O Rapaz Caleidoscópio

Tinha roubado a bicicleta na semana anterior. Tinha roubado a bicicleta já a pensar na sua utilidade. Ou na necessidade que eu tinha dela para aquele caso em particular.
Eram sete da tarde quando saímos de casa. Quando saímos da Rua. Fomos de Leiria até à Batalha pelas estradas municipais. Cruz d’Areia, Telheiro, Barreira, Andreus e Batalha. Campo da bola na Batalha.
Uma noite amena para ver, ao vivo, UHF, Iodo, Pizolizo e Órbita.
Tinha treze anos. Tínhamos todos mais ou menos essa idade. Éramos cinco. Os Cinco. Os Cinco na Batalha. Os Cinco de Bicicleta. Os Cinco no Concerto. Os Cinco em Liberdade.
A viagem custou mais que o esperado. São mais ou menos quinze quilómetro até à Batalha por aquelas estradas secundárias cheias de curvas. Sempre a subir. No final é a descer. Mas antes, na primeira metade, é sempre a subir. É preciso força nas pernas. Bufar bastante. O descanso viria depois. Na descida.
Chegámos já com os Órbita em palco. Eram uma espécie de grupo de baile, banda de covers, apanhados na espiral do Rock Português. Tudo o que mexia, servia.
Depois foram os Pizolizo, banda de Vila Franca de Xira. Bomba Nuclear, Não. Pouco mais.
Chegaram os Iodo. As Novas das Tesouras Velhas. Uma cópia de Motels, a banda de Martha Davis. Mas também a Boneca de Cera, Ceby e, o hit que invadia as casas da Malta da Rua, o Malta à Porta, Não penses em assinar documentos em papel molhado, Porque ao fim ao cabo, Sais sempre cansado… Estava ganha a noite. Mas os Iodo não tiveram grande vida. Morreram pouco depois.
Ainda estava para vir o fogo-de-artifício e os cabeça de cartaz. O fogo-de-artifício chamava os UHF de António Manuel Ribeiro ao palco. E nós, nós os cinco, ali junto ao palco, estávamos embasbacados a olhar para toda aquela feira fascinante que só conhecíamos dos discos e dos programas de rádio e do Júlio Isidro. O António Manuel Ribeiro estava à minha frente a cantar os Cavalos de Corrida. A Rua do Carmo. O Jorge Morreu. A Geraldina e, acima de tudo, O Rapaz Caleidoscópio, Dá-me, dá-me, dá-me, Dá-me um rapaz, Calidoscópio dá-me, Dá-me um rapaz…
Chegou a madrugada. Os concertos acabaram. Regresso. Era necessário subir a primeira parte da viagem. Fomos de bicicleta à mão. A falar sobre o que tínhamos visto. O meu, o nosso, primeiro concerto ao vivo. Fora de casa. Longe de casa. Sem os pais saberem. Sem os pais sonharem.
Atrás de nós, as Serras d’Aire e dos Candeeiros em chamas. Enquanto falávamos, sentíamos algum medo de sermos apanhados pelas chamas. Era época de incêndios. Chegados aos Andreus, foi sempre a descer até Leiria, e passar na bisga ali, junto ao cemitério da Barreira, não fosse alguma alma penada pedir boleia.
Chegámos a casa e entrámos em silêncio.
Aquele foi o início de uma série de viagens e de concertos e de música que invadiu a minha vida.
Mas nunca nenhum concerto repetiu aquela magia da primeira vez. Foi como uma trip de heroína. E viciou.

Eu era o rapaz caleidoscópio.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/15]

Oh, Pá!…

Os anos oitenta começaram nojentos.
Tinha acabado a década anterior a experimentar os primeiros fumos de haxixe nos pequenos cachimbos feitos da prata dos maços de cigarros, fumados às escondidas nas rochas da praia velha do Pedrogão e os meus amigos a juntarem-se para me dizerem Sai da droga. Sai da droga, pá! e eu não saí porque aquela merda era boa e abria-me a mente e os livros que li na altura acabaram por ser como as cebolas, com várias camadas que ia descobrindo à medida que voltava atrás quando perdia o capítulo em que tinha ficado – eu não conseguia dobrar os cantos das páginas dos livros, ainda hoje não o faço -, e a música passou a ser quadrifónica, os filmes em technicolor, o céu ficou azul petróleo, o mar de São Pedro de Moel o melhor do mundo e o frio do Atlântico não afectava um adolescente cheio de tesão, a pila ainda não ficava mais pequena, e as miúdas davam vontade não sabia bem de quê mas a perceber que eram muito mais fixes do que eram quando éramos mais novos e as suas bocas molhadas e quentes provocavam reacções extremas no meu corpo que me deixavam muito bem disposto e foi por elas que recomecei a ir à missa aos Domingos de manhã, onde se encontravam todas e as podia convidar para ir à matiné de cinema ao Teatro José Lúcio da Silva.
Comecei assim, a década seguinte muito interessado nas miúdas e a descobrir o sexo. O sexo teórico. As palavras, os conceitos, a Gina, a Tânia, que era a prima mais barata da Gina, a Playboy brasileira, os filmes em super 8 do pai do gajo lá da rua de quem não vou dizer o nome, e as mãos dadas e transpiradas, e as maminhas por baixo do soutien e das camisolas, mas Oh! Porra! Que é tão bom!, quando, num momento de discussão estúpido durante um jogo de futebol entre Benfica e Sporting da Malta da Rua e eu e o tipo a empurrarmo-nos com os ombros, em ameaças pueris, O meu pai é melhor que o teu!, A tua mãe é uma vadia!, e o dislate máximo Chupa-mos! e eu a dizer Tira cá para fora! e ele tirou, baixou os calções e tirou cá para fora e eu baixei-me à frente dele, puxei do fundo das fossas nasais e armazenei tudo na boca, mastiguei, preparei e soprei o escarro verde e fumegante em direcção aquela pila ainda sem pintelhos e o tipo olhou, viu o escarro a cair pendurado na pila, nojento e disse Oh, pá!…

[escrito directamente no facebook em 2018/06/08]