Despedida de Solteiro

O tipo era um fantasma. Estava branco. Tão branco que parecia translúcido. Eu via-lhe os riscos azuis das veias a cruzarem-lhe a cara. Sentia-lhe as jugulares a pulsar. A transpiração. As gotas de suor a escorrerem da cabeça para baixo. O cabelo brilhava. Era transpiração ou gel? O respirar pesado. Seria tudo nervos?
Ela estava bonita. Bonita como as noivas ficam. Estava bonita e radiante no seu vestido branco.
Estávamos todos à espera que ele dissesse o sim. Mas ele não parecia estar ali. Ele parecia estar a morrer. Estava à espera do momento em que ele vomitava para cima dela e do padre e dos padrinhos e de toda a gente que esperava ansiosa pelo Sim.
Ao meu lado, toda a gente se ria. Só homens. Os miúdos do meu passado, agora crescidos. Homens. E riam-se do noivo. Um deles baixou-se e segredou-me ao ouvido A despedida de solteiro foi ontem! e passou-me alguma coisa para as mãos. Um telemóvel.
E eu pensei no porquê das pessoas fazerem festas de despedida de solteiro. Principalmente na véspera. Qual a razão?
Olhei para o telemóvel que o tipo me tinha passado para as mãos. E vi o noivo. Vi o noivo perdido no meio de pernas e braços e mamas de mamilos pequenos e grandes e rosados e rabos rijos e flácidos e vaginas rapadas e peludas e com desenhos e lábios carnudos vermelhos vermelhos vermelhos que o engoliam todo e lhe iam deixando beijos por todo o corpo. Literalmente por todo o corpo. Em troca do que lhe iam comendo. E comeram-no todo. Logo ali eu vi uma boca a chupar-lhe o dedo grande do pé. E o resto… O resto…
Eu queria deixar de ver o pequeno filme daquele telemóvel. Mas não conseguia não ver. Estava fascinado com aquele happening em despedida de solteiro. Vi coisas que não julgava serem possíveis. E eu não sou propriamente casto.
E depois de todas as impossibilidades físicas e de corpos contorcionistas que não julgava possível existirem, ainda o vi vomitar-se todo para cima dele próprio e de toda a gente que partilhava com ele aquela cama king-size como se fosse só mais uma etapa de um trajecto de luxúria e desejo.
Fiquei mal-disposto.
Porque é que está a casar?
E antes de dar o sim, vejo-o, no altar, vomitar para cima da noiva do padre dos padrinhos das damas de honor e de toda a gente que estava mais próximo para testemunhar aquela união que, percebia agora, não iria realizar-se tão cedo, com certeza, depois de acontecer o que estava a acontecer e depois de toda a gente ir ver o vídeo porque, tinha a certeza, o filme não iria ficar confinado àquele telemóvel que eu tive nas mãos porque os homens não conseguem não ser sacanas e filhos-da-puta uns com os outros, não por maldade mas tão só porque sim.
Devolvi o telemóvel ao dono e sai da igreja. Deixei atrás de mim toda aquela gente em polvorosa, Coitado do noivo a vomitar, terá comido alguma coisa estragada?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/08]

Não Desci a Avenida por Causa do Jackie Chan

Era vinte e cinco de Abril e eu queria ir à manifestação. Queria descer a Avenida de cravo-na-mão. Porque se pode descer a Avenida de cravo-na-mão em dias certos. Ou no vinte e cinco de Abril ou na festa do Continente. Não vou à festa do Continente. Mas vou no vinte e cinco de Abril.
Levantei-me cedo. Tomei o pequeno-almoço. Mudei os lençóis à cama. Aspirei a casa. Reguei as flores da varanda. Pus uma máquina de roupa a lavar.
Depois fui tomar banho. Lavei o corpo com sabonete Patti. Lavei o cabelo com Linic. Desodorizei os sovacos com Basic Homme da Vichi. Olhei pela janela da casa-de-banho para a rua e estava a chover.
Merda!
Chovia que Deus-a-dava. O céu cinzento. Carregado de nuvens escuras.
Desanimei.
Vesti o fato-de-treino. Fui fumar um cigarro para a varanda. Com cuidado para não me molhar. Podia ser que parasse. Sim, talvez parasse.
Mas não parou.
Acabei o cigarro. Deitei a beata fora. Voltei para dentro de casa. Sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Apanhei com um filme do Jackie Chan. Fiquei a ver.
Afundei-me no sofá. Eu e o Jackie Chan.
Quando voltei a olhar pela janela, descobri o sol. Tinha parado de chover. Veio o sol. São Pedro queria que eu fosse à manifestação. Boa. Ia levantar-me. Ia levantar-me mas não me levantei. Continuei enfiado no sofá. A olhar para o Jackie Chan. Ainda espreitei várias vezes para o sol através da janela. Mas não consegui levantar-me.
O Jackie Chan fazia das suas no filme que passava na televisão. Mas eu já nem conseguia rir. Sentia um peso na consciência. Mas não me serviu de nada. Devia ter-me levantado. Devia. Mas não levantei.
O dia correu.
Perdi o interesse no Jackie Chan.
Acabei por adormecer deitado no sofá.
Quando acordei já era noite. Sentia-me um pouco mal-disposto. Tinha o estômago às voltas. Doía-me a cabeça. Apetecia-me vomitar.
Acabei por me levantar. Com muito esforço. Pensei em ir à casa-de-banho vomitar. Mas fui antes para a varanda fumar um cigarro. Achei ser mais urgente.
E depois, enquanto fumava um cigarro na varanda e via passar gente contente com cravos na mão, pensei A vinte e cinco de Abril não fui à Avenida por causa do Jackie Chan. Mas em Maio, em Maio tenho de ir ao Marquês comemorar a vitória do Benfica.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/25]

Nervoso num Autocarro

Estou nervoso.
Há gente que quando está nervosa disfarça. Não diz nada a ninguém. Foge à condição. Não gosta que se saiba. Talvez para não se sentir diminuída. Talvez porque ninguém tem nada a ver com isso.
Há gente que quando está nervosa, anuncia por todo o lado. Não consegue fingir. Os nervos são bem evidentes. A perna não pára de abanar. O pé está sempre a bater no chão. As mãos transpiram. Há um dedo que está sempre a subir à cara. Há sempre uma angústia latente.
Eu sou destes últimos. Quando estou nervoso digo logo. E digo a toda a gente. Acho que para me exorcizar. Talvez para diminuir os nervos. Talvez para desculpar alguma asneira provocado pelo nervosismo.
Estou num autocarro. Estou a caminho da cidade grande.
O autocarro está cheio. Há gente mascarada. Há gente adulta mascarada. Com saias de tule. Caras muito pintadas. O cabelo armado. Estou no meio da loucura.
Há um palhaço sentado duas filas mais à frente que está sempre a voltar-se para trás. Para mim. Para olhar para mim. Se calhar conhece-me. Eu não consigo perceber quem é. Não assim, mascarado.
Sinto algum medo de palhaços. Talvez algum trauma de infância. Talvez algum espectáculo de circo não percebido. Talvez alguns desenhos-animados perversos.
O autocarro cheira mal. É o cheiro de muita transpiração junta. Mais os perfumes. Os bons e os maus. Nesta altura já é só tudo mau. Mau cheiro. Alguma flatulência, com certeza. E isto deixa-me maldisposto. Nervoso.
O autocarro não tem Wi-Fi. Não consigo ver as últimas notícias.
Agora entro numa estação. Uma pausa de dez minutos. Para o motorista fazer chichi. Fumar um cigarro. Também fumava um cigarro. Mas estou demasiado nervoso para fumar.
Há gente a sair. Há gente a entrar. Mais mascarados. Há uma mulher-barbuda. Não sei se é a sério ou de Carnaval.
Lá fora um homem mostra castanhas assadas. Pergunta se quero. Eu finjo que não o vejo. Olho em frente. Para a cabeça do tipo que está sentado à minha frente e não se levantou nesta pausa.
Chega uma mulher que fala alto. Fala alto e não se cala. Conta a sua vida. A sua vida hoje. Andou a sambar. Mas é portuguesa. E não se cala.
Não há Wi-Fi no autocarro.
Não era suposto haver Wi-Fi na Rede Expressos?
Estamos de regresso aos anos ‘80 do século passado. Mas sem poder fumar em sítios fechados.
Tudo isto me deixa ainda mais nervoso.
A mulher não se cala. Agora fala ao telemóvel com alguém. Estás no Pingo Doce? Eu chego daqui a uma hora. Leva comida para o cão, coitado.
Eu fecho os olhos. Tento abstrair-me. Tento dormir. Tento esquecer a voz da mulher. Mas não consigo.
O cão foi deixado no Pingo Doce. Abandonado. A mulher disse ao segurança Pode agarrar-me o cão enquanto vou comprar umas coisas? E nunca mais voltou. Um cão muito giro. Com franja. Bom para os penteados.
Porra. Cala-te, mulher, penso.
Começo a ficar maldisposto.
Não há Wi-Fi no autocarro. Não consigo dormir no autocarro. Não consigo descansar no autocarro. Malditos mascarados. Malditos cães. Maldita mulher que não te calas. Pum!
Estou nervoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/03]

À Queima-Roupa

Hoje assisti a uma coisa. A um coisa a que queria não ter assistido.
Vivo na baixa da cidade. Mesmo no centro. No que já foi o coração da cidade e agora não passa de um cancro. Um cancro a espalhar as suas metástases.
As traseiras de minha casa dão para uma rua onde reina a marginalidade. É uma espécie de inferno onde a polícia prefere não ir.
As lojas fecharam. Os escritórios mudaram-se. Os bancos e os cafés escolheram zonas mais modernas. Os velhos foram postos a andar das suas casas na esperança de uma recuperação da zona. Condomínios. Alojamento local. Um hotel. Restaurantes. Mas a crise passou uma rasteira aos investidores. A rua ficou como estava. Sem vida, degradou-se. E acabou entregue à bicharada.
Primeiro foram os ratos a ocupar as casas vazias. A alimentarem-se do lixo. Chegaram os gatos vadios. Os cães de rua. Depois chegou a droga para alimentar as veias da cidade. Em seguida veio a prostituição para pagar a droga. Não foi um processo rápido. Não. Mas foi um processo implacável.
Da janela cá de cima vejo as miúdas, cada vez mais novas, encostadas à entrada dos prédios vazios. Sentadas nos degraus das escadas sujas. Entregues à economia dentro de carcaças vazias de antigos carros que a autarquia não retira da via pública.
Já assisti a umas quantas overdoses. Quezílias. Zangas. Roubos. Violência. Violações. Femininas e masculinas que isto de levar no cu não escolhe género. Às vezes chegam-me alguns gritos aqui a casa. O que é que posso fazer para além de ficar mal-disposto?
Já vi lá passar carros de polícia. Mas só passam. Passam devagar. Olham. Não saem do carro. Alguns dedos erguem-se para eles. Umas risadas. E é tudo.
As poucas vezes que lá fui, e já lá fui comprar cavalo, já lá fui à procura de sexo numa altura mais complicada da minha vida, já lá fui procurar alguém que podia estar por lá (não estava, mas também não sei por onde anda que nunca mais a encontrei, e portanto até pode estar por lá, metida nalgum muquifo), fui de botas. Aquele chão é perigoso. Aquele chão é uma armadilha. Preservativos usados, lenços de papel sujos, agulhas, seringas partidas, sangue… Aquela rua é uma lixeira a céu aberto. Aquelas pessoas vivem abaixo de humano. Aquelas pessoas que lá vivem já não são pessoas.
Mas hoje assisti a uma coisa.
Estava à janela da cozinha a fumar um cigarro. E olhava para a rua. Os movimentos. Os carros que passavam. Mas não estava realmente a ver nada. Estava só a olhar para lá para não ter que olhar para as minhas paredes vazias. Num apartamento vazio. Numa vida, também ela, vazia.
Estava a olhar para lá, de cigarro na mão, quando vejo um homem abrir a porta de um carro lá parado e disparar dois tiros. Dois tiros à queima-roupa. Até dei um salto. Pam-Pam. Assim. Um som seco. Pam-Pam. Silêncio. Depois um grito de mulher. De rapariga. Uma miúda saiu do outro lado do carro e correu para o homem que esticou o braço para ela, na mão uma pistola, e voltou a disparar. Dei outro salto. Pam-Pam. Foi o que se ouviu. Pam-Pam. O som seco dos tiros de pistola disparados à queima-roupa. Pam-Pam. Assim. Económico. E simples. Pam-Pam.
Perdi o cigarro que tinha na mão. Caiu não sei para onde.
O homem prendeu a pistola no cinto. Nas costas. Debaixo do casaco. E foi embora. A andar. A andar devagar. Como se não fosse nada com ele. Nem foi ver a rapariga. Nem quem deixou no carro. Ninguém. Nada. O vazio e a indiferença.
Eu peguei no telemóvel. Escondi a minha identificação. Liguei o 112 e avisei.
Começaram a aparecer pessoas. À volta da miúda. À volta do carro. Começou a haver algum choro. Gritos.
Eu devia lá ter ido. Mas fazer o quê? Não era nada comigo. Avisei a polícia.
Não quero chatices.
Estou a pensar mudar de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/22]

A Angústia da Novidade

Sempre que inicio um novo trabalho, sobrevém uma enorme angústia. É-me difícil o começo. O recomeço. O partir de novo para…
Não sei se é a mesma angústia do guarda-redes no momento do penalty de que falava Peter Handke. Mas a novidade tende a socar-me o estômago. E sofro. As dores são horríveis. Começo por ficar com a garganta seca. A cabeça fica pesada. Mas vazia. É uma sensação estranha. A barriga começa às voltas como se fosse uma máquina de lavar roupa. E fico extremamente triste. E inerte. Por vezes choro. E então quero desistir. Quero sempre desistir.
Hoje tinha uma reunião.
Hoje tinha de sair de casa para ir a uma reunião.
Acordei dois minutos antes do despertador. Acordo sempre. Acho que fico ansioso. Abri os olhos. Completamente desperto. Liguei o rádio na mesa-de-cabeceira. Levantei-me ao som do noticiário. Não liguei às notícias. Era só um ruído de companhia. Abri as cortinas. Entrou alguma luz no quarto. Não muita que ainda é Inverno e o tempo está de chuva. Entrou alguma luz cinzenta e fraquinha no quarto o que me deixou melancólico, mas permitiu-me encontrar os boxers e uma t-shirt para ir à cozinha. Percorri o corredor descalço. Fiz café. Enfiei-me debaixo do duche e fiquei ali. Sem me mexer. A absorver o conforto da água quente a cair-me em cima. Por momentos esqueci-me. Esqueci-me de mim. Esqueci-me onde estava. Esqueci-me da reunião. Esqueci-me que estava no duche. Depois tomei consciência. O tempo tinha passado. Percebi o nervoso a instalar-se. Já não havia tempo para o champô. Não havia tempo para o sabonete. Não havia tempo para tomar banho. Contentei-me com o corpo enxaguado de água quente. Saí. Sequei-me. Fui ao quarto e vesti-me. Não me apetecia sair de casa. Porque raio tinha de ir lá onde tinha de ir para fazer um trabalho que iria fazer em casa? Sentei-me na cama a calçar as sapatilhas. Imaginei-me cair para trás e deixar-me adormecer de novo e não ter reunião nem trabalho nem obrigação nem nada.
Voltei à cozinha. Comecei a beber uma caneca de café. Olhei para o pão. Não me apetecia. Olhei para a fruta. Também não. E enquanto olhava à volta da cozinha, enquanto procurava algo para pôr o estômago a trabalhar, percebi que ele já andava por ali às voltas. Merda.
Fiquei maldisposto.
Fico sempre maldisposto quando inicio um trabalho. Fico sempre maldisposto quando tenho que encontrar alguém que não conheço. Não gosto de pessoas que não conheço. Não gosto de conhecer pessoas. É por isso que não faço novos amigos. Nem consigo manter os velhos. É tudo muito cansativo. E tudo isto me deixa angustiado.
Pousei a caneca com o resto do café na bancada ao lado do lava-louça. Pousei mal a caneca. E a caneca caiu. Caiu no chão. Partiu-se. Partiu-se com estardalhaço. Espalhou o resto de café pelo chão da cozinha. Pelas minhas sapatilhas. Pelas minhas calças. Ficaram salpicadas, as calças. Eu estava maldisposto. Muito maldisposto. E ainda fiquei pior.
Fui à casa-de-banho.
Não valeu de nada. Molhei a cara. Olhei-me no espelho. E disse-me Tem calma, pá! Mas não conseguia.
Agarrei no telemóvel. Na mochila. Nos óculos. Nas chaves de casa. Abri a porta para sair e senti que estava a transpirar. Sentia uma gota a escorrer pelas têmporas. A descer pelas costas abaixo. Tinha as mãos húmidas. Imaginei-me a cumprimentar umas mãos macias e sedosas com as mãos assim, neste estado. O estômago revolveu-se. Contorci-me. Contorci-me de dores. Não tive tempo de regressar à casa-de-banho. Abri muito a boca. Num esgar. Vomitei ali. Na entrada de casa. Pela parede. Pelo chão.
Voltei a entrar em casa. Sentei-me no sofá. A olhar para a parede em frente. A parede em frente por cima da televisão. Estava lá uma racha que passava por trás da televisão.
Peguei no telemóvel. Marquei o número. Tremi. Senti-me enterrar no sofá. Doía-me o estômago. A boca cheirava a vomitado. O mundo estava a morrer. Do outro lado atenderam. E eu disse Bom-dia!
E expliquei. Desculpei-me. Desliguei.
No momento em que percebi que podia fazer ali o trabalho, ali em casa, sem ter de passar por uma reunião com quem não conheço, as dores de barriga desapareceram. Miraculosamente. Passou a má-disposição. Já não transpirava. Tinha as mãos secas. A cabeça lúcida. E uma vontade incrível de comer uma torrada banhada de manteiga Milhafre.
Levantei-me. Fui apanhar os cacos da caneca. Pus uma torrada a fazer. Peguei numa esfregona e limpei o chão da cozinha. Fui à casa-de-banho e lavei os dentes. Lavei a cara. Fui ao quarto e desliguei o rádio. Puxei o edredão para trás. Para arejar a cama. E anotei mentalmente para fazer a cama antes de almoço. Voltei à cozinha e comi a torrada com manteiga. Depois fui para a sala. Sentei-me à mesa, frente ao computador.
Abri o computador. Olhei para ele. Senti-me nervoso. Outra vez. Pensei Como é que vou começar esta merda?
Acendi um cigarro. Olhei para as horas. Tinha muito tempo. Bastante, mesmo. Levantei-me. Fui até à rua fumar o resto do cigarro. O gato veio a correr roçar-se nas minhas pernas.

O tempo passou. O tempo passou e eu não dei por ele.
Estou a dez minutos do tempo-limite para entregar o trabalho.
Estou sentado em frente ao computador. Sinto uma angústia enorme. Tenho um peso sobre as costas. A barriga anda às voltas. As mãos estão húmidas. Tremo. Mas o corpo não mexe. É cá por dentro. Uma tremedeira interior.
Mexo os dedos. Coloco os dedos sobre o teclado e começo a escrever.
Alguma coisa há-de acontecer.
E amanhã é outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/08]

Penso que Estou a Ficar Velho

Dói-me a cabeça. Bastante. Parece que vai explodir. Dói-me tanto a cabeça que me deixa maldisposto. Sinto-me agoniado. Tenho dificuldade em abrir os olhos. E não consigo estar bem em lado nenhum.
Estive sentado no sofá, mas tive de me levantar. Não estava bem. Fui até à janela mas não consegui olhar lá para fora. Não consegui abrir os olhos. Tudo o que vi foi uma mancha de claridade. A cabeça doeu-me ainda mais e, por momentos, pareceu-me que ia vomitar.
Corri até à casa-de-banho. Sentei-me na borda da banheira. Ao pé da sanita.
E é onde estou. Mas vou levantar-me. Não estou bem aqui sentado.
Passeio pela casa. Queria pensar em alguma coisa. Alguma coisa para me ajudar a passar o tempo. Mas não consigo pensar. A dor de cabeça ocupa tudo.
Entro no quarto. Olho para a cama. Penso em deitar-me sobre ela. Gostava de me deitar sobre ela. Mas fico ainda mais agoniado só de pensar em estar deitado.
Vou até à cozinha. Encosto-me à mesa. Penso que estou a perder um tempo precioso. Um tempo que poderia estar a usar para terminar o trabalho que tenho de terminar. Ou não fazer nada. Que é o que estou a fazer agora. Nada.
Sinto um vómito a subir e volto a correr até à casa-de-banho. Sento-me na borda da banheira, novamente. Sinto-me pior. Sinto ficar pior a cada momento que passa. Tenho gotículas de água a cair pela testa abaixo. São gordurosas. E sinto a testa fria. A transpiração é fria. Olho para o espelho e vejo-me branco. Pode ser só imaginação. Até porque nem consigo abrir bem os olhos. Mas pareço estar muito branco.
E então vem um vómito mais forte. Que puxa um segundo. E um terceiro. E é este que vem com força suficiente e sai de jacto boca fora em direcção ao fundo da retrete. É uma confusão de líquido vermelho e pedaços sólidos que não identifico. É o vinho tinto do almoço. Ah, e ali vai um bocado de tomate. Ao cair no fundo da retrete, o vomitado provoca alguns respingos que sobem e me batem na cara. Mas nem sinto força para sentir nojo.
Fico ali, assim, debruçado, a deitar fora tudo o que quer sair e agora a pensar que depois de vomitar poderei sentir-me melhor e ganho alento.
Cuspo uns bocados de qualquer coisa que está na boca. Levanto-me. Lavo a cara com água e sabonete. Olho-me ao espelho e não gosto do que vejo. Estou velho.
Lavo os dentes. Esfrego bastante a escova contra os dentes, pela língua, mas com tanta força que acabo por bater com o cabo da escova-de-dentes contra a gengiva e faço sangue.
Que merda!
Bochecho água. Espero que o sangue pare.
A dor de cabeça ainda não foi embora. Mas sinto um alívio no corpo. Já não me dói a barriga. Ainda sinto frio. E não estou bem em lado nenhum.
Puxo o autoclismo. A sanita ainda fica suja. Tenho de a limpar com o piaçaba. Mas não me mexo. Estou a olhar para o fundo da retrete e não consigo mexer-me.
Penso que estou mesmo a ficar velho.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/19]

Uma Casa Cheia de Buracos

Devia ter ido para a rua.
Devia ter ido atrás dos outros todos para a rua, gritar, gritar a plenos pulmões o meu amor pelo país que acabara de passar à fase seguinte do campeonato do mundo de futebol.
Não consegui.
O meu amor pelo futebol não é assim tão grande.
O meu amor por este país também não me motiva a tanto.
Fiquei em casa agarrado a um copo de vinho tinto que já nem sei o que era. Uma garrafa seguiu-se à outra enquanto enfardava um bocado de broa a acompanhar umas sardinhas em lata enquanto via o jogo.
Depois fiquei mal-disposto.
Nem cheguei a ver a grande penalidade iraniana. Nem o quase-golo que lhes daria a vitória. Nem o desespero de Carlos Queiroz.
Passei a segunda metade da segunda parte a vomitar na casa-de-banho.
Quando voltei à sala, de estômago vazio, já o jogo tinha terminado, o pais estava apurado e a população manifestava-se ruidosamente debaixo da minha janela.
Sentei-me no sofá e enchi a pança com o resto da garrafa.
Acendi um cigarro.
Adormeci com o cigarro na mão.
Um borrão de cinza tombou no sofá e fez um buraco.
A minha casa está a ficar toda assim. Cheia de buracos de cigarros. Cheia de baratas que entram pelos buracos do lava-louça. Cheia de mosquitos que aproveitam as frinchas das janelas quando preciso de um pouco de ar fresco.
No outro dia cruzei-me cá em casa com um rato. Um rato gordinho. Não consegui apanhá-lo. Ainda anda por aí, que eu ouço-o a andar de um lado para o outro. E ontem encontrei cocó de rato no canto atrás do guarda-fatos.
Preciso de o encontrar. E quando o encontrar faço um guisado. E depois convido a minha vizinha do lado para cá vir jantar.
Preciso de conversar.
Preciso de falar e de ouvir outras vozes.
Estou farto de me ouvir a mim.
A minha vizinha parece-me uma boa ideia.
Tenho de encontrar o rato.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/26]

A Indiferença

Acordei constipado. Mal conseguia abrir os olhos. O nariz estava vermelho. Em carne viva tanto que me assoei. A expectoração acumulava-se na garganta. Acho que tinha febre. Os lençóis e a almofada estavam molhados. Tinha muito frio.
Pus os pés fora da cama e espirrei três vezes.
Fui tomar um antigripe. Uma porra qualquer que tinha cá por casa e que nunca me fez nada.
Coloquei um púcaro com água ao lume e fiz um chá de limão.
Telefonei para o trabalho, avisei do meu estado e informei que iria ficar por casa. Espirrei por duas vezes ao telefone. Funguei bastantes outras. Puxei o ranho uma vez, mas com bastante som. Que sim senhor, disseram lá do outro lado.
Desliguei o telemóvel.
Desliguei o lume do fogão e deixei lá o púcaro com a água.
Fui até à varanda fumar um cigarro.
Menti.
Não estou constipado. Não tenho expectoração. Não mais que o normal, pelo menos. Não tenho o nariz assado. Nem febre.
Acordei como o tempo. Cinzento. Chuvoso. Mal disposto.
Acordei sem vontade de ver gente.
Adormeci ontem a ver o noticiário. Dormi mal durante toda a noite.
Fui para a cama com a Síria na cabeça. Depois de Aleppo, Ghouta oriental. As violações. As crianças. Os crimes. Os crimes horrendos. E o mundo a girar nas suas ordens económicas e políticas e monetárias.
E a indiferença.
Fui para a cama com Trump na cabeça a dizer que se estivesse na escola teria corrido contra o sociopata mesmo sem arma. Com Trump a querer armar os professores para uma guerra fria nas salas de aulas.
Fui para a cama com a ganância de quem lucra com a miséria alheia. Com a desgraça dos outros. Com a guerra. E a fome. E as doenças.
E a indiferença.
Fui para a cama a pensar que há um partido autofágico na Assembleia da República.
Fui para a cama a pensar que o futebol, agora, joga-se sem bola, joga-se em palavras merdosas na boca de gente sem escrúpulos nem princípios.
Sim, eu sei. Sou parvo.
O que é que isso interessa?
Que interessa a estas pessoas que passam ali em baixo e entram no café e vão a correr na rua para escapar à chuva e carregam sacos de plástico com as compras do supermercado e almoçam no restaurante biológico e passam cheques a ONG’s que actuam no terceiro mundo e que mantém uma criança na escola durante um ano e enviam presentes coloridos pelo Natal e compram maçãs de Alcobaça e pêras do Bombarral e os iPhone montados na China? Que porra interessa as mortes de crianças, mulheres e homens em terras tão distantes que não lhes diz nada?
Mandei a beata pela varanda fora. Que se foda a ecologia.
O que interessa é o plágio do Diogo Piçarra. O valores da habitação em Lisboa e Porto que ainda estão muito aquém das principais cidades europeias. Que os salários não se equivalem não conta na equação.
Acordei mal-disposto e não me apetece ir trabalhar.
Há dias em que me apetece enfiar debaixo dos cobertores e nunca mais sair de lá.
Sim, sou parvo. Eu sei.
E a indiferença.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/27]

Eu, Virado do Avesso

Acordei mal disposto e cheio de dores de cabeça.
Levantei-me e comi um bocado de pão seco, que me custou a mastigar e engolir, mas não queria o estômago vazio para tomar um Brufen. Fui à janela da cozinha e olhei para a rua. O tempo estava cinzento e a chover. Fazia frio. Tremi e regressei à cama.
Fiquei deitado a olhar para o tecto. Tentando adormecer. À espera que o comprimido fizesse efeito. Mas nem uma coisa nem outra. Estava completamente desperto. E as dores na cabeça pareciam mais intensas. E estava com comichão numa perna. Cocei.
Senti um vómito. Mas ficou-se por ali. Pelo seu início. A má disposição continuava. Mas fui aguentando.
De repente, levantei-me a correr para a casa-de-banho, levantei o tampo da sanita e enfiei lá a cabeça. Primeiro foram só os vómitos. Umas convulsões. Havia assim uns arranques do corpo, como se fosse arrotar, ou deitar alguma coisa fora, mas sem o fazer. Abria a boca muito, como se eu próprio fosse sair por lá, mas não saía nada, só uns fiozinhos de expectoração. De um amarelo vivo. Espumoso.
Fiquei por lá um bocado. Até que comecei a vomitar. Não percebi o que era que estava a deitar fora. Mas saía assim de jorro. E depois fiquei por ali mais uns tempos, com vómitos e a deitar expectoração fora.
Senti-me cansado. Mas percebi que já tinha vomitado tudo. Lavei a boca. Os dentes. Fui buscar uma manta e sentar-me no sofá. A descansar enquanto olhava lá para fora, para a chuva que caía.
Depois voltaram os vómitos. Uma enorme vontade de vomitar, outra vez. A cabeça parecia querer explodir. E não tive tempo de correr para a casa-de-banho. Comecei com convulsões e começou a sair alguma coisa de dentro de mim. Não era expectoração. Não era nada que tivesse comido. Era uma coisa enorme. Grande. Sólida. Viscosa. Parecia um corpo. Era mesmo gigante. A minha boca abria-se como eu não julgava possível. Uma enorme porta. E de cá de dentro, percebi depois, comecei a sair, eu próprio, de dentro de mim. Como se estivesse a virar-me ao contrário. O que estava dentro começou a sair para fora e, no fim, o que estava de fora começou a entrar para dentro do que já tinha saído de dentro de mim e que agora era o eu de fora. Assustado, percebi que o eu que existia era agora outro eu, como se fosse negativo de mim e então…
E então foi nesse momento que acordei, sentado no sofá. Transpirado. Cheio de fome. Já não me doía a cabeça nem me sentia mal disposto. Mas estava com uma fome diabólica. E não tinha mais nada em casa que pão duro e manteiga. Estava mesmo com fome. E fui fazer umas torradas. Ainda pensei em fazer um chá. Mas não tinha nada para fazer chá. Nem pacotes, nem ervas, nem fruta. Acabei por comer só as torradas. E fui para a varanda comê-las. Já não sentia frio. Só fome.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/03]

A Terra Gira a Grande Velocidade

Estava caído ali, junto à Fonte Luminosa. A Terra pôs-se a girar muito depressa no seu eixo, a correr à volta do sol e o chão fugiu-me debaixo dos pés. Caí. E não consegui levantar-me.
Tive sorte. Podia ter caído dentro da fonte. Podia ter morrido afogado. Mas tombei na laje. A boca bateu no lancil e parti dois dentes. Vi-os sair disparados da boca. Na altura nem percebi o que era. Depois reparei nos fios de sangue que me escorriam da boca.
Virei-me sobre mim próprio e olhei o sol frio da manhã. Fechei os olhos. Tentei erguer-me, mas todo eu era peso.
Passaram dois miúdos adolescentes, com mochilas da escola, na galhofa, e ao cruzarem-se comigo apontaram e desataram a rir. Já não há respeito pelos mais velhos, pensei. Mas depois reparei para onde é que tinham apontado. Tinha-me mijado. Mas não me lembrava de isso ter acontecido.
Estava uma lástima.
Tentei rebolar outra vez, sobre mim próprio, para me erguer, mas não tinha força. E então desatei a rir. A rir de mim. Da minha condição. Era um palhaço. Sem dignidade. De rasto perante os outros. Ainda não era hora de almoço e já estava bêbado.
E porque é que bebo? Nem sei…
Arrastei-me ao longo das lajes da Fonte Luminosa até às escadas da Caixa. Um miúdo que vinha a andar de skate, parou ao pé de mim e deu-me uma mão. Ajudou-me a levantar e carregou comigo até às escadas da Caixa Geral de Depósitos, onde ainda estou.
A velocidade da Terra começou a diminuir. Já consigo focar. Mais ou menos.
Vejo passar as pessoas nas suas vidinhas muito importantes e nem olham para mim. Elas querem olhar, há algo dentro delas que as quer fazer olhar e sentirem-se bem por não serem elas ali, mas o pudor impede-as de olhar. Ignoram-me. Tornei-me invisível. Desapareci.
Também não quero saber delas. De nenhuma delas. Nem dessas nem das outras. Ainda bem que me deixam em paz. Antes isso que as lengalengas do costume. Antes ignorarem-me que as suas preces puritanas e falsas.
Sinto-me mal disposto. Precisava de um copo. Outro.
Mas já não tenho dinheiro. E ainda não consigo pedir na rua. Sei que esse dia vai chegar. Mas ainda não será hoje. Hoje só consigo pedir um cigarro.
Aquela miúda vem a fumar… Olha, se faz favor, arranjas-me um cigarro?… Simpática. E bonita. Vai destruir muitos corações. O meu já não. Mas uns que ainda funcionem.
Está a saber-me bem, este cigarro.
Mas estou a ficar tonto. Devo estar fraco. Acho que ainda não comi nada hoje. O cigarro está a deixar-me tonto, mas não o posso deitar fora.
Bebia outro copo… Porque é que bebo? Porque sim… A culpa é minha, claro. Mas há culpas, nisto? Claro que sim. E a culpa é minha. Se aqui estou foi porque para aqui vim.
Estou mal-disposto. Acho que vou vomitar… Não consigo aguentar… Vou vomitar…
…tenho de ir mais para aquele lado que as escadas daqui estão já todas vomitadas. Ainda vem aí alguém para me chatear.
Tenho este restinho de cigarro para acabar. Já não estou tonto.
Se eu me conseguir levantar, posso ir beber mais um copo para ganhar coragem e ir almoçar… Talvez me fiem um copo. Eu venho cá pagar amanhã.
Vou tentar mais daqui a um bocado. Antes, preciso de descansar um pouco.
E este sangue? Ah… é meu!…
E os dentes? Onde é que ficaram os dentes?… Os meus dentes?… Não os vejo…
Mas eles não me vão deixar entrar assim, todo mijado, no bar… Mas posso ficar na esplanada…
Mas antes vou descansar um pouco. Estou cansado. Estou muito cansado.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/11]