Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

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Estou Cansado e Não Sei se Consigo Chegar a Casa

Ainda é de noite quando saio da fábrica. É fim de turno. Início de outro. Cruzo-me com alguns conhecidos. Alguns já foram meus amigos. A amizade foi esbatida pelos turnos. Deixámos de nos encontrar. Agora cruzamo-nos aqui. Eu a sair. Eles a entrar. Já foi ao contrário. Há-de voltar a ser.
Já se percebe o céu mais claro lá do lado de onde vai nascer. Mas ainda é noite. Algumas pessoas já andam aí. A caminho do trabalho. Mas a maior parte deles ainda está a dormir.
Estou cansado.
Dormir de dia não me deixa descansar. Tudo em troca de mais uns parcos euros ao final do mês. Nem sei bem para quê. Vai-se todo da mesma forma. Mais euro, menos euro, ele esfuma-se.
Estou cansado.
Chego à estação de comboio. Sou o único que espera para ir em contra-ciclo. Aguardo sozinho no apeadeiro. Não me sento num destes bancos vazios. Se me sento adormeço e perco o comboio. Não posso adormecer. Não posso perder o comboio. Preciso de ir para casa. Preciso de chegar a casa antes dos meus filhos saírem para a escola. Preciso de vê-los. Quero vê-los. Dar-lhes um beijo. Dizer-lhes que os amo. Desejar-lhes um bom-dia de escola.
Acendo um cigarro. Mas não me apetece fumar. Estou cansado. Fumei muitos cigarros durante a noite, durante o meu turno. Mas esta espera, deixa-me ansioso. Preciso de um cigarro entre os dedos. Mais que o fumo nos pulmões, o cigarro nos dedos.
Já está mais claro. O céu. Ainda não é dia. Mas acelera.
Ouço o comboio a chegar. Tenho um arrepio de frio. Mas não está frio. Deve ser só o cansaço.
O comboio chega. Chega à hora. Mando fora o cigarro. As portas abrem-se. Há muita gente a sair. Já há muita gente a vir de casa para colocar a cidade a funcionar. É madrugada mas a cidade está a acordar.
Eu sou o único a regressar no comboio. A voltar para trás. A ir para casa.
Entro na carruagem. Olho em volta. Posso escolher o lugar que quiser. Estão todos vagos. Sou o único passageiro. Sento-me na direcção da viagem. Junto à janela. A ver o rio. Gosto de ver o rio. Gostava de lá estar. No rio. Num barco dentro do rio. Acima e abaixo na pequena ondulação do rio. À pesca. À pesca de… O que é que se pesca neste rio?
Estou cansado.
Encosto a cabeça no vidro da janela e sinto a trepidação do comboio que me faz vibrar como um telemóvel.
Penso no momento em que chegar a casa. No banho que vou tomar antes dos miúdos se levantarem. Do pão que irei pôr na torradeira. No leite que irei aquecer. Nunca irei perceber como é que gostam de leite quente. Eu detesto.
Estou a listar a minha futura manhã quando chega o fiscal. Pede-me o bilhete. Sou o único passageiro. Estou cansado. Levo a mão ao bolso das calças e mostro o passe. O fiscal segue em frente. Irá percorrer o resto do comboio vazio. Há-de voltar cheio outra vez, o comboio, na viagem de volta.
Estou cansado.
Pergunto-me se as coisas vão ser sempre assim.
Estou cansado e sinto-me farto. Não consigo perceber o sentido de tudo isto. Destes dias iguais que se repetem, sem sentido, uns a seguir aos outros. Iguais. Sempre iguais. Dia-após-dia. Sempre o mesmo rame-rame. Vale a pena?
Volto a encostar a cabeça ao vidro da janela. Pareço sair de mim. Pareço desfalecer. Como se fosse um sonho. Estou cansado. Não sei se consigo chegar a casa. Gostava de ver os meus filhos uma vez mais. Gostava de conseguir chegar a casa. Mas sinto-me cansado. Cansado da vida.
Acho que saio do comboio. Voo por cima dele, da linha, do rio, da cidade…

[escrito directamente no facebook em 2019/10/02]

Ninguém Sabe o Quê, mas Algo se Passa!

Ela entrava e saía de casa em silêncio. Se ainda tinha voz, usava-a fora de casa. Já não a ouvia dizer nada há mais de dois anos. Dois anos nisto. Dois estranhos a viver na mesma casa mas vidas diferentes em casas diferentes.
Cada um de nós tinha o seu quarto. Cada um de nós tinha a sua casa-de-banho. A minha era no quarto. Eu fiquei com a suite. Ela é que saiu do quarto. Da cama. Da nossas vidas. Mas quando estava em casa sozinho, ia à casa-de-banho dela mijar. Às vezes mijava para cima do papel higiénico.
Todas as outras partes da casa eram de quem já lá estivesse. Quem chegasse depois, enfiava-se no quarto.
Houve uma altura em que me esqueci do nome dela.
Ela saiu do quarto, mas não tinha para onde ir. Eu muito menos. Ficámos ambos em casa. Mas ela ignora-me. Eu ignoro-a. Nunca pensei sobreviver a isto. Mas, ao fim de algum tempo, habituei-me. Ela também.
Eu nunca trouxe ninguém cá para casa. Também não tinha ninguém para trazer. Não sou muito dado às pessoas. Fujo. E acho que ainda gosto dela. Mas não tenho a certeza. Na verdade não sei muito bem. Ela também nunca trouxe ninguém cá para casa. Pelo menos que eu percebesse. E eu percebia. Passo a maior parte da minha vida aqui, em casa. Entre o quarto, a sala e a cozinha. Ela sai mais. Mas não muito mais. Lê mais que eu. Eu vejo mais televisão. Programas de merda. Gosto dos programas da tarde. Gosto daquelas conversas estúpidas sem sentido nem utilidade. Também gosto dos documentários que passam a altas horas da manhã. Sobre jornalistas infiltrados no KKK, na Máfia, na Aurora Dourada. Ela às vezes ouve música que eu ouço distante lá no quarto dela. Ela não conhece nada de música. Era eu quem lhe mostrava as coisas de que vinha a gostar. Quem é que lhe andará a mostrar músicas? É melhor nem pensar nisso! Fico com azia!
Com tanto silêncio a que já estava habituado em casa, assustei-me quando a ouvi perguntar O que é isto?
Ela estava ali. Debruçada sobre mim. Sussurrava qualquer coisa ao meu ouvido. Eu virei-me na cama. Ergui-me. O quê?, perguntei. E ela disse Não ouves? E eu insisti Não ouço o quê?. E era estranho ouvir a voz dela. Já não ligava aquela voz àquela cara, àquela boca, àqueles lábios. Ouve! dizia ela. Toma atenção! E eu tomei atenção. Mas não ouvia nada. Fiquei assim um momento. Um momento que me pareceu enorme e, quando já estava a desistir de tomar atenção, ouvi. Não sei bem o que ouvi, mas ouvi. Ela tinha razão. O que era aquilo?
Levantei-me de um salto. Fui até à janela. Ela veio atrás de mim. Abri os estores. Havia bolsas de luz no céu. Como se fosse fogo-de-artifício, mas que durava muito mais. E não fazia barulho. O barulho que se ouvia era outra coisa, mas não conseguia perceber o quê. Havia mais gente como eu na janelas e varandas a tentar perceber o que se estava a passar. Havia gente na rua. Era de madrugada, mas havia muita gente na rua. Gente a tentar sair da cidade. Começavam a arrancar carros. Motas. Camiões. Trotinetas. Havia muita gente a ir embora. Havia muita gente a pé. Não sei para onde iam. Só sei que iam embora dali. Olhei para o lado e vi o meu vizinho. Não sabia que tinha um vizinho. Estava tão aparvalhado quanto eu. O que é que se passa?, perguntou! Eu encolhi os ombros. Voltei para dentro de casa. Ela estava parada no meio da sala às escuras. Olhava para mim. Estava assustada. Eu assustei-me com ela. Por a ver ali. Já não estava habituado a vê-la por ali. Está toda a gente a sair da cidade, disse. E ela perguntou E nós? Também vamos? Eu não sabia o que responder mas disse Acho que sim! E como?, voltou a perguntar. Nós não tínhamos carro. Vivíamos na cidade. Andávamos de transportes públicos, de táxi, de uber. Quando saíamos íamos de autocarro, de comboio, de avião. Nunca precisámos de um carro. Vamos de bicicleta! disparei logo. Tínhamos duas bicicletas de quando achávamos que éramos ecologistas e jovens e desportistas. Ainda deviam estar em condições. Arranja uma mochila que consigas transportar às costas. Coisas de primeira necessidade. Alguma comida. Vou fazer o mesmo. E fomos. E quando estávamos prontos saímos de casa. Fechámos tudo. Descemos à garagem. Fomos pelas escadas. Evitámos o elevador. Encontrei logo as bicicletas a um canto. Tirei-lhes as teias-de-aranha. Soprei o pó. Dei umas bombadas nos pneus que estavam vazios, mas não estavam furados. E perguntei-lhe Consegues? E ela disse Sim.
Saímos da garagem. Do prédio. Fizemos a rua. As ruas. Saímos da cidade. Nós e outros como nós. Íamos atrás uns-dos-outros. Ninguém sabia muito bem para onde. Para fora da cidade era uma certeza. As grande bolsas de luz pareciam concentrar-se sobre a cidade. Os sons que não conseguia identificar também estavam sobre a cidade. Notámos isso à medida que nos íamos afastando.
Eu ia sempre de olho nela. A ver se estava tudo bem. Desmontámos algumas vezes nas subidas. Levámos as bicicletas à mão. E fomos.
Ainda estamos a ir. Encontramos pessoas a quem perguntamos O que se passa? Não sei! é a resposta. Ninguém sabe. Mas vamos indo.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/07]

A Minha Vizinha da Rua

Conhecia-a desde miúdo. Éramos vizinhos de rua. Quando comecei a sair de casa sozinho para ir à escola, já ela por lá andava. Era mais velha que eu. Bem mais velha. Cruzava-me muitas vezes com ela na rua. Para cima e para baixo. Quando um ia para cima, o outro ia para baixo. Eu a fazer entregas para o meu pai. A fazer recados à minha mãe. Ela a passear, sapatinho de salto alto, saia travada, uma blusa com os botões estrategicamente abertos à frente a chamar a atenção para os peitos altivos, e uma malinha de mão a dar-a-dar. Eu corria aos apartamentos das velhas a levar as mercearias que o meu pai me mandava entregar. Mas não deixava de olhar para ela. Dava nas vistas. Nas minhas. E eu parava na rua para olhar. Chamava-me a atenção. Mesmo quando não a via. Sabia-a escondida. Escondida em vãos-de-escada, esquinas esconsas e estaleiros a aliviar o nervosismo dos serventes que andavam a prolongar a rua. Todos os meses nasciam casas novas na rua. Todos os meses a rua crescia. Todos os meses vinha mais gente viver para a rua. Todos os meses crescia o meu número de amigos. Todos os meses tínhamos de refazer as equipas para jogar à bola. E via-a sempre. A ela. A ela via-a todos os dias. A andar para cima e para baixo na rua. E quando não a via, sabia onde estava. A ajudar ao crescimento da rua. Todos temos o nosso papel.
Nunca falámos um com o outro. Ela chegou a meter-se comigo quando eu já era mais crescido. Mas foi um fogacho. Fogo-fátuo. Uma espécie de beijo lançado, provocador, à distância. Um olhar convidativo. Uma língua a surgir, malandra, entre os lábios red velvet. Um rodopio ao cruzar-se comigo para me apreciar, para se mostrar. Mas não passou disso. Nunca falámos. Nunca lhe disse Olá! Bom-dia! És bonita! E era. Era bonita. Era bem bonita.
Quando saí da rua deixei de a ver. Mesmo quando regressava, de passagem, a casa dos meus pais, procurava-a com o olhar. Ia até ao fim da rua, que já tinha marcado os seus limites, já não crescia mais do que aquilo, já não havia estaleiros nem serventes, embora continuassem a abundar as esquinas esconsas e os vãos-de-escada de uma arquitectura urbana que não tem em conta a vivência das pessoas que habitam aquelas casas, aqueles bairros, aquelas esquinas, mas não a via.
Ia até ao fundo da rua e voltava. Procurava-a. Não a via. Nunca mais a vi. Cheguei a pensar que tivesse ido embora para outro lado. Para outra cidade. Que tivesse largado aquela vida. Que tivesse arranjado marido e saído dali. Imaginei-a rodeada de filhos, numa vivenda com cerca branca e um labrador. Também cheguei a pensar que tivesse morrido.
Foi assim, grande, a minha surpresa, quando a vi no Correio da Manhã. Era a fotografia de uma mulher muito velha, disforme, com uma cara escavada pela vida. Mas reconheci-a logo. Era ela. A minha vizinha da rua. A notícia falava da sua morte, à paulada, para lhe roubarem uns poucos euros. Era de madrugada e ela andava para cima e para baixo numa outra rua, num bairro não muito longe do nosso, com a malinha a dar-a-dar, até que foi abordada por um miúdo. Um miúdo que a assaltou. Um miúdo que a matou. Um miúdo que está, agora, a ser procurado pela polícia.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/14]

Tenho Saudades da Feijoada à Transmontana da Minha Mãe

Apetecia-me comer uma feijoada à transmontana.
Não tenho os ingredientes aqui em casa. Nem há sítios, agora, a estas horas da noite, onde ir comer uma feijoada como deve ser. A feijoada, tal como o cozido à portuguesa e a dobrada, tem dias específicos para ser confeccionado nos restaurantes da cidade. Não se come feijoada quando se quer. Só quando há. Claro que se pode fazer em casa. Mas se tivessem provado a feijoada à transmontana da minha mãe, dificilmente comeriam outra feijoada qualquer feita por quem quer que fosse.
A feijoada à transmontana da minha mãe era a feijoada. Divina. E serve, servirá, de baliza para todas as outras feijoadas da minha vida.
Há alturas, contudo, em que comeria uma feijoada qualquer. À transmontana, à brasileira, de lata ou de pacote.
Nunca será a mesma coisa. Mas às vezes não importa. Às vezes não importa mesmo nada. Bastava eu ter uma lata de feijão cá por casa que a devorava. Devorava como se fosse uma feijoada. Não da minha mãe, claro.
Às vezes sabemos que as coisas não são o que queremos. E, no entanto, abrimos-nos a elas. É como mijar contra o vento. Sabemos ao que vamos. E, no entanto, lá vamos nós. Dar o peito às balas. Arriscar o couro e o cabelo. Esquecer e mergulhar.
Já fiz várias feijoadas. E não são más, as feijoadas que eu faço. Na verdade até são muito boas. Mas não são como a da minha mãe. E há muito que ela deixou de a fazer. Por isso nunca se degradou. A minha mãe deixou de a fazer, como deixou de fazer outras coisas boas que fazia, antes de conseguir deixar de fazer. Assim retenho tudo em bom na memória. Intacto. Como era. Como era quando ela fazia. E fazia sempre bem.
Lembro-me dos Domingos. Dos Domingos de ressaca. Dos Domingos em que entrava na cama de madrugada, já o galo tinha sido morto para a cabidela e o sol ia alto, na companhia de uma valente cabra, e era acordado poucas horas depois pela minha mãe a avisar que a feijoada estava na mesa. Não que o Domingo fosse o dia da feijoada. Não. A feijoada, como todas as comidas que a minha mãe fazia, era quando lhe apetecesse fazer. E aos Domingos apetecia-lhe muito fazer feijoada. Ou cozido à portuguesa. E então lá ia eu, em cuecas, sem ter tomado banho, cheio de ramelas, o cabelo desgrenhado, a boca empastelada, a cheirar a álcool, cigarros e transpiração, sentar-me à mesa, deixar-me inebriar pelo cheiro das carnes estufadas, as couves, o arroz branco que polvilhava sobre tudo aquilo e ouvir a minha mãe refilar comigo por ir para a mesa naqueles preparos. E eu dizia-lhe Oh, mãe! Mas somos só nós! e ela respondia-me Nem que fosses só tu! Isso não são maneiras! e eu pensava que mal ela sabia como era a minha vida quando ela não estava presente. A javardice que me guiava. Mas eu também não lhe dizia mais nada. A conversa sobre o estado em que ia para a mesa de Domingo comer a feijoada morria ali, porque tudo era vencido pelo prazer de estar a almoçar com o filho.
Depois que ela deixou de cozinhar estas coisas, eu tentei recuperar a sua mão. Mas nunca consegui. Uma vez até a convidei para uma feijoada feita por mim. Disse que tinha gostado muito. Mas acho que foi só por simpatia.
Mas aos Domingos, e quando durmo em casa dela, continuo a ir para a mesa saído directamente da cama. No Verão, até vou sem camisola. E ela continua a refilar comigo. Agora ainda diz Julgas que tens dezoito anos, não é? Mas não tens! Olha-me essa barriga!

[escrito directamente no facebook em 2019/04/12]

O Regresso à Cidade

Era hoje. Era hoje o dia. Estava nervoso. Já vinha nervoso desde ontem à noite. Fui várias vezes à casa-de-banho. À noite. Durante a madrugada. Mal dormi. Passei metade do tempo a levantar-me. A ir à casa-de-banho. Passava pela cozinha. Bebia um copo de água. Regressava à cama. Virava. Revirava. Completamente desperto. Acendia a luz do candeeiro. Ligava o iPad. Lia as gordas dos jornais online, mas era tudo igual. Não havia notícias novas. Ou os jornalistas estavam a dormir.
De manhã levantei-me. Não despertei porque não cheguei a adormecer. Levantei-me e arrastei-me para debaixo do duche onde fiquei a vegetar por longos minutos. A absorver a água quente que me caía em cima e deslizava por mim abaixo. Acabei por acordar em sobressalto com a água fria. Acabou o gás. A botija tinha ficado sem gás. Eu tinha adormecido. Finalmente. Tinha adormecido debaixo do duche quente. Despertei com a água fria. Saí do duche. Sequei-me. Olhei-me ao espelho. Vi as enormes olheiras. Pesei-me. Pensei Tenho de emagrecer. Olhei para a rua através da janela da casa-de-banho e disse Estou nervoso.
Vesti-me no quarto. Uma roupa sóbria. Menos eu. Mais outro eu. Pedi uma certa elegância. Tentei-a. Talvez a tenha conseguido. Olhei-me ao espelho. Não desgostei do que vi. Não sei se é bom sinal. Mas enfim. Não me sentia mal. Estava nervoso. Mas ao mesmo tempo, decidido. E até, de certo modo, confortável.
Vestido e calçado fui sentar-me no sofá. Sentei-me direito, para não engelhar a roupa. Para não fazer dobras.
Fumei um cigarro.
Abri a janela para arejar a sala. Para o fumo sair. Para eu não ficar impregnado naquele cheiro enjoativo do tabaco frio.
Não almocei. Estava demasiado nervoso para almoçar.
Também não lanchei. Não conseguia ingerir nada. Tinha o estômago às voltas. Nervos.
Continuei a fumar. O fumo do tabaco a invadir-me os pulmões, acalmava-me.
Foi ao final da tarde que me levantei do sofá. Já me doía o rabo. Tinha as pernas presas. Saí de casa e dei umas voltas a pé pela estrada. Fui até ao largo da igreja e regressei a casa. Em passo rápido. Para desentorpecer as pernas. Depois entrei no carro. E arranquei.
Finalmente estou na Praça. Na Praça da minha cidade. Na cidade onde não ia há muito tempo. Tanto tempo que já nem sei há quanto.
Vejo gente conhecida. Vejo que, alguns, falam de mim. Falam baixo. Mas eu ouço. Percebo. Eles cochicham. Eu apanho.
Estou nervoso. Olho para mim. Fecho os olhos e olho para mim. E digo-me Estás bem. Estás muito bem, assim. E na verdade estou. Estou nervoso, mas sinto-me bem.
Estou na esplanada da Praça. Bebo uma imperial. Trinco uns tremoços. Está tudo igual. Está tudo na mesma. Reconheço as pessoas. E elas reconhecem-me. Algumas fazem-me um gesto de reconhecimento. De cumprimento. Retribuo. Com um ligeiro aceno de cabeça. Com um movimento insonoro dos lábios.
Aguardo por quem me convocou. Aguardo na esplanada da Praça. Estou nervoso pelo regresso a uma cidade que já foi a minha cidade. Estou nervoso, mas estou tranquilo.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/20]

Um Pau à Cabeceira da Cama

Acordo a meio da noite com o vento a fazer bater as portadas das janelas. Acordo assustado com todo este barulho. São quatro da manhã. O silêncio da casa e a hora tardia da madrugada tornam tudo muito mais assustador.
Abro os olhos e aguardo que se habituem à pouca luz. Tenho o quarto na penumbra, iluminado apenas com a pouca luz que chega da rua pelas janelas abertas. Não tenho persianas. Não tenho cortinados. Tenho portadas de madeira que esqueço sempre de prender. E o vento fá-las bater na parede da casa e nas janelas. Um som seco. Pam-Pam. Pam-Pam.
Os olhos habituam-se àquela penumbra que me chega da rua. Vejo as sombras que se deslocam pelas paredes e pelo tecto do quarto. Talvez uma deslocação de luzes no exterior. Talvez um movimento de alguém lá fora. Talvez o cão. Os gatos. Talvez lá ande mesmo alguém. Ou talvez esteja só a sonhar.
Levanto-me da cama. Esfrego os olhos. Estou nu. Descalço. Pego no pau que tenho à cabeceira da cama e vou até à janela do quarto. Olho lá para fora.
O vento está forte. As árvores parecem dobrar. As árvores parecem quase partir. As árvores parecem querer levantar voo.
As portadas continuam a bater.
Não me atrevo a abrir a janela.
Agarro com mais força no pau. Acho que vejo alguém a mover-se lá fora. Com o vento. Furtivamente. Tento focar os olhos no exterior. Mas é difícil.
Saio do quarto. Em silêncio. Nu. Descalço. Percorro toda a casa. Levo o pau na mão. À cautela.
As portadas de todas as janelas continuam a bater furiosamente. Pam-Pam. Pam-Pam. O barulho amedronta-me. Mas não o suficiente para me fazer abrir as janelas e prender as portadas.
Passo na casa-de-banho. Aproveito para urinar. O som da urina a cair no fundo da retrete é abafado pelo vento lá fora, na rua.
Regresso ao quarto. Sinto uns pingos de urina a caírem-me na perna enquanto caminho. Não me sacudi o suficiente. Estou sonolento. Quero dormir.
Enfio-me na cama. Tapo-me até ao pescoço com o edredão. Olho para o tecto. Vejo as sombras a passear por lá. Tento fechar os olhos mas não consigo. Estou cansado mas não consigo fechar os olhos. Acho que estou com medo. Estou sozinho em casa. No quarto. Na cama. E estou com medo. Sei que é estúpido, este medo. Sei que não há razão para estar com medo. Sei que não há ninguém lá fora. Só o vento. Só o vento e o barulho que o vento provoca. Mas estou deitado na cama com o pau na mão.
Sinto uma presença num canto do quarto. Tento espreitar. Reviro os olhos. Acho que vi um movimento. Talvez uma barata? Um rato?
O medo veio da rua para dentro do quarto. Agarro o pau com mais força.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/14]