Quando a Minha Mãe se Fartou dos Programas do Hernâni Carvalho, Jantámos uma Pizza com Cogumelos

Eu estava em pé, à entrada da sala, com o telemóvel nas mãos a ver o correio no Gmail e a pensar Como é que tenho tanto correio por abrir? Eram cerca de três mil mensagens de mail que eu não tinha aberto. A maior parte delas de newsletters que eu tinha subscrito e que nunca tinha lido nem pensava vir a ler. Já tinha pensado em mandar tudo para o lixo mas, achava sempre que poderia ali haver alguma coisa com interesse, que fosse importante e, por isso, a melhor solução era ir vendo as mensagens uma-a-uma e ir apagando as que fossem para apagar. Mas ia adiando. Porque não tinha tempo. Nunca tinha tempo. Nem tempo nem vontade para abrir correio electrónico para o qual ara preciso uma pachorra que eu não tinha.
Então, notei silêncio à minha volta. Silêncio na sala. Levantei os olhos do ecrã do telemóvel e vi-a a levantar-se do sofá. Ela estava a ver um programa do Hernâni Carvalho. E apagara a televisão. Vi as horas no display do telemóvel. Ainda estava a dar o programa. Perguntei-lhe Então? E ela olhou para mim, parou o seu andar lento e disse Estou farta de vinganças e de gente má a fazer mal a toda a gente e da voz dele. Estou farta do Hernâni Carvalho. E da Júlia Pinheiro e do Baião. Estou mesmo farta daqueles gritos e pulos e conversas de chacha. E depois continuou na sua passada lenta até à varanda. Abriu a porta e foi até lá fora.
Nos últimos tempos andava sem vontade de ver televisão. Já largara as novelas Sempre a mesma história, sempre, os mesmo actores, sempre as mesmas coisas! dizia. Chegou a vez do Hernâni Carvalho. Ela via os programas dele religiosamente. Fartara-se. A fórmula é sempre a mesma.
Fui ter com ela à varanda. Estava debruçada no varandim. Olhava para quem passava lá em baixo na rua.
Acendi um cigarro. Ela disse, sem se virar para mim Ainda não deixaste essa chupeta? Faz-te mal! e eu ri-me.
Depois perguntou-me Queres jantar o resto da caldeirada que fiz ontem? e eu pus-me a pensar. Não me apetecia peixe. E ela punha sardinha na caldeirada. E, para mim, sardinha é assada. Assada na brasa. Não, não me estava a apetecer comer caldeirada. E propus-lhe E uma pizza? Eu sabia que de vez em quando ela ia nestas comidas assim. Quando eu as ia buscar. Não gostava muito mas, de vez em quando, gostava de variar da sua cozinha, a mesma desde há mais de oitenta anos. E perguntou-me Com cogumelos? E eu disse Sim, com cogumelos e alcachofra. E bacon para dar lustro. Ela gargalhou e disse Pode ser! Pode ser, sim!
Eu olhei para as cerca de três mil mensagens de correio electrónico na minha conta de Gmail e desliguei o telemóvel. Encostei-me ao varandim ao lado dela. Ela disse Chega esse cheiro para lá! E eu mandei metade de um cigarro ainda por fumar para a rua e ela refilou Então manda-se assim o cigarro para a rua? e deu-me uma palmada no braço.
Dei-lhe um beijo e deixei-a na varanda a ver quem passava.
Saí de casa para ir à pizzaria. Quando estava eu a passar por baixo da varanda da casa dela pensei se ela não iria deixar cair uma bola de cuspo em cima de mim. Se fosse eu era o que fazia. Ela não era como eu.
E quando estava a passar mesmo por baixo da varanda de casa dela, caiu-me um balão com água mesmo ao meu lado. Não me atingiu mas, os salpicos, os salpicos quando o balão rebentou em contacto com o chão, os salpicos salpicaram-me. Olhei para cima e vi o miúdo do andar de baixo da minha mãe a esconder-se para dentro da varanda. Mais acima a minha mãe olhava para a frente, por entre os prédios, e via o sol a pôr-se, atrás da linha do horizonte.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/28]

Quase o Fim do Mundo

Parece o fim do mundo.
Não se ouve barulho. Pelo menos, barulho humano. Ouço umas cigarras. Os pinheiros parecem estalar sob esta brasa de calor que me consome. Escorro água de todo o lado. Estou deitado nu no chão da cozinha. Nas lajes frescas do chão da cozinha. As janelas todas abertas. Os mosquiteiros proíbem a entrada à bicharada. Estico o pescoço para uma das janelas e vejo, lá fora, naquele céu azul e limpo, uma águia a planar. Não bate as asas. Plana.
Hoje saí de casa para fazer uma análise ao Covid-19.
Vesti calções e uma t-shirt. Ia a sair de casa com uns chinelos nos pés e depois pensei que ia à cidade e que era melhor não ir de chinelos. Calcei umas sapatilhas. Custou vestir-me. Custou calçar-me. Estou habituado a andar nu e descalço por casa com este calor.
Cruzei a cidade de carro. Estacionei. Fiz umas ruas a pé. Pouca gente na rua. Ninguém conhecido. Vou a entrar no laboratório para a análise e dizem-me para esperar lá fora. Ao sol. Ao calor. Já o lá vão chamar, disseram. Esperei. Mas nem esperei muito. Fizeram-me entrar. Um pequeno interrogatório confirmou as informações já fornecidas anteriormente na inscrição para a análise ao Covid-19. Levam-me para uma sala. Pediram-me para me sentar numa cadeira. Todos os funcionários parecem estar num filme sobre o Ébola. Todos cheios de máscaras e luvas e fardas e barretes. Álcool-gel por todo o lado. Tudo muito asséptico. Muito protegido. Eu estou de máscara social e quando me vou sentar na cadeira que a enfermeira me indica, pergunto-me se devo. Mas sento-me. Ela pede-me para puxar a máscara para baixo e libertar o nariz. Enfia-me um cotonete que fura as minhas fossas nasais e vai até onde eu não sabia que podia ir. Fez-me impressão. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Não me doeu. Foi só uma impressão. Depois, repete a acção na narina vizinha. A mesma sensação. A enfermeira pede para baixar mais a máscara e enfia-me outro cotonete até ao fundo da boca, ou à garganta, já nem sei, mas fez-me ter uma convulsão. Por momentos pensei que ia vomitar. Vieram-me mais lágrimas aos olhos. Sou um coninhas!, pensei.
A enfermeira disse que estava despachado e que me podia ir embora. O resultado seria enviado para o mail.
E se eu estiver infectado?
A águia desapareceu do meu campo de visão. Tento esticar o pescoço mas não consigo. Não sou elástico. Tenho os meus limites. E eles agora fizeram-me deitar aqui no chão da cozinha e não me deixam levantar. Não para ir fazer um gin tónico. Nem fumar um cigarro. Muito menos para ir procurar uma águia que quero, à força, que seja um sinal, um bom agoiro.
Rebolo sobre mim e fico de peito no chão. Vejo a parte de baixo do frigorífico. Há lá coisas a mexerem-se. Foda-se. Há vida debaixo do frigorífico e eu não consigo levantar-me para lá ir ver o que é e matar a bicheza.
Estou a olhar para debaixo do frigorífico e sinto o chão a mexer-se. Depois tenho a sensação que há um bicho que pára e fica a olhar para mim. Tento vê-lo melhor. Perceber que raio de bicho será aquele.
O bicho começou a mover-se. Parece que vem na minha direcção. Tenho de me levantar. Tenho de me levantar. Vem lá o bicho. Não consigo levantar-me. E grito, Socorro!, mas sei que ninguém me ouve.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/17]

Ataques de Pânico

Já não sabia dela há uns dois, três anos. Desde que me pôs fora de casa. Nem chegou a olhar para mim. Pôs-me fora de casa por mensagem. Enviada para o telemóvel. Assim Muito sinceramente, não me consigo sentir bem contigo cá em casa. Gostava que arranjasses outro sítio para ficar e se conseguisses até ao fim-de-semana era o ideal. Pede a um dos teus amigos. Ou amigas. Tens tantos.
Não respondi. Senti arrepios pelo corpo. E não eram arrepios de frio. Era início de Outono. Um Outono quente. Estava na rua. Na cidade. No meio da cidade. Quando li a mensagem. Encostei-me a uma parede e vomitei. Fui olhado de lado por quem passava. Eu via-os a olharem para mim. O que foi, oh caralho? apetecia-me perguntar-lhes. Mas não disse nada. Nunca digo nada. Viro costas. Não por cobardia. Mas porque não gosto de me chatear.
Fui directo a casa. A casa dela. Ninguém. A casa estava vazia. Enchi uma mochila com umas roupas. Trouxe uns sacos de plástico com uns livros. O resto deixei por lá. Não tinha como os levar. Nem queria saber. No momento, estava furioso.
Sentei-me no sofá. Um último cigarro antes de me ir embora. Ela não gostava que eu fumasse lá em casa. Só à janela. Olha!… Azar!
Encontrei uma garrafa de vinho. Um Douro. Já não me lembro o que era. Abri-a. Bebi-a. Fumei todos os cigarros que tinha. E pensei. Pensei em coisas. Pensei em como tudo tinha começado a acabar. Pensei naquele dia em que estávamos no café. No centro da cidade. Íamos embora. Eu levantei-me da mesa. E ele continuou sentada. Estava branca. Muito pálida. Voltei a sentar-me. Perguntei-lhe O que se passa? Agarrou-me a mão. Com força. E continuou lá sentada. Sem falar. A tremer. A boca a mexer como se quisesse dizer alguma coisa mas sem dizer nada. Fiquei assustado. Pedi um copo de água. Consegui que bebesse um gole. E finalmente, passado um bom bocado, disse-me Vamos! E fomos. Mais tarde tentei abordar o assunto. Evitou-o sempre. Aquilo repetiu-se. Várias vezes. Mais tarde vim a saber que eram ataques de pânico. Porra! O que é que eu devia fazer? E ela não me ajudava a ajudar. Eu estava lá. Só! Só estava lá. Mas não sabia ao que estava. Ou como devia estar.
Tentei que fosse ao médico. Mais tarde percebi que era o pior que se podia fazer. E eu pensei E então? O que é que devo fazer? Como é que devo agir? Mas ninguém me disse. Ninguém sabia. Se calhar nem ela. Mas não me devia ter deixado de fora.
A última vez que aconteceu uma coisa do género tinha sido na semana anterior. Íamos a um concerto. Mas não fomos. Chegámos até ao parque de estacionamento. Estacionámos o carro. Bebemos uma cerveja. Chegámos até à entrada da sala. Estava cheia de gente. O concerto estava esgotado. Ela virou-se para mim e disse Vamos embora! Embora para onde? perguntei. Para casa! respondeu. Fiquei a olhar para ela. Acendi um cigarro. Lembro-me que ela tossicou. E fomos embora para casa. Nessa noite não voltámos a falar. Mas nessa semana discutimos muito. Eu achava que ela devia ir ao médico. Ela achava que devia fazer o que achava que devia fazer. E fomos ao limite. E ela disse Muito sinceramente, não me consigo sentir bem contigo cá em casa. Gostava que arranjasses outro sítio para ficar e se conseguisses até ao fim-de-semana era o ideal. Pede a um dos teus amigos. Ou amigas. Tens tantos.
Apaguei o cigarro num prato. Larguei o copo na mesa da cozinha. Ao lado da garrafa vazia. Deixei as chaves lá caídas. Saí de casa dela. Entrei em casa de um amigo. Fiquei por lá uns tempos. Depois mudei de trabalho. Mudei de cidade. Mudei de vida. Esqueci. Esqueci-a.
Até hoje.
Hoje recebi um mail. Dizia assim Desculpa por ter sido tão cabra. Desculpa por ter terminado assim, daquela maneira. Desculpa não ter falado contigo. Não estava bem. Estou melhor. Preciso que me desculpes.
Eu respondi de imediato ao mail Claro que desculpo.
O que é que eu havia de dizer?
Mas na verdade não queria saber. Não queria saber mesmo nada. Aquela já não era a minha vida.
Depois pensei por umas horas nela e naquela época. E esperava realmente que estivesse melhor.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/05]