde. Já era de noite, mas ainda era de tarde. Raios partam o tempo e as horas. Mas ela pensou mesmo que eu queria ir deitar-me. O tamanho das minhas olheiras também é grande.
Ela foi embora. Eu fui ao quarto fazer não sei o quê. A cama estava por fazer. Peguei nos lençóis e no edredão para os puxar para cima e vi, outra vez, os percevejos por ali a passear. Assim como assim, já tinha as mãos sujas com sangue, fui apanhá-los e comecei a esmagá-los entre as unhas dos meus dedos. Lembrei-me de quando era pequeno e a minha mãe me catava os piolhos e também era assim, apanhava-os na cabeça, e depois esmagava-os entre as unhas. E ouvia-se um pequeno barulho, crack, crack. Acho que não ia à escola nessas alturas. Era um bom tempo, quando se tinha piolhos e se ficava em casa. Agora fico em casa, mas não queria. Queria falar com pessoas, mas também acho que não consigo. Elas cansam-me. Por isso fico por aqui, a matar percevejos.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/29]