Agir sem Pensar

O tipo chamou-me ao escritório. Não havia lay-off. Alguns iam ser despedidos. Aos outros teria de baixar o salário. Era a crise. A crise atinge-nos a todos, não é? Ele queria que eu ficasse. Com menos um terço de salário. A fazer o meu trabalho e o do tipo que ia mandar embora. Eu mandei-o para o caralho e vim-me embora.
Vim para casa.
Agora estou aqui em casa sem trabalho nem dinheiro e sem saber o que fazer.
Acendo um cigarro, olho para a ponta incandescente e pergunto o que é que seria da minha vida se não pudesse fumar? Se a minha bronquite se agravasse e eu não pudesse mais fumar? Quando o dinheiro se me acabar e não puder comprar mais tabaco?
Abro a porta da despensa. Olho para as prateleiras. Prateleiras vazias. Ou quase. Um quilo de arroz. Duas latas de conserva de atum com feijão frade. Uma lata de salsichas. Um pacote de pevides para a canja. Já está ali há anos. Há quantos anos não faço uma canja? Desde que a minha mãe deixou de me dar galinhas caseiras, que ela própria criava no quintal das traseiras de casa, da casa que era a casa dela e onde eu nasci e vivi até vir embora, a mesma casa que ela deixou quando o meu pai morreu e ela decidiu ir para a cidade, para não estar sozinha, para andar pelas ruas a ver montras e pessoas. Para ver pessoas! O que importam as pessoas? Por causa disso fiquei sem as galinhas dela, galinhas cheias de gordura com as quais fazia uma bela canja e, às vezes, uma cabidela, quando ela me guardava o sangue das galinhas degoladas no quintal das traseiras pelas suas mãos firmes e decididas. Eu nunca consegui degolar uma galinha.
Olho para a despensa e pergunto o que é que vou fazer com isto. Também há uma lata de feijão encarnado. E milho. Quem é que comprou milho? Eu nem gosto de milho. Milho em lata. Para fazer salada?
Sinto uma tontura.
Acho que reajo mais depressa do que penso. É o que se chama agir sem pensar. Talvez devesse pensar um pouco mais antes de fazer as merdas que faço. Ser mais pragmático. Um salário mais baixo é melhor que salário nenhum, não? Mas mais trabalho por menos salário?
Oh, foda-se!
Saio de casa rápido e deito fora o resto do cigarro. Saio a correr. Preciso de correr. Cansar-me. Impedir a cabeça de pensar no que não deve. Desço a alameda a correr. Para baixo todos os santos ajudam. Levanto bem os joelhos. Estico os braços. Saio o portão e viro à esquerda para a aldeia. Não sei se chego a fazer quinhentos metros. Não chego às portas da aldeia. Falta-me o ar. Páro. Encosto-me com uma mão a uma árvore. É difícil respirar. Sinto a pieira. A pieira na minha respiração. Preciso de um cigarro, mas é melhor não fumar agora. Descanso um pouco aqui em pé, encostado à árvore, e regresso a casa.
Oh, foda-se! E agora começa a chover!

[2020/08/18]

À Procura de um Sentido

Não preguei olho toda a noite. Vi as horas passarem por mim e eu acordado. Não costumo ter insónias. No geral durmo bem. Durmo profundamente. Nem sonho. Não perco tempo a sonhar. Durmo um sono descansado nos tempos que tenho marcados para dormir. Não esta noite. Não sei o que aconteceu. Talvez a caneca de café da avó que bebi às dez da noite. Talvez o papo-seco com uma fatia de queijo flamengo que comi a acompanhar o café. Talvez os cinco cigarros que fumei depois do café.
Talvez seja uma coisa da idade.
Deitei-me era meia-noite. À uma voltei a acender a luz da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Fiquei ali sentado a olhar para a parede em frente. Uma parece vazia. Pintada de branco-ovo. Sem quadro. Sem móvel. Sem janela. Um pedaço vazio de parede. Estava completamente desperto. Com a sensação de ter os olhos muito abertos. Esbugalhados. Estava assim desde que me tinha deitado. Fiquei assim a tentar que a escuridão da noite, do quarto, da cama, os fizesse fechar.
Levantei-me à uma da manhã e fiquei ali sentado na cama a pensar o que fazer para me entreter, fazer passar o tempo e chamar o sono.
Enquanto pensava, as horas passavam. Uma. Duas. Três. E eu continuava ali sentado na cama, muito direito sentado na cama, sem me decidir em agarrar o iPad, ligar a rádio, a televisão ou pegar num livro da pilha que todos os dias aumenta na mesa-de-cabeceira sem que eu lhe dê andamento. Quatro. Cinco. Seis. E começou a doer-me as costas. O rabo. A cabeça. Tomei um Ben-U-Ron. Levantei-me e fui à casa-de-banho. Sentia-me cambalear. Estava cansado. Precisava de dormir. Sentei-me na sanita e esqueci-me do que tinha lá ido fazer. Lavei os dentes, mas perguntei-me se não os tinha lavado antes de me deitar.
Dei duas voltas à casa a confirmar que tinha as janelas todas fechadas.
Sentei-me na cozinha a fumar um cigarro. Soube-me mal e acabei por só dar duas passas. Pensei em lavar os dentes outra vez. Não o fiz. Voltei para a cama. Eram sete da manhã. Apaguei a luz e deitei-me no escuro possível com a luz do dia a tentar furar por todo o lado.
Eram oito da manhã e acordei com o telemóvel a tocar. Era a minha mãe. Atendi. Estás bem? perguntou-me ela. Estás bem? Estava melhor quando estava a dormir, respondi.
E ela disse Estavas aqui comigo mas não falavas. Tinhas uma coisa nas mãos que não percebi o que era. Tinhas um olhar triste. Eu falava para ti e não me respondias. Estás bem? Sim, mãe, estou bem! Eu falava para ti e tu nem olhavas para mim e depois viraste costas e foste-te embora. Eu ainda corri atrás de ti mas deixei de te ver.
Eu tive uma visão da minha mãe a correr e sorri. E garanti-lhe Estou bem, mãe. Estou mesmo bem. Deve ter sido um sonho. Não, não era. Eu vi-te. E falei contigo. Estás mesmo bem? Sim, mãe. Fica descansada.
Ela desligou o telemóvel. Mas não estava completamente convencida. Eu disse-lhe para passaria em casa dela mais tarde. Eram oito e dez e eu tinha de me levantar.
Sentia-me cansado.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/03]

O Meu Irmão

Eu tive um irmão que não chegou a sê-lo. Se ele fosse, se calhar era eu que não era.
A minha mãe teve um filho nado-morto antes de mim.
Pergunto-me muitas vezes o que é que seria do mundo, deste mundo, se o meu irmão tivesse nascido vivo? Se ele existisse! Eu existiria? O mundo seria igual? Haveria mundo se eu não existisse para o conceber? Se eu próprio não tivesse sido concebido?
Perguntei várias vezes à minha mãe, no papel de filho único, se o meu irmão, aquele que eu não tenho, se ele tivesse nascido vivo, eu teria sido concebido?
A resposta da minha mãe nunca foi sonora. Ri-se. É sempre o que faz. Ri-se. Ela ri-se de mim. Um sorriso silencioso, mas rasgado. Não confirma nem desmente. Vejo-a de Cornetto de morango nas mãos, a sorrir para mim, sem me responder.
Aquele irmão que não chegou a ser, aconteceu cinco anos antes de mim. Eu, provavelmente já não deveria ter existido, tendo existido o meu irmão. Os meus pais já tinham uma idade avançada. Demasiado avançada para serem pais. Estavam quase na idade de serem avós. Avós novos, bastante novos, mas avós.
Penso sempre se eu nasceria de outra forma. Noutra família. Filho de outra mulher. De outro homem. Seria igual? Seria como sou? Viveria na mesma cidade? Teria os mesmos amigos? As mesmas namoradas? Teria os mesmo gostos? Os mesmo desejos? Faria as mesmas merdas que faço hoje? Que tenho feito ao longo da vida? E as desculpas? Poderia eu usar as mesmas desculpas que uso hoje? As mesmas mentiras? Seria uma vítima? ou um carrasco? Qual o poder dos meus possíveis outros pais sobre mim?
Uma coisa que me preocupa é se eu continuaria a gostar de fumar e de beber vinho tinto cerveja gin e vodka.
Há dias em que não consigo pensar noutra coisa. A minha vida esteve dependente de outro. A minha vida esteve, está, sempre dependente de outro. Primeiro o irmão que não tive. Depois os pais que me tiveram. Os amigos que fui tendo. Os patrões que me têm.
Quando é que eu posso ser eu, afinal?
Poderei afirmar que nasci porque tinha de nascer ou que fui só fruto das circunstâncias e, como tal, não tenho qualquer significado para o mundo?
Sempre que penso em todas estas questões que, por vezes, me atormentam, mas não hoje, há uma pergunta que nunca poderei ver respondida mas que é a pergunta que eu mais gostaria de conhecer a resposta Como é que é ser irmão? Ter um irmão?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/31]

Estou Sozinho e Sinto-me Ir

Arrotei. Arrotei qualquer coisa azedo. Fiquei com um sabor horrível na boca. Não tive tempo para ir lavar os dentes nem bochechar o elixir oral. Veio-me uma terrível dor de estômago.
Caí de joelhos na cozinha. Estou de joelhos na cozinha. Agarrado à barriga. Mas não é a barriga que me dói. É o estômago. É lá dentro. Dentro do dentro. Fez-me cair. Fez-me vergar. Estou agarrado ao estômago mas nem sei o que fazer. São dores horríveis, como se me estivessem a rasgar por dentro.
O que é que comi?
Não comi nada de mais. Almocei uns rissóis de peixe com arroz de tomate. O arroz de tomate secou demasiado e os rissóis eram do Intermarché, o mais triste dos hipermercados – é só gente feia que trabalha nos diferentes Intermarché; é só gente feia que vai às compras ao Intermarché; eu vou ao Intermarché quando me sinto feio. Hoje sentia-me feio e fui ao Intermarché à procura de uns carapauzinhos para fritar e comer com arroz de tomate (a vizinha deu-me uma caixa de tomates e tenho de lhes dar uso; já fiz doce de tomate e enchi três frascos de quase meio-quilo de maionese Hellmann’s), não havia e acabei por trazer rissóis que, depois de fritos e comidos, me fizeram ter saudades dos rissóis feitos pela minha mãe, que eu via a estender a massa sobre a bancada da cozinha, a torná-la fina debaixo do rolo que ela fazia rolar, via-a limpar o suor às costas da mão cheia de farinha e virar-se para mim e sorrir, mas esta imagem talvez seja de um filme publicitário e não realmente da minha mãe, mas vejo-a a colocar, com uma pequena colher, um refogado de peixe ou de carne, dobrar a massa sobre o conteúdo e depois cortar a massa com um copo de vidro verde de um conjunto trazido de Espanha que toda a rua trazia quando lá ia, e fazia um rissol generoso e bem recheado que me fazia comer e chorar por mais. Foi aí que me habituei a comer rissóis dentro de um pão, o que ainda hoje faço, e que escandaliza muita gente que nunca viveu uma infância como a minha. Também estranham quando coloco azeitonas na sopa. Gente triste. Não sabem o que é bom.
Continuo caído de joelhos no chão da cozinha agarrado à barriga, mas é o estômago que me dói, e que parece querer rasgar-se e deitar tudo cá para fora. Tenho as têmporas molhadas. Os olhos parecem maior que os buracos onde estão. A cabeça lateja. A garganta está seca e parece querer fechar-se.
Olho para o telemóvel a carregar na bancada da cozinha mas não consigo lá chegar. Não consigo mexer-me. Não consigo deixar de estar assim como estou. Agarrado à barriga.
Quero fumar um cigarro.
Quero ir para a praia em Agosto mas no Agosto da minha infância.
Quero voltar a poder queixar-me de dores à minha mãe e ela fazê-las fugir com um beijo.
Quero não estar aqui assim.
Quero alcançar o telemóvel.
Quero adormecer e acordar bem outra vez.
A dor é cada vez mais lancinante. Sinto-me tombar mais sobre mim. Sinto-me cair mais. Sinto a minha cabeça atingir o chão. Sinto a cabeça bater no chão. Ouço uma pancada seca. Mas não me dói. Sinto-me a perder os sentidos. Estou sozinho em casa. Estou sozinho. Estou sozinho e sinto-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/23]

A Namorada do Meu Irmão

Passei a manhã a olhar para ela. Era a primeira vez que via a namorada do meu irmão. Ele era muito cioso da sua vida e tentava manter-nos, a mim e à mãe, sempre afastados. Ela era bonita. Não deslumbrante. Não era daquelas belezas de ficar embasbacado. Mas era bonita. E tinha qualquer coisa que a transformava em algo bem mais interessante que a simples beleza. Talvez fosse carisma. Ou sedução. Ela falava com toda a gente. Era bastante solícita. Sempre de sorriso na cara. Um sorriso alegre e sincero. Mas o que me fascinava mais, era vê-la nas calças de ganga largas que usava, calças que lhe caíam pelo cu abaixo e com as perneiras a prenderem-se por baixo das All Star pretas, sujas e rotas, que calçava. Vestia uma blusa muito leve e quase transparente, preta com umas pequenas florezinhas brancas, de botões abertos até ao peito e caída por cima das calças, mas não era comprida. O cabelo, esse sim comprido, imaginava eu, estava apanhado, displicentemente, e preso com um lápis número 2 da Staedtler.
Eu ia bebendo umas cervejas enquanto o meu irmão assava as sardinhas. O meu irmão e dois amigos dele que vieram matar saudades. Ela, ela e as namoradas dos amigos do meu irmão, ajudavam a minha mãe, pondo a mesa no quintal, à sombra, e fazendo uma salada de pimentos. A ela via-a passar, dentro e fora, dentro e fora, sempre com qualquer coisa nas mãos que levava para a mesa. Ela passava por mim e sorria-me, cúmplice. Porquê, cúmplice? Não nos conhecíamos. Tínhamos acabado de nos conhecer. Há dois anos que ela e o meu irmão namoravam e só agora, só agora que falavam em casar, é que ele apresentou a namorada, futura esposa, a mim e à mãe. Mas ela sorria-me sempre que se cruzava comigo.
Eu fui-me mantendo sempre um pouco à margem. Sou um pouco bicho-do-mato. Eu estou sempre à margem. Sou tímido e afasto-me das pessoas. Enquanto toda a gente preparava o almoço, eu ia fumado cigarros, bebendo minis directamente das garrafas e a fingir que olhava o mar lá ao fundo, que ali do quintal conseguia ver-se o mar lá ao fundo, mas na verdade, estava a olhar para toda a gente, para a mãe, para o meu irmão, para os amigos dele e as namoradas deles mas, especialmente, para ela. Havia qualquer coisa de fascinante nela e eu não lhe conseguia fugir.
Ao almoço estive quase sempre calado. Fui observando os outros a comer. Fui ouvindo as conversas. Fui sorrindo. Acenava quando uma pergunta me era destinada e não requeria mais que um não ou um sim. E, de fugida, ia olhando para ela. Era bonita, ela. Não deslumbrante. Mas bonita.
Comi as minhas cinco sardinhas. Em cima de duas fatias de pão saloio. Repeti duas vezes a salada de pimentos. Bebi o vinho tinto com que me foram enchendo o copo. Ainda comi uns morangos e uma fatia, fininha, de uma tarte de lima.
O calor começou a apertar. A sonolência chegou. Demasiado cedo para ir para a praia. Demasiado tarde para ir para a praia. As conversas, que ainda se mantinham à mesa, começaram a afastar-se para longe, para bem longe de mim. Toda a gente começou a fumar. A beber aperitivos. Eu levantei-me e saí da mesa.
Fui até ao quarto. Deixei-me cair em cima da cama. Com as sapatilhas nos pés em cima da manta que cobria o lençol. A olhar para o candeeiro pendente do tecto e que eu nunca usava. Nunca uso as luzes gerais. Nunca uso os candeeiros que estão pendurados no tecto. Gosto de luzes indirectas. Gosto da luz de pequenos candeeiros cortadas pelos abajours. Agora, ali no quarto, as persianas meio fechadas quebravam um pouco a luz que vinha da rua e eu sentia-me levar pelo sono.
Virei-me de lado, na cama. Em cima da cama. Virei-me para a parede. E ouvi um barulho. Um pequeno e suave barulho de alguém a abrir a porta do quarto atrás de mim. E eu percebi. Sem ver, percebi. Era ela. E ela chegou silenciosa e deitou-se na cama, ao meu lado, por trás de mim. Senti a sua mão a percorrer-me o corpo e arrepiei-me. Senti o seu braço a envolver-me. Senti-a a chegar-se mais para mim. A colar-se a mim. E então, a mão dela desceu pelo meu corpo, abriu os botões da braguilha dos calções e agarrou-me no pénis. Puxou-o para fora. Masturbou-me. Eu vim-me. Vim-me em silêncio. Ela retirou a mão. Deu-me um beijo no pescoço e senti-a levantar-se da cama e sair do quarto. Eu deixei-me estar ali, exactamente da mesma maneira que ela me tinha deixado, com medo que se me levantasse descobrisse que tinha sido tudo mentira. O sonho de um idiota.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/22]

Ensopado de Borrego Temperado com Racumin Forte

Ela matou-o com Racumin Forte que misturou no ensopado de borrego que lhe deu de almoço num Sábado. Farta de ser saco de pancada do marido, que lhe batia porque sim e porque não, já lhe tinha começado a bater pouco depois de terem casado, que o namoro fora curto que ela tinha pressa em sair de casa para não aturar mais o pai bêbado que batia, todos os dias, nos filhos e na mulher, sentiu que tinha chegado a altura de pôr fim a uma situação que lhe podia pôr fim a ela, agora que ele já não tinha mais tanta força nas mãos e lhe começara a bater com a fivela do cinto. Da última vez abrira-lhe um lenho na cabeça. Já não fazia queixa na GNR. Já não fazia queixa desde há muitos anos. Desde que lá fora, quase no início, e a mandaram voltar para casa com paciência. Talvez ele mudasse com o tempo, com a idade. Talvez fosse ela a causadora das arrelias do marido. Talvez fosse o demónio. Talvez fosse bom falar com o padre. Nunca falou.
Depois habituara-se. Não se habituam todas? Havia o medo de ficar sozinha. Naquela idade o que é que iria fazer da vida? Sem dinheiro? Sem casa (a casa era dele, como tudo o que lá estava dentro, como ela, que ela também era dele, era tudo dele)? Sem filhos, que os filhos tinham-se posto a andar assim que puderam Desculpa lá, mãe! mas não podemos ir aí! Estamos a trabalhar! As viagens de regresso aí a casa são caras! Não temos condições para vires para cá!, o que é que lhe restava senão levar nos cornos e aguentar como as outras aguentavam? Sim, que ela não era a única. Às vezes punha-se a pensar se a culpa não seria dela. Talvez fizesse ou dissesse algumas coisas que não deveria fazer ou dizer. Talvez.
Eu via-a às vezes na aldeia. Cruzava-me com ela à entrada do minimercado. Às vezes ela tinha um olho roxo, um braço ao peito, um penso rápido à volta dos dedos. Toda a gente sabia. Eu também sabia. Mas o que é que havíamos de fazer?
Ela fez.
Comprou Racumin Forte e misturou-o no ensopado de borrego que ele até rapava o molho do prato com pedaços de pão. Depois foi para a fazenda cavar o que ele andava lá a cavar, coisas de pequeno agricultor com parcelas de terreno onde cultivava algumas coisas para consumo próprio e uns poucos excedentes que levava para vender no minimercado, mas à socapa que não passava recibo. Quem é que aqui dos velhos pode passar recibo de meia-dúzia de produtos que vendem e lhes rende não mais que meia-dúzia de tostões? E ainda querem receber impostos sobre estas misérias.
Então ele foi lá para o terreno e foi lá que o encontraram. Estava caído sobre o terreno cavado. Um terreno que tinha estado a cavar para semear alguma coisa. O que é que se semeava naquela altura? Ou será plantar? Ele estava caído, com a cara enfiada num vómito. Aliás, havia vários despejos de vomitado à volta, como se ele tivesse andado a tentar desfazer-se do veneno que lhe consumia o estômago. Um inferno que lhe ardia por dentro. A camisa rasgada. Os dedos rígidos. Cravados como os dentes de uma forquilha.
Depois de ser encontrado, a guarda foi logo a casa da mulher e levou-a sob custódia. O pretexto foi a segurança da própria mulher. Por causa da vizinhança. Por causa da família do marido. Por causa de qualquer outra coisa que não souberam bem explicar quando a foram buscar.
Mais tarde houve quem a ouvisse dizer que agora ela sentia-se mais calma. Muito mais calma que durante todos aqueles anos a viver ao lado do marido à espera de quando viria a próxima surra. Que já não tinha mais medo. Nem dele, nem de ficar sozinha. Que na cadeia haveria mais mulheres como ela. Mulheres partidas mas que já não seriam mais quebradas. Pelo menos, não mais do que eram, do que estavam.
Ela já não voltou mais a casa. A casa continua aí, vazia, triste, abandonada. Nem os filhos voltaram. Nem a casa nem à terra. Quem é que quer saber disto?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/21]

Aquele Mês de Agosto

Naquele mês de férias que passei em casa dela, à hora do almoço ela mandava-me sempre para trás da casa, para perto da garagem, onde tinha uma espécie de churrasqueira que o ex-marido tinha construído, com tijolo e cimento e uma chaminé que subia acima do telhado da garagem e levava o fumo para os quintais da vizinhança, numa zona ventosa, e eu ia para lá todos os dias assar sardinhas, pelo menos enquanto houvesse sardinhas, pensava eu, tendo-me esquecido que agora havia sempre sardinhas o ano inteiro porque o Pingo Doce as vendia congeladas e as sardinhas aguentavam assim todos os meses do ano e então, o mês de Agosto, não haveria de ser um problema e sofrer com falta delas.
Assava primeiro dois pimentos, um verde e outro vermelho, que metia, assados, dentro de um saco de plástico que fechava, com um nó, e deixava-os ficarem lá a cozer a pele até ela lá ir buscá-los e levá-los para dentro de casa, despelá-los e juntá-los à salada que estava a fazer e com o qual iríamos acompanhar as sardinhas. Eu também cortava uma fatia de broa de milho para cama da sardinha e que guardava até ao fim, depois de comer todas as sardinhas que me estavam destinadas, para que estivesse bem embebida em azeite e pedaços perdidos das sardinhas. Ela não comia a broa porque dizia que lhe provocava azia e flatulência.
As primeiras vezes, e dada a minha falta de cultura para fazer brasas e assar fosse lá o que fosse, eu, menino da cidade, armado de uma embalagem de gasolina Zippo despejava golfadas e deitava-lhes fogo e via os raminhos a começarem a arder, juntava-lhes o carvão e agitava as chamas com um abanador de palha que lembro de ver um parecido nas mãos da minha mãe quando ela também assava as sardinhas mas num minúsculo fogareiro na varanda do nosso apartamento na cidade. Aprendi depressa a desenrascar-me.
Passei todo o mês de Agosto a comer sardinhas assadas à hora do almoço. Depois dormíamos a sesta debaixo de uma árvore, deitados sobre uma mantinha que partilhávamos com as formigas, fazíamos amor quando acordávamos e dávamos um mergulho no tanque de água gelada que ela usava para regar as hortaliças que cultivava e que vendia para o Pingo Doce, e eu aproveitava para me lavar depois de andar a roçar-me nela e com ela.
Ao fim da tarde ela fazia uma sangria que despejávamos à velocidade da luz. Era refrescante e escorria pelo gargalo abaixo sem pedir autorização.
Ao jantar era ela que inventava sempre qualquer coisa, uma tosta, uma novidade criada assim em cima de uma fatia de pão que torrava e que eu comia com um prazer diabólico, ou uma salada, criada na hora com o que houvesse nas prateleiras do frigorífico ou esquecido na despensa. Às vezes misturava fruta nas saladas que fazia. E queijos.
No fim do mês de Agosto eu tinha engordado cerca de dez quilos.
Decidi que aquilo não era vida para mim. Quando tentei vestir umas calças de ganga, percebi que já não cabia dentro delas. Foi a gota de água. Fui-me embora.
Depois desse mês de Agosto de vacas bem gordas, acabei por cair de amores por uma rapariga escanzelada que a única coisa que cozinhava era um esparguete insípido, demasiado cozido, ao qual juntava uma lata de atum inteira e, às vezes, era ela que acabava por comer o atum todo porque nunca o misturava. Também não me demorei por aquela casa.
Hoje, quando como sardinhas assadas, lembro-me sempre daquele mês de Agosto. Eu nunca mais voltei a assar sardinhas. E tenho saudades daquelas tardes dormidas sobre a mantinha, debaixo da árvore, e do acordar com ela a enfiar-me traqueia abaixo e a dizer-me Cheiras a fumo.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/14]

Para Sul

Saí cedo de casa. Saí de carro e apanhei a EN1. Fui pela EN1 até Aveiras.
Passei a noite em claro. Estava ansioso. Estou ansioso. Ainda estou ansioso. Não consegui pregar olho a noite inteira. Mas nem sei porquê. Levantei-me várias vezes para beber água. Fumei vários cigarros. Cheguei a beber um copo de vinho. Nada funcionou. Devia ter tomado um Zolpidem, mas já não tinha nenhum.
Sou como as crianças. Mal despertaram os primeiros raios de luz, levantei-me, tomei banho, vesti-me, entrei dentro do carro e saí sem destino. Fui andar de carro. Até sentir-me cansado. Até ter vontade de dormir.
Cheguei a Aveiras e perguntei-me como como é que consegui chegar até ali. Os responsáveis pelas estradas de Portugal (deve haver responsáveis, não?), não devem sair dos corredores acondicionados do poder. Esta EN1 está abandonada. Sem manutenção. Enormes quantidades de buracos. Autênticas crateras. Ausência de asfalto. Bermas sujas. Bermas cheias de mato. Restos de pneus de camião ao longo da estrada. As mesmas placas brancas por onde passava, nos anos 80, quando ia estudar para Lisboa e a auto-estrada começava precisamente ali, em Aveiras, depois de uma sandes de panado e uma média Sagres no Pôr do Sol 2. Se calhar é para obrigar os viajantes a utilizarem as auto-estradas exploradas por entidades privadas. Mas haviam de ver a quantidade de gente que se movimenta pela Nacional. Não há dinheiro para pagar todas aquelas portagens. Não com os salários que se praticam. E os cafés de merda, a preço gourmet, nas estações de serviço?
Entrei na auto-estrada e segui até Lisboa. Apanhei o eixo Norte-Sul e decidi continuar em frente. Para baixo. Para baixo todos os Santos ajudam, costumava dizer a minha mãe. E foi para baixo que decidi ir. Fiz o o eixo Norte-Sul, meti-me pela ponte 25 de Abril, cruzei o Tejo, não havia muito trânsito e continuei. Pensei Vou até ao Algarve.
Tinha acabado de passar a saída para Sesimbra e mudei de ideias. Vou até Setúbal. Comer choco frito.
Cheguei a Setúbal e estacionei na Luísa Todi. Havia bastantes lugares. O parquímetro só recebia até às treze. Depois era gratuito. Andei às voltas a fazer horas e depois fui até ao porto. Não reconhecia nada daquilo. Não reconhecia nenhum daqueles restaurantes. Era meio-dia e, um deles, estava já cheio de gente. Decidi que era ali, precisamente ali, que ia almoçar. E almocei. Choco frito. Duas imperiais. Paguei. Fumei um cigarro a olhar as traineiras. Mandei a beata ao mar, e voltei a arrancar de carro. Para sul. Sempre para sul. Ainda não tinha sono.
Fui dar a volta ao estuário do Sado. Depois voltei para trás, quase até à Comporta. Fui ultrapassado por inúmeros Mercedes, BMWs, dois Maseratis e dois Tesla. Antes de chegar à Comporta, virei para Melides. A Comporta não é para mim. Tem muitos mosquitos.
Passei por Melides, fiz Sines, ainda espreitei para São Torpes (à pinha) e continuei para Porto Covo. Nunca gostei de Rui Veloso nem nunca quis ir à ilha do Pessegueiro. Mas estava cheio de gente. Muita gente na praia (imagino), muita gente nas ruas. Assusto-me com muita gente. Continuei.
Em Vila Nova de Milfontes, uma praia da minha juventude, onde enterrei muitas lágrimas e amores na areia, estava igual. Muita gente. Assustador. E eu sem sono. Continuei.
Cheguei à Zambujeira do Mar. Estava nos antípodas. As ruas desertas. Com um ar triste e desolado. Quase ao abandono. O facto de não haver quase ninguém, era uma benção, um convite a sentar-me por ali e beber uma cerveja e fumar um cigarro. Esperar o sono. Mas não consegui. Tinha histórias bonitas vividas ali. Não conseguia estragar tudo com aquela desolação. Continuei.
Enquanto ia andando para sul, pus-me a pensar na últimas notícias. Toda a gente se queixava da falta de clientes, de turistas, de gente que pusesse a vida económica a funcionar depois destes meses de confinamento. Mas o que eu via ali, o que eu via ali com excepção da Zambujeira do Mar, era Portugal a fazer a economia mexer. Havia muita gente. Muita gente a consumir. Muita gente de férias. Muita gente a utilizar o trabalho dos outros, a pagar o trabalho dos outros. Alguns de máscara. Mas nem parecia estarmos a meio de uma pandemia sem vacina. Portugal parece ter saído todo para férias em Agosto.
Do que se queixa esta gente? Esta especificamente. Porque há gente, realmente a passar mal. Há gente que não tem mesmo dinheiro para comer. Mas esses não são estes. Esses já estão habituados à míngua e a nunca serem ouvidos.
Quando dei por mim, fui andando tanto para sul que descobri-me na ponta de Sagres.
Ainda não tinha sono nem estava cansado. Talvez com um pouco de sede. E uma vontade de fumar um cigarro.
E agora? pensei
Pus o pé no acelerador e acelerei.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/08]

Dias de Alma Vaga

Estou sentado à mesa da cozinha como se fosse o balcão do bar onde já não vou há quatro meses. Deixei de lado a torneira de cerveja e troquei a imperial pela garrafa média da Sagres. Por vezes vou ao pacote de cartão buscar vinho tinto e faço um Tinto de Verão. À espanhola. Encho o copo com gelo. Espremo meio limão. Dois terços de vinho. Um terço de Seven Up. Uma gasosa também serve. Mas isto é no início. Quando ainda estou em condições de fazer alguma coisa. E ainda tenho vontade. Rapidamente chego ao momento em que só de abrir a garrafa, tirar a carica fora sem deixar cair cerveja no chão, é uma aventura.
À minha frente o televisor a preto e branco que o meu pai comprou há muitos anos para levar para o campismo. Passou de televisão do campismo para a televisão da cozinha e, desde então, tem sido a televisão da cozinha. Primeiro em casa dos meus pais. Depois quando fui estudar para Lisboa. Era a televisão da cozinha porque a cozinha também era a sala. Não havia sala naquela casa. Todas as divisões eram quartos. A cozinha era cozinha e sala. A televisão estava lá e cumpria as suas duas funções, era a televisão da cozinha e também era a televisão da sala.
Quando tive a minha primeira casa e comprei a minha primeira televisão, ainda com cinescópio mas já em 16-9, a pequenina televisão a preto e branco, de caixa de baquelite branca, voltou para casa dos meus pais e à cozinha deles. Mais tarde consegui recuperar a televisão que já ninguém queria. Era pequena. Quadrada. Branca, que horror. De baquelite. E não tinha comando. Era preciso levantar o rabo de onde estava sentado para mudar os canais. E, às vezes, era preciso andar com a antena, uma antena que era parte da televisão e que fazia lembrar as antigas antenas dos carros com rádio OM, ou os walkie-talkies que alguém trouxe uma vez de Andorra, para apanhar a emissão mais-ou-menos em condições de visibilidade e que não nos fizesse dar um pontapé numa cadeira e mandá-la contra a porta do frigorífico.
Estou sentado à mesa da cozinha e já estou na cerveja há muito tempo. Já não consigo fazer um Tinto de Verão. O máximo a que me aventuro, para além de retirar a carica da garrafa, é ir bebendo, de vez em quando, um copo de bagaço que um amigo me ofereceu. Bagaço caseiro. Daquele que cega. Bebo-o como se fosse um submarino. Imagino que largo o pequeno copo de vidro com o bagaço dentro do copo de cerveja e bebo tudo junto, mas na verdade, bebo um golaço de bagaço pelo gargalo da garrafa incolor que o meu amigo me ofereceu e depois despejo-lhe logo como cerveja em cima.
À minha frente, pousada na bancada à minha frente, a televisão pequena a preto e branco, de baquelite branco, passa uma emissão qualquer que não percebo porque não está bem sintonizada, mas não consigo levantar-me para procurar melhor sintonia.
Nesta altura sinto que já estou bêbado. Já não consigo fazer melhor que esticar o braço, abrir a porta do frigorífico e agarrar uma garrafa média de Sagres. Enquanto houver.
Descubro que tenho um cigarro entre os dedos mas não me lembro de estar a fumar. Não me lembro se ainda fumo ou não. Mas tenho um cigarro aceso preso entre os dedos da mão, a mesma mão que levanta o copo com cerveja. E percebo que, afinal, ainda não estou muito bêbado. Ainda bebo a cerveja pelo copo. Ainda não a bebo directamente da garrafa. Ainda tenho mais algumas pela frente, antes que fique realmente muito bêbado, enjoado, com vontade de vomitar e vomitar. Depois é arrastar-me até à cama, que fica ali ao fundo do corredor que sai da porta da cozinha até à última porta, onde fica o meu quarto e a cama onde me irei deitar se me conseguir arrastar até lá. Há noites em que não chego lá. Há noites em que me fico pelo corredor. Há noites em que consigo chegar até às bordas da cama, mas erro a queda.
Penso sempre, como estou agora a pensar, aliás, que amanhã é outro dia e posso sempre repetir tudo outra vez e de novo. E tentar acertar na cama.
Que mais há para um tipo fazer em dias assim? ou como diziam os Rádio Macau, dias d’alma vaga / tão perto de Deus / tão longe de mim / sem horas boas nem más / sem horas sequer / apenas vazio na alma / apenas dias assim // há dias assim / feitos de silêncio / com a voz de Deus / a soar em mim / dias sem riso nem choro / sem horas sequer / apenas silêncio d’ouro / apenas dias assim…
Afinal nem devo estar assim tão bêbado. Ainda me lembro da letra de uma música dos Rádio Macau. Deixa cá ver mais outra Sagres.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/07]

Uma Cama Quente e Confortável

Naqueles dias eu esperava acordado até ouvir o meu pai sair de casa e depois levantava-me da minha cama e ia para a cama dos meus pais, deitar-me ao lado da minha mãe, na metade que era do meu pai, e cobria-me com o lençol e os cobertores e esperava que a minha mãe não desse por mim e não me mandasse embora de regresso à minha cama fria, e eu pudesse ficar ali, naquela metade quente e confortável, com a cabeça enterrada na almofada embrenhada no cheiro do meu pai, e nem o facto dos lençóis e cobertores estarem desalinhados me fazia qualquer problema, como me fariam hoje, e eu mal me deitava naquele bocado de cama que não era a minha e me tapava todo, a cabeça e tudo, e descansava a cabeça na almofada fofa e quente, adormecia, mas adormecia descansado como se o futuro não trouxesse problemas nem desgraças porque enquanto ali estivesse, ali naquela cama ao lado da minha mãe, estava a salvo de todas as desgraças do mundo.
Olho para a minha cama, a minha cama impecavelmente esticada, de lençóis brancos, engomados e sem um vinco e o edredão quente e farfalhudo e a almofada hipoalergénica e não consigo lá entrar, mantenho-me em pé a olhar para a minha vida tão asséptica e sem sabor, solitária e fria e sinto saudades de ficar noites inteiras em branco, no escuro, à escuta, à escuta que o meu pai saísse de casa mais cedo, bem mais cedo que o normal, e a minha mãe não desse pela minha entrada sorrateira na cama dela, mas eu sabia que ela sabia que eu lá estava, mas fingia que não sabia para não ser obrigada a mandar-me de volta para a minha cama, onde eu tinha estado a ler banda-desenhada a‪té de madrugada, e depois deixava-me estar o resto da noite atento à saída do meu pai de casa para aproveitar aquelas horas até ter de me levantar para ir para a escola e a minha mãe levantar-se e fazer-se surpresa por eu estar ali e eu ia vestir-me enquanto ela me preparava o pequeno-almoço e eu punha-me a contar os dias até que o meu pai tivesse de sair outra vez muito cedo de casa e eu pudesse, de novo, esgueirar-me até ao seu lugar da cama, onde ainda estava a forma do seu corpo gravado no colchão e o seu cheiro na almofada onde eu iria deitar a cabeça e adormecer descansado.
De pé sobre a minha cama vazia e fria, impecavelmente esticada e sem um vinco, pergunto-me porque continuo a preferir a cama desarrumada do meu pai ou se o que prefiro é a ideia de que a cama dele era mais acolhedora do que a minha? E percebo que o passado tem esta coisa fantástica em que tudo era bom, mesmo que não o fosse, e nada pode voltar a ser como era e o melhor é aceitar as coisas como elas são e pensar Tenho sempre o meu passado.
É então que me deito, dentro da cama impecavelmente esticada, sem um vinco, com uns lençóis brancos e frios, debaixo de um edredão fofo e quente, sozinho, e me deixo adormecer sabendo que vou sonhar um sonho que não me vou lembrar no dia seguinte, para que a minha vida não seja ainda mais triste ao saber que sonho com um passado que, provavelmente, nem existiu.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/30]